Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.

Consulte o dicionário do cinismo, no rodapé do blog.

Divulgação literária e outros babados fortes

Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O homem mais sexy do ano.



Kim Jong-un, o jovem ditador da Coreia do Norte, mira o horizonte montado a cavalo. Em outra imagem, como um superstar, é abraçado por mulheres, que choram.
As cenas são parte de uma galeria com 55 fotos dele feita pelo site do jornal oficial chinês "Diário do Povo".
O motivo? Ilustrar o texto que noticiava a escolha de Kim Jong-un, 29, como "o homem mais sexy do mundo" pelo jornal satírico americano on-line "The Onion".
Sem notar que se tratava de uma piada -ou pouco ligando para isso-, o site chinês cita as virtudes do ditador da Coreia do Norte, um aliado estratégico de Pequim, para vencer a contenda.
"Com seu rosto redondo devastadoramente bonito, seu charme pueril e seu físico forte e resistente, este galã de Pyongyang é o sonho de toda mulher feito realidade", diz o "The Onion", reproduzido no texto chinês.
O blog do "Wall Street Journal" lembrou que o site do "Diário do Povo" não tem poupado esforços para atrair audiência. Publicou neste mês, por exemplo, espécie de galeria de "gatas do Congresso do PC", com as mais bonitas mulheres na reunião do Partido Comunista.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Genoino


Trecho do meu livro sobre a guerrilha do Araguaia. Conheci Genoino em 1970, quando era o Camarada Geraldo, que estava deixando a diretoria da UNE, para a qual fui eleito, em 1971. Tivemos em comum, além disso, uma namorada e a militância no PC do B. Nos encontramos umas duas ou três vezes. Fazíamos brincadeira com a sua falta de jeito, sua dureza nos gestos, resquícios de uma infância no cabo de uma enxada. Fez supletivo com 16 anos, cursou uma faculdade, entrou para o movimento estudantil, foi uma liderança de peso em Fortaleza, ajudou a construir o PC do B, foi diretor da UNE e partiu para o Araguaia. Tudo isso é narrado, com maiores detalhes na autobiografia autorizada, Entre o poder e o sonho.
Hoje é figura pública, alvo de uma direita ressentida, o que não o absolve e nem justifica. Sou solidário ao seu drama pessoal. Gostaria de lembrá-lo nesse momento, em que chega ao Araguaia, encontra com Amazonas e começa a lutar pelo sonho. Infelizmente, depois, veio a luta pelo poder. Deixo com vocês um vislumbre do Genoino que conheci.

 José Genoino Neto, o ex-presidente do PT, conta que deixou São Paulo em 1970, no dia em que a Seleção Brasileira, tri-campeã do mundo no México, chegou à cidade para desfilar no Anhangabaú. Ele aproveitou o momento para pegar um ônibus na Rodoviária de São Paulo com destino a Campinas. Genoino sabia que o PC do B preparava a luta armada no campo, apresentou-se como voluntário e foi enviado para essa missão. Quando entrou no ônibus, ele não conhecia o seu destino final, só a sua primeira escala. Lá teria que cobrir um ponto[1] e receber mais instruções. Em Campinas, soube que ia para Anápolis.
Em Anápolis, Genoino encontrou com um velho conhecido do movimento estudantil cearense, Glênio, que ia para a mesma missão. Os dois foram contatados por José Humberto Bronca, um ex-metalúrgico gaúcho, que os iria conduzir, daí em diante. Passaram um dia fazendo pequenas compras: remédios, facão, machado, panelas e mantimentos. Depois, seguiram de ônibus até Imperatriz, no Maranhão, fazendo de conta que não se conheciam.
Em Imperatriz, se hospedaram em hotéis diferentes. Gastaram mais três dias fazendo compras, separados. Só então, Genoino soube que entraria na mata pelo rio, num barco. A viagem de Imperatriz para Porto Isabel durou cinco dias; primeiro descendo o Rio Tocantins, até São João do Araguaia, depois subindo o Rio Araguaia. No barco, os três já se apresentavam como conhecidos. Glênio e Genoino contavam aos camponeses que ia morar com um tio, no sul do Pará.
De Imperatriz em diante, não havia mais pontos de referência: só a mata e o rio. A selva ia engrossando, à medida que o destino final se aproximava. Os últimos 14 quilômetros foram feitos a pé, porque o Araguaia havia baixado e a cachoeira de Santa Isabel não estava transponível.
Bronca já estava na região desde 69 e era muito bem relacionado com os moradores. De cada um que encontrava, recebia a mesma pergunta: - o Osvaldão, como vai? - O Negão está bem? - E o Mineirão? Glênio e Genoino se perguntavam quem seria este personagem tão popular.
Finalmente chegaram a um pequeno rancho, numa região de capoeira, onde um negão fritava um bife de veado, em companhia de um velhinho de 60 anos. A recepção foi calorosa. Genoino recebeu arma, facão e botina, foi colocado a par das características da região e ganhou de lembrança do seu tio uma folhinha do calendário. A data era auspiciosa, 26 de julho[2].  O tio, ele soube mais tarde, era Amazonas.


[1]              Cobrir um ponto era comparecer na hora marcada a um local previamente combinado. Às vezes, as pessoas se identificavam através de senhas. Em caso de desencontro, poderia haver uma alternativa, um ponto em outra data e/ou local.
[2]              26 de Julho é o nome do principal movimento rebelde cubano. Nessa data, houve o fracassado ataque ao quartel de Moncada, que terminou com a morte de vários rebelde e a prisão de Fidel Castro.

domingo, 5 de agosto de 2012

Sai daí, Zé!


Demissão



“Sai daí, Zé.” Roberto Jefferson


Oh! ave canora, de vistosa plumagem,
Vós que n’assembléia de pássaros reunida,
Abristes o bico, na frondosa ramagem.
Canta, a ira funesta do corrupião,
Oh deusa! Que derribou o tié-sangue,
Inda deixou exangue ao quero-quero
Trouxe a negra corrupção, de ágeis dedos,
Ávida boca, ontem era amor sincero,
De tantos picaretas, hoje atiça medos
Boquiabertos, boquirrotos, esfarrapados
Uns, outros rotos, se acusam, se escusam
Medrosos se entreolham, querem culpados
Querem o sangue do bode expiatório,
Às piranhas sedentas, untuosa novilha
Em troca da manada. Neste parlatório,
Nesta babel de vozes, um coaxar se ouve


O que é que é?
O que é que houve?
De nada sei
Pergunte ao Zé

E o corvo, ave de mau agouro
De negras penas ornamentado,
Responde ao molusco invertebrado
Nunca mais! Nunca mais!
Nem se de ouro fosses pintado.

O Partido do Tiê, esbaforido, tenta um solo
Sou ético, tenho um projeto, comigo a história
Nega o crime, acusa o golpe – Não houve dolo.

Tenho limpas as mãos, mágoas não trago,
Volto à planície, deixo o planalto
Eterno exilado, hoje soldado, ontem no areópago.

Canto triste, logo abafado,
Por uma araponga descontrolada
Você roubou, é safado!
Seu terrorista desalmado!

Num canto, o João-de-Barro
A tudo assiste, cabisbaixo.
Inda escuta, do tucano, o sarro
Lá vem a Esperança, sai de baixo!

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Quem sou eu?

Quem sou eu? De onde venho e onde, acaso, me leva
O destino fatal que os meus passos conduz?
Ora sigo, a tatear, mergulhado na treva,
Ou tateio, indeciso, ofuscado de luz.

Grão, no campo da vida onde a morte se ceva?
Semente que apodrece e não se reproduz?
De onde vim? Da monera? Ou vim do beijo de Eva?
E aonde vou, gemendo, a sangrar os pés nus?

Nessa esfinge da vida a verdade se esconde;
O espírito concentro e consulto a razão
E uma voz interior, sincera , me responde:

- Quem és tu? - Operário honesto da nação.
- De onde' é que vens? - De casa.
- Onde ' que estás? - No bonde.
- Para onde vais? - Não vês? -
Para a repartição.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

2012 - o início do fim IV


Onde se fala da força de coesão social fraca e de suas aplicações. O leitor aprenderá o que é um taiconauta e apreciará o processo decisório altamente elaborado de nosso presidente.

Rumo a Titã

Um mês depois de empossado no Ministério da Projeção Social, Oliveira pediu uma audiência com o Presidente Lua. O Bananal estava dando sinais preocupantes. Embora os países (o real e o fictício) estivessem respondendo bem a crise, sinais de fadiga já começavam a se mostrar.
- O País agora está mobilizado, todos estão empenhados na reconstrução, em 10 ou 20 anos poderemos atingir o nível que tínhamos antes. Mas ...
- Se nunca na história desse país conseguimos essa disposição, o que há de errado, - perguntou Lua.
- Esse é o problema, senhor Presidente. Nós somos um povo imediatista, acostumado a levar tudo na gozação, que gosta de improvisar. Nada disso está acontecendo. A nossa capacidade de esculhambação está se embotando. Todo mundo está levando a crise muito a sério. Pega mal fazer piadas pesadas sobre ela.
- E isso é ruim?
- Por incrível que pareça, é. Nós precisamos aumentar o atrito. Vou dar um exemplo: nós só conseguimos andar porque a sola do sapato agarra no solo.  Se tentarmos andar num chão muito liso, o resultado vai ser uma queda. Nas nossas simulações eu chamei esse parâmetro de força de coesão social fraca. Eu identifiquei esse fator, quando estava no Banco Central (Oliveira evitava a todo custo o verto trabalhar). Se não houvesse um sacana como eu, a repartição não funcionava. Todo mundo sabia que o trabalho que eles faziam era idiota, sem sentido. Como eu passava parte do meu tempo a gozar a incompetência dos chefes, a política do banco, a política econômica e o país em geral, acabei me tornando uma vacina, um antídoto. Quando alguém criticava algum normativo absolutamente sem sentido, outro contrapunha: - cara, você está igual ao Oliveira. Então eles resmungavam um pouco, mas seguiam as novas normas.
- Mas se a turma começar a pegar pesado, corremos o risco dessa merda se foder de vez.
- Nós testamos isso. Fizemos uma simulação num pequeno grupo, em que era apresentado um programa cômico descendo o cacete no Novo Brasil (nunca antes na história do Brasil, houve um Brasil como este). No início, pegou muito mal. Depois de alguns encontros o grupo se desagregou. Passou a ser cada um por si.
- E quais são as alternativas, - o Presidente não gostava de planejar, gostava de escolher.
- Por incrível que pareça, como a situação está totalmente alterada, termos que trazer uma variável externa para equilibrar o sistema a longo prazo.
- O que é que isso quer dizer?
- Se nos unirmos com um povo que preza a tradição, acostumado a obedecer sem questionar, que trabalhe duro, que não dê muito valor à vida, pouco individualista e sem senso de humor, nós seremos os sacanas e eles farão o trabalho pesado. Pode funcionar.
- E quem seriam esses babacas?
- Os chineses. A única coisa que sobrou na China foram os chineses. E suas instalações nucleares, sua tecnologia, essas coisinhas. Eles poderiam mandar uns 200 milhões para cá, que morreriam de fome, de qualquer maneira. Para eles vai ser um negócio da China.
- E 200 milhões de chineses resolveriam o problema?
- Durante certo tempo, sim. Logo eles vão aderir à nossa esculhambação e se tornarão cada vez mais brasileiros Acredito que isso pode funcionar por uma geração. Depois seria necessário trazer mais uns 200.
- Aí seriam 400 milhões de chineses para 200 milhões de brasileiros.
- Essa é a parte boa. Nós seremos a elite. Eles as classes trabalhadoras. Vão ser os nossos paraíbas - Oliveira nunca foi acusado de excesso de tato.
- O Presidente franziu as grossas sobrancelhas, que se uniram mais ainda, mas deixou passar. Na intimidade, ele detestava lembrar o tempo em que também era um paraíba e tinha que conjugar aquele verbo que Oliveira tanto evitava.
- Vou mandar o nosso embaixador fazer contato. O que é que esses chineses vão fazer? Como é que eles vão ser transportados? Onde é que eles vão ficar?
- Serviço é que não falta. Eles vêm de navio. A China está cheia de petroleiros parados, que foram abandonados nos portos, porque ninguém compra mais petróleo. O governo enfia os idiotas nos porões e manda para cá. Aqui a gente joga os chinas no Nordeste e na Amazônia.
- Resolvido.
- Só mais um detalhe. Nós somos um povo com um complexo de inferioridade crônico. Toda a vez que o Brasil entrou num ciclo, nos deixamos passar a oportunidade. Foi assim com o ouro, com a cana, com o café, etc. Precisamos de um símbolo, algo que nos coloque no primeiro mundo. Pensei numa missão espacial sino-brasileira. Nós entramos com a Barreira do Inferno e os astronautas, eles entram com os foguetinhos.
- Mas essa porra só vai ser notícia por um mês, depois o povo só vai querer ver novela e Big Bródi.
- Pois é. Eu penso que esta na hora desse país ter um objetivo a longo prazo. Vamos criar um reality show que acompanhará de dentro a missão, uma viagem de sete anos até Titã, um satélite de .....
- E qual vai ser a desculpa?
- A gente inventa que recebeu um sinal misterioso de lá, uma radiação que afetou a Vilma e causou toda a crise.
- E qual vai ser o idiota que vai acreditar nisso?
- O povo brasileiro.
- Resolvido. Vamos criar um Ministério da Ciência e formar um grupo de trabalho para cuidar disso. Nós até já temos um astronauta, não é?
- É. Ele pode ser o chefe da missão e treinar os outros taiconautas.
- Que merda é essa?
- Os astronautas chineses são taiconautas. Já que eles vão dar uma mãozinha, não custa chamar os astronautas assim. Vai ser uma missão espacial conjunta. A gente deixa alguns chinêses irem. Afinal eles ocupam pouco espaço.
- Resolvido. O Presidente não gostava de resolver um assunto complexo nesta rapidez. Também não gostava da presença de Oliveira e do espaço que ele estava ocupando. Infelizmente, sem o Ministério da Projeção social, o Grande Bananal não funcionava (Oliveira, em vez de chamar a sua matriz de mini-Brasil, resolvera chamar o país de Grande Bananal).

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A Moringa Oleífera




Fidel, em suas recentes reflexões,  recorda o conselho que Deng Xiao Ping deu aos americanos em 79: “porque vocês não castigam Cuba, como nós fizemos com os vietnamitas?”. Sua memória passada é melhor que a da maioria da esquerda, que não ouviu, ou não quer ouvir falar, da expedição punitiva que os chineses lançaram contra o Vietnã.
Recorda Honecker, outra lembrança traumática. O dirigente alemão, que caiu junto com o Muro e foi varrido da história, quando a população da antiga RDA votou pela unificação com a outra Alemanha. Refugiado na antiga União Soviética, foi entregue por Yeltsin, submetido a julgamento e, como medida de clemência, foi-lhe permitido passar seus últimos dias no Chile, onde morreu em 1994.
       A lamentar que, nos últimos dias, a mente do Comandante ande lhe pregando peças. Em reflexão sobre a Moringa Oleífera e a amoreira, ele recomenda a plantação destas duas espécies vegetais, fontes massivas de carne, leite e ovos (sic).
    Ao contrário de Fidel, o governo cubano trata de obliterar o passado distante, trocando memórias incômodas por ações pontuais no presente. Em seu périplo pelos Estados Unidos, Mariela Castro, filha de Raúl, além de manifestar seu apoio à candidatura Obama, reafirmou, em um encontro sobre o tema, os avanços de seu país no campo dos direitos dos homossexuais.
A exemplo de outros países, Cuba tem um passivo muito grande nesta questão. Logo após a Revolução triunfar, os três Pês - prostitutas, pederastas e proxenetas - foram presos em massa, enfiados em uniformes com um grande P nas costas e enviados para as UMAP (Unidades Militares de Apoio à Produção), semelhantes a campos de concentração.
“Em 1971, ocorre o Congreso Nacional de Educación y Cultura em Havana, onde se propõem medidas reeducativas para os que apresentam “síntomas aparentes” de desvio moral e contra-revolucionário. Sendo assim, o trabalho nas UMAP ... serviria como método terapêutico. A partir deste evento, toda a população é conclamada a se converter em vigilante da revolução. Havia três classificações para os subversivos: hippies, homossexuais e “conducta impropia” (classificação indefinida onde tudo cabia).”
“Heberto Padilla fala sobre a viagem à Bulgária de Raúl Castro, um dos que mais se incomodavam com a questão dos gays na ilha. Segundo ele, o irmão de Fidel retorna ao país com a idéia de criar campos de concentração para varrer os homossexuais das ruas. Além disso, um cientista tcheco trouxe para Cuba técnicas pavlovianas de “educación erótica” dos gays e lésbicas, entretanto o que acontecia era que “los pájaros” dissimulavam com facilidade o abandono do desejo homossexual e continuavam suas aventuras eróticas com os guardas. Padilla destaca, com isso, a capacidade dos homossexuais cubanos de “salir del dolor”. Guillermo Cabrera Infante diz ter se revoltado com a prisão de Virgilio Piñera na praia de Guanabo, pois “se lo detuvo simplemente por la manera como se manifestaba públicamente, es decir, por lucir o aparecer afeminado”. Piñera havia sido denunciado pelo chefe do  comité de defensa do seu bairro, pois este homem queria ficar com sua casa.”
            E aqui voltamos a 2012, ano do centenário de Piñera. Segundo o Cuba Debate de 19 de junho: “La figura del dramaturgo mayor de Cuba,Virgilio Piñera, será protagonista del Coloquio Internacional Piñera tal cual , inaugurado hoy en La Habana, a propósito del centenario del natalicio del literato y poeta.
A Ecured é a versão computadorizada da antiga Grande Enciclopédia Soviética, que trazia o quem é quem oficial. Nelas se lê: “A partir de 1971, como parte de errores en la política cultural de la Revolución que se apartaron de los principios definidos por Fidel en sus "Palabras a los intelectuales", Piñera dejó de ser publicado en Cuba, esta política fue gradualmente rectificada luego de creado el Ministerio de Cultura en 1976. Hoy es ampliamente reconocido y su obra difundida y estudiada.
“Cabrera Infante enfatiza o machismo espanhol arraigado em Fidel: “Fidel Castro no hace nada que no sea para mostrar cuán macho, cuán superhombre, supermacho es él”.  Armando Valladares conta a história de Robertico, um menino de apenas 12 anos que foi preso pelo governo. Depois de ser estuprado na cadeia, Robertico começa a ser barbaramente agredido por chorar e chamar constantemente por sua mãe. Para Cabrera Infante, os homossexuais cubanos eram dissidentes em relação à norma burguesa de vida em casal, dentro de um matrimônio heterossexual, adotada sem qualquer tipo de questionamento pelos líderes da Revolução Cubana. Fidel diz que chegou a ter mais de 15.000 presos “contrarrevolucionarios”, que para ele eram julgados “dignamente”. Ana María Simo diz que, mesmo presa, seguia sendo revolucionária, porque pensava que ela sim lutava, de fato, por uma revolução radical, ao contrário “de los ignorantes pequeños burgueses como Castro”. Simo, que chegou a ser internada em um hospital psiquiátrico por desvio moral, denuncia o modo como as mulheres eram tratadas na prisão: em uma cela estreita, sem vaso sanitário, eram colocadas 40 detentas. Ela conta ainda que ficou assustada ao perceber que um poeta do porte de Nicolás Guillén era considerado como “un delicuente cualquiera por los jefes de la cárcel”. René Ariza  – um artista de rua exilado nos EUA  – diz que ser “estranho” é motivo para ser cruelmente reprimido em Cuba: “no es una actitud sólo de Castro. Hay muchos Castros. Y hay que vigilar el Castro que tenemos adentro”.
É justamente para este Castro que temos dentro de nós que escrevo. Transformar toda uma política de estado de repressão aos homossexuais em “erros de uma política cultural que se afastaram das orientações de Fidel” é o mesmo que justificar novamente esse passado. Não se pode se pode reescrever a história de uma Revolução usando a memória seletiva, ou, pior ainda, plantando memórias.
As citações são do artigo “Piquetes e charutos: sobre críticas de Perlongher e Sarduy à repressão homossexual” de Antonio Andrade e podem ser encontradas em:
As reflexões de Fidel se acham no site Cuba Debate:











domingo, 10 de junho de 2012

2012 - O início do fim III


Onde se explica a singularidade brasileira, sob a ótica dos marqueteiros, nossos melhores cientistas sociais.
Estudos feitos pela marqueteiros, que estão entre os nossos cientistas sociais mais respeitados, estabeleceram que a escolha de nossos governantes oscila entre dois modelos: o pai autoritário, que impõe uma disciplina severa e regras rígidas e o paizão, que está sempre contemporizando e administrando os conflitos. O primeiro atende às nossas expectativas imediatistas, que querem sempre uma solução simples e rápida para um problema complexo; o outro satisfaz a nossa índole conciliadora.
Seja qual for o governante de plantão, estamos sempre otimistas. Deus é brasileiro. O Brasil é uma entidade mítica, muito maior do que a soma de todos os brasileiros. É comum, em época de crise, uma pesquisa apontar que, para a maioria da população, a sua situação individual vai piorar. Simultaneamente, a maioria acha que o “Brasil” vai melhorar. De certa maneira, essas qualidades, que, isoladamente, favorecem o equilíbrio do sistema: tendência conciliadora, facilidade de adaptação e de improvisação, confiança na autoridade, credulidade, quando misturadas e combinadas geram uma sinergia tal que maximizam a nossa estabilidade.
Tudo isso é temperado com contrapressões e desvios: somos cordiais em determinados ambientes sociais e extremamente agressivos em outros: estados de futebol e bailes funk, por exemplo. Possuímos uma tendência a aceitar a autoridade, ao lado de uma desconfiança crônica de qualquer instituição. A toda hora surge uma piada nova sobre o chefe, o técnico do time, o presidente. A capacidade de improvisar é contraposta a um horror ao estudo sério e aprofundado. Essa diversidade cria uma dinâmica muito interessante.
Os melhores estudos de nosso comportamento social vêm dos roteiristas de novela e dos marqueteiros. Que, aliás, são atividades muito próximas. Os últimos desenvolveram a técnica da analise dinâmica de pequenos grupos. Algumas pessoas, de várias faixas etárias e sociais, são colocadas juntas e um animador expõe o produto que se quer vender – um candidato ou um novo sabão em pó. As pessoas defendem os seus pontos de vista iniciais, discutem, evoluem de posição e relacionam os pontos fracos e fortes do produto.
Aí começa a semelhança com as novelas, outro grande laboratório social: os personagens mudam de acordo com as expectativas geradas. Não só no visual, mas na própria personalidade. Um pequeno índice de rejeição é suficiente para alavancar um candidato. Na verdade, é o principal indicador da viabilidade de sua candidatura. Marqueteiros mais experientes chegam a dizer que um político desconhecido é mais fácil de ser trabalhado do que aquele que já fixou uma imagem.
Marqueteiros e roteiristas trabalham com a percepção da realidade. Esta é tratada como um roteiro provisório. A campanha ou a novela são dinâmicas, envolvem um realimentação contínua. É feito um roteiro inicial, gravam-se alguns capítulos e, daí em diante, a interatividade é total.
Quando o país desmoronou e o caos tomou conta, as elites demoraram um dia para encontrar a saída: chamar de volta o ex-presidente. O resto da semana foi dedicado a planejar os primeiros capítulos de sua volta. Optou-se por um líder mais maduro e severo. O primeiro pronunciamento de Lua seria um puxão de orelhas coletivo. Pediria austeridade e sacrifício. Ao mesmo tempo, diria que confiava no nosso povo e que as dificuldades eram passageiras.
A solução achada para se preservar a estrutura social foi bastante complexa. O dinheiro não existia mais. Algumas partes do estado estavam intactas e não haviam deixado de funcionar, devido à sua grande inércia. O judiciário era uma delas, algumas repartições públicas também. Era necessário achar alguns pontos de apoio e definir alguns serviços essenciais. A televisão continuaria, jornais e revistas não. Lixeiros eram essenciais. A internet também. Ela abrigaria toda a mídia descartável: CD, DVD, jornais, livros, etc. A meta era preservar o máximo de informação possível. A estagnação da ciência e da pesquisa era prevista.
 Alimentação, vestuário, moradia, energia elétrica, água, seriam garantidos. Os empregados seriam pagos com um vale geral, os bancos reabriram para trabalhar com uma nova moeda, o Possível. Não é o Real nem o ideal, é o Possível! – dizia o slogan. A campanha foi um sucesso. 
As atividades típicas de estado agora eram: manter a ordem e administrar os programas de distribuição de vales. O Vale-Tudo, como ficou conhecido, era um cartão magnético. Com ele se compravam comida, roupa, ingresso para o futebol e se pagavam as conta de luz, de água, de telefone, etc. Impostos foram abolidos. As escolas foram fechadas temporariamente. Todos foram aprovados.
As fronteiras, na medida do possível, foram fechadas. As viagens canceladas. Não havia mais governos centrais em parte alguma do mundo. Apenas no Brasil, na China e numa meia dúzia de paises exóticos. A Suazilândia, por exemplo, manteve intacta sua monarquia.
O resto do mundo regrediu a um feudalismo com internet, com barões locais e bandos de saqueadores vagando pelas cidades. O dinheiro parou de ser aceito e o comércio voltou ao escambo, feito em algumas feiras. Quando um barão provava que era capaz de defender o seu território, começava a cunhar moeda. Sua proteção era paga com o trabalho no campo ou no exército. Algumas vezes, os empregados das hidroelétricas   continuavam a trabalhar, recebendo em gêneros alimentícios e outros. A internet não chegou a parar.
No Brasil, havia um governo central, apoiado pelo consenso, sem parlamento e com sátrapas locais nomeados.   Na China, a estrutura governamental ficou intacta. O país virou um campo de concentração, dirigido para a produção de produtos básicos. Chamaram de comunismo de guerra. O dinheiro foi abolido, só circulavam os cartões de racionamento.
Oliveira havia conseguido modelar um país virtual, o Bananal. Era uma matriz de 1000 células, cada uma delas um habitante fictício. A cada rodada mensal, as condições iniciais eram atualizadas. O modelo começou a ser testado antes da última onda. Era alimentado com os fatos econômicos, sociais, artísticos, esportivos, culturais mais importantes e a resposta comparada com a realidade. Lá pela décima versão, o algoritmo havia sido tão refinado que o Bananal se tornou um mini-Brasil.
A terceira onda foi a prova de fogo. Uma semana depois do discurso de Dona Vilma, Oliveira procurou o novo presidente para mostrar que o modelo havia previsto o improvável. O Bananal era estável e o novo ponto de equilíbrio alcançado era muito próximo ao do Brasil real.  Foi nomeado Ministro da Projeção Social (antigo Ministério do Planejamento) e passou a comandar uma equipe de roteiristas e marqueteiros que já estavam trabalhando informalmente para o governo.







domingo, 3 de junho de 2012

2012 - O início do fim II


Onde se explica a singularidade brasileira através de um modelo físico. Graças à ela, qualquer tsunami vira uma marola.

       A melhor explicação para o fim da crise veio de um físico.  O futuro ministro Oliveira, enquanto matava o tempo ocioso na repartição, havia elaborado um modelo para explicar a singularidade brasileira. Sua teoria, em pouquíssimas palavras, podia ser exposta assim: O Brasil é um sistema perfeitamente inelástico.
Um sistema elástico, quando perturbado, utiliza a energia recebida para oscilar em torno de uma posição de equilíbrio. Como vivemos no mundo sublunar, onde reina a corrupção, o atrito impede que esse movimento se eternize. Um pêndulo, quando solto, oscila durante certo tempo e finalmente para. Um sistema inelástico absorve toda a energia recebida e volta rapidamente à posição de equilíbrio. Um exemplo clássico é o amortecedor de um carro. Sua mola tem uma massa e uma constante elástica tais que o carro passa em cima dos buracos sem trepidar.
A economia brasileira já havia experimentado choques mais violentos do que os causados pelas crateras de nossas estradas e sempre voltava rapidamente a uma posição de equilíbrio. Há um exemplo clássico: um dos apoiadores da nova presidente, quando ocupara o cargo, havia feito um gigantesco confisco.
Pais de família, que haviam economizado a vida toda para comprar uma casa, doentes que estavam poupando o dinheiro da operação, pequenos empresários que aplicavam o dinheiro do pagamento de seus funcionários, todos ficaram a ver navios. O bom senso indicava que o país não duraria uma semana. Previam-se rebeliões, saques, fábricas fechadas, o comércio parado e assim por diante. Nada disso aconteceu. O Presidente ainda governou um bom tempo, com apoio popular, até que um escândalo de família provocou o seu impeachment.
Na verdade, o enunciado forte da singularidade brasileira não se refere apenas à economia - ele abrange todos os aspectos da nossa vida social. A corrupção é um bom exemplo. Freqüentemente são mostrados flagrantes de envelopes passando para as mãos de funcionários, notas na cueca, montanhas e montanhas de dinheiro sem origem, gravações de conversas, vídeos. Todos os tipos de prova, produzidos pela moderna tecnologia, são servido nas revistas semanais, nos jornais, na televisão, em horário nobre. Vinhetas especiais são criadas para identificar o novo escândalo, que depois de certo tempo some sem deixar traços.
O que o povo brasileiro possui de tão singular? Em seu linguajar chulo, Oliveira, o novo ministro afirmava: “o povo brasileiro é que nem vaca – está cagando e andando. E pastando por cima. E tomando em pé, – acrescentava”.
Algumas características são óbvias: a nossa índole pacífica e cordial, por exemplo - a vocação bovina de que Oliveira falava. Dificilmente algo no Brasil chega às últimas conseqüências, às vias de fato. Somos o país do eufemismo, da hipocrisia. Nós tendemos espontaneamente para a posição de equilíbrio, a natureza da alma brasileira abomina os extremos.
Outra característica nossa é a falta de memória: vivemos sempre no presente e adoramos novidades, não importa se requentadas. Essa inconseqüência natural é muito útil para a estabilidade política. Um escândalo atual sempre abafa o anterior e ninguém se espanta quando inimigos figadais, de repente, passam a serem amigos íntimos.
Uma das qualidades que mais nos distingue é a nossa capacidade de improvisação, de dar um jeitinho, de fazer uma gambiarra. Como não cultuamos nenhum valor ou modelo passado, sempre encaramos cada problema como um novo desafio, sem fórmulas prontas. Nós não inventamos a roda, mas somos mestres em fazer o carro pegar no tranco, em fazer uma chupeta. Essa estratégia de contornar, de comer pelas beiradas, de empurrar com a barriga, quando necessário, sem adotar uma solução definitiva, acaba se revelando útil em situações novas e complicadas, que não podem ser resolvidas com as antigas soluções. Um dos nossos anti-heróis, D. João VI, pontificava: ‘se você não sabe o que fazer, não faça nada.”
A Europa é uma prostituta cansada e experiente. A Ásia uma tia velha e reumática. Os Estados Unidos uma adolescente com os hormônios a flor da pele, querendo conquistar o mundo. E nós uma criança de 5 anos. 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

2012 - O início do fim


Onde se conta como o mundo acabou. As profecias maias estavam erradas e a culpa não foi de Nabiru - todos os méritos foram de nossa presidente, Dona Vilma.


O fim do mundo

O mundo acabou em 2012. Ou pelo menos a civilização ocidental e cristã, tal como a conhecemos. Foi como um tsunami: três ondas consecutivas, sendo a terceira a mais destrutiva. Primeiro a quebradeira, depois a recessão e, no fim, a hiper-mega-inflação.
A primeira não foi surpresa. Banqueiros e grandes investidores há muito sabiam que a economia estava rodando em falso. A moeda fiduciária é sustentada pela fé. Ou na falta desta, pela convicção de que as coisas só devem mudar se houver algo melhor para colocar em seu lugar. Enquanto ninguém conseguia conceber um mundo em que o General Grant fosse apenas um herói da guerra civil, o dólar mantinha o seu livre curso.
A primeira onda passou e deixou um rombo de centenas de bilhões nas carteiras dos bancos. Alguns afundaram. A economia mundial, embora atingida na linha d’água, continuou flutuando. Como o Patna: sem rumo e com os motores apagados. A escassez de dinheiro, além de deixar o fundo à mostra, antecipou a segunda onda, a recessão.
Quando a segunda onda começou a refluir, as pessoas estavam saturadas de previsões sobre a economia. No noticiário, a crise havia submergido, afogada pelo economês. Nas páginas de variedades, embalados pelas profecias maias, pelas centúrias de Nostradamus, ou por algum profeta mais recente, os filhos da Era de Aquarius apontavam para os céus. A besta se aproximava e o seu nome era Nabiru, o planeta das profecias babilônicas.
2012 chegou. O campo magnético da Terra se manteve invariável. Os planetas continuaram em suas órbitas e, se alguém pudesse ouvir as estrelas, escutaria a harmonia perfeitas das esferas. O perigo estava aqui.
A terceira onda se propagou com a velocidade da Internet. Era uma segunda feira cinzenta em Nova Iorque quando o mundo ficou sabendo que a Presidente do Brasil havia feito um importante discurso na ONU. Ms. Vilma anunciou que o Brasil estava pagando toda a sua dívida externa em dólar. Daí em diante, o Banco Central manteria as reservas restantes em yuans e a moeda americana não seria mais utilizada em transações comerciais.
Com a queda instantânea do dólar em todos os mercados, houve uma corrida. Quem podia liquidou suas dívidas, a cada hora com um dólar mais barato, que os governos compravam emitindo papéis. No fim do dia, os Estados Unidos estavam inundados de dólares escriturais e o resto do mundo por títulos da dívida pública e cédulas sem valor, com a tinta ainda fresca. O estrago foi o de várias manadas de elefantes estourando no meio de uma loja de louças chinesas. Não houve tempo para os economistas esboçarem uma teoria para o apocalipse.
            Os historiadores que sobreviveram tampouco conseguiram justificar a decisão da Presidente. Era um consenso, à direita e à esquerda, que o seu mandato era uma continuação do anterior. Dona Vilma deveria se limitar a pequenas correções de rota. Ao entregar a faixa, o seu antecessor usara uma de suas típicas metáforas: a economia brasileira está surfando na marola da crise.  No entanto, ela acabara de virar o barco com golpe brusco no leme.
            Explicar o fim do mundo através de uma crise psicótica estava abaixo da dignidade de qualquer historiador. Mesmo considerando que a História não existia mais e que os últimos profissionais disputavam o lixo acumulado nas ruas com os poetas, músicos, jornalistas, atores de teatro e antigos catadores. Se mal havia dinheiro para pagar os lixeiros, com muito mais razão não haveria para ocupações menos produtivas e socialmente desnecessárias. 
            A China foi arrastada na correnteza e afundou ao peso de seus bilhões de títulos do governo americano. Quando chegou à margem, a única riqueza que se salvara fora a sua força de trabalho. 700 milhões de braços acostumados a trabalhar duro por muito pouco. O Brasil perdeu seus bancos nas primeiras horas. Um pouco antes, o governo fora obrigado a honrar seus títulos colocados no mercado. Em compensação, o dinheiro escritural dos bancos ficou retido como depósito compulsório. A guerra virtual terminou sem vencedores, sem exércitos e sem munição.
De real mesmo, só os poucos depósitos que puderam ser sacados. Não havia mais preços, porque os lojistas sabiam que não haveria mais estoques para repor as mercadorias. Não havia mais emprego, porque não haveria como pagar os salários. Depois de uma inflação de aproximadamente 500% ao dia, acabaram as estatísticas. O escambo começou imediatamente. A única moeda de curso universal eram os cigarros. Os pouquíssimos fumantes que haviam estocado pacotes de cigarro ficaram milionários da noite para o dia.
Um ônibus de sacoleiros que voltava do Paraguai carregado de cigarros foi saqueado pela Polícia Rodoviária, que foi emboscada em seguida pelos traficantes. A droga que eles vendiam agora estava sendo usada para pagar novos recrutas. Os chefes rivais passaram a disputar o saque dos supermercados. A polícia se tornou um novo bando. Ela criou uma milícia que, ao lado do exército, tentava impor a lei marcial e o toque de recolher. O caos durou uma semana.

A continuar. Não percam! Neste mesmo blog, qualquer dia, ou mesmo antes.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Contaproprismo


O contaproprismo ideológico

Em Cuba, depois de constatar o fracasso da economia, o governo abriu as portas para a expansão do contaproprismo. Isso significa que, em determinados ramos, o cubano já pode criar uma empresa privada, contratar funcionários, receber financiamento do Estado e até desfilar como contaproprista no Primeiro de maio.
No meu tempo, pensava-se que a pequena empresa gerava espontaneamente o capitalismo e sua existência só era admitida como uma etapa transitória a ser rapidamente superada. Agora, depois de 50 anos de processo revolucionário, elas passaram a ser parte da solução.
No campo ideológico, depois de constatar o fracasso do socialismo real, resolvi abrir minha própria empresa, com direito a aliciar seguidores (sem financiamento de qualquer estado), de desfilar no Primeiro de Maio e ter carteirinha da Mancha Vermelha.
Cansado de ser rotulado, estabeleci-me por conta própria. Em um grupo sou apedrejado porque não apoio o governo Dilma e chamado de tucano, porque não sou petista. Noutro, sou lapidado por conta de Stalin, e chamado de reformista, porque defendo socialismo com democracia. Aí, quando fico contra as reformas chinesa e cubanas, sou chamado de trotskista. Daí a burguês (grande e pequeno), passando pelos elogios de praxe a minha progenitora, é um pulo.  
Agora sou Marquista Lisboeta. Estou por conta própria. Compro e vendo de quem eu quiser e para quem eu quiser.  Para os totalitários ofereço um Estado que respeite a esfera moral, ética, filosófica e sexual de cada um; para os liberais, democracia direta e participativa, sem o direito a propriedade privada dos bens de produção.

Para quem quiser me constranger em nome de alguma possível ortodoxia, aponto 40 anos de briga de foice e martelo no escuro, começando com o relatório Khrushev e acabando com o grande sincretismo, que hoje unifica a Mancha Vermelha.
Minha mercadoria tem um diferencial: procedência garantida, com citação das fontes. Os dados que porventura não sejam corretos, terão direito a retificação e o freguês terá reconhecida a sua razão, se a reclamação for procedente. Ofereço ainda um serviço gratuito: onbudsman de Face Book. Sou um googlador rápido e eficiente e tenho um faro apurado para citações falsas, notícias inverídicas e empulhações em geral. Modéstia não vem incluída no pacote.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Ex-delegado revela que militares incineraram corpos de militantes - Portal Vermelho

Ex-delegado revela que militares incineraram corpos de militantes - Portal Vermelho
A repressão além de assassinar opositores, liquidou também seus torturadores e apoiadores, numa operação de queima de arquivo. É o caso de Fleury e Baungarten. Será que estes casos também estão abrangidos pela interpretação de que seriam crimes conexos, pela interpretação estapafúrdia que o STF deu à Lei da Anistia? Muitos torturadores poderiam ser condenados hoje pela prática de crimes comuns, já que eram um poder paralelo que não se submetia a nenhuma lei.

domingo, 8 de abril de 2012

Homenagem a Luiz Paulo Lyrio

Vai Luiz

Vai Luiz, vai ser lyrico na vida
Vive Luiz, nem que seja à paulada
Nada vale a pena, para quem apenas duvida
Com toda certeza, viver é melhor do que nada

E o Luiz se foi

Defendendo donzelas
Combatendo o bom combate
Denunciando mazelas
Tocando o sino à rebate

Don Quixote, latindo pra a lua
Sancho Pança, comendo tropeiro com torresmo
Querendo uma estrela pra chamar de sua
Rindo de todos, rindo dele mesmo

Riu da vida, riu da morte
Levou da vida a certeza
Que só muda a própria sorte
Quem  segue a sua natureza

quinta-feira, 29 de março de 2012

Cultura inútil

Texto de Pedro Paulo Cava, meu colega de Instituto de Educação, faz algum tempo...
Um pouco de cultura inútil, mas interessante.


O que significa @ (arroba) no e-mail?



Durante a Idade Média os livros eram escritos pelos copistas, à mão. 



Precursores dos taquígrafos, os copistas simplificavam seu trabalho substituindo letras, palavras e nomes próprios por símbolos, sinais e abreviaturas. Não era por economia de esforço nem para o trabalho ser mais rápido (tempo era o que não faltava, naquela época!). O motivo era de ordem econômica: tinta e papel eram valiosíssimos.

Assim, surgiu o til (~), para substituir o m ou n que nasalizava a vogal anterior. Se reparar bem, você verá que o til é um enezinho sobre a letra.

O nome espanhol Francisco, também grafado Phrancisco, foi abreviado para Phco e Pco, o que explica, em Espanhol, o apelido Paco.

Ao citarem os santos, os copistas os identificavam por algum detalhe significativo de suas vidas. O nome de São José, por exemplo, aparecia seguido de Jesus Christi Pater Putativus, ou seja, o pai putativo (suposto) de Jesus Cristo. Mais tarde, os copistas passaram a adotar a abreviatura JHS PP, e depois simplesmente PP. A pronúncia dessas letras em sequência explica por que José, em Espanhol, tem o apelido de Pepe.

Já para substituir a palavra latina et (e), eles criaram um símbolo que resulta do entrelaçamento dessas duas letras: o &, popularmente conhecido como "e" comercial, em Português, e, ampersand, em Inglês, junção de and (e, em Inglês), per se (por si, em Latim) e and.

E foi com esse mesmo recurso de entrelaçamento de letras que os copistas criaram o símbolo @, para substituir a preposição latina ad, que tinha, entre outros, o sentido de 'casa de'.

Foram-se os copistas, veio à imprensa - mas os símbolos @ e & continuaram firmes nos livros de contabilidade. O @ aparecia entre o número de unidades da mercadoria e o preço. Por exemplo: o registro contábil 10@£3 significava 10 unidades ao preço de 3 libras cada uma. Nessa época, o símbolo @ significava, em Inglês, at (a ou em).

No século XIX, na Catalunha (nordeste da Espanha), o comércio e a indústria procuravam imitar as práticas comerciais e contábeis dos ingleses. E, como os espanhóis desconheciam o sentido que os ingleses davam ao símbolo @ (a ou em), acharam que o símbolo devia ser uma unidade de peso. Para isso contribuíram duas coincidências:

1 - a unidade de peso comum para os espanhóis na época era a arroba, cuja inicial lembra a forma do símbolo;

2 - os carregamentos desembarcados vinham frequentemente em fardos de uma arroba. Por isso, os espanhóis interpretavam aquele mesmo registro de 10@£3 assim: dez arrobas custando 3 libras cada uma.. Então, o símbolo @ passou a ser usado por eles para designar a arroba.

O termo arroba vem da palavra árabe ar-ruba, que significa a quarta parte: uma arroba ( 15 kg , em números redondos) correspondia a 1/4 de outra medida de origem árabe, o quintar, que originou o vocábulo português quintal, medida de peso que equivale a 58,75 kg .

As máquinas de escrever, que começaram a ser comercializadas na sua forma definitiva há dois séculos, mais precisamente em 1874, nos Estados Unidos (Mark Twain foi o primeiro autor a apresentar seus originais datilografados), trouxeram em seu teclado o símbolo @, mantido no de seu sucessor - o computador.

Então, em 1972, ao criar o programa de correio eletrônico (o e-mail), Roy Tomlinson usou o símbolo @ (at), disponível no teclado dessa máquina, entre o nome do usuário e o nome do provedor. E foi assim que Fulano@Provedor X ficou significando Fulano no provedor X.

Na maioria dos idiomas, o símbolo @ recebeu o nome de alguma coisa parecida com sua forma: em Italiano, chiocciola (caracol); em Grego, 
papaki (patinho);em Sueco, snabel (tromba de elefante); em Holandês,apestaart (rabo de macaco). Em alguns, tem o nome de certo doce de forma 
circular: shtrudel, em iídisch; strudel, em alemão; pretzel, em vários outros idiomas europeus. No nosso, manteve sua denominação original: arroba = @.

terça-feira, 13 de março de 2012

Socialismo e democracia em Cuba III

 Pátria o muerte!

No filme A chinesa, de Godard, há uma citação de Mao: “A revolução não é um banquete, não é uma obra, de arte. Ela não pode ser feita com elegância, tranqüilidade, delicadeza, amabilidade, cortesia, discrição e generosidade. A revolução é uma insurreição violenta na qual uma classe derruba a outra.”
Frases como esta costumam ser usadas para justificar os excessos cometidos em nome da revolução.  Mesmo assim, ela é verdadeira, se aplicada ao seu período inicial. É o que Marx chamava de solução plebéia. A guilhotina e o “paredón” são inevitáveis, até mesmo necessários.
Uma das peculiaridades da revolução cubana é que ela foi relativamente incruenta. Não houve uma guerra civil, não houve destruição de fábricas ou lavouras, as baixas em batalha foram poucas e praticamente toda a população apoiou os rebeldes. Quando o regime de Batista se desmantelou, o seu exército se rendia aos rebeldes mais rapidamente do que eles podiam avançar. Entretanto, houve uma repressão muito forte nas cidades, onde a resistência clandestina teve inúmeros mortos e a tortura e o assassinato eram práticas corriqueiras. Este quadro justifica o paredón, embora não explique porque o novo poder demorou quase 18 anos para dar uma nova Constituição ao país.
Fidel era a liderança incontestável da revolução, graças à visibilidade que havia adquirido com o assalto ao Quartel de Moncada e às transmissões da Rádio Rebelde. Cuba era um país relativamente próspero, com grandes desigualdades sociais e uma tradição de governantes corruptos.  No início, houve uma dualidade de poderes. Os revolucionários haviam assumido o compromisso de conservarem a Constituição de 1940 e de colocarem Urrutia, um juiz com mentalidade legalista,  à frente de um governo provisório que realizaria eleições gerais tão logo fosse possível.
O afastamento de Urrutia foi inevitável, já que o aprofundamento da revolução exigia uma série de medidas antiimperialistas e de combate às desigualdades sociais que não cabiam dentro da legalidade vigente. Inaugurou-se então o poder revolucionário.              
Os primeiros anos da revolução são anos de um voluntarismo e de um romantismo revolucionários exacerbados. Estes acabaram levando a revolução a uma radicalização desnecessária e a um estreitamento de sua base social.
Como mostramos em outro local, dentro do próprio campo das forças revolucionárias, havia uma luta pelo poder, que terminou com o predomínio dos “barbudos” e a entrega da máquina do estado ao PCC, em torno do qual se unificaram os rebeldes. Sindicatos e associações estudantis, que haviam jogado um grande peso na luta contra Batista, foram submetidos ao novo poder, que passou por cima destas instâncias.
Em 1961, logo após o episódio da Baía dos Porcos, Fidel declarou que o conteúdo da Revolução era socialista.  Segundo ele: “a revolução não tem tempo para eleições” e “não há governo mais democrático na América Latina que o governo revolucionário”.
Em relação a alguns segmentos sociais que haviam apoiado a revolução, houve um confronto desnecessário. Dos 3.000 médicos que havia em Cuba, apenas uns 1.000 permaneceram. O ensino privado e religioso foi abolido e a educação passou totalmente ao estado. No final da década de 60, as pequenas fábricas e prestadores de serviço foram nacionalizados.
O novo poder se lançou numa cruzada destinada a criação do homem novo cubano. Isto resultou numa política sectária em relação aos intelectuais, além da repressão sistemática aos homossexuais, hippies, crentes, prostitutas e toda uma série de elementos rotulados de parasitas, contra-revolucionários e anti-sociais.
A reforma agrária cubana merece um capítulo a parte. Com a existência da monocultura totalmente voltada para o mercado externo, predominava no campo o trabalho assalariado e temporário. Houve uma nacionalização das grandes propriedades, muitas das quais em mãos de americanos, com a formação de grandes cooperativas, onde os camponeses passaram a ser empregados do Estado. A pequena propriedade continuou existindo, embora toda a sua produção fosse destinada ao governo.
Logo no início dos anos sessenta, o aumento da renda e do consumo, além da ineficiência administrativa dos novos dirigentes, causaram a falta de alimentos e de vários produtos básicos, o que levou ao racionamento. Cuba optou pela adoção da libreta e a proibição do mercado livre dos gêneros racionados.
O próprio Fidel, em 1970, numa autocrítica, reconheceu que o fator subjetivo, a consciência de classe, estava muito atrasada em Cuba quando da derrubada de Batista. Isto não impediu que os revolucionários se lançassem a uma batalha completamente acima de suas forças. O novo poder tinha que ser, ao mesmo tempo, o executivo e o legislativo. A máquina de estado anterior era inútil para dirigir a nova economia. Os revolucionários precisavam administrar as fábricas nacionalizadas, mesmo sem a formação necessária.  Ao mesmo tempo, deviam enfrentar o inimigo externo, que promovia invasões e sabotagens. Internamente, num episódio pouco conhecido, teve que derrotar os rebelados da província de Escambray, que empreenderam uma guerra de guerrilhas de 60 a 66.
Franqui atribui o levante em Escambray a uma série de tropelias cometidas por Félix Torres, um membro do PCC que assumiu o governo da província. Ele prendeu e fuzilou arbitrariamente, tomou terras dos camponeses, ressuscitou o sistema de pagamento por trabalho, odiado pelos trabalhadores rurais, e, por fim, formou um harém de garotas camponesas.
Com tantos problemas, não é de se estranhar que a revolução não tivesse tempo para eleições. Isto não quer dizer que o poder não procurasse se legitimar de alguma maneira. Fidel é uma liderança carismática e, ao contrário de outros dirigentes socialistas, mantinha um contato permanente com as massas. As principais medidas do governo eram submetidas à aclamação, em grandes comícios na Praça da Revolução.
Paralelamente, havia duas instituições, as milícias e os Comitês de Defesa da Revolução, em que a população tinha voz ativa nas deliberações. Os CDR, criados em 1960 para enfrentar os inimigos internos e externos hoje abrangem 80% da população acima de 14 anos. Entretanto, a iniciativa não estava com as massas. Cabia a elas um papel passivo, de defesa das conquistas, cabendo ao governo propor os avanços a serem efetuados.
Na maioria da população, não havia uma reivindicação pela volta das eleições e de outras instituições representativas do antigo regime. A explicação está nos avanços sociais da revolução, que no primeiro momento realizou a palavra de ordem de Fidel: uma revolução dos pobres para os pobres. O poder revolucionário tinha legitimidade. Por outro lado, ainda era viva a lembrança dos vícios dos governos anteriores e de seus políticos tradicionais.
 Marta Harnecker traz este depoimento de um cubano sobre as primeiras eleições em Cuba, após a tomada do poder:

“Na época da República não era a vontade do povo que primava. Havia toda uma série de subterfúgios para fazer triunfar a vontade da minoria. Agora tudo se modificou radicalmente.
No passado, o cidadão via-se obrigado a votar por um homem que tinha convertido a função política numa profissão e que utilizava agências e aparelhos organizados por ele próprio para figurarem sempre nos boletins eleitorais.
E você sabe por que razão o voto era obrigatório? Porque sabiam que se não o faziam obrigatório ninguém votava. Não acha absurdo que quando uma pessoa tem um direito seja obrigada a exercê-lo?
E agora nas eleições do Poder Popular, sem propaganda, sem encher de pasquins os estabelecimentos, a porcentagem de votantes foi muito elevada, o que diz muito da consciência dos cidadãos.”
Antes da institucionalização do poder, com a adoção de uma Constituição e de eleições para a Assembléia Nacional, a adesão da população era mantida à base do apelo ideológico. Eram os tempos do “Patria o muerte!” A máquina estatal não estava azeitava e adotou-se uma planificação econômica arbitrária. Nas fábricas, o ganho material foi rejeitado como fator de incentivo à produção. Os dirigentes do PCC acumulavam as tarefas políticas com a administração. Os trabalhadores de vanguarda eram o modelo a ser seguido e sobre eles recaía a tarefa de conseguir as metas propostas. O descrédito com a adoção de metas irrealistas e a ineficiência dos gerentes, acabou por inibir a iniciativa dos trabalhadores e por aumentar o absenteísmo.
Marta Harnecker dá o exemplo de uma fábrica onde havia 640 trabalhadores, sendo 19 militantes e 140 trabalhadores de vanguarda. Estes recebiam como prêmio um diploma mensal (para os três mais destacados em cada oficina), além de planos de férias especiais, entradas para o teatro, além de prioridade para compraram os produtos racionados.
O apelo ideológico se traduzia em um vocabulário próprio. Quando um discurso pedindo o cumprimento de uma meta terminava com o slogan “Patria o muerte!”, isto significava que a tarefa era essencial à revolução e quem não a cumprisse seria considerado contra-revolucionário. Os contra-revolucionários eram “afetados” por todo tipo de influência nociva e o resultado da crítica e autocrítica públicas era a necessidade do criticado se “superar”.
A sovietização do cotidiano cubano foi muito além da importação dos udarniki (os trabalhadores de vanguarda). Foram criados os pioneiros, a juventude comunista, à maneira do komsomol, e a UNEAC, o equivalente cubano da União dos Escritores Soviéticos. Os CDR acabaram reproduzindo o modelo soviético de habitação coletiva, onde todos controlavam a vida de todos.   O fato de serem organizados por quarteirão facilitava este controle fino. Eu recomendo o romance Os filhos da Rua Arbat e o filme Morango e Chocolate, para ajudar a clarear o que seria este processo
Esta sovietização consolidou o caminho para um estado policial, nos moldes dos países socialistas. Uma pequena cronologia ajudará a traçar esta evolução:         
1959 – tomada do poder.
1961 – invasão da baía dos porcos e decretação do caráter socialistas da revolução. Fundação do Ministério do Interior, que abriga os órgãos de segurança do Estado.
1962 – crise dos mísseis. Fidel se ressente do papel de Krushev e Cuba se afasta ideologicamente dos soviéticos
1965 – É criado o CC do PCC.
1966 – É criada a OLAS, Organização Latino Americana de Solidariedade, que lança a palavra de ordem “criar um, dois, três Vietnãs”.
1967 – Morte do Che na Bolivia
1968 – Cuba apóia a Invasão da Tchecoeslováquia pelas tropas do pacto de Varsóvia.
1970 – Fracasso da safra de 10 milhões de toneladas de açúcar. Autocrítica de Fidel.
1971 – Prisão de Padilha e afastamento de vários intelectuais da revolução cubana.
1974 – Eleições experimentais em Matanzas
1975 – Primeiro Congresso do recriado PCC.
1976 – Aprovada a Constituição Cubana. Eleição da primeira Assembléia.
Para quem quiser conhecer em detalhes os mecanismos formais do  poder popular, recomendo este site: http://www.josemarti.com.br/man/Artigo_eleicoes_em_Cuba.pdf
O modelo cubano traz características interessantes: os candidatos não necessitam estar filiados ao PCC (não existe formalmente outro partido em Cuba). São indicados pelos próprios eleitores e podem ter o seu mandato revogado a qualquer momento. Em tese, seriam formas avançadas de democracia direta. Na prática, os candidatos não precisam nem morar na província pela qual serão eleitos e são indicados pelo PCC. As decisões de fato são tomadas por um pequeno círculo que as apresenta ao Bureau Político e depois ao CC do PCC para serem referendadas e adotadas pela Assembléia Nacional.
Resumindo: a Revolução Cubana despertou um enorme potencial revolucionário que foi malbaratado. Primeiro com a exclusão de organizações que haviam desempenhado um papel importante na revolução e com a criação artificial de um partido único, de cima para baixo. Depois com um processo voluntarista de radicalização, que tratou como inimigos importantes setores de classe e indivíduos. Mais tarde, com métodos de direção ineficientes e burocráticos, movidos a apelos ideológicos vazios. Quando finalmente se institucionalizou um poder popular, 18 anos após a queda de Batista, as massas já haviam perdido o seu ímpeto revolucionário.
As formas de democracia direta, que existem no modelo atual, não têm o menor conteúdo revolucionário. E, contraditoriamente, propostas mais avançadas de reforma do regime incluiriam a volta de antigas formas de democracia burguesa, como a liberdade partidária. Embora o regime esteja em plena marcha ré na economia, o apego de um pequeno círculo ao poder continua freando a reforma política. O que pode levar à perda definitiva da coesão social, já que a nova classe média que surge é muito permeável a influência das democracias ocidentais e as classes mais desfavorecidas correm o risco de perderem as conquistas sociais da revolução.