Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.

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Divulgação literária e outros babados fortes

Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.

sábado, 14 de novembro de 2009

Capítulo 3 - Primeira parte

O Destacamento do Osvaldão

José Genoino Neto, o ex-presidente do PT, conta que deixou São Paulo no dia em que a Seleção Brasileira, tri-campeã do mundo no México, chegou à cidade para desfilar no Anhangabaú. Ele aproveitou o momento para pegar um ônibus na Rodoviária de São Paulo com destino a Campinas. Genoino sabia que o PC do B preparava a luta armada no campo, apresentou-se como voluntário e foi enviado para essa missão. Quando entrou no ônibus, ele não conhecia o seu destino final, só a sua primeira escala. Lá teria que cobrir um ponto* e receber mais instruções. Em Campinas, soube que ia para Anápolis.
*Cobrir um ponto era comparecer na hora marcada a um local previamente combinado. Às vezes, as pessoas se identificavam através de senhas. Em caso de desencontro, poderia haver uma alternativa, um ponto em outra data e/ou local.

Em Anápolis, Genoino encontrou com um velho conhecido do movimento estudantil cearense, Glênio, que ia para a mesma missão. Os dois foram contatados por José Humberto Bronca, um ex-metalúrgico gaúcho, que os iria conduzir, daí em diante. Passaram um dia fazendo pequenas compras: remédios, facão, machado, panelas e mantimentos. Depois, seguiram de ônibus até Imperatriz, no Maranhão, fazendo de conta que não se conheciam.

Em Imperatriz, se hospedaram em hotéis diferentes. Gastaram mais três dias fazendo compras, separados. Só então, Genoino soube que entraria na mata pelo rio, num barco. A viagem de Imperatriz para Porto Isabel durou cinco dias; primeiro descendo o Rio Tocantins, até São João do Araguaia, depois subindo o Rio Araguaia. No barco, os três já se apresentavam como conhecidos. Glênio e Genoino contavam aos camponeses que ia morar com um tio, no sul do Pará.

De Imperatriz em diante, não havia mais pontos de referência: só a mata e o rio. A selva ia engrossando, à medida que o destino final se aproximava. Os últimos 14 quilômetros foram feitos a pé, porque o Araguaia havia baixado e a cachoeira de Santa Isabel não estava transponível.

Bronca já estava na região desde 69 e era muito bem relacionado com os moradores. De cada um que encontrava, recebia a mesma pergunta: - o Osvaldão, como vai? - O Negão está bem? - E o Mineirão? Glênio e Genoino se perguntavam quem seria esse personagem tão popular.

Finalmente chegaram a um pequeno rancho, numa região de capoeira, onde um negão fritava um bife de veado, em companhia de um velhinho de 60 anos. A recepção foi calorosa. Genoino recebeu arma, facão e botina, foi colocado a par das características da região e ganhou de lembrança do seu tio uma folhinha do calendário. A data era auspiciosa, 26 de julho* . O tio, ele soube mais tarde, era Amazonas.
*26 de Julho é o nome do principal movimento rebelde cubano. Nessa data houve o fracassado ataque ao quartel de Moncada, que terminou com a morte de vários rebelde e a prisão de Fidel Castro

O negão até hoje é uma figura lendária no Araguaia. Seu próprio físico o tornava inesquecível: negro, quase dois metros de altura, sapato 48, dotado de enorme força física (havia sido campeão de box pelo Botafogo). Em 62, quando foi estudar engenharia na Tchecoslováquia, foi tema de um livro “O homem que parou a cidade”, do escritor tcheco Cytrian Ekwensi.

Sandra Negraes Brisolla, professora da Unicamp, que o conheceu em Praga, lembra de um relato curioso: ”Quando cheguei a Praga, os meninos passavam saliva no dedo e esfregavam meu braço, para ver se a cor da minha pele saía. Nunca tinham visto um negro – contou [Osvaldão]”. Foram estas características tão marcantes que o afastaram das cidades, onde dificilmente poderia se esconder da repressão.

Assim que retornou da Tchecoslováquia, Osvaldão entrou para o PC do B. Como vimos, desde 65, ele já estava envolvido no trabalho de campo do partido, no norte de Goiás. No Araguaia, ele foi o primeiro a chegar, ainda em 66. Atuando como garimpeiro e mariscador (caçador de peles), conhecia a área profundamente. Em 69 comprou uma posse às margens do Rio Gameleira, na região de Couro D’antas.

Amazonas era o Secretário Geral do PC do B. Paraense, nascido em 1912, João Amazonas entrou para o partido em 1935. Ele e Pedro Pomar atuavam no Pará. Em 1940, os dois foram presos, junto com outros dirigentes locais. Segundo relato do próprio Amazonas: “Na prisão, recebemos a notícia da invasão da União Soviética pela Alemanha hitlerista. Nossa indignação foi enorme. Reunimos, nesse mesmo dia, e juramos sair da prisão para continuar a luta de vida e morte contra o nazismo.” .

A fuga deu certo e os dois se dirigiram para o Rio de Janeiro, passando pela região do Bico do Papagaio. Foi o primeiro contato de Amazonas com o futuro cenário da guerrilha. No Rio, encontraram-se com a Comissão Nacional de Organização Provisória (CNOP), dirigida por Maurício Grabois e Amarílio Vasconcelos. Em seguida, contataram Diógenes Arruda, que tentava reorganizar o partido em São Paulo. Era a agonia da noite (título do segundo volume da trilogia de Jorge Amado). O partido estava desmantelado e os remanescentes eram caçados pela polícia de Getúlio.

Graças aos esforços da CNOP, em agosto de 43, foi realizada a 2ª Conferência Nacional do PCB, conhecida como “Conferência da Mantiqueira”. “Segundo Dinarco Reis, a reunião” foi realizada numa pequena cafua de telha-vã e chão de terra, com sala, quarto e cozinha, local bastante exíguo para tantas pessoas (...) Dormíamos no chão de terra forrado por sacos e jornais. À noite o frio castigava duramente, pois era inverno nessa região bastante alta”.” Nesta Conferência, Amazonas foi eleito para o Comitê Central.

Em 45, finalmente chegou a luz no fim do túnel (título do último volume da trilogia de Jorge Amado): vieram a anistia e a legalização do PCB. João Amazonas foi eleito deputado federal para a Assembléia Constituinte, juntamente com Maurício Grabois e Diógenes Arruda. Depois da cassação dos deputados comunistas, já no governo Dutra, o trio assumiu a direção cotidiana do Partido.

Em 1968, 27 anos depois de sua fuga, Amazonas retornou à região. Inicialmente, ele se estabeleceu num povoado chamado Faveira, às margens do Rio Araguaia. Mais tarde se deslocou para a posse de Osvaldão. Conheci Amazonas uma década depois de sua saída do Araguaia. Seu aspecto físico era o de um típico caboclo: baixo, franzino, rosto largo, com traços indígenas. Na região, ele poderia passar despercebido, a não ser pela sua voz, que, embora fraca, prendia a atenção de todos à sua volta e pela autoridade que dele emanava.

Uma das primeiras tarefas dos dois sobrinhos foi construir uma casa, a 150 metros do Rio Gameleira, onde Osvaldão, Glênio, Genoino, Amazonas e Bronca foram morar.

2 comentários:

  1. SÍTIO CALDEIRÃO, O ARAGUAIA DO CEARÁ: GENOCÍDIO ESQUECIDO PELO PODER PÚBLICO!


    No CEARÁ, para quem não sabe, houve também um crime idêntico ao do “Araguaia”, contudo em piores proporções, foi o MASSACRE praticado por forças do Exército e da Polícia Militar do Ceará no ano de 1937, contra a comunidade de camponeses católicos do Sítio da Santa Cruz do Deserto ou Sítio Caldeirão, que tinha como líder religioso o beato JOSÉ LOURENÇO, seguidor do padre Cícero Romão Batista.


    A ação criminosa deu-se inicialmente através de bombardeio aéreo, e depois, no solo, os militares usando armas diversas, como fuzis, revólveres, pistolas, facas e facões, assassinaram mulheres, crianças, adolescentes, idosos, doentes e todo o ser vivo que estivesse ao alcance de suas armas, agindo como feras enlouquecidas, como se ao mesmo tempo, fossem juízes e algozes.


    Como o crime praticado pelo Exército e pela Polícia Militar do Ceará foi de LESA HUMANIDADE / GENOCÍDIO / CRIME CONTRA A HUMANIDADE é considerado IMPRESCRITÍVEL pela legislação brasileira bem como pelos Acordos e Convenções internacionais, e por isso a SOS - DIREITOS HUMANOS, ONG com sede em Fortaleza - Ceará, ajuizou no ano de 2008 uma Ação Civil Pública na Justiça Federal contra a União Federal e o Estado do Ceará, requerendo que sejam obrigados a informar a localização exata da COVA COLETIVA onde esconderam os corpos dos camponeses católicos assassinados na ação militar de 1937.


    Vale lembrar que a Universidade Regional do Cariri – URCA, poderia utilizar sua tecnologia avançada e pessoal qualificado, para, através da Pró-Reitoria de Pós Graduação e Pesquisa – PRPGP, do Grupo de Pesquisa Chapada do Araripe – GPCA e do Laboratório de Pesquisa Paleontológica – LPPU encontrar a cova coletiva, uma vez que pelas informações populares, ela estaria situada em algum lugar da MATA DOS CAVALOS, em cima da Serra do Araripe.


    Frisa-se também que a Universidade Federal do Ceará – UFC, no início de 2009 enviou pessoal para auxiliar nas buscas dos restos dos corpos dos guerrilheiros mortos no ARAGUAIA, esquecendo-se de procurar na CHAPADA DO ARRARIPE, interior do Ceará, uma COVA COM 1000 camponeses.


    Então qual seria a razão para que as autoridades não procurem a COVA COLETIVA das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO? Seria descaso ou discriminação por serem “meros nordestinos católicos”?


    Diante disto aproveitamos a oportunidade para pedir o apoio de todos os cidadãos de bem nessa luta, no sentido de divulgar o CRIME PERMANENTE praticado contra os habitantes do SÍTIO CALDEIRÃO, bem como, o direito das vítimas serem encontradas e enterradas com dignidade, para que não fiquem para sempre esquecidas em alguma cova coletiva na CHAPADA DO ARARIPE.


    Dr. OTONIEL AJALA DOURADO
    OAB/CE 9288 – (85) 8613.1197
    Presidente da SOS - DIREITOS HUMANOS
    www.sosdireitoshumanos.org.br

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  2. Prezado Dr. Otoniel,
    É triste constatar como a nossa história está cheia de episódios semelhantes. Talvez Canudos tivesse caído no esquecimento, não fora o livro de Euclides da Cunha.
    Desde já me solidarizo com essa luta. Vou reproduzir o seu comentario no blog, como postagem, a fim de que ele ganhe maior destaque. Esse modesto espaço estará sempre à sua disposição.
    Abraços.
    Marco Lisboa

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