Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.

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Divulgação literária e outros babados fortes

Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

As setes vidas do Dr. Lao


 As sete vidas do Dr. Lao

Ele vivia com mais vinte camaradas em uma grande casa, na Cidade Proibida, em Pequim. O seu grande sonho era ser um gato, o ser mais perfeito que a natureza já criou.
Como ele era um lindo gato persa branco, não lhe faltava nada para ser feliz.
Havia um baixinho que era responsável pela comida, sua e a dos outros. Ele se chamava Deng. Deng era um alto mandarim do novo império vermelho, mas não estava nas boas graças do imperador Mao.
            Ai, a aia que tomava conta da família há muito tempo, gostava muito do Dr Lao. Ela vivia tentando ensiná-lo a falar. Entretanto,  Lao não precisava de aprender aqueles chiados horrorosos para entender o que estava se passando a sua volta.
A cor vermelha estava em moda e o Imperador havia decretado que todo os gatos deveriam ser vermelhos. Deng gostava muito do seu, e ousou contradizer o Imperador:
- Não importa se o gato é vermelho ou branco, o importante é que ele saiba caçar ratos. Deng não era muito sábio, pois acreditava que os gatos deveriam ter alguma utilidade prática. Mas, realmente, o vermelho não é uma cor que fique bem para um gato.
Como todo gato, ele gostava de conhecer e de ampliar o seu território. Lao estava numa destas expedições, quando os bandos vermelhos entraram na Cidade Proibida para levar a família de Deng - mal teve tempo para avisar a aia Ai:
- Fuja, senão eles vão te prender. Ai ficou tão maravilhada, que foi correndo contar que o gatinho estava falando. A família foi presa toda junta.
- Que velha tonta - pensou Lao. - Passa um tempão querendo que eu fale e depois não escuta o que eu digo!
 Lao gostava muito do filho de Deng, que estava na Universidade e foi correndo avisá-lo do perigo. Não chegou a tempo. Os Guardas Vermelhos já haviam cercado o dormitório. Com o gato no colo, ele tentou escapar pelo telhado. Infelizmente, os humanos não possuem muita agilidade e os dois acabaram caindo no pátio. Lao não se machucou, mas o rapaz teve fratura exposta nas duas pernas.
- Peguem o revisionista e o seu gato inútil - berravam os guardas.
- Não importa se o gato sabe caçar ratos, o importante é que ele seja vermelho - disse o rapaz. De fato, Lao estava com o pelo todo manchado de sangue, o que acabou salvando a sua vida.
A partir deste dia, Lao teve que contar com as suas próprias forças. Foi obrigado a caçar ratos para sobreviver e, quando os gatos também começaram a ser caçados, teve que se refugiar no campo. Por ironia do destino, foi parar na mesma comuna onde Deng estava.
Ali ficou, bem alimentado e vivendo uma vida digna e ociosa, que é o que todo gato merece.
Muito tempo depois, Deng foi reabilitado, voltou para Pequim e até se tornou o novo Imperador. O resto da vida de Lao foi bem tranquila. Ele conversava muito com Deng, apesar do baixinho ser um cabeça dura. Nunca conseguiu entender, por exemplo, que um gato é apenas um gato e que isto já é muito mais do que um ser humano pode ser. 
O Império agora está prosperando, mas esta é outra história.
           


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