Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.

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Divulgação literária e outros babados fortes

Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.
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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - segunda parte

Os Quinze

O espaço-tempo é relativo. De 12 anos até os 15 e dos 15 até os 17, decorrem décadas.  Equivalem à distância entre os 30 e os 40 ou entre os 40 e os 50. Por uma questão de proporção, é preciso escolher alguns anos mais emblemáticos, mesmo com o risco de deixar de fora eventos muito significativos. Como eu vou e volto nesse contínuum, ora visitando o passado com minha consciência presente; ora recuperando meus olhos de criança ou de adolescente; o que ficou para trás será retomado em algum momento, se valer a pena.
Os 15 são definitivamente um divisor de águas. Nesse ano, nasceu uma barba cerrada, que me permitia assistir os filmes de 18 anos. Deixei para trás aqueles vergonhosos 1,60 m. Emagreci. Entrei para o primeiro científico. Turma mista.
Deixei de ser um bicho do mato que sofria com as brincadeiras dos colegas mais velhos. A turma saia junta para beber, para as festas e excursões. Em vez de colecionar maços de cigarros, tornei-me um consumidor. As preferidas eram as cigarrilhas Vedete. Baratas e fáceis de serem escondidas. A primeira namorada só veio aos 17, mas as primeiras experiências sexuais, com a vizinha da minha avó, começaram nessa época. 
O que eu pensava das coisas em geral, da existência, do meu lugar no Universo? Lembro uma conversa embaraçosa com o Xexéu. O apelido era devido ao cabelo meio alourado e desgrenhado, parecido com a plumagem do passarinho. A turma era um zoológico. O Cobra era Cobra por força do sobrenome. O Bezerro, por ser a cria preferida da Vaca Holandesa, nossa professora de matemática. Que devia o apelido aos seus grandes olhos azuis e desesperados. E a uma certa pachorra bovina, com que reagia às brincadeiras pesadas da turma. O Bezerro tinha o cabelo curto e empastado – consequência das lambidas da Vaca. O Barrão era mais velho e ostentava uma pança digna de um porco novo inteiro. Acho que o zoológico terminava com esses espécimes. Havia o Buick, não sei por que cargas d’água. O Maranhão, por conta de seu estado natal. E eu, Garrafa, por conta dos óculos fundo de garrafa, graças a uma miopia que só me permitia contar os dedos da mão do oculista até um metro de distância.
Certo dia, eu havia passado na Biblioteca e descido a Bahia para o centro, com o Xexéu, que ia pegar o ônibus para Santa Tereza. Bem na Afonso Pena, onde íamos nos separar, ele me pergunta, sem maiores introduções: o que você acha do homem?
O Xexéu, Ferrugem ou Beatnik, tinha a cara dos anos sessenta: barbicha rala e óculos de intelectual. Era enturmado com a esquerda católica. Que, a essas alturas, estava deixando Maritain para trás e mergulhando em um humanismo mais engajado. Eu lia de tudo e não sintetizava nada daquela mistureba de Dostoievsky com Bertrand Russel. Em política, era contra os militares e os americanos e apoiava o socialismo, o que não queria dizer muita coisa. A maioria no Estadual pensava assim.
Eu queria ser livre, antes de mais nada. E mergulhar de cabeça nas novas experiências. Queria ser campeão mundial de xadrez. Queria dar uma carga de baioneta e morrer como um herói. Queria beber como um herói. Queria me envolver com uma daquelas heroínas de Dostoievsky, bem trágica.

- O que eu acho do homem? Eu gosto é de mulher. O resto da cena, piedosamente, se perdeu. Não sei como terminou aquela conversa constrangedora.

sábado, 16 de julho de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - segunda parte, terceiro capítulo

A cola
“ Quem não cola, não sai da escola”. É mais justo inverter a frase e dizer: quem saiu do Estadual, já colou. As exceções são as de sempre e servem para confirmar a regra: os dois ou três CDFs que havia em cada sala. Esses não colavam porque não precisavam. Havia ainda os objetores de consciência, que diziam:
- Quem passa colando irá fracassar mais tarde, quando precisar mostrar seu conhecimento, porque não aprendeu nada – só faltava acrescentarem – foi mamãe quem disse.
Eu sei que isso não é verdade por experiência própria. O conhecimento que fica é aquele básico, que foi sendo acessado e indexado pelo uso. Quando for necessário um conhecimento mais aprofundado, basta saber onde procurar. Ou então usar o método de convergência rápida - perguntar para quem sabe. Além disso, como diriam os pedagogos modernos: a cola também é um momento de aprendizagem.  Seria mais legal se os objetores dissessem que não se deve colar porque é feio, é pecado, Deus castiga, ou qualquer coisa no estilo.  Mas, em geral, a maioria colava. Embora a maioria também achasse que não era certo fazê-lo.
A modalidade básica era consultar o livro ou o caderno debaixo da carteira. Como o tampo encobria a visão do professor, sempre havia a possibilidade de fechá-los com um rápido movimento. Depois era preciso morrer negando. A melhor colocação para essa prática era na fila imediatamente em frente ao tablado, junto a janela. As manobras anti-cola do professor eram igualmente simples: caminhar de lá para cá, em frente ao quadro negro, ou ficar parado no fundo da sala. Os mais sádicos preferiam deixar o aluno iniciar a consulta, esperar que esse se empolgasse e depois surgir de surpresa, atrás da carteira. Mas só os amadores caiam nessa.
Para os iniciantes, a cola em papel, passada pelo colega de trás era mais garantida. Ela podia ser colocada no meio das folhas de papel almaço e consultada com calma. O sopro também era bastante efetivo, mas tinha um alcance limitado. Servia mais para lembrar um nome, na prova de história, ou dar o resultado de um problema, na prova de matemática.
O que garantia o resultado era a cara de pau, o olhar perfeitamente inocente, perdido no ar. Quando o colador surpreendia o professor encarando-o, sempre funcionava dar um sorriso cúmplice, como se estivesse curtindo a prova ou acabado de descobrir a pegadinha.
Há muitas lendas sobre o professor que ficava lendo o jornal e fazia um furo de cigarro para poder flagrar os alunos. Os óculos escuros espelhados eram  mais efetivos e não comprometiam a dignidade do mestre. Eram usados pelo nosso professor de Ciências e o resultado era intimidador.
O verdadeiro profissional, levava a cola pronta. Diga-se de passagem, que sempre que alguém mencionava a palavra cola, era corrigido: cola não, lembrete para a prova. A televisão era a forma mais elaborada dessa arte. Numa caixa de fósforos, sobre dois paus atravessados de lado a lado, era colocada uma tira de papel movida manualmente. O modelo mais sofisticado envolvia uma propulsão automática, à base de gominha, mas eu nunca consegui o segredo de sua fabricação.
Em compensação, desenvolvi um modelo próprio, com tiras bem finas e compridas. Elas eram dobradas ao meio, no sentido do comprimento e depois mais uma vez ficando em formato de seta, como quem vai fazer um avião de papel. Dava um pouco de trabalho, mas era possível folheá-lo, com se fosse um pequeno livro.
No último ano eu simplesmente trocava de prova com um colega, ou então fazia a cola sincronizada. Cada vez que o professor passava pela minha fileira e me dava as costas, eu consultava o lembrete. Quando as coisas estavam apertadas, nós fazíamos uma junta de alunos, que ficava lá embaixo, mandávamos a prova para fora da sala, e depois recebíamos as provas já feitas. Uma dessas, que ficou na história, foi numa prova de matemática. A professora, desesperada, não deixava ninguém entrar na sala. Colocamos o maço dentro da capa de um disco e pedimos para um aluno de outra sala que fosse devolvê-lo. Funcionou.
De qualquer maneira, a minha carreira se deve muito mais ao acaso do que a uma verdadeira vocação. O professor de latim era o Sardinha: Latim é língua morta e Sardinha é peixe fresco. Eu detestava aquelas declinações e estava sem média na matéria. Rosa, rosa, rosae ... e acabou o meu latim. Pedi a um colega que já havia entregue a prova, que me passasse a sua televisão. Minha cara deveria ser de culpado e eu me distraí consultando o lembrete. Tomei um susto quando o professor me chamou e pediu que trocasse de carteira. Poderia ter me dado um zero, com direito à suspensão. Saiu barato. Joguei  a televisão para debaixo da carteira, mudei de lugar e voltei a suar com as declinações. Me ferrei, é claro. Aquele foi um momento crítico:se houvesse sido punido, não teria continuado a colar. Daí para a frente, aprendi a dominar os nervos e fui me aprimorando na arte.



sexta-feira, 15 de julho de 2016

O Engavetador

Prezados leitores de A Província de Minas, todos os domingos, a partir de hoje, teremos neste espaço uma crônica de Jota Cê. Conhecido como o Quixote das letras mineiras, ele aqui estará, quebrando as lanças de sua irreverência contra os moinhos de vento do nosso cotidiano.

O engavetador

Jota Cê

            “O tempo ruge!” E nos devora também, acrescenta este escriba. Tudo começou com uma intimação do Leão. Não se assustem, não era  um devorador de cristãos, como aqueles do Coliseu. Ou melhor, podem se assustar, porque era uma fera mais voraz ainda, o Leão da Receita.
            O funcionário que me atendeu, muito solícito, me fez sentar numa cadeira em frente à sua mesa e de repente me mandou de volta àquele tempo mágico da infância:
            - E aí Cobra, o que é que manda?
            Antes de prosseguir sou obrigado, amável leitor, a compartilhar um terrível segredo com vocês. Não, as minhas declarações estão perfeitamente em ordem, mas o Jota Cê que assina esta crônica, na vida civil, atende pelo nome de Júlio Cobra.
-          Andorinha!
Era ele mesmo, o Isidoro. Na quarta série do ginásio ele ganhou dez centímetros de altura e um vasto bigode, que carregava quase envergado. Só encontrei um apêndice capilar à sua altura, muito mais tarde, quando fiz meus primeiros contatos com Nietzsche.
A professora de matemática, a Vaca Holandesa, como era chamada, se assustou com aquela aberração, no meio de um bando de adolescentes imberbes.
-          O que é isto no seu rosto, menino?
- Ele engoliu uma andorinha, professora, e ficou com as asas de fora (eu sempre chuto de primeira) - daí em diante ele se tornou o Andorinha.
O que há num nome? Um Andorinha apenas fez voltar a aurora da minha vida, a minha infância querida, que os anos não trazem mais... Éramos inseparáveis em tudo - vizinhos de quintal, fizemos o primário na mesma sala. Adeptos da escola peripatética, aproveitávamos a caminhada de volta para longas discussões literárias.
Seu pai sempre nos esperava à  saída do Instituto de Educação. Ele ia atrás de nós, carregando as nossas pastas e dando uns grunhidos para chamar o filho, quando ele se desgarrava. Muitas vezes a literatura era deixada de lado, para que pudéssemos chutar uma tampinha, comprar um picolé, ou outra ocupação igualmente importante.  Uma de nossas febres literárias foi o gibi do Flecha Ligeira. Nesta época cada familiar ou amigo ganhou um nome de pele vermelha e o pai de Isidoro, com o seu andar pesado e bamboleante, só poderia ser Urso Velho.
Éramos garotos normais, de jogar bola, soltar papagaio e brincar de bolinha de gude. Era a paixão pela leitura que nos fazia inseparáveis. Líamos de tudo, inclusive as revistas de foto-novela da empregada, que eu surrupiava do esconderijo embaixo do colchão.
Numa daquelas caminhadas de volta da escola, Andorinha, que ainda era Isidoro, veio com a descoberta definitiva:
 - É muito fácil saber quem vai ficar com quem numa foto-novela. Esqueça a história. É só olhar para as fotos em close dos dois personagens. Se eles estiverem de perfil, um olhando direto para o outro, com aquele olhar de peixe morto, no final acabam juntos. Mas se um estiver de frente e o outro de perfil, então nada feito.
Fui conferir e era verdade. Ora o vilão estava de frente, com um sorriso maquiavélico, enquanto a mocinha, de perfil, fazia uma cara de pastel. Ora era a mocinha que olhava para nós, como se estivesse com dor de barriga, enquanto o vilão ficava de perfil, com cara de tesão recolhido. Os heróis sofriam o tempo todo, mas apareciam mais em close, de frente ou três quartos, sérios que nem criança cagada. Já os vilões eram mais divertidos e se davam bem a maior parte do tempo. Em compensação, tinham menos closes. Este foi o meu primeiro contato com a metalinguagem.
Mais tarde a paixão pela leitura virou paixão pela escrita. Eu publicava no mural da sala, no jornalzinho do grêmio, onde desse, aqueles textos impublicáveis, que até hoje me perseguem. Andorinha, que não era mais Isidoro, ia engavetando as suas obras. No máximo, as mostrava para mim. Eu era o escritor e ele o engavetador.
A vida nos separou, por um motivo qualquer, o tempo passou e Andorinha, que voltou a ser Isidoro,  não é mais aquele galã. O bigode já se foi há muito tempo. Quando foi buscar o meu processo no armário, reconheci nele os passos do Urso Velho. O talento literário, se não se perdeu, só se exercita nos despachos que profere.
- Não mudei muito - brinca, talvez percebendo a minha expressão. - Ainda sou um engavetador - abre a gaveta de sua mesa e me mostra a sua mais nova produção: uma pilha de processos.
- Este é o meu estoque regulador. Eu sou um funcionário movido à pilha: quando a pilha de processos está alta, eu acelero; quando está baixa eu freio e quando falta serviço, desengaveto o estoque – e concluiu com o seu programa de vida:
- Minha meta é viver até os 150, ou morrer tentando. Um terço de minha vida já foi para o saco. Agora só me restam uns cem anos pela frente, até entrar em equilíbrio térmico com o Universo.
- Ele não concluiu, amável leitor, mas eu me permito fazê-lo: o tempo mata e cedo ou tarde ele vai nos consumir - enquanto isso, vamos matando o tempo.


Carta para a redação

Na semana seguinte, a seção Carta dos leitores recebeu a seguinte correspondência:
Prezados senhores,
Muito interessante a crônica de estréia de Jota Cê, O engavetador. Gostaria de fazer alguns reparos. É claro que o material ficcional não admite correções factuais. Portanto, chamarei as minhas observações de contribuições críticas.
a) Não sei porque o autor insiste em se chamar Júlio Cobra, ignorando a sua certidão de nascimento, onde consta João Cobra. Mas não vamos crucificar mais um Jota Cê. Afinal o que há num nome?
b) Jota Cê nunca resistiu aos trocadilhos, às paródias, aos pastiches e a outras formas de humor baixo. Neste caso quis fazer verão com uma só andorinha. Registre-se, a bem da verdade, que a personagem do engavetador, calcada em pessoa ainda viva, tinha outro apelido, talvez menos literário: Escovinha. O fato é que, quando a Vaca Holandesa fez a fatídica pergunta, alguém (se não me falha a memória, foi o Barrão) comentou em voz baixa:  isto não é bigode, é escova de dente de empregada doméstica.
A Vaca tinha grandes olhos azuis, com aquela expressão triste de quem vai para o matadouro. Gerou um filho, o Bezerro, seu aluno predileto, que tinha o cabelo tão lambido que parecia sua cria. Barrão é um grande porco capado. O nosso só tinha em comum com a espécie, a pança bem socada;
c) os textos de Jota Cê eram realmente deprimentes. Infelizmente não se perderam. Há, nos meus arquivos implacáveis, material suficiente para reconstituir os primeiros passos de nosso Quixote;
d) quando fala em “algum motivo qualquer”, referindo-se às circunstâncias que nos separaram, ele consegue se superar em matéria de eufemismo. Na verdade, foram dez anos de clandestinidade e algumas prisões que nos afastaram. Foi “este motivo qualquer” que manteve os meus textos engavetados, enquanto o Quixote ia publicando suas choradeiras sentimentais e individualistas;
e) já no terreno propriamente estilístico, selecionei alguns dos adjetivos que o autor esparramou pelo texto - fera voraz, funcionário solícito, apêndice capilar, vasto bigode e adolescente imberbe, dentre outras pérolas. Aliás, louve-se o seu esforço em reviver estas expressões do tempo do onça;
f) por último, o Urso Velho leu a crônica e comentou:  eu sabia que aquele menino não ia dar boa coisa. O meu chefe está me olhando de banda e eu voltei a ser o que nunca fui, Andorinha. Agora, na repartição, só me chamam assim;
g) de qualquer maneira, foi muito proveitosa a leitura de sua crônica - descobri que o tempo passa e que a gente envelhece. Espantoso. Ainda bem que o autor resolveu ficar na crônica e desistiu dos contos e romances que publicava, sempre às suas custas e sempre com prejuízo. É melhor mesmo não tentar vôos literários mais altos, porque Deus não dá asa à Cobra. Desculpem, mas eu também chuto de primeira.

Marco Lisboa

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - segunda parte, primeiro capítulo


O Uniforme do Colégio

Sou uma vítima das mudanças. Em algum momento, alguém enfiou a pata na minha coleção de maços de cigarros, que se “extraviou”. Os livros de Tarzan foram “doados” para a biblioteca da Fraternidade. Os cadernos de escola velhos, com minhas partidas de xadrez, também não duravam muito. E não foram tantas mudanças assim: Rua do Ouro, Rua Cônego Floriano, Avenida do Contorno, Rua Euclásio. Já outras tralhas, que se enquadravam em algum misterioso critério sentimental, eram carregadas de lá para cá. É incrível a faculdade que as mães têm de saberem o que é e o que não é importante para os seus pimpolhos. Pelo menos, a camisa do Estadual ainda está na gaveta do meu armário. Uma empregada, logo depois que eu saí da clandestinidade e voltei para Belogrado, fez o grande favor de lavá-la e a tinta das canetas esferográficas vagabundas não resistiu. Era a camisa do último ano, com as assinaturas da turma. Com dezessete anos, já havia crescido quase tudo que podia, mas a camisa é estreita, não me serve mais, eu encorpei.
Todo ano, minha tia comprava meus uniformes no Mundo Colegial, na Rua Rio de Janeiro. Era um compromisso que ela havia assumido, já que o salário de minha mãe sempre foi medíocre. Minha tia só teve um emprego em toda sua vida, um cargo obscuro no Tribunal Eleitoral, com um salário de marajá. Ela era a burra da família e teve que fazer um cursinho para passar no concurso. Em casa, ela se preparava para as provas decorando as apostilas. Dizem que ia para o banheiro cantando os textos: – “... os verbos formam o pretérito perfeito do subjuntivo juntando ...”. Fico imaginando como poderia ser essa ladainha. Minha mãe, que sempre foi considerada a intelectual, conseguiu se aposentar como diretora, com um salário de barnabé. Na minha família, se fizermos um gráfico dinheiro versus inteligência, teremos um ramo de hipérbole – uma coisa é inversamente proporcional à outra.
A camisa era branca, de mangas compridas, com um bolso e o escudo do Colégio costurado – um triângulo verde, com um C e um E estilizados. O resto do uniforme era sapatos pretos e calça. Para a Educação Física, o colégio pedia meias brancas, camiseta, quedes, calção e suporte atlético. Eu nem tinha pentelhos ainda e olhei com desconfiança para o tal suporte, a primeira vez que o vi. Ele era composto de uma cinta branca, elástica, com um protetor na frente, que espremia o saco e duas tiras verticais atrás, bem estreitas. Ainda bem que não aparecia debaixo dos calções folgados de ginástica.
As calças eram feitas de um pano cinza ralo, com braguilha de botão, bolsos, vinco e tudo o mais que se usava naqueles anos. Com o tempo, o bolso ia se abrindo nos cantos, e uma parte da coxa ficava aparecendo. Eram bolsos fundos onde cabiam com folga a caderneta da escola e a carteira de dinheiro. Uma vez, a empregada, cansada de cerzir os bolsos, resolveu costurar tudo. Era uma calça relativamente nova, eu ia usá-la no enterro da avó do Paulão. Era a norma, toda vez que íamos a um enterro de parente de colega, a turma ia uniformizada. A missa foi um saco, como sempre, e eu não consegui manter a pose, em pé, segurando o colecionador com a direita e a esquerda rente ao corpo. Coloquei o colecionador no banco da igreja e tentei descansar a mão direita no bolso. Foi aí que descobri que, graças ao engenho e a arte da empregada, estava literalmente sem ter onde enfiar as mãos. 
O cinzento acima dos joelhos ia ficando esverdeado, de tanto limpar o suor das mãos e lugar onde ficavam os joelhos se transformava numa colcha de retalhos, com cerzido em cima de cerzido. As casas da braguilha iam se rasgando nos cantos, os botões teimando em não fechar direito. Eu tinha que sentar com cuidado. Os sapatos resistiam como podiam, só iam ficando brancos nos bicos, de tanto chute. Os quedes eram os que terminavam o ano melhor. A camisa ia se puindo no colarinho, onde o suor misturado com a poeira do colégio em suspensão produzia uma coloração amarelada.
O colégio foi projetado por Niemayer, provavelmente inspirado na coleção Biblioteca das Moças, que publicava M Delly. Pollyana, provavelmente. O corpo da escola era uma régua T; a caixa de água, um giz; o auditório, um mata-borrão; a cantina, uma borracha - sutil como um trator.
O prédio principal, onde ficavam as salas de aula (a régua) se erguia sobre pilotis e era acessado através de uma rampa. Nos braços pequenos da régua ficavam a biblioteca e os laboratórios. A rampa tinha o comprimento, a largura e a inclinação cientificamente calculados para permitir que, após o toque do sinal, a tropa estourada conseguisse se escoar sem que ninguém caísse pelas laterais, que eram protegidas apenas por duas barras paralelas. Uma vez um aluno fez o percurso inverso, a cavalo, mas eu não presenciei a façanha.
O mais notável no colégio era o revestimento. Debaixo da régua, havia um piso de cimento com pequenos furinhos, que pareciam feitos a dedo, dispostos num padrão simétrico de linhas e colunas. O piso foi projetado para arrancar o joelho das calças, com um bocado de pele junto, ao primeiro tombo. Debaixo do último par de pilotis, ao lado do Diretório Estudantil, ficava o nosso campo de futebol. Ali disputávamos peladas com tampinhas de refrigerantes. Eram dois para cada lado – defesa e ataque. O coeficiente de atrito e as dimensões do campo eram perfeitos, não permitiam que a tampinha chegasse ao outro lado em excessiva velocidade. Os seus praticantes eram imediatamente reconhecidos pelos joelhos das calças.
Fora da régua, o terreno era coberto de terra, ideal para a prática de bolinha de gude, nos dias de sol e para o jogo de finca, quando chovia. A lama tinha a consistência exata, que permitia que a finca penetrasse com facilidade, mesmo nos arremessos a longa distância e uma tonalidade rara de tijolo, quase marrom. As linhas do jogo podiam ser traçadas com a maior nitidez, um sulco milimétrico, que era levantado com uma elasticidade de argila, sem desprender o torrão, quando fazíamos um subterrâneo. Dizem que, uma vez, depois de uma discussão, um estudante matou o outro, com uma finca arremessada diretamente no coração. Não sei se é verdade.
O pó que se levantava nos dias de sol era um pequeno inconveniente. Muito fino, não aparecia no uniforme, mas aderia na cutícula do polegar, onde a bolinha de gude se apoiava. Ela ia engrossando, se afastando, um eclipse ao contrário, que mostrava cada vez mais a meia lua.  Mesmo nos períodos de férias, quando a prática diária do jogo era menor, os dois polegares, vistos de cima, eram bem diferentes.

O mata-borrão era um auditório. Se a gente conseguisse esquecer que ele era a réplica de um mata-borrão, dava para apreciar as suas linhas. Acho que ainda tinha a minha caneta Parker 51, azul real lavável, quando entrei para o Estadual. Nas suas carteiras de madeira havia um sulco na parte de cima, para segurar os lápis e as canetas e um buraco redondo, que eu imagino que fosse para encaixar um tinteiro. Na verdade, ele servia para despachar rapidamente as colas e os papeizinhos que circulavam durante a aula, para a parte de baixo, onde ficavam guardados os cadernos e os livros. Como é que um cara, que se pretendia moderno, usa um mata-borrão no seu projeto? Dava para ver que, um dia,  a caneta esferográfica ia chegar. Para mim foi muita caretice mesmo.
A parte de baixo, que dava para o quarteirão onde ficava a praça de esportes era escorrida, coberta de grama esturricada, com alguns arbustos. O professor de desenho do primeiro ano gostava de usar as folhas de assa-peixe como modelo de vinhetas estilizadas. Fernando Pierucetti, o Mangabeira, que criou os símbolos dos times mineiros: o Galo, o Coelho, a Raposa,  o Leão, a Tartaruga, que eu não lembro se era o Metalusina ou o Siderúrgica, e outros. Era capaz de traçar um círculo perfeito no quadro, a mão livre. Depois fazia questão de colocar o compasso de madeira no centro e conferir toda a curva, ponto por ponto. Detestava suas aulas, mas me divertia com suas histórias e o seu jeito agressivo-bonachão. Quando a vegetação seca entrava em combustão, às vezes espontânea, dava gosto ver o fogo subindo morro acima, ajudado pela topografia. A fumaça ia diretamente para as salas de aula, e os inspetores eram obrigados a tocar o sinal do intervalo. Houve pelo menos um incêndio, no meu tempo.
Em minha opinião, todas essas vantagens compensavam as deficiências do projeto.


Quando fez Brasília, Niemayer já havia esquecido essas paixões adolescentes e fez uma cidade de ficção científica, uma Alfaville de Godard. Desta vez seus moradores não conseguiram adaptá-la a um padrão mais funcional. Para Dostoievsky, um ambiente escuro e acanhado predispõe ao homicídio. Será que uma cidade sem horizonte expande até o infinito a ambição pelo poder? 
Na pátria-mãe, um déspota esclarecido construiu uma nova capital, São Petersburgo, num brejo, em cima dos ossos dos mujiques. Projetada por arquitetos importados da Itália, ela deveria ser uma janela para o Ocidente, mas acabou sendo a cidade da Revolução. Moscou, o coração da velha Rússia, sempre foi um centro de poder. Já nasceu em torno de uma fortaleza, que abrigava os centros administrativos e religiosos. Os revolucionários acabaram transferindo a capital do futuro para a capital do passado. O Presidente Luna, que ainda não conseguiu se descartar das falsas analogias com a Grande Revolução de Outubro, poderia ter trazido a capital para Belogrado. Aqui, onde ele passou grande parte de sua vida, onde Vera militou, onde o movimento operário renasceu e acabou levando-o ao poder.
Raskolnikov ao avesso, mal chegou a Brasília, absorveu todos os gostos e inclinações do segundo e terceiro escalões. A sua tradicional desconfiança não resistiu aos novos horizontes. No fundo, é ingenuidade minha pensar assim. Mesmo antes, quem o conhecia de perto, podia pressentir a sua admiração pelo poder, pelo discreto charme da burguesia.
E eu? Agora que a classe operária chegou ao paraíso, vou admirar o quê?