Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.
Consulte o dicionário do cinismo, no rodapé do blog.
Divulgação literária e outros babados fortes
Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.
segunda-feira, 4 de setembro de 2017
Gozação
sábado, 2 de setembro de 2017
EL BORRADOR
El Borrador
A mão em
concha recolheu a massa ainda quente e um pouco mole. Antes de usá-la, aspirou
o cheiro forte e um pouco enjoativo. Comi muito doce hoje - pensou. O seu
intestino era sensível ao açúcar e a fermentação atrapalhava a solidez do bolo fecal.
O primeiro arremesso grudou na parede. Não gostou da forma final. Usando
as mãos como espátula, completou a obra. A servente que nos descreveu o
atentado, quando chegava na parte em que haviam encontrado a ... a coisa, sempre
balançava a cabeça, com os lábios apertados e a testa franzida. O trejeito
descrevia o nojo que ela sentira melhor que qualquer palavra. A servente mais
velha, que já havia visto muitos banheiros imundos em sua vida, conseguiu achar
uma expressão: parecia coisa do demônio. No nosso andar, a história virou
motivo de piadas e foi contada e requentada na roda do cafezinho.
Nossa repartição é muito respeitada pela imprensa e pela sociedade. Pode ser que a fama seja justa, mas, de
qualquer maneira, 9não somos muito ágeis em tomar providências. Tempos atrás
começaram a sumir objetos. Uma bolsa, um celular, até o lanche esquecido em
cima da mesa. A segurança era muito frouxa e o público tinha livre acesso ao
prédio. Resolveu-se o problema colocando-se chaves nos armários. Aí começaram a
sumir os equipamentos: um fax, uma impressora, um mouse; até que um dia levaram
um computador inteiro.
Só então o chefe da segurança recebeu carta branca. Contratou uma equipe
completa, com um responsável por andar. Em seguida colocou um sistema de vigilância
com câmaras. Infelizmente, ou felizmente, não se pensou em monitorar os
banheiros.
Depois do atentado, a reação foi imediata: cada seção passou a ter a sua
chave e os banheiros masculinos, agora privativos dos funcionários, passaram a
ser trancados. Pensamos que a história havia parado por aí, mas um novo ataque,
desta vez num banheiro feminino, acabou com esta ilusão. A igualdade entre os
sexos foi restabelecida - os homens não detinham mais o privilégio da porcaria.
De novo o cafezinho virou um fórum antiterror. As teorias sobre o
personagem se multiplicavam e se contradiziam. No início, seria um cidadão
revoltado, que colocou na parede a sua opinião sobre a nossa repartição. Depois
da segunda ocorrência, ora ele seria um travesti, ora um funcionário
enlouquecido, ora um louco cuja mania era freqüentar prédios públicos. O
Oliveira, logo de cara, achou um nome perfeito para o terrorista: El Borrador.
Embora a vigilância interna houvesse considerado questão de honra a sua
captura, as semanas passavam e a opinião geral era que o crime ficaria impune.
... percebi que ele mudou de assunto quando cheguei. Todos estão me
olhando de banda. O pior é que ele sabe que eu não vou reagir. Deus sabe que eu
tento não aparentar o meu problema.
Mesmo assim, ele tem que me espezinhar todo dia, com suas brincadeiras
idiotas. Ficou excitado com a história do banheiro e está se achando um grande
caçador, correndo atrás da presa...
A mão em concha recolheu os jatos ainda quentes do líquido viscoso. Em
seus dias de glória ele conseguia um arremesso de quase três metros. Agora
estava reduzido a um palmo, mas a quantidade e a viscosidade não haviam perdido
muito com o tempo. O cheiro de água sanitária era até agradável, mas ele não
perdeu tempo. Espalhou o esperma no primeiro espelho à mão e se mandou. Daí em diante, se tornou El Gozador.
... falei que não adiantava confiar nos outros.
Escutou, com aquele bafo de cachaça. Ninguém o suporta, mas ele se ilude. Até
que enfim tirou aquela bunda gorda da cadeira. Como fica ridículo naquele
uniforme todo apertado...
Os funcionários estavam inquietos. Cada um inspecionava o banheiro, antes
de entrar, e se fechava à chave por dentro, com medo de ser incriminado num
novo atentado. A situação de dois machos se trancando no banheiro era
constrangedora, mas logo se acostumaram com esta contingência. Depois de um
certo tempo, a sensação de segurança voltou e a seqüência de pegar a chave,
entrar no banheiro e trancar a porta se tornou mais uma das rotinas diárias.
Não adianta mais. Tentei conversar com ele. Riu,
daquele jeito besta. Não entende nada de nada. Vai passando por cima de tudo,
feito um trator. Falei do Segredo de Fátima. – A Fátima gorda? – Meu Deus, por
que eu sou tão sensível a estas coisas? Por que a opinião dele me incomoda? Eu
tenho 26 anos de serviço, devia deixar tudo isso prá lá...
Ele observava o jato ainda quente
e espumante que turvava a água do vaso. O cheiro era acre e a coloração quase
alaranjada. Exagerei na cachaça ontem - pensou ele. Ele ouviu a porta do
banheiro se abrindo e o ruído da chave fechando-a novamente. A porta do boxe
estava aberta e ele ainda estava sacudindo o membro, quando se virou. Deu um
urro, mais pelo susto do que pela dor da dentada. Até que alguém conseguisse uma chave em outra
seção para abrir a porta, El Gozador teve a vítima à sua disposição.
Naquele dia finalmente conseguiram agarrar El Borrador, digo El Gozador,
ou seria melhor dizer, El Maricón. A vítima, o chefe da segurança, ainda
traumatizado, repetia o tempo todo: - este safado nunca foi doido. Estava o
tempo todo ao meu lado, me espreitando, planejando.
Hoje nós podemos dizer que El
Borrador foi, paulatinamente, preparando o cenário da caçada final, atiçando o
pretenso perseguidor, guiando os seus passos, disfarçando as próprias pegadas,
enquanto deixava uma trilha mal cheirosa. O caçador só soube que era a caça no
último instante, quando a armadilha que ele mesmo construíra se fechou e ele
encontrou o verdadeiro predador.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
O Arrudas desemboca no Mar Báltico - segunda parte
Os sonhos
Na adolescência, descobri
que tinha a habilidade de planejar meus sonhos. Ou, pelo menos, de controlar um
estágio de vigília meio adormecido. Num deles eu voava, passando por cima de
casas e cidades. Só precisava me concentrar para não perder altura, embora não
houvesse realmente o perigo de cair. A sensação era agradável. Sonhos Peter Pan.
Os sonhos induzidos, se é
que eram sonhos, às vezes escapavam do controle e acabavam virando pesadelos. Meus
pesadelos são recorrentes e me seguem até hoje, nas noites de insônia.
Quando garoto, tinha
alguns pavores: medo de bêbados e de loucos, medo de morrer afogado e de ficar
perdido. Quais seriam as Madeleines desses pavores?
Todo domingo, no Cinema
Rosário, antes dos filmes, passavam alguns seriados. Dentre eles, eu tenho
certeza de dois: Flash Gordon e Fu Manchu. Um episódio de Fu Manchu me perseguiu
por muito tempo. Na cena, a mocinha estava presa num cilindro de vidro, fechado
por uma tampa de aço. No recipiente havia um buraco por onde entrava a água,
que subia rapidamente. Durante algum tempo, ela conseguiu respirar o ar que
ainda havia na parte de cima, até ser encoberta totalmente pela água. O episódio terminava com ela se debatendo até
perder os sentidos. Não sei como a mocinha se salvou.
Hoje, quando estou
naquele estado intermediário, do qual ainda consigo sair por vontade própria, é
comum sonhar que estou numa caverna e tenho que mergulhar em um túnel cheio de
água. Eu nunca acho a saída. A variante
seca é quando fico entalado em uma passagem na rocha.
Será um eco da asma de
minha mãe, que herdei e repassei para o meu filho? Terá alguma conotação
sexual, como penso às vezes? Um pênis preso num buraco? O medo não tem uma base
real, porque eu tinha a mania de fazer túneis quando garoto. Nos barrancos da Rua
Cônego Floriano, no Bairro da Graça, onde a terra era avermelhada, com veios amarelados.
Ou na terra escura e fértil do quintal da Rua do Ouro. E adoro mergulhar.
Não gosto de altura,
embora não chegue a ser uma fobia e eu consiga caminhar sem medo num lugar
alto. Essa aversão produz os sonhos-gastura. Aquela sensação de passar o dedo
no veludo, ou de ouvir o giz rangendo no quadro. Nesses sonhos, vejo meu filho ainda
pequeno cair de uma janela. Quando chego na beirada de alguma coisa alta, na
vida real, às vezes me vejo caindo. É um flash que passa rápido e não retorna.
Os pesadelos propriamente
ditos, no estado de sonho profundo, eram outros. Sonhava que estava sendo perseguido
e que passava por vários cômodos sucessivos, que nunca terminavam; de uma sala
para um quarto, depois para uma cozinha e assim sucessivamente. Ou que estava
perambulando por uma cidade perfeitamente desconhecida, andando por ruas
intermináveis, percorrendo bairros diferentes, querendo chegar a um lugar que
não eu conseguia situar.
Os filmes e os livros da
coleção Terramarear deram origem aos sonhos de espadachim, nitidamente
inspirados em Scaramouche e Stewart Granger. Na vida real, eu tinha medo de
facas e canivetes. Lembro como fiquei quando li o significado da expressão: “briga
de homem é com camisa amarrada”. Dois cangaceiros amarravam as beiradas das
camisas desabotoadas e iam se furando, com suas peixeiras. Alguma coisa entre a
gastura e o pânico.
Minha mãe contava a história
de um menino que havia estava apontando um lápis com uma gilete. De repente
sentiu uma coceira nos olhos e, distraído foi esfregá-los, cortando-se com a
lâmina. Meu Buñuel - gastura, definitivamente.
Quando eu morria nos
sonhos era sempre com um tiro, como um herói que finalmente é derrotado pela
traição, ou pelo número dos adversários. A espada, com certeza, é um símbolo
fálico. Freud sabia das coisas.
Da leitura do livro “Tarzan
e os homens-formigas”, me ficara a imagem de uma tribo de mulheres. Nos meus
sonhos induzidos, eu fantasiava mulheres nuas, que podiam ser atravessadas de
lado a lado por uma espada e que nunca sentiam dor ou ficavam feridas. De
alguma maneira, elas estavam associadas a um nome: Alali. Minha fantasia era
atravessá-las de todas as maneiras, com predileção pelos seios. Outro dia achei
o livro em um sebo. Dei uma rápida folheada e o nome Alali trouxe de voltas as
minhas mulheres.
Sonhos de
pré-adolescente. Os hormônios ainda não haviam entrado em ebulição. Não preciso
dizer porque nunca tive vontade de fazer análise: eu mesmo sou meu terapeuta.
terça-feira, 22 de novembro de 2016
Manhã no Bairro Paraíso
Hora de pôr o lixo para fora
Os ônibus escolares passam
recolhendo o gado
Hora em que levo os gatos
pra passear
Pra comer a grama da
calçada
Os garotos pastam a primeira refeição: Geometria
Expelem uma bola de pelos: Física
Defecam Geografia
Vomitam História
Comem ração de filhotes
Ás vezes, ração molhada
Um pouco de leite, coalhada
São o futuro da nação
Os gatos cheiram o portão
Leem as primeiras notícias
Quem passou por aqui?
Aquele cachorro safado, aquele gato intrometido?
Os garotos pastam a primeira refeição: Geometria
Expelem uma bola de pelos: Física
Defecam Geografia
Vomitam História
Comem ração de filhotes
Ás vezes, ração molhada
Um pouco de leite, coalhada
São o futuro da nação
Os gatos cheiram o portão
Leem as primeiras notícias
Quem passou por aqui?
Aquele cachorro safado, aquele gato intrometido?
Os garotos abrem o zap
zap
Quem deu para quem?
As minas sacam os gatos
Os manos babam nas tetas
Os gatos se enroscam na
cama
Deitam no sofá
Ronronam
Começa um dia perfeito
Os garotos saem da escola
Um bando em revoada
Uma pegação, uma zoação
Oba! Vai ter porrada
São o futuro da nação
Tonto, meu gato preto, puxa conversa
Deitam no sofá
Ronronam
Começa um dia perfeito
Os garotos saem da escola
Um bando em revoada
Uma pegação, uma zoação
Oba! Vai ter porrada
São o futuro da nação
Tonto, meu gato preto, puxa conversa
Ele detesta os ônibus, os
garotos sempre correndo
Tem medo desse bando
barulhento
Que um dia vai ter que
correr, pra ganhar sua ração
São o futuro da nação
Marco Lisboa
Marco Lisboa
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sexta-feira, 23 de setembro de 2016
O trabalho de inglês
- Me dá aí , disse Oliveira.
- Humm, letra de moça, com certeza. Redonda, caprichada. Olhe os
tês iniciais - elaborados. Tem um esse maiúsculo que parece uma clave de sol. E
olha que isso era um rascunho, está todo rasurado. Como é que ela entregou o
trabalho assim?
- Não entregou, fui eu quem tomou a folha.
- Dá para ver duas dobras, ele deveria estar dentro de um livro.
Por que você tomou o trabalho dela? perguntou Oliveira.
- Ela estava lendo essa folha, sem prestar atenção na aula. Quando
viu que eu a observava, dobrou o papel e o enfiou dentro da agenda. Fiquei
curioso e pedi o que eu pensei que fosse um bilhete.
- Não é bilhete, professor, estava conferindo o rascunho da
composição.
E me entregou essa folha.
E me entregou essa folha.
Era hora do recreio, a sala dos professores estava cheia e os dois
não tinham muito o que fazer.
- Vamos traçar um perfil da moçoila. Margens estreitas em todos os
sentidos, sem necessidade. Isso é raro. Segundos os especialistas, sinais de
uma personalidade conflitante. As linhas estão quase horizontais, mas nota-se
que são côncavas, vão descendo até o meio e depois sobem para manter o
alinhamento. Meticulosa e determinada. Oliveira se gabava de ser perito em
grafologia.
- Quanto a inclinação da letra, ela é praticamente vertical, com os tês em ângulo de 90 graus - autocontrole. Letra muito legível - sociável. Eu diria que a letra é grande -autoconfiança. Letra larga e espaçada - orgulhosa. Olhe esses emes, enes e os. Eles formam arcadas na parte superior - calculista. As letras estão todas ligadas - autodisciplina.
Letra redonda, definitivamente - afetiva. A letra é pressionada com força e a pressão é constante. A caneta é uma esferográfica vagabunda, forma pontos de tinta onde se detém para mudar de direção. Eu não diria que é uma escrita lenta. Ela tem algumas letras mais rebuscadas, mas ganha tempo com os tês, os efes e os pês - emotiva. Engraçado, emoção e razão estão brigando. A área superior está bem balanceada em relação a área central. Uma boa proporção entre os tês e os emes, eu diria - equilibrada. Essa área central diz que ela gosta de chamar a atenção.
- Quanto a inclinação da letra, ela é praticamente vertical, com os tês em ângulo de 90 graus - autocontrole. Letra muito legível - sociável. Eu diria que a letra é grande -autoconfiança. Letra larga e espaçada - orgulhosa. Olhe esses emes, enes e os. Eles formam arcadas na parte superior - calculista. As letras estão todas ligadas - autodisciplina.
Letra redonda, definitivamente - afetiva. A letra é pressionada com força e a pressão é constante. A caneta é uma esferográfica vagabunda, forma pontos de tinta onde se detém para mudar de direção. Eu não diria que é uma escrita lenta. Ela tem algumas letras mais rebuscadas, mas ganha tempo com os tês, os efes e os pês - emotiva. Engraçado, emoção e razão estão brigando. A área superior está bem balanceada em relação a área central. Uma boa proporção entre os tês e os emes, eu diria - equilibrada. Essa área central diz que ela gosta de chamar a atenção.
- Humm, essa parte inferior invade a linha de baixo – ela é do
tipo esportiva?. E esses laços rebuscados dos efes? Aí tem. Essa menina esconde
algumas taras. As maiúsculas são bem ornamentadas, com ênfase no lado esquerdo
- vaidosa e egoísta. Esses ornamentos nos is e nos tês iniciais denotam certa
imprudência. E o traço extra no a maiúsculo confirma a meticulosidade.
- Agora vamos aos as e aos os minúsculos. Bem fechados - cautelosa.
E os dês e gês? Esse laço no gê a entrega - impulsiva. O seu i maiúsculo é
original. Não dá para dizer muita coisa. Esses pingos nos is minúsculos, à
direita da letra, mostram entusiasmo e rapidez. Esse traço ornamentado no tê
maiúsculo é sinal de mau gosto. E o corte nos tês minúsculos mostra ambição,
agressividade.
- Resumindo: a moça é impulsiva, mas sabe se controlar. Sociável,
afetiva, mas ambiciosa e agressiva. Ela tem autoestima elevada, sabe o que quer
e é do tipo esportivo, pensa rápido. Quer um palpite: ela tem fantasias em
relação a você. Você era o destinatário do bilhetinho, que deveria ser anônimo.
Ela agiu rápido e entregou esse rascunho, que deveria estar na agenda. Chame
para sair e vê o que acontece. E depois me conta.
Ah,esse Oliveira...
quinta-feira, 15 de setembro de 2016
O Arrudas desemboca no Mar Báltico - segunda parte
Os Quinze
O espaço-tempo
é relativo. De 12 anos até os 15 e dos 15 até os 17, decorrem décadas. Equivalem à distância entre os 30 e os 40 ou
entre os 40 e os 50. Por uma questão de proporção, é preciso escolher alguns
anos mais emblemáticos, mesmo com o risco de deixar de fora eventos muito
significativos. Como eu vou e volto nesse contínuum, ora visitando o passado
com minha consciência presente; ora recuperando meus olhos de criança ou de
adolescente; o que ficou para trás será retomado em algum momento, se valer a
pena.
Os 15 são definitivamente um divisor de águas. Nesse ano, nasceu
uma barba cerrada, que me permitia assistir os filmes de 18 anos. Deixei para
trás aqueles vergonhosos 1,60 m. Emagreci. Entrei para o primeiro científico.
Turma mista.
Deixei de ser um bicho do mato que sofria com as brincadeiras dos colegas mais velhos. A turma saia junta para beber, para as festas e excursões. Em vez de colecionar maços de cigarros, tornei-me um consumidor. As preferidas eram as cigarrilhas Vedete. Baratas e fáceis de serem escondidas. A primeira namorada só veio aos 17, mas as primeiras experiências sexuais, com a vizinha da minha avó, começaram nessa época.
Deixei de ser um bicho do mato que sofria com as brincadeiras dos colegas mais velhos. A turma saia junta para beber, para as festas e excursões. Em vez de colecionar maços de cigarros, tornei-me um consumidor. As preferidas eram as cigarrilhas Vedete. Baratas e fáceis de serem escondidas. A primeira namorada só veio aos 17, mas as primeiras experiências sexuais, com a vizinha da minha avó, começaram nessa época.
O que eu pensava das coisas em geral, da existência, do meu lugar
no Universo? Lembro uma conversa embaraçosa com o Xexéu. O apelido era devido
ao cabelo meio alourado e desgrenhado, parecido com a plumagem do passarinho. A
turma era um zoológico. O Cobra era Cobra por força do sobrenome. O Bezerro,
por ser a cria preferida da Vaca Holandesa, nossa professora de matemática. Que
devia o apelido aos seus grandes olhos azuis e desesperados. E a uma certa
pachorra bovina, com que reagia às brincadeiras pesadas da turma. O Bezerro
tinha o cabelo curto e empastado – consequência das lambidas da Vaca. O Barrão
era mais velho e ostentava uma pança digna de um porco novo inteiro. Acho que o
zoológico terminava com esses espécimes. Havia o Buick, não sei por que cargas
d’água. O Maranhão, por conta de seu estado natal. E eu, Garrafa, por conta dos
óculos fundo de garrafa, graças a uma miopia que só me permitia contar os dedos
da mão do oculista até um metro de distância.
Certo dia, eu havia passado na Biblioteca e descido a Bahia para o
centro, com o Xexéu, que ia pegar o ônibus para Santa Tereza. Bem na Afonso Pena,
onde íamos nos separar, ele me pergunta, sem maiores introduções: o que você
acha do homem?
O Xexéu, Ferrugem ou Beatnik, tinha a cara dos anos sessenta:
barbicha rala e óculos de intelectual. Era enturmado com a esquerda católica. Que,
a essas alturas, estava deixando Maritain para trás e mergulhando em um
humanismo mais engajado. Eu lia de tudo e não sintetizava nada daquela
mistureba de Dostoievsky com Bertrand Russel. Em política, era contra os
militares e os americanos e apoiava o socialismo, o que não queria dizer muita
coisa. A maioria no Estadual pensava assim.
Eu queria ser livre, antes de mais nada. E mergulhar de cabeça nas
novas experiências. Queria ser campeão mundial de xadrez. Queria dar uma carga
de baioneta e morrer como um herói. Queria beber como um herói. Queria me
envolver com uma daquelas heroínas de Dostoievsky, bem trágica.
- O que eu acho do homem? Eu gosto é de mulher. O resto da cena,
piedosamente, se perdeu. Não sei como terminou aquela conversa constrangedora.
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segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Meu 11 de setembro
Setembro
de 1973, eu estava em São Paulo, clandestino. Enquanto isso, minha diretoria da
UNE se dissolvia. Eu havia saído de Porto Alegre, depois de uma série de
prisões. Fui primeiro para Caxias, onde fiquei na casa do Ernesto, velho
militante do PCB.
Um
dos temas, inevitável, de nossas conversas, era a situação do Chile. Minhas
previsões eram pessimistas: o golpe era iminente. Seria uma reedição do golpe
de 64. Mais um na série de golpes militares que assolaram o continente nos anos
70. Ernesto discordava. Segundo ele, eu não confiava na força da classe
operária chilena. Não chegamos a um acordo.
Em São Paulo, ironicamente, eu fiquei numa pensão da Lapa, perto do aparelho do PC do B que seria estourado em 1976. Quando vi as fotos da sala, com o sofá e a mesa de centro, reconheci o local onde havia me reunido com parte do Comitê Central várias vezes, desde 1970.
(Foto da chacina da Lapa, com os corpos de Ângelo Arroyo e Pedro Pomar)
Em São Paulo, ironicamente, eu fiquei numa pensão da Lapa, perto do aparelho do PC do B que seria estourado em 1976. Quando vi as fotos da sala, com o sofá e a mesa de centro, reconheci o local onde havia me reunido com parte do Comitê Central várias vezes, desde 1970.

(Foto da chacina da Lapa, com os corpos de Ângelo Arroyo e Pedro Pomar)
Da
pensão de Dona Pierina guardo algumas lembranças. A dona, uma italiana que
adorava Fernet, muito branca, com a pele macilenta. Um hóspede, negro, que
curtia a novela O Bem Amado, que assistíamos na televisão da sala comum.
Estávamos
em pleno governo Médici, na véspera da ofensiva final contra a Guerrilha do
Araguaia. O PC do B estava sendo exterminado nas cidades. Em dezembro de 72,
caiu o sítio em Jacarepaguá. Onde eu
havia me reunido algumas vezes com Lincoln Oest, Carlos Danielli e Guilhardini,
do Comitê Central. Todos assassinados.
Lembro
vagamente de um militante do Espírito Santo, que participou de uma dessas
reuniões. Era o Foedes, que entregaria o sítio e o partido no seu estado.
Miriam Leitão foi presa, em consequência dessa delação.
O
Bem Amado, de Dias Gomes, era uma parábola sobre o poder. Falava do
coronelismo, mas podia ser lida como uma crítica aos generais. Não me lembro do
nome do meu companheiro de pensão, o negro que curtia a novela. Por um ou outro
comentário, eu percebia que ele ia além de uma leitura imediata da trama.
Um
dia de setembro, pela manhã, veio o golpe. Que assisti em preto e branco, narrado
segundo a versão de Pinochet. Á noite a Junta Militar já havia assumido o
poder. 300 mil pessoas foram presas, 35 mil torturadas, pelo
menos 3 mil assassinadas nos primeiros dias do golpe e mais de 30 mil durante o
regime Pinochet. Lembro de o negro ter comentado que Allende era um
homem bom.
O Bem Amado virou uma série, em 1980. O Chile elegeu e
reelegeu Bachelet, que foi para a clandestinidade, depois do golpe, sendo presa
e exilada. O Brasil saiu do regime militar em 1985. Alguns dos militantes que
participaram dessa luta estão de volta à cadeia. Dessa vez por corrupção. Houve
um outro 11 de setembro, que ofuscou a queda de Allende.
Se a História se repete, é certo, com novos atores e novos enredos, temos que procurar o similar do impeachment de Dilma no impeachment de Collor. Dilma não é Getúlio, muito menos Jango, menos ainda Allende. O PT não é de esquerda e os militares estão nos quartéis (menos na Venezuela).
Se a História se repete, é certo, com novos atores e novos enredos, temos que procurar o similar do impeachment de Dilma no impeachment de Collor. Dilma não é Getúlio, muito menos Jango, menos ainda Allende. O PT não é de esquerda e os militares estão nos quartéis (menos na Venezuela).
Eu também mudei, só não perdi aquela mania de me
apegar à realidade, por mais que ela contrarie os meus desejos.
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Miriam Leitão,
PC do B
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
O Arrudas desemboca no Mar Báltico - segunda parte, capítulo 6
A biblioteca
A Biblioteca Pública ficava
na rota de saída do colégio. Eu descia a pé a Rua da Bahia, parava para
devolver um livro e retirava outro. Lia num ritmo de uma página por minuto,
praticamente um livro por dia. Todo Sherlock Holmes, todo Dostoievski, Allan
Poe, Chesterton, Aldous Huxley, Walter
Scott e um monte de autores menores, ingleses e americanos. Voltaire e Bertrand
Russell. Anatole France, Prosper Merimée e um monte de autores menores
franceses.
Lia sem método, pulando
estilos, países, sem recomendação de ninguém. Dostoievski me impressionou
particularmente. Seus personagens torturados, perdidos. Adorava seus enredos
melodramáticos, quase novelísticos, suas mulheres orgulhosas, que se humilhavam
para provar sua superioridade moral. Eu as via pálidas, de grandes olhos,
gargantilhas e camafeus, cabelos presos, saias negras até o chão.
Admirava suas discussões
teológicas, seu eslavismo, sua exacerbação. Os nomes que eu pronunciava à
brasileira (Karamazóv e não Karamázov), os estranhos costumes, os prédios com
vários apartamentos, pequenos quartos alugados e um pátio. Era um escritor que
contabilizava cada copeque. Dostoieviski fazia questão de discriminar o valor em rublos
de cada propriedade, o salário de cada pequeno funcionário, o valor de cada
garrafa de vodka barata.
Estranhamente, nunca
pensei em escrever.
Acho que era muito crítico, tinha padrões muito altos.
Detestava as aulas de português, a poesia e as redações obrigatórias. Gostava
de fazer resenhas de livros. Na maior parte das redações, os meus colegas
buscavam os efeitos fáceis, as descrições de paisagem com o sol sempre se
pondo, ou nascendo. Eu fazia uma redação padrão, dissertativa, sem grandes voos.
Lembro-me de uma redação
que fez sucesso na escola. O soldado, perdido do batalhão, no meio da neblina, escutando
cada ruído. Era jovem, arrimo de família, não entendia o porquê da guerra,
queria viver, aqueles clichês todos. Alto, quem vem lá! Era amigo. E tome
discurso. Até o fim triunfal. Um estalo. Quem vem lá! Era o inimigo.
A maior parte de minha
cultura inútil foi adquirida na adolescência. Adquiri a arte de pesquisar
rapidamente um assunto, de estabelecer correlações e me tornei definitivvamente
um autodidata. Meu vocabulário era enorme, possuía um conhecimento
enciclopédico de países, cidades, costumes, moedas, etc. Karl May foi lido de
cabo a rabo. Sabia os nomes dos animais amigos do Tarzan, as palavras da
linguagem dos gorilas, um monte de expressões em árabe, as peças de uma
armadura medieval e por aí vai.
Era o mais novo da turma,
um dos mais baixos. Óculos fundo de garrafa, tártaro nos dentes, desajeitado.
Não sabia dançar nem andar de patins e caia da bicicleta.. Tímido, poucos
amigos, sofri nos primeiros anos com as piadas e as alusões sexuais que não
entendia. O espelho era meu inimigo. Gordinho, feio, a testa curta, o nariz
chato, o queixo redondo. Até chegar aos 15.
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terça-feira, 16 de agosto de 2016
A trilha Ho Chi Minh - segunda parte
A minha guerra
era travada no alpendre da casa da minha avó. As bisnagas de colírio eram as B
52; as formigas cortadeiras eram as outras formiguinhas humanas, os
vietnamitas. Como eu já revelei, um metro abaixo do parapeito, havia um ressalto
que contornava toda a casa. Ele era usado como trilha para abastecer o
formigueiro. O bombardeio de água não era letal. No máximo eu conseguia acertar
em cheio uma formiga, com uma gota de água, arremessando-a uns dois metros
abaixo, no chão do jardim. As bisnagas podiam dar rajadas (jatos contínuos) ou
tiros (gotas). Eu preferia os tiros, a água durava mais e não eram tão
impessoais. Às vezes eu perseguia uma formiguinha mais rápida, com tiros que
iam deixando sua marca na trilha caiada. Ela se sacrificava para permitir que
suas irmãs atravessassem com sua carga preciosa. Outras vezes, era mais
científico: fazia uma barreira de fogo que detinha a coluna. O bombardeio
durava horas. Ás vezes, um curioso parava no passeio, para ver aquele
adolescente, de óculos fundo de garrafa, brincando como uma criança.
É engraçado
como cultivamos alguns medos e aversões. Toda minha adolescência foi povoada de
fantasias de duelos e de brigas, no melhor estilo dos filmes B. Uma coisa eu
detestava nesses filmes: aquelas cenas de batalha em que a infantaria avançava
com o passo cadenciado pelos tambores, passando por cima dos soldados que iam caindo,
derrubados pela artilharia do inimigo. Se alguém tem um fuzil na mão, por que
não atirar? O que tem na cabeça de um sujeito que vai para a batalha tocar
tambor ou carregar o estandarte do regimento?
Nas poucas
passeatas em que participei, ficava sempre na retaguarda, pronto a sair
correndo. Não era só uma questão de medo. Uma vez participei de uma panfletagem
no Mineirão. O Mineirão foi inaugurado quando eu estava no segundo científico,
com um gol de Bugleaux. A panfletagem deve ter sido no segundo ou no terceiro
científico. Lembro que o Xexéu (também conhecido como Ferrugem) participou de
alguma maneira. Os panfletos eram guardados dentro da meia; uma folha de meio
papel ofício, mimeografada. Não lembro qual era o jogo. Ações assim, individuais,
em que eu “controlava” os acontecimentos eram excitantes. Mais tarde eu faria
com prazer pichações e panfletagens noturnas.
Era difícil
definir como eu encarava aqueles estudantes que iam à frente das passeatas; com
as faixas, muitas vezes de braços dados, formando uma corrente. Na maioria das
vezes eram os primeiros a apanhar de cassetete e não tinham muito para onde
correr. Primeiras manifestações de individualismo? Eu me dispunha a levar o meu
fardo na trilha, junto a outras tantas formiguinhas, mas nada de ir na frente.
O que eu fazia
com 17 anos na casa da minha avó? Acompanhava minha mãe, que mais uma vez havia
brigado com o meu padrasto. Nas horas vagas, comia a garota retardada do vizinho
e estudava para o vestibular de engenharia. Consegui sucesso nas duas empresas:
passei e engravidei a garota. Perdi a guerra contra as formigas. Os americanos
também perderam a sua.
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quinta-feira, 11 de agosto de 2016
O Arrudas desemboca no Mar Báltico - A trilha Ho Chi Minh, primeira parte
A
trilha Ho Chi Minh
Sem querer,
acabei abandonando o critério temporal em favor de uma abordagem temática: o
colégio, os professores, o clube de xadrez. Essa escolha tem uma vantagem
evidente, ela ressalta as invariantes e as transformações de meu caráter.
Minhas obsessões e minhas escolhas.
A datação por
artefatos, como método auxiliar vai perdendo importância, à medida em que
aumenta a minha interação com o mundo exterior. A maior parte dos artefatos de minha infância e mesmo da adolescência não
chegou até a idade moderna. O sabão Aristolino foi um dos que se extinguiram.
Ficava em cima da pia de louça decorada, dentro de um globo de vidro preso por
uma corrente. O líquido verde se acessava apertando uma peça de metal na parte
de baixo da esfera. Mais uma espécie extinta: as caixas de madeira do Mate
Leão, feitas de peças denteadas de madeira, que se prendiam por pressão e eram
ótimas para se guardar bugigangas.
Gostava também
dos potes de Rugol, um creme que minha avó usava diariamente, feitos de um
plástico duro e com uma tampa de rosca toda decorada, como um camafeu. O creme
parecia fazer efeito, pois ela chegou aos noventa com uma face de porcelana.
Alguns
remédios, talvez mais eficazes, perduram: a Emulsão de Scott, ótima fonte de
vitaminas A e D (eu adoro o seu gosto e parece que não mudaram muito o rótulo);
o Polvilho Antisséptico Granado e as pastilhas Walda (tenho um monte de suas
caixinhas de metal).
O Fercobre,
que deixava os dentes pretos e era bom para anemia acabou. Seu sucessor, o
sulfato ferroso, é um pó muito barato e sem graça, que nem embalagem tem. O avô
de todos os fortificantes eram as garrafadas que o meu bisavô fazia: uma
beberagem que vinha sempre com um prego enferrujado no fundo. Ao fazer um inventário
destes produtos, percebo que as suas embalagens me atraiam muito mais do que o
conteúdo, por mais virtuoso que ele fosse. Seria esta a minha primeira
manifestação de formalismo?
O formalismo é o pior inimigo da arte
socialista soviética. Seu perigo geralmente reside no fato de que ele oferece
aos agentes fascistas, aos desprezíveis degenerados trotskistas, aos renegados de
direita e a todos os inimigos do povo a possibilidade de difundir ideias
antissoviéticas e contrarrevolucionárias, sob a capa de infinitas maquinações,
manobras e “valores estéticos” independentes. (Revista Teatr, 1937)
Uma coisa é
certa, eu adorava as bisnagas de plástico do Colírio Moura Brasil. Nunca usei o
seu conteúdo. Pelo contrário, às vezes acabava com ele mais rápido para poder
usar a bisnaga. Elas tinham um bico de plástico com um furo muito bem
dimensionado. Quando cheias de água seu jato ia longe e não se dispersava. Era
ótimo para produzir rajadas de metralhadora nas paredes caiadas de rosa.
A trilha Ho
Chi Minh é fácil de ser datada. Foi no ano em que fiz vestibular. A guerra do
Vietnã estava no auge. Os vietnamitas usavam uma trilha no meio das selvas, através
do Cambodja, para abastecer os guerrilheiros que lutavam no Vietnã do Sul. E os
americanos os bombardeavam diariamente, com suas B 52, que eram inacessíveis
aos poucos Mig 17 e 21 do Vietnã do Norte. Os armamentos eram transportados
individualmente, nas costas dos soldados, como numa enorme correição de
formiguinhas. Um ano depois, houve a ofensiva do Tet, o ano lunar chinês. Fiz
meu primeiro poema concreto, que me deixou muito orgulhoso.
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segunda-feira, 1 de agosto de 2016
O Arrudas desemboca no Mar Báltico - Capítulo 4, continuação
O Clube de xadrez - última parte
Nas partidas amistosas, os trocadilhos e as provocações se cruzavam, como
num jogo de truco:
- Isso não é cavalo, é um pedaço de pau!
- Isso não é bispo, é um peão grande!
- Aceita tablas? - só se empatava (entablava) em espanhol.
Jaque! - os xeques eram dados com o
jota bem escarrado.
O espanhol era a língua do xadrez. Influência dos livros vendidos na
Livraria Científica, onde o Cota trabalhou. Até o dia em que meteu uma bala na
cabeça por causa de uma mulher.
O abandono da partida era uma marca individual: os mais dramáticos
deitavam o rei sobre o tabuleiro. Havia gradações: uns derrubavam a peça com
raiva, outros a mantinham presa pelo cocuruto com o indicador e só faziam uma
leve reverência ao adversário. Os discretos apenas paravam o relógio, igualando
a altura dos dois pinos. Os amantes do suspense escreviam abd. (Abandonam) na
planilha e depois apertavam a mão do adversário. O aperto de mão final era
praxe, algo como o abraço dos dois boxeadores depois do combate. A diferença
era que, aqui, a iniciativa devia partir sempre do derrotado. O abandono mais
espetacular que eu já vi foi num torneio em São Paulo , em que o
perdedor varreu o tabuleiro com as duas mãos, que se fecharam com uma porção de
peças no meio do tabuleiro. Depois elas foram largadas, deixando a posição
completamente destroçada. O perdedor se levantou e saiu, sem assinar a planilha
e sem cumprimentar o adversário. Mas isso é muito raro. Eu, particularmente,
preferia pular as etapas, erguer a cabeça para o adversário e apertar a sua
mão. Quem tem uma posição ganha, está
espreitando esse momento, tentando adivinhar quando e como será o abandono.
Outra regra de etiqueta, que o capivara ignora solenemente, é que não se
deve prosseguir uma partida totalmente perdida, até ficar sem todas as peças ou
levar mate. Entre mestres, a vantagem de uma peça, sem compensação, já é
suficiente. É, é obvio, um mate forçado. Não se deve insultar o adversário
presumindo que, depois de jogar melhor o tempo todo, ele não verá um lance
idiota. Uma das lições mais amargas do xadrez é essa: saber quando é a hora de desistir, de reconhecer que a partida
acabou.
Infelizmente um acidente me impediu de continuar frequentando o Clube.
Escolhi a sua sacada para uma panfletagem. Os panfletos subiram na pasta da
escola e no horário marcado, seis horas da tarde, quando eles deveriam chover sobre
todo o centro, não foi difícil chegar até a sacada sem ser notado. Eu levava dois maços de quinhentos panfletos
mal cortados, impressos em mimeografo Gestetner, com a tinta ainda úmida. Com
medo de ser visto pelos freqüentadores do clube, fui atirando os bolos
rapidamente, torcendo para eles se abrirem e se espalharem. O último não abriu e
os panfletos desceram unidos. A parábola terminou em cima do teto de um carro
estacionado, a força do atrito quase não diminuiu a aceleração e o barulho
chegou até lá em cima.
Felizmente não houve vítimas fatais. A polícia subiu pouco
depois que eu desci pelo elevador e até hoje eu sou lembrado como o cara que
quase fechou o Clube de Xadrez de Belo Horizonte.
A essa altura, eu sabia que a Revolução era o grande jogo - o pôquer da
política. Eleição, reforma, isso é buraco, jogo de mulher prenha. No xadrez, cada jogada é condicionada pela
anterior e as forças vão se exaurindo, à medida que as peças são tomadas. Uma
grande inferioridade estratégica é irreversível, pelo menos numa partida bem
jogada. No pôquer, cada mão é uma nova história. E você pode comprar mais e
mais cacifes. Basta ter culhões.
O que os bolcheviques fizeram na Rússia foi persistir no jogo, minimizar
as perdas, manter a perspectiva e não afinar nunca. Quando chegou a grande mão,
quebraram a banca e acabaram com o jogo. Isso também é conhecido como tomar o
bonde da história. O bonde demora e não passa duas vezes. Ou, pelo menos, eu
pensava assim.
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quarta-feira, 27 de julho de 2016
O Arrudas desemboca no Mar Báltico - Segunda Parte,Capítulo 4
O Clube de xadrez
O Clube fica na Curitiba, esquina com Carijós, no décimo terceiro andar.
Como o alvará também permite jogos de cartas, quem é viciado em xadrez, assim
que sai do elevador, vira à direita; quem vai jogar baralho vira à esquerda. A
entrada dá para um amplo salão, cheio de mesas, com uma pequena sacada.
É o único clube da cidade. A elite enxadrística mineira está ali: Eugênio
German, que participou da Olimpíada de Helsinque em 1952 e que tem norma de
Mestre Internacional; Marcio Miranda, Jarbas Ladeira, Ruillon e os irmãos
Entin: Isac e Boris. O primeiro conhecido como Isaquentinho. E o Cotta,
naturalmente, vulgo Tampinha. Eu frequentava o clube para jogar relâmpago com
um colega de Estadual, o Ronaldo. De vez em quando, participava de um lance do
mestre, ou de um campeonato colegial.
O xadrez relâmpago, ou ping-pong, é disputado com um tempo de cinco
minutos para cada jogador. O relógio de xadrez é composto por dois relógios
independentes, montados numa caixa comprida, no formato de um tijolo. Cada um
desses relógios tem um pino na parte de cima da caixa. O pino levantado indica
que o tempo de quem tem a vez está correndo. Depois de fazer sua jogado, o
jogador bate no pino, que se abaixa e para o seu relógio. Automaticamente, o
pino do outro relógio se levanta e assim sucessivamente.
Cada mostrador tem uma bandeirinha vermelha móvel, bem na parte de cima -
a seta. Ela é levantada pelo ponteiro de minutos. No exato momento em que a
hora termina, o ponteiro ultrapassa a bandeirinha, que, sem apoio, cai. É o fim
da partida.
A primeira solenidade é o acerto dos relógios. Um dos jogadores coloca
cinco para as dez, nos dois mostradores e apresenta o relógio para o outro
conferir. As mãos são apertadas, ambos se desejam boa sorte e o duelo começa. O
grito de “a seta caiu” significa a derrota, não importa a posição que esteja no
tabuleiro. O Ping é a coreografia perfeita para o Bolero de Ravel, o ritmo
marcado pelo ruído seco dos tapas na caixa do relógio. A porrada ajuda a
intimidar o adversário e favorece a caída da seta. O cabelo dos jogadores vai
se eriçando; o cigarro derrama cinza por todo o tabuleiro e as caretas de dor
ou de alegria ilustram o desenrolar da partida.
Numa partida de campeonato, o ritmo é menos frenético, um adágio lento.
Os gestos são mais largos e demorados. Para se colocar um cavalo numa casa
forte, o movimento próprio é o de atarraxar. Uma ou duas atarraxadas são suficientes
para sublinhar a importância da casa conquistada. Steinitz disse: - quando eu coloco um cavalo
em 6R, posso ir para casa, porque o resto da partida se joga sozinho! As peças
são tomadas com um movimento de varrer, em que a base de uma bate na base da
outra. Imediatamente, as duas são agarradas e levadas juntas para fora do
tabuleiro. As vítimas ficam amontoadas na borda da mesa, de preferência cada
peça branca ao lado da peça negra equivalente. Isso facilita o trabalho do
sapo, que, com uma olhada, já sabe quem está ganhando. Ou pensa que sabe.
As torres se movem na primeira fila empurradas pela lateral do dedo
indicador, que alisa carinhosamente o tabuleiro, prolongando o suspense.
Tarrasch dizia: - quando estiver em dúvida sobre qual torre colocar em uma
coluna, se a da dama ou a do rei, analise criteriosamente a posição, veja qual
é a jogada mais lógica e faça a outra! Os bispos percorrem sua diagonal com um
movimento acelerado, freando em cima da casa ocupada. São peças de longo
alcance, morteiros que podem atingir o outro lado do tabuleiro. Os cavalos
devem saltar graciosamente, provocando a infantaria inimiga. Os meus costumam
ficar com o focinho virado para trás, para oferecer a menor área possível à
visão do inimigo. Tudo isso, para ser executado com perfeição, exige peças do
modelo Stauton.
A dama adversária é tomada com um movimento de agarrar, em que os cinco
dedos se fecham sobre a rainha, escondendo-a. Eu tentava inutilmente copiar o
movimento dos grandes jogadores, treinando o modo certo de rodar o peão, preso
pela pinça do polegar e do indicador. A base larga, com a sacudida inicial,
deve fazer um giro de 180 graus, para, depois de outro impulso, completar a
volta. Todas as peças vêm com um peso de chumbo na base. Como a base do peão é
bem larga, em relação à sua cabeça, a rotação gera um grande momento angular,
que pode determinar a fuga do peão pela tangente. O final da trajetória pode
ser o outro jogador, ou, o que é pior ainda, em cima do tabuleiro. É um
movimento de grande responsabilidade, que poucos dominam.
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terça-feira, 26 de julho de 2016
Dicas de viagem - Paris
Paris tem um excelente sistema de metrô, que cobre todas as áreas relevantes para o turista. É rápido e barato. Outro boa pedida é o Batobus, um passeio de barco pelo Sena, com 9 paradas. Com o bilhete dá para descer e subir à vontade nos pontos de interesse. Você pode começar, por exemplo, pela Torre Eiffel. Subir até o topo, comer no restaurante ou no bistrô, tirar muitas fotos e embarcar no próximo barco.
A próxima parada é o Cais D'Orsay, bem em frente ao museu D'Orsay. Outra visita obrigatória. Essa merece no mínimo a metade do dia, senão o dia todo. Adiante, SainGermain de Prés, Uma boa pedida para uma caminhada pelo bairro. Depois, a Notre-Damme. Obrigatória, é claro.. Antes de o barco retornar, o Jardin des Plantes, para os amantes da natureza.
Depois, o Hotel de Ville e o Louvre. O Louvre é visita de um dia, no mínimo. Nos Champs-Elysées, outra caminhada, que pode ir até o Arco do Triunfo ou, na direção da Praça da Concórdia, até a Galeria Lafayete. Não recomendo comprar o bilhete de dois dias. O melhor é escolher umas duas ou três paradas previamente, almoçar pelo caminho e aproveitar para conhecer alguns pontos e tirar algumas fotos.
Os ônibus também são rápidos e baratos.De onde eu fiquei, até o Arco do Triunfo, pela linha 31, eram uns 15 minutos. O problema é que os motoristas não curtem dar informações em inglês e meu francês é rudimentar. Nesses casos, o melhor é começar com o francês que se tem e esperar que ele mesmo passe para o inglês.
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sábado, 16 de julho de 2016
O Arrudas desemboca no Mar Báltico - segunda parte, terceiro capítulo
A
cola
“ Quem não cola, não sai da escola”. É mais justo inverter a frase e
dizer: quem saiu do Estadual, já colou. As exceções são as de sempre e servem
para confirmar a regra: os dois ou três CDFs que havia em cada sala. Esses não
colavam porque não precisavam. Havia ainda os objetores de consciência, que
diziam:
- Quem passa colando irá fracassar mais tarde, quando precisar mostrar
seu conhecimento, porque não aprendeu nada – só faltava acrescentarem – foi
mamãe quem disse.
Eu sei que isso não é verdade por experiência própria. O conhecimento que
fica é aquele básico, que foi sendo acessado e indexado pelo uso. Quando for
necessário um conhecimento mais aprofundado, basta saber onde procurar. Ou
então usar o método de convergência rápida - perguntar para quem sabe. Além
disso, como diriam os pedagogos modernos: a cola também é um momento de
aprendizagem. Seria mais legal se os objetores dissessem
que não se deve colar porque é feio, é pecado, Deus castiga, ou qualquer coisa
no estilo. Mas, em geral, a maioria
colava. Embora a maioria também achasse que não era certo fazê-lo.
A modalidade básica era consultar o livro ou o caderno debaixo da
carteira. Como o tampo encobria a visão do professor, sempre havia a
possibilidade de fechá-los com um rápido movimento. Depois era preciso morrer
negando. A melhor colocação para essa prática era na fila imediatamente em
frente ao tablado, junto a janela. As manobras anti-cola do professor eram
igualmente simples: caminhar de lá para cá, em frente ao quadro negro, ou ficar
parado no fundo da sala. Os mais sádicos preferiam deixar o aluno iniciar a
consulta, esperar que esse se empolgasse e depois surgir de surpresa, atrás da
carteira. Mas só os amadores caiam nessa.
Para os iniciantes, a cola em papel, passada pelo colega de trás era mais
garantida. Ela podia ser colocada no meio das folhas de papel almaço e
consultada com calma. O sopro também era bastante efetivo, mas tinha um alcance
limitado. Servia mais para lembrar um nome, na prova de história, ou dar o
resultado de um problema, na prova de matemática.
O que garantia o resultado era a cara de pau, o olhar perfeitamente
inocente, perdido no ar. Quando o colador surpreendia o professor encarando-o,
sempre funcionava dar um sorriso cúmplice, como se estivesse curtindo a prova
ou acabado de descobrir a pegadinha.
Há muitas lendas sobre o professor que ficava lendo o jornal e fazia um
furo de cigarro para poder flagrar os alunos. Os óculos escuros espelhados eram mais efetivos e não comprometiam a dignidade do mestre. Eram usados pelo
nosso professor de Ciências e o resultado era intimidador.
O verdadeiro profissional, levava a cola pronta. Diga-se de passagem, que
sempre que alguém mencionava a palavra cola, era corrigido: cola não, lembrete
para a prova. A televisão era a forma mais elaborada dessa arte. Numa caixa de
fósforos, sobre dois paus atravessados de lado a lado, era colocada uma tira de
papel movida manualmente. O modelo mais sofisticado envolvia uma propulsão
automática, à base de gominha, mas eu nunca consegui o segredo de sua
fabricação.
Em compensação, desenvolvi um modelo próprio, com tiras bem finas e compridas.
Elas eram dobradas ao meio, no sentido do comprimento e depois mais uma vez
ficando em formato de seta, como quem vai fazer um avião de papel. Dava um
pouco de trabalho, mas era possível folheá-lo, com se fosse um pequeno livro.
No último ano eu simplesmente trocava de prova com um colega, ou então
fazia a cola sincronizada. Cada vez que o professor passava pela minha fileira
e me dava as costas, eu consultava o lembrete. Quando as coisas estavam
apertadas, nós fazíamos uma junta de alunos, que ficava lá embaixo, mandávamos
a prova para fora da sala, e depois recebíamos as provas já feitas. Uma dessas,
que ficou na história, foi numa prova de matemática. A professora, desesperada,
não deixava ninguém entrar na sala. Colocamos o maço dentro da capa de um disco
e pedimos para um aluno de outra sala que fosse devolvê-lo. Funcionou.
De qualquer maneira, a minha carreira se deve muito mais ao acaso do que
a uma verdadeira vocação. O professor de latim era o Sardinha: Latim é língua
morta e Sardinha é peixe fresco. Eu detestava aquelas declinações e estava sem
média na matéria. Rosa, rosa, rosae ... e acabou o meu latim. Pedi a um colega
que já havia entregue a prova, que me passasse a sua televisão. Minha cara
deveria ser de culpado e eu me distraí consultando o lembrete. Tomei um susto
quando o professor me chamou e pediu que trocasse de carteira. Poderia ter me
dado um zero, com direito à suspensão. Saiu barato. Joguei a
televisão para debaixo da carteira, mudei de lugar e voltei a suar com as declinações. Me
ferrei, é claro. Aquele foi um momento crítico:se houvesse sido punido,
não teria continuado a colar. Daí para a frente, aprendi a dominar os nervos e
fui me aprimorando na arte.
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sexta-feira, 15 de julho de 2016
O Engavetador
Prezados leitores de A Província de Minas,
todos os domingos, a partir de hoje, teremos neste espaço uma crônica de Jota
Cê. Conhecido como o Quixote das letras mineiras, ele aqui estará, quebrando as
lanças de sua irreverência contra os moinhos de vento do nosso cotidiano.
O engavetador
Jota Cê
“O
tempo ruge!” E nos devora também, acrescenta este escriba. Tudo começou com uma
intimação do Leão. Não se assustem, não era
um devorador de cristãos, como aqueles do Coliseu. Ou melhor, podem se
assustar, porque era uma fera mais voraz ainda, o Leão da Receita.
O
funcionário que me atendeu, muito solícito, me fez sentar numa cadeira em
frente à sua mesa e de repente me mandou de volta àquele tempo mágico da
infância:
-
E aí Cobra, o que é que manda?
Antes
de prosseguir sou obrigado, amável leitor, a compartilhar um terrível segredo
com vocês. Não, as minhas declarações estão perfeitamente em ordem, mas o Jota
Cê que assina esta crônica, na vida civil, atende pelo nome de Júlio Cobra.
-
Andorinha!
Era ele mesmo, o Isidoro. Na
quarta série do ginásio ele ganhou dez centímetros de altura e um vasto bigode,
que carregava quase envergado. Só encontrei um apêndice capilar à sua altura,
muito mais tarde, quando fiz meus primeiros contatos com Nietzsche.
A professora de matemática, a
Vaca Holandesa, como era chamada, se assustou com aquela aberração, no meio de
um bando de adolescentes imberbes.
-
O que é
isto no seu rosto, menino?
- Ele engoliu uma andorinha,
professora, e ficou com as asas de fora (eu sempre chuto de primeira) - daí em
diante ele se tornou o Andorinha.
O que há num nome? Um Andorinha
apenas fez voltar a aurora da minha vida,
a minha infância querida, que os anos não trazem mais... Éramos
inseparáveis em tudo - vizinhos de quintal, fizemos o primário na mesma sala.
Adeptos da escola peripatética, aproveitávamos a caminhada de volta para longas
discussões literárias.
Seu pai sempre nos esperava
à saída do Instituto de Educação. Ele ia
atrás de nós, carregando as nossas pastas e dando uns grunhidos para chamar o
filho, quando ele se desgarrava. Muitas vezes a literatura era deixada de lado,
para que pudéssemos chutar uma tampinha, comprar um picolé, ou outra ocupação
igualmente importante. Uma de nossas
febres literárias foi o gibi do Flecha Ligeira. Nesta época cada familiar ou
amigo ganhou um nome de pele vermelha e o pai de Isidoro, com o seu andar
pesado e bamboleante, só poderia ser Urso Velho.
Éramos garotos normais, de
jogar bola, soltar papagaio e brincar de bolinha de gude. Era a paixão pela leitura
que nos fazia inseparáveis. Líamos de tudo, inclusive as revistas de
foto-novela da empregada, que eu surrupiava do esconderijo embaixo do colchão.
Numa daquelas caminhadas de
volta da escola, Andorinha, que ainda era Isidoro, veio com a descoberta definitiva:
- É muito fácil saber quem vai ficar com quem
numa foto-novela. Esqueça a história. É só olhar para as fotos em close dos
dois personagens. Se eles estiverem de perfil, um olhando direto para o outro,
com aquele olhar de peixe morto, no final acabam juntos. Mas se um estiver de
frente e o outro de perfil, então nada feito.
Fui conferir e era verdade.
Ora o vilão estava de frente, com um sorriso maquiavélico, enquanto a mocinha,
de perfil, fazia uma cara de pastel. Ora era a mocinha que olhava para nós,
como se estivesse com dor de barriga, enquanto o vilão ficava de perfil, com
cara de tesão recolhido. Os heróis sofriam o tempo todo, mas apareciam mais em
close, de frente ou três quartos, sérios que nem criança cagada. Já os vilões
eram mais divertidos e se davam bem a maior parte do tempo. Em compensação,
tinham menos closes. Este foi o meu primeiro contato com a metalinguagem.
Mais tarde a paixão pela
leitura virou paixão pela escrita. Eu publicava no mural da sala, no
jornalzinho do grêmio, onde desse, aqueles textos impublicáveis, que até hoje
me perseguem. Andorinha, que não era mais Isidoro, ia engavetando as suas
obras. No máximo, as mostrava para mim. Eu era o escritor e ele o engavetador.
A vida nos separou, por um
motivo qualquer, o tempo passou e Andorinha, que voltou a ser Isidoro, não é mais aquele galã. O bigode já se foi há
muito tempo. Quando foi buscar o meu processo no armário, reconheci nele os
passos do Urso Velho. O talento literário, se não se perdeu, só se exercita nos
despachos que profere.
- Não mudei muito - brinca,
talvez percebendo a minha expressão. - Ainda sou um engavetador - abre a gaveta
de sua mesa e me mostra a sua mais nova produção: uma pilha de processos.
- Este é o meu estoque
regulador. Eu sou um funcionário movido à pilha: quando a pilha de processos
está alta, eu acelero; quando está baixa eu freio e quando falta serviço,
desengaveto o estoque – e concluiu com o seu programa de vida:
- Minha meta é viver até os 150,
ou morrer tentando. Um terço de minha vida já foi para o saco. Agora só me
restam uns cem anos pela frente, até entrar em equilíbrio térmico com o
Universo.
- Ele não concluiu, amável
leitor, mas eu me permito fazê-lo: o tempo mata e cedo ou tarde ele vai nos
consumir - enquanto isso, vamos matando o tempo.
Carta para a
redação
Na semana
seguinte, a seção Carta dos leitores recebeu a seguinte correspondência:
Prezados
senhores,
Muito
interessante a crônica de estréia de Jota Cê, O engavetador. Gostaria de fazer
alguns reparos. É claro que o material ficcional não admite correções factuais.
Portanto, chamarei as minhas observações de contribuições críticas.
a) Não sei
porque o autor insiste em se chamar Júlio Cobra, ignorando a sua certidão de
nascimento, onde consta João Cobra. Mas não vamos crucificar mais um Jota Cê.
Afinal o que há num nome?
b) Jota Cê
nunca resistiu aos trocadilhos, às paródias, aos pastiches e a outras formas de
humor baixo. Neste caso quis fazer verão com uma só andorinha. Registre-se, a
bem da verdade, que a personagem do engavetador, calcada em pessoa ainda viva,
tinha outro apelido, talvez menos literário: Escovinha. O fato é que, quando a
Vaca Holandesa fez a fatídica pergunta, alguém (se não me falha a memória, foi
o Barrão) comentou em voz baixa: isto
não é bigode, é escova de dente de empregada doméstica.
A Vaca tinha
grandes olhos azuis, com aquela expressão triste de quem vai para o matadouro.
Gerou um filho, o Bezerro, seu aluno predileto, que tinha o cabelo tão lambido
que parecia sua cria. Barrão é um grande porco capado. O nosso só tinha em
comum com a espécie, a pança bem socada;
c) os textos
de Jota Cê eram realmente deprimentes. Infelizmente não se perderam. Há, nos
meus arquivos implacáveis, material suficiente para reconstituir os primeiros
passos de nosso Quixote;
d) quando
fala em “algum motivo qualquer”, referindo-se às circunstâncias que nos
separaram, ele consegue se superar em matéria de eufemismo. Na verdade, foram
dez anos de clandestinidade e algumas prisões que nos afastaram. Foi “este
motivo qualquer” que manteve os meus textos engavetados, enquanto o Quixote ia
publicando suas choradeiras sentimentais e individualistas;
e) já no
terreno propriamente estilístico, selecionei alguns dos adjetivos que o autor
esparramou pelo texto - fera voraz, funcionário solícito, apêndice capilar,
vasto bigode e adolescente imberbe, dentre outras pérolas. Aliás, louve-se o
seu esforço em reviver estas expressões do tempo do onça;
f) por
último, o Urso Velho leu a crônica e comentou: eu sabia que aquele menino não ia dar boa
coisa. O meu chefe está me olhando de banda e eu voltei a ser o que nunca fui,
Andorinha. Agora, na repartição, só me chamam assim;
g) de
qualquer maneira, foi muito proveitosa a leitura de sua crônica - descobri que
o tempo passa e que a gente envelhece. Espantoso. Ainda bem que o autor
resolveu ficar na crônica e desistiu dos contos e romances que publicava,
sempre às suas custas e sempre com prejuízo. É melhor mesmo não tentar vôos
literários mais altos, porque Deus não dá asa à Cobra. Desculpem, mas eu também
chuto de primeira.
Marco Lisboa
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terça-feira, 12 de julho de 2016
O Arrudas desemboca no Mar Báltico - segunda parte
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As salas de aula
As salas do Estadual
eram retangulares, na justa medida de cinco colunas de 6 carteiras. Cada
carteira era um conjunto inteiriço, composto de uma cadeira, com assento
dobrável, feito aquelas de cinema, e uma mesa, um tampo com um espaço em
baixo, onde ficavam os livros e as colas. A parte de cima tinha uma ranhura
onde se colocavam os lápis, e uma abertura redonda, supostamente destinada ao
tinteiro, que servia para sumir rapidamente com os papeizinhos
comprometedores, que às vezes circulavam pela sala. No fundo eram
perfeitamente inocentes - alusões à cor da calcinha da professora, a uma
colega que estava de paquete, coisas assim.
Mesa e cadeira eram
unidas por duas tiras de madeira laterais, que facilitavam o deslizamento
sobre o chão de tacos. Uma carteira bem impulsionada podia atravessar a sala
inteira, mas as alterações do padrão retangular eram raras. Um ou outro
professor experimentava colocá-las em círculo, sempre com péssimos resultados
pedagógicos.
Este número de trinta alunos por sala define
a fronteira entre um ensino de qualidade, embora restrito, e um ensino de
massa, de pouca qualidade. Trinta era o número máximo que um professor podia
controlar, do alto do seu tablado. As escolas públicas eram frequentadas pela
elite, que, democraticamente, passava por um exame de admissão. Alguns alunos
mais carentes conseguiam passar por essa peneira. Eu era um típico
representante da maioria, formada por alunos de classe média. Filho de
professora, casada com funcionário público.
A elite preguiçosa ia para as escolas particulares, também conhecidas
como boates ou PP – pagou, passou.
No terceiro ano
científico, ocupava sempre a última carteira da primeira fileira do lado da
porta. Eu usava um caderno de capa dura, que era arremessado contra as costas
da cadeira e servia para marcar o meu lugar. Ele assistia a quase todas as
aulas, enquanto eu jogava xadrez, no salão do barbeiro. Um tabuleiro só, para
toda escola.
No canto esquerdo da
sala, junto às janelas, havia um tablado, um quadrado onde ficavam a mesa e a
cadeira do professor. Seus domínios compreendiam uma área de circulação em
frente ao quadro e os corredores entre as filas de cadeira, por onde ele costumava
transitar nos dias de prova.
O nosso professor de
Geografia da quarta série, Juscelino Betâmio Paraíso, fazia questão de realçar a diferença entre os dois níveis com
seus sapatos 44 bico largo. Ele parava na quina do tablado, um meio pé para
fora e depois escorregava com um ruído seco, que marcava o exato momento em
que os saltos conseguiam se livrar da borda. Isso exigia a inclinação certa
do corpo, não tão à frente que ele se estabacasse, e nem tão tímida que o
deixasse engastalhado. A componente do peso na direção do movimento era
exatamente igual à força de atrito estático. O suspense servia para sinalizar
os pontos mais importantes da matéria.
O material de geografia
era uma caixa de lápis, borracha e um livro para colorir. As notas eram
proporcionais à maestria em preencher as ilustrações. Uma das páginas trazia
o sistema solar; uma bola gigantesca, o Sol, e outras nove, os planetas:
Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Não
esqueço um Sol em tons avermelhados, com gradações de preto, marrom, amarelo
e laranja, cuspindo chamas, uma esfera quente e turbulenta. Obra de uma
menina. Elas levavam lápis cera, algodão para passar em cima das raspas de
lápis, papel de seda e outros acessórios. Nós não éramos páreo para
elas. Uma ficou famosa, gabada em
todas as salas pelo professor: Hebe, a formiguinha. Ela tinha mesmo cara de
formiguinha, o apelido não proveio de sua diligência. O resultado do método
era um alto índice de retenção do conteúdo, a começar pelo nome do professor
que persistiu, entre tantos outros, considerados ótimos mestres e que se
perderam no anonimato.
Finalmente, é bom
ressaltar que, embora as portas ficassem sempre fechadas depois que o
Professor entrava, as salas não eram um sistema fechado. Todas tinham uma
fileira de janelas ocupando a parede exterior. A parte de baixo, de vidro, era
fixa e de cima, opaca era provida de amplos basculantes. A posição dos
basculantes era tal que obrigava o aluno a se levantar da cadeira, se
quisesse jogar alguma coisa pela janela. Isso significava, no mínimo, um
olhar de reprovação do professor, que costumava interromper a frase, à espera
que o aluno se sentasse. As janelas ficavam a uns quatro metros do chão do
pátio.
Nos últimos anos do
colégio, as turmas eram divididas em científico e clássico. Esse último abrigava
alunos que fariam os vestibulares de Letras, Filosofia, Sociologia, História
e outros cursos, com grande status intelectual e zero expectativa de retorno
financeiro. Eram conhecidos como voadores, artistas ou fugidos da Matemática.
Para compensar o
sucesso que eles faziam com as garotas, havia o Latim. No meu último ano de
Estadual, uma turma do clássico ficou pendurada na prova final. Foi montada
uma operação de guerra. Um aluno, que estava matematicamente reprovado, foi
fazer a prova. Em pouco tempo, desceu com as questões, que foram divididas e
repassadas para uma junta, espalhada pelos bancos da parte inferior da régua.
Outra equipe preencheu as várias folhas de papel almaço, previamente
assinadas pelos candidatos à bomba, com uma letra mais ou menos similar.
Terminadas as provas,
elas foram enroladas, formando um cilindro que foi amarrado ao barbante
lançado por uma das janelas. Um grande número de estudantes se reuniu na
cantina, a borracha, de onde se podia ver a janela e ficou torcendo. O
barbante tinha uma pedra amarrada, para dar estabilidade e marcar a altura
exata em que um braço podia passar pelo basculante e alcançar o rolo. Em
último caso, serviria para sumir com as provas comprometedoras, caindo com todo
o aparato no pátio, fora da sala. As subidas e descidas da pedra,
acompanhadas por ahs e hums, marcavam a maior ou menor vigilância do
professor. Finalmente ela subiu aos arrancos e um braço rapidamente embolsou
o rolo. A galera aplaudiu. Todos foram aprovados.
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