Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.

Consulte o dicionário do cinismo, no rodapé do blog.

Divulgação literária e outros babados fortes

Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.
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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - segunda parte

Os sonhos

Na adolescência, descobri que tinha a habilidade de planejar meus sonhos. Ou, pelo menos, de controlar um estágio de vigília meio adormecido. Num deles eu voava, passando por cima de casas e cidades. Só precisava me concentrar para não perder altura, embora não houvesse realmente o perigo de cair. A sensação era agradável. Sonhos Peter Pan.
Os sonhos induzidos, se é que eram sonhos, às vezes escapavam do controle e acabavam virando pesadelos. Meus pesadelos são recorrentes e me seguem até hoje, nas noites de insônia.
Quando garoto, tinha alguns pavores: medo de bêbados e de loucos, medo de morrer afogado e de ficar perdido. Quais seriam as Madeleines desses pavores?
Todo domingo, no Cinema Rosário, antes dos filmes, passavam alguns seriados. Dentre eles, eu tenho certeza de dois: Flash Gordon e Fu Manchu. Um episódio de Fu Manchu me perseguiu por muito tempo. Na cena, a mocinha estava presa num cilindro de vidro, fechado por uma tampa de aço. No recipiente havia um buraco por onde entrava a água, que subia rapidamente. Durante algum tempo, ela conseguiu respirar o ar que ainda havia na parte de cima, até ser encoberta totalmente pela água.  O episódio terminava com ela se debatendo até perder os sentidos. Não sei como a mocinha se salvou.
Hoje, quando estou naquele estado intermediário, do qual ainda consigo sair por vontade própria, é comum sonhar que estou numa caverna e tenho que mergulhar em um túnel cheio de água.  Eu nunca acho a saída. A variante seca é quando fico entalado em uma passagem na rocha.
Será um eco da asma de minha mãe, que herdei e repassei para o meu filho? Terá alguma conotação sexual, como penso às vezes? Um pênis preso num buraco? O medo não tem uma base real, porque eu tinha a mania de fazer túneis quando garoto. Nos barrancos da Rua Cônego Floriano, no Bairro da Graça, onde a terra era avermelhada, com veios amarelados. Ou na terra escura e fértil do quintal da Rua do Ouro. E adoro mergulhar.
Não gosto de altura, embora não chegue a ser uma fobia e eu consiga caminhar sem medo num lugar alto. Essa aversão produz os sonhos-gastura. Aquela sensação de passar o dedo no veludo, ou de ouvir o giz rangendo no quadro. Nesses sonhos, vejo meu filho ainda pequeno cair de uma janela. Quando chego na beirada de alguma coisa alta, na vida real, às vezes me vejo caindo. É um flash que passa rápido e não retorna.
Os pesadelos propriamente ditos, no estado de sonho profundo, eram outros. Sonhava que estava sendo perseguido e que passava por vários cômodos sucessivos, que nunca terminavam; de uma sala para um quarto, depois para uma cozinha e assim sucessivamente. Ou que estava perambulando por uma cidade perfeitamente desconhecida, andando por ruas intermináveis, percorrendo bairros diferentes, querendo chegar a um lugar que não eu conseguia situar.
Os filmes e os livros da coleção Terramarear deram origem aos sonhos de espadachim, nitidamente inspirados em Scaramouche e Stewart Granger. Na vida real, eu tinha medo de facas e canivetes. Lembro como fiquei quando li o significado da expressão: “briga de homem é com camisa amarrada”. Dois cangaceiros amarravam as beiradas das camisas desabotoadas e iam se furando, com suas peixeiras. Alguma coisa entre a gastura e o pânico.

Em alguns pesadelos, duas pessoas brigavam com canivetes, se cortando. Em um outro, vi uma pessoa, talvez meu tio, retalhando o peito de Angélica, nossa empregada, que de vez em quando tinha acessos de loucura. Usava uma faca de cozinha, que ia produzindo talhos vermelhos na pele negra. Angélica não reagia! Impressionante como a busca pelos sonhos da juventude traz de volta tantos pesadelos.
Minha mãe contava a história de um menino que havia estava apontando um lápis com uma gilete. De repente sentiu uma coceira nos olhos e, distraído foi esfregá-los, cortando-se com a lâmina. Meu Buñuel - gastura, definitivamente.
Quando eu morria nos sonhos era sempre com um tiro, como um herói que finalmente é derrotado pela traição, ou pelo número dos adversários. A espada, com certeza, é um símbolo fálico. Freud sabia das coisas.
Da leitura do livro “Tarzan e os homens-formigas”, me ficara a imagem de uma tribo de mulheres. Nos meus sonhos induzidos, eu fantasiava mulheres nuas, que podiam ser atravessadas de lado a lado por uma espada e que nunca sentiam dor ou ficavam feridas. De alguma maneira, elas estavam associadas a um nome: Alali. Minha fantasia era atravessá-las de todas as maneiras, com predileção pelos seios. Outro dia achei o livro em um sebo. Dei uma rápida folheada e o nome Alali trouxe de voltas as minhas mulheres.
Sonhos de pré-adolescente. Os hormônios ainda não haviam entrado em ebulição. Não preciso dizer porque nunca tive vontade de fazer análise: eu mesmo sou meu terapeuta.




                  

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - segunda parte, capítulo 6

A biblioteca
A Biblioteca Pública ficava na rota de saída do colégio. Eu descia a pé a Rua da Bahia, parava para devolver um livro e retirava outro. Lia num ritmo de uma página por minuto, praticamente um livro por dia. Todo Sherlock Holmes, todo Dostoievski, Allan Poe, Chesterton,  Aldous Huxley, Walter Scott e um monte de autores menores, ingleses e americanos. Voltaire e Bertrand Russell. Anatole France, Prosper Merimée e um monte de autores menores franceses.
Lia sem método, pulando estilos, países, sem recomendação de ninguém. Dostoievski me impressionou particularmente. Seus personagens torturados, perdidos. Adorava seus enredos melodramáticos, quase novelísticos, suas mulheres orgulhosas, que se humilhavam para provar sua superioridade moral. Eu as via pálidas, de grandes olhos, gargantilhas e camafeus, cabelos presos, saias negras até o chão.
Admirava suas discussões teológicas, seu eslavismo, sua exacerbação. Os nomes que eu pronunciava à brasileira (Karamazóv e não Karamázov), os estranhos costumes, os prédios com vários apartamentos, pequenos quartos alugados e um pátio. Era um escritor que contabilizava cada copeque. Dostoieviski  fazia questão de discriminar o valor em rublos de cada propriedade, o salário de cada pequeno funcionário, o valor de cada garrafa de vodka barata.
Estranhamente, nunca pensei em escrever. Acho que era muito crítico, tinha padrões muito altos. Detestava as aulas de português, a poesia e as redações obrigatórias. Gostava de fazer resenhas de livros. Na maior parte das redações, os meus colegas buscavam os efeitos fáceis, as descrições de paisagem com o sol sempre se pondo, ou nascendo. Eu fazia uma redação padrão, dissertativa, sem grandes voos.
Lembro-me de uma redação que fez sucesso na escola. O soldado, perdido do batalhão, no meio da neblina, escutando cada ruído. Era jovem, arrimo de família, não entendia o porquê da guerra, queria viver, aqueles clichês todos. Alto, quem vem lá! Era amigo. E tome discurso. Até o fim triunfal. Um estalo. Quem vem lá! Era o inimigo.
A maior parte de minha cultura inútil foi adquirida na adolescência. Adquiri a arte de pesquisar rapidamente um assunto, de estabelecer correlações e me tornei definitivvamente um autodidata. Meu vocabulário era enorme, possuía um conhecimento enciclopédico de países, cidades, costumes, moedas, etc. Karl May foi lido de cabo a rabo. Sabia os nomes dos animais amigos do Tarzan, as palavras da linguagem dos gorilas, um monte de expressões em árabe, as peças de uma armadura medieval e por aí vai.
Era o mais novo da turma, um dos mais baixos. Óculos fundo de garrafa, tártaro nos dentes, desajeitado. Não sabia dançar nem andar de patins e caia da bicicleta.. Tímido, poucos amigos, sofri nos primeiros anos com as piadas e as alusões sexuais que não entendia. O espelho era meu inimigo. Gordinho, feio, a testa curta, o nariz chato, o queixo redondo. Até chegar aos 15.



quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - A trilha Ho Chi Minh, primeira parte

A trilha Ho Chi Minh
Sem querer, acabei abandonando o critério temporal em favor de uma abordagem temática: o colégio, os professores, o clube de xadrez. Essa escolha tem uma vantagem evidente, ela ressalta as invariantes e as transformações de meu caráter. Minhas obsessões e minhas escolhas.
A datação por artefatos, como método auxiliar vai perdendo importância, à medida em que aumenta a minha interação com o mundo exterior. A maior parte dos artefatos de minha infância e mesmo da adolescência não chegou até a idade moderna. O sabão Aristolino foi um dos que se extinguiram. Ficava em cima da pia de louça decorada, dentro de um globo de vidro preso por uma corrente. O líquido verde se acessava apertando uma peça de metal na parte de baixo da esfera. Mais uma espécie extinta: as caixas de madeira do Mate Leão, feitas de peças denteadas de madeira, que se prendiam por pressão e eram ótimas para se guardar bugigangas.

Gostava também dos potes de Rugol, um creme que minha avó usava diariamente, feitos de um plástico duro e com uma tampa de rosca toda decorada, como um camafeu. O creme parecia fazer efeito, pois ela chegou aos noventa com uma face de porcelana.
Alguns remédios, talvez mais eficazes, perduram: a Emulsão de Scott, ótima fonte de vitaminas A e D (eu adoro o seu gosto e parece que não mudaram muito o rótulo); o Polvilho Antisséptico Granado e as pastilhas Walda (tenho um monte de suas caixinhas de metal).
O Fercobre, que deixava os dentes pretos e era bom para anemia acabou. Seu sucessor, o sulfato ferroso, é um pó muito barato e sem graça, que nem embalagem tem. O avô de todos os fortificantes eram as garrafadas que o meu bisavô fazia: uma beberagem que vinha sempre com um prego enferrujado no fundo. Ao fazer um inventário destes produtos, percebo que as suas embalagens me atraiam muito mais do que o conteúdo, por mais virtuoso que ele fosse. Seria esta a minha primeira manifestação de formalismo?
O formalismo é o pior inimigo da arte socialista soviética. Seu perigo geralmente reside no fato de que ele oferece aos agentes fascistas, aos desprezíveis degenerados trotskistas, aos renegados de direita e a todos os inimigos do povo a possibilidade de difundir ideias antissoviéticas e contrarrevolucionárias, sob a capa de infinitas maquinações, manobras e “valores estéticos” independentes. (Revista Teatr, 1937)
Uma coisa é certa, eu adorava as bisnagas de plástico do Colírio Moura Brasil. Nunca usei o seu conteúdo. Pelo contrário, às vezes acabava com ele mais rápido para poder usar a bisnaga. Elas tinham um bico de plástico com um furo muito bem dimensionado. Quando cheias de água seu jato ia longe e não se dispersava. Era ótimo para produzir rajadas de metralhadora nas paredes caiadas de rosa.

A trilha Ho Chi Minh é fácil de ser datada. Foi no ano em que fiz vestibular. A guerra do Vietnã estava no auge. Os vietnamitas usavam uma trilha no meio das selvas, através do Cambodja, para abastecer os guerrilheiros que lutavam no Vietnã do Sul. E os americanos os bombardeavam diariamente, com suas B 52, que eram inacessíveis aos poucos Mig 17 e 21 do Vietnã do Norte. Os armamentos eram transportados individualmente, nas costas dos soldados, como numa enorme correição de formiguinhas. Um ano depois, houve a ofensiva do Tet, o ano lunar chinês. Fiz meu primeiro poema concreto, que me deixou muito orgulhoso.   

sexta-feira, 15 de julho de 2016

O Engavetador

Prezados leitores de A Província de Minas, todos os domingos, a partir de hoje, teremos neste espaço uma crônica de Jota Cê. Conhecido como o Quixote das letras mineiras, ele aqui estará, quebrando as lanças de sua irreverência contra os moinhos de vento do nosso cotidiano.

O engavetador

Jota Cê

            “O tempo ruge!” E nos devora também, acrescenta este escriba. Tudo começou com uma intimação do Leão. Não se assustem, não era  um devorador de cristãos, como aqueles do Coliseu. Ou melhor, podem se assustar, porque era uma fera mais voraz ainda, o Leão da Receita.
            O funcionário que me atendeu, muito solícito, me fez sentar numa cadeira em frente à sua mesa e de repente me mandou de volta àquele tempo mágico da infância:
            - E aí Cobra, o que é que manda?
            Antes de prosseguir sou obrigado, amável leitor, a compartilhar um terrível segredo com vocês. Não, as minhas declarações estão perfeitamente em ordem, mas o Jota Cê que assina esta crônica, na vida civil, atende pelo nome de Júlio Cobra.
-          Andorinha!
Era ele mesmo, o Isidoro. Na quarta série do ginásio ele ganhou dez centímetros de altura e um vasto bigode, que carregava quase envergado. Só encontrei um apêndice capilar à sua altura, muito mais tarde, quando fiz meus primeiros contatos com Nietzsche.
A professora de matemática, a Vaca Holandesa, como era chamada, se assustou com aquela aberração, no meio de um bando de adolescentes imberbes.
-          O que é isto no seu rosto, menino?
- Ele engoliu uma andorinha, professora, e ficou com as asas de fora (eu sempre chuto de primeira) - daí em diante ele se tornou o Andorinha.
O que há num nome? Um Andorinha apenas fez voltar a aurora da minha vida, a minha infância querida, que os anos não trazem mais... Éramos inseparáveis em tudo - vizinhos de quintal, fizemos o primário na mesma sala. Adeptos da escola peripatética, aproveitávamos a caminhada de volta para longas discussões literárias.
Seu pai sempre nos esperava à  saída do Instituto de Educação. Ele ia atrás de nós, carregando as nossas pastas e dando uns grunhidos para chamar o filho, quando ele se desgarrava. Muitas vezes a literatura era deixada de lado, para que pudéssemos chutar uma tampinha, comprar um picolé, ou outra ocupação igualmente importante.  Uma de nossas febres literárias foi o gibi do Flecha Ligeira. Nesta época cada familiar ou amigo ganhou um nome de pele vermelha e o pai de Isidoro, com o seu andar pesado e bamboleante, só poderia ser Urso Velho.
Éramos garotos normais, de jogar bola, soltar papagaio e brincar de bolinha de gude. Era a paixão pela leitura que nos fazia inseparáveis. Líamos de tudo, inclusive as revistas de foto-novela da empregada, que eu surrupiava do esconderijo embaixo do colchão.
Numa daquelas caminhadas de volta da escola, Andorinha, que ainda era Isidoro, veio com a descoberta definitiva:
 - É muito fácil saber quem vai ficar com quem numa foto-novela. Esqueça a história. É só olhar para as fotos em close dos dois personagens. Se eles estiverem de perfil, um olhando direto para o outro, com aquele olhar de peixe morto, no final acabam juntos. Mas se um estiver de frente e o outro de perfil, então nada feito.
Fui conferir e era verdade. Ora o vilão estava de frente, com um sorriso maquiavélico, enquanto a mocinha, de perfil, fazia uma cara de pastel. Ora era a mocinha que olhava para nós, como se estivesse com dor de barriga, enquanto o vilão ficava de perfil, com cara de tesão recolhido. Os heróis sofriam o tempo todo, mas apareciam mais em close, de frente ou três quartos, sérios que nem criança cagada. Já os vilões eram mais divertidos e se davam bem a maior parte do tempo. Em compensação, tinham menos closes. Este foi o meu primeiro contato com a metalinguagem.
Mais tarde a paixão pela leitura virou paixão pela escrita. Eu publicava no mural da sala, no jornalzinho do grêmio, onde desse, aqueles textos impublicáveis, que até hoje me perseguem. Andorinha, que não era mais Isidoro, ia engavetando as suas obras. No máximo, as mostrava para mim. Eu era o escritor e ele o engavetador.
A vida nos separou, por um motivo qualquer, o tempo passou e Andorinha, que voltou a ser Isidoro,  não é mais aquele galã. O bigode já se foi há muito tempo. Quando foi buscar o meu processo no armário, reconheci nele os passos do Urso Velho. O talento literário, se não se perdeu, só se exercita nos despachos que profere.
- Não mudei muito - brinca, talvez percebendo a minha expressão. - Ainda sou um engavetador - abre a gaveta de sua mesa e me mostra a sua mais nova produção: uma pilha de processos.
- Este é o meu estoque regulador. Eu sou um funcionário movido à pilha: quando a pilha de processos está alta, eu acelero; quando está baixa eu freio e quando falta serviço, desengaveto o estoque – e concluiu com o seu programa de vida:
- Minha meta é viver até os 150, ou morrer tentando. Um terço de minha vida já foi para o saco. Agora só me restam uns cem anos pela frente, até entrar em equilíbrio térmico com o Universo.
- Ele não concluiu, amável leitor, mas eu me permito fazê-lo: o tempo mata e cedo ou tarde ele vai nos consumir - enquanto isso, vamos matando o tempo.


Carta para a redação

Na semana seguinte, a seção Carta dos leitores recebeu a seguinte correspondência:
Prezados senhores,
Muito interessante a crônica de estréia de Jota Cê, O engavetador. Gostaria de fazer alguns reparos. É claro que o material ficcional não admite correções factuais. Portanto, chamarei as minhas observações de contribuições críticas.
a) Não sei porque o autor insiste em se chamar Júlio Cobra, ignorando a sua certidão de nascimento, onde consta João Cobra. Mas não vamos crucificar mais um Jota Cê. Afinal o que há num nome?
b) Jota Cê nunca resistiu aos trocadilhos, às paródias, aos pastiches e a outras formas de humor baixo. Neste caso quis fazer verão com uma só andorinha. Registre-se, a bem da verdade, que a personagem do engavetador, calcada em pessoa ainda viva, tinha outro apelido, talvez menos literário: Escovinha. O fato é que, quando a Vaca Holandesa fez a fatídica pergunta, alguém (se não me falha a memória, foi o Barrão) comentou em voz baixa:  isto não é bigode, é escova de dente de empregada doméstica.
A Vaca tinha grandes olhos azuis, com aquela expressão triste de quem vai para o matadouro. Gerou um filho, o Bezerro, seu aluno predileto, que tinha o cabelo tão lambido que parecia sua cria. Barrão é um grande porco capado. O nosso só tinha em comum com a espécie, a pança bem socada;
c) os textos de Jota Cê eram realmente deprimentes. Infelizmente não se perderam. Há, nos meus arquivos implacáveis, material suficiente para reconstituir os primeiros passos de nosso Quixote;
d) quando fala em “algum motivo qualquer”, referindo-se às circunstâncias que nos separaram, ele consegue se superar em matéria de eufemismo. Na verdade, foram dez anos de clandestinidade e algumas prisões que nos afastaram. Foi “este motivo qualquer” que manteve os meus textos engavetados, enquanto o Quixote ia publicando suas choradeiras sentimentais e individualistas;
e) já no terreno propriamente estilístico, selecionei alguns dos adjetivos que o autor esparramou pelo texto - fera voraz, funcionário solícito, apêndice capilar, vasto bigode e adolescente imberbe, dentre outras pérolas. Aliás, louve-se o seu esforço em reviver estas expressões do tempo do onça;
f) por último, o Urso Velho leu a crônica e comentou:  eu sabia que aquele menino não ia dar boa coisa. O meu chefe está me olhando de banda e eu voltei a ser o que nunca fui, Andorinha. Agora, na repartição, só me chamam assim;
g) de qualquer maneira, foi muito proveitosa a leitura de sua crônica - descobri que o tempo passa e que a gente envelhece. Espantoso. Ainda bem que o autor resolveu ficar na crônica e desistiu dos contos e romances que publicava, sempre às suas custas e sempre com prejuízo. É melhor mesmo não tentar vôos literários mais altos, porque Deus não dá asa à Cobra. Desculpem, mas eu também chuto de primeira.

Marco Lisboa

terça-feira, 12 de julho de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - segunda parte

As salas de aula

As salas do Estadual eram retangulares, na justa medida de cinco colunas de 6 carteiras. Cada carteira era um conjunto inteiriço, composto de uma cadeira, com assento dobrável, feito aquelas de cinema, e uma mesa, um tampo com um espaço em baixo, onde ficavam os livros e as colas. A parte de cima tinha uma ranhura onde se colocavam os lápis, e uma abertura redonda, supostamente destinada ao tinteiro, que servia para sumir rapidamente com os papeizinhos comprometedores, que às vezes circulavam pela sala. No fundo eram perfeitamente inocentes - alusões à cor da calcinha da professora, a uma colega que estava de paquete, coisas assim.
Mesa e cadeira eram unidas por duas tiras de madeira laterais, que facilitavam o deslizamento sobre o chão de tacos. Uma carteira bem impulsionada podia atravessar a sala inteira, mas as alterações do padrão retangular eram raras. Um ou outro professor experimentava colocá-las em círculo, sempre com péssimos resultados pedagógicos.
 Este número de trinta alunos por sala define a fronteira entre um ensino de qualidade, embora restrito, e um ensino de massa, de pouca qualidade. Trinta era o número máximo que um professor podia controlar, do alto do seu tablado. As escolas públicas eram frequentadas pela elite, que, democraticamente, passava por um exame de admissão. Alguns alunos mais carentes conseguiam passar por essa peneira. Eu era um típico representante da maioria, formada por alunos de classe média. Filho de professora, casada com funcionário público.  A elite preguiçosa ia para as escolas particulares, também conhecidas como boates ou PP – pagou, passou.

No terceiro ano científico, ocupava sempre a última carteira da primeira fileira do lado da porta. Eu usava um caderno de capa dura, que era arremessado contra as costas da cadeira e servia para marcar o meu lugar. Ele assistia a quase todas as aulas, enquanto eu jogava xadrez, no salão do barbeiro. Um tabuleiro só, para toda escola.
No canto esquerdo da sala, junto às janelas, havia um tablado, um quadrado onde ficavam a mesa e a cadeira do professor. Seus domínios compreendiam uma área de circulação em frente ao quadro e os corredores entre as filas de cadeira, por onde ele costumava transitar nos dias de prova.
O nosso professor de Geografia da quarta série, Juscelino Betâmio Paraíso, fazia questão de realçar a diferença entre os dois níveis com seus sapatos 44 bico largo. Ele parava na quina do tablado, um meio pé para fora e depois escorregava com um ruído seco, que marcava o exato momento em que os saltos conseguiam se livrar da borda. Isso exigia a inclinação certa do corpo, não tão à frente que ele se estabacasse, e nem tão tímida que o deixasse engastalhado. A componente do peso na direção do movimento era exatamente igual à força de atrito estático. O suspense servia para sinalizar os pontos mais importantes da matéria.
O material de geografia era uma caixa de lápis, borracha e um livro para colorir. As notas eram proporcionais à maestria em preencher as ilustrações. Uma das páginas trazia o sistema solar; uma bola gigantesca, o Sol, e outras nove, os planetas: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Não esqueço um Sol em tons avermelhados, com gradações de preto, marrom, amarelo e laranja, cuspindo chamas, uma esfera quente e turbulenta. Obra de uma menina. Elas levavam lápis cera, algodão para passar em cima das raspas de lápis, papel de seda e outros acessórios. Nós não éramos páreo para elas.  Uma ficou famosa, gabada em todas as salas pelo professor: Hebe, a formiguinha. Ela tinha mesmo cara de formiguinha, o apelido não proveio de sua diligência. O resultado do método era um alto índice de retenção do conteúdo, a começar pelo nome do professor que persistiu, entre tantos outros, considerados ótimos mestres e que se perderam no anonimato.
Finalmente, é bom ressaltar que, embora as portas ficassem sempre fechadas depois que o Professor entrava, as salas não eram um sistema fechado. Todas tinham uma fileira de janelas ocupando a parede exterior. A parte de baixo, de vidro, era fixa e de cima, opaca era provida de amplos basculantes. A posição dos basculantes era tal que obrigava o aluno a se levantar da cadeira, se quisesse jogar alguma coisa pela janela. Isso significava, no mínimo, um olhar de reprovação do professor, que costumava interromper a frase, à espera que o aluno se sentasse. As janelas ficavam a uns quatro metros do chão do pátio.
Nos últimos anos do colégio, as turmas eram divididas em científico e clássico. Esse último abrigava alunos que fariam os vestibulares de Letras, Filosofia, Sociologia, História e outros cursos, com grande status intelectual e zero expectativa de retorno financeiro. Eram conhecidos como voadores, artistas ou fugidos da Matemática.
Para compensar o sucesso que eles faziam com as garotas, havia o Latim. No meu último ano de Estadual, uma turma do clássico ficou pendurada na prova final. Foi montada uma operação de guerra. Um aluno, que estava matematicamente reprovado, foi fazer a prova. Em pouco tempo, desceu com as questões, que foram divididas e repassadas para uma junta, espalhada pelos bancos da parte inferior da régua. Outra equipe preencheu as várias folhas de papel almaço, previamente assinadas pelos candidatos à bomba, com uma letra mais ou menos similar.
Terminadas as provas, elas foram enroladas, formando um cilindro que foi amarrado ao barbante lançado por uma das janelas. Um grande número de estudantes se reuniu na cantina, a borracha, de onde se podia ver a janela e ficou torcendo. O barbante tinha uma pedra amarrada, para dar estabilidade e marcar a altura exata em que um braço podia passar pelo basculante e alcançar o rolo. Em último caso, serviria para sumir com as provas comprometedoras, caindo com todo o aparato no pátio, fora da sala. As subidas e descidas da pedra, acompanhadas por ahs e hums, marcavam a maior ou menor vigilância do professor. Finalmente ela subiu aos arrancos e um braço rapidamente embolsou o rolo. A galera aplaudiu. Todos foram aprovados.






quinta-feira, 30 de junho de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Bático - continuação da linha do tempo

6 anos: A Sagrada Família

24 de fevereiro: 20º Congresso do PCUS. Khruschov ataca Stalin em informe secreto. É decepcionante como a falta de espaço obriga o redator a sintetizar um momento tão rico em seis palavrinhas tão insossas. “Khruschov (sem nenhum adjetivo) ataca (não diz se com ou sem razão) Stalin em informe secreto”. O tempo vai corroendo a carne e o sangue dos acontecimentos, até que não sobram mais do que uns ossinhos insignificantes. Para um historiador do futuro, que não tivesse outra fonte, seria como reconstituir um Tiranossauro a partir de um metacarpo. Não é o meu caso. Eu posso oferecer o prato original, na linguagem barroca, às vezes hiperbólica, mas sempre suculenta, que não se intimida com adjetivos e advérbios, do documento “50 anos de luta”, do Partido Bolchevique. Não consegui cortar uma citação tão extensa. Seria um crime. Daqui em diante, serei mais sucinto. Os destaques são meus.
“... forte é a pressão da ideologia burguesa sobre o Partido. O desenvolvimentismo vinha sendo difundido intensamente, circulando nas fileiras partidárias e até mesmo na direção nacional. Em meio a tal situação, o Partido toma conhecimento das teses do XX Congresso do PCUS e dos ataques infames de Khruschev a Stálin.
Naquele Congresso, o renegado Nikita Khruschev e sua camarilha rejeitam princípios fundamentais do marxismo-leninismo e iniciam uma luta aberta contra a ditadura do proletariado. Propugnam o caminho burguês, socialdemocrata, da evolução pacífica e, sob a alegação de combate ao culto à personalidade de Stálin, se lançam contra a doutrina da classe operária. Atacam insidiosamente os partidos comunistas e os marxista-leninistas de todo o mundo. Usando criminosamente o prestígio e a autoridade do Partido de Lênin e Stálin, abrem as comportas do       oportunismo e da podridão contrarrevolucionária. Os cães-de-fila da reação  e todo o rebotalho do movimento operário internacional criam alma nova e       combatem raivosamente os partidos leninistas. Os revisionistas soviéticos       causam danos consideráveis ao comunismo internacional.
Também no Brasil, as distorções e calúnias do XX Congresso do PCUS acarretam sérios prejuízos. Manifesta-se no Partido um surto revisionista de grandes proporções. O denominado combate ao culto à personalidade serve de veículo para a difusão no Comitê Central e nas fileiras partidárias de teorias antimarxistas e antileninistas que negam o Partido, enxovalham seu passado de lutas, contrariam o princípio da hegemonia do proletariado, repudiam a revolução.
O Comitê Central fica perplexo e desarvorado porque as teses errôneas têm       sua origem no PCUS, cuja opinião sempre mereceu respeito dos comunistas       brasileiros. Encontra, por isso, dificuldades para combater os elementos       antipartidários que se organizam num grupo de cunho revisionista e       liquidacionista, à frente do qual é colocado Agildo Barata. Esse grupo       assalta os órgãos de imprensa do Partido e, por conta própria, abre       através deles, um debate orientado contra a vanguarda do proletariado e       seus dirigentes e contra os princípios básicos do marxismo-leninismo.
Contudo, firmando-se nos postulados marxistas, o Comitê Central consegue       derrotá-lo. Agildo Barata é expulso do Partido. Mas vários membros da       direção nacional continuam defendendo opiniões revisionistas, entre os       quais se salientam Carlos Marighella, Giocondo Dias, Mário Alves,       Astrojildo Pereira, Orestes Timbaúva, João Massena, Jacob Gorender,       Zuleika Alembert. Persiste, assim, o surto revisionista que, em 1957, toma       novo impulso com a adesão de Prestes àquelas opiniões e com o afastamento       de alguns camaradas do Presidium do Comitê Central, entre os quais João       Amazonas e Maurício Grabois. A orientação khruschevista é adotada       oficialmente pelo Partido e o Programa de 1954 posto inteiramente de lado.
O caminho revolucionário do Partido é, uma vez mais, truncado. Vencem as      concepções reformistas.”
Como diria aquele filósofo, o revisionismo foi indo, foi indo e acabou fondo.

29 de fevereiro: Acaba, em rotundo fracasso, a revolta de Jacareacanga, Pará: dois oficiais direitistas da Aeronáutica desviam avião em ensaio de golpe.
20 de março: Independência da Tunísia, ex-colônia da França.     
28 de abril: Dissolução do Cominform, a partir da guinada à direita de Nikita Khruschev.
31 de maio: Rebelião estudantil-popular chefiada pela UNE contra o aumento da passagem de bonde. Quebra-quebra, ocupação do Rio pelo Exército, 1 morto. Após 7 dias JK chama ao Catete Marcos Heusi, futuro presidente da UNE, para negociar uma solução.
10 de julho: Coalisão de comunistas e esquerda católica (futura AP) resgata a UNE de 5 anos de predomínio direitista.                                            .
26 de julho: O Egito de Nasser nacionaliza o Canal de Suez; a Inglaterra, França e EUA reagem com uma agressão militar. 
14 de agosto: Morre em Berlim Bertold Brecht, 58 anos, poeta, comunista, tido como o maior autor teatral do nosso século. Sua obra terá notável difusão nos movimentos populares do Brasil.     "Quem luta pelo comunismo tem de poder lutar e não lutar; dizer a verdade e não dizer a verdade; prestar serviços e negar serviços; manter a palavra e não cumprir a palavra; enfrentar o perigo e evitar o perigo; identificar-se e não se identificar. Quem luta pelo comunismo tem de todas as virtudes apenas uma: a de lutar pelo comunismo." B. Brecht.
19 de setembro: Lei 2.874 autoriza JK a mudar a capital para Brasília. A UDN se opõe.
19 de setembro: Amílcar Cabral funda o PAIGC, que dirigirá a guerrilha de libertação da Guiné-Bissau e Cabo Verde.
21 de setembro: O patriota Rigoberto Pérez mata o General Somoza. O filho deste, Luís Somoza, assume como ditador da Nicarágua.
21 de outubro: Golpe militar em Honduras.
22 de outubro: Ben Bella e outros líderes da FLN argelina são presos pela autoridade colonial francesa.
23 de outubro: tropas russas invadem a Hungria.
5 de novembro: Tropas anglo-francesas ocupam parte do Egito durante a Guerra do Canal de Suez.
18 de novembro: Independência do Marrocos, antes colônia da França.
2 de dezembro: Desembarque do Granma. Fidel volta a Cuba com 82 militantes para iniciar a guerrilha de Sierra Maestra.
18 de dezembro: Os guerrilheiros cubanos que sobrevivem ao desembarque do Granma reúnem-se, na Sierra Maestra. A serra será o primeiro núcleo da revolução vitoriosa. Os sobreviventes eram doze. Em três anos tomaram o poder. Esta é a história oficial.

         Ano conturbado. Eu havia mudado para a casa da Rua Cônego Floriano, no Bairro da Graça, perto da Sagrada Família. Junto com Altino, moravam sua irmã Samira, seu irmão Josafá e um sobrinho, Eustáquio, mais novo do que eu. As várias canoas furadas, em que mais tarde eu embarcaria, já estavam fazendo água. Ou melhor, se desfazendo como o bote do sapo Toaddy. Minha leitura é a Cartilha de Lili. Altino era muito apegado à sua família, à pequena cidade do interior onde nasceu e aos seus costumes.  Eu resistia a pedir a benção e beijar a sua mão, coisa completamente desusada na minha família materna, mas acabava cedendo. O meu movimento de libertação ainda não existe, ele só vai começa na Idade do Contorno.

terça-feira, 28 de junho de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - continuação

Barreto Pinto - primeiro deputado cassado por quebra de decoro parlamentar

5 anos – o segundo casamento de minha mãe.

Primeiro de janeiro: Criada a primeira Liga Camponesa, no engenho de fogo morto Galiléia, em Vitória de Santo Antão, Pernambuco. Marco inicial da primeira grande onda de lutas pela reforma agrária no Brasil, até o golpe.
18 de abril: Morre o físico Albert Einstein, autor da teoria da relatividade. Socialista, militante da ciência, do pacifismo e da denúncia das armas nucleares. Autor da genial carta a Mileva, sua maior contribuição à humanidade, que é sistematicamente ignorada.
18 de abril: Conferência de Bandung (China, Índia, Indonésia). Cria o Movimento dos Países Não-Alinhados, de índole anti-imperialista.                           .
18 de junho: A Inglaterra retira-se do canal de Suez, que ocupava pela força.
20 de agosto: Rebelião anticolonialista no Marrocos e na Argélia, que a França sufoca com centenas de mortes.                                   
16 de setembro: Estoura em Córdoba, Argentina, o golpe que derruba Perón. 
11 de novembro: Golpe da legalidade: o general Lott, Ministro da Guerra, toma o Rio com 25 mil soldados para garantir a posse de JK e Jango. Lacerda ensaia fuga.
Primeiro de dezembro: A militante negra Rosa Parks recusa-se a dar lugar a um branco num ônibus do Alabama e vai presa por isso. O movimento que se segue liquida a segregação no transporte coletivo dos EUA.
22 de dezembro: Fundado o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e estudos Socioeconômicos). Terá destacado papel na contestação da política salarial da ditadura.
***

             Nesse ano Belogrado tinha trinta cinemas: Acaiaca, Arte, Art Palácio, Brasil, Candelária, Democrata, Eldorado, Floresta Novo, Floresta Velho, Glória, Guarani, Horto, Leão XIII, Metrópole, Minas Tênis, Odeon, Paissandu, Pathé, Progresso, Rosário, Santa Efigênia, Santa Tereza, São Carlos, São Cristóvão, São Geraldo, São José, São Luiz, Tamoios, Tupi e Vitória, sem mencionar o Cine Grátis, um caminhão com uma tela, que estacionava alternadamente em Santa Tereza, Santa Efigênia, na Praça da Liberdade, em Lourdes e na Floresta. Os cinemas eram baratos e viviam cheios. Minha avó sempre me levava ao Cinema Metrópole, para assistir os filmes de censura livre. Depois da sessão íamos à lanchonete em frente, comer misto-quente e tomar Toody. Filmes que assisti: A dama e o vagabundo e Sissi.
Vovó era baixinha, muito empertigada e extremamente ativa. Tentou me ensinar francês, mas eu só me lembro de que matante era minha tia, o que me divertia muito. Ma tante tinha um angorá, o Cri-cri, e me enchia de presentes. Foi graças a ela que terminei o álbum de A dama e o vagabundo.
Além do cinema, havia o rádio, como lazer de massa. Lecy, a empregada, passava o dia cantando “Eu vivo a vida cantando; Hi Lili, Hi Lili, Hi lo; por isso sempre contente estou... “ A pronúncia era Rai Lili, Rai Lili, Rai Lou. A música, versão de Haroldo Barbosa, é o meu primeiro fóssil musical.

O carnaval era transmitido por rádio. O locutor descrevia as fantasias e entrevistava os foliões. Fazia sucesso a fantasia de Barreto Pinto, em homenagem ao Deputado que pousou de fraque e cueca para a revista O Cruzeiro. Foi cassado por falta de decoro. Os sucessos desse ano foram “Maria escandalosa” (E a Maria Escandalosa, é mentirosa, é muito prosa, mas é gostosa), “Tem nego bebo aí”, “A água lava tudo” (A água lava, lava, lava tudo; só não lava a língua dessa gente...). Como eles foram cantados por anos seguidos, não servem para uma datação precisa.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - linha do tempo

A teia de aranha

Graças aos recursos do Instituto, consegui estabelecer os pontos onde a história da Revolução se conecta à minha história pessoal. A linha de tempo elaborada pelo Partido Bolchevique, no suplemento especial do Bandeira Vermelha, foi muito útil. Podemos dizer que ela forneceu os fios de sustentação, o pano de fundo, a base material que permitiu fazer essa conexão. Os comentários em negrito são meus. Algumas vezes, coloquei em contraposição textos do Partido. Tem sido revelador reler estes textos que, em determinada época, eu grifei, esquematizei e resenhei, esmiuçando cada parágrafo, preparando-me conscienciosamente para as discussões internas.



 4 Anos: A espingarda de rolha
5 de fevereiro: A guerrilha vietnamita começa o cerco da estratégica fortificação francesa de Diem Bien-Phu.
8 de fevereiro: 82 coronéis do Exército escrevem ao Ministro da Guerra contra o aumento do salário mínimo. Terminam derrubando o Ministro do Trabalho, João Goulart.
Primeiro de maio: Getúlio, em seu último 1º de Maio, dobra o salário mínimo e diz aos trabalhadores, em Petrópolis: "Hoje estais com o governo. Amanhã sereis o governo”.
7 de maio: Vitória decisiva do Vietnã de Ho Chi-Min em Diem Bien-Phu. A França desiste da Indochina.
17 de junho: Golpe militar depõe o presidente nacionalista da Guatemala, Jacobo Arbenz.
21 de julho: Acordo de Genebra consagra a libertação da parte norte do Vietnã, com Ho Chi Minh como presidente.
24 de julho: A baiana Marta Rocha perde nos EUA o título de Miss Universo, por duas polegadas de quadris a mais.
15 de agosto: Circula frase, atribuída a Getúlio: "Tenho a impressão de estar em um mar de lama”.
22 de agosto: Brigadeiros exigem no Clube da Aeronáutica a renúncia de Vargas. Resposta: "Daqui só saio morto".
24 de agosto: Vargas se mata com tiro de revólver no peito, no Catete, Rio. O rádio irradia sua Carta-Testamento: "Esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém". Protesto espontâneo culpa os EUA pela morte, ataca sedes da UDN e da imprensa de direita. A explosão de revolta leva o Exército a ocupar as grandes cidades. A imprensa de esquerda, ou seja, a do Partido Bolchevique, também foi atacada e algumas sedes de seus jornais depredadas.
25 de agosto: 500 mil pessoas conduzem o corpo de Vargas ao aeroporto Santos Dumont e enfrentam tropa da Aeronáutica, no Rio. Em seu documento “50 anos de luta” o Partido é extremamente reticente sobre o período. Por isso recorro à opinião de um camarada que há tempos se desligou do Partido Bolchevique:
“Getúlio se elegeu e ficou o tempo todo de seu governo sob o ataque incessante do PCB. Quando a crise chegou ao seu auge em agosto de 1954, e Vargas estava sob o fogo cerrado da direita, o PCB não se deu conta de que a conjuntura sofrera uma mudança radical, permanecendo no ataque a Vargas. Somente alguns dias antes do suicídio de Vargas, Prestes conclamou o PCB, pela imprensa, a apoiar Getúlio. No entanto, isto foi inócuo pois os acontecimentos já estavam dados. Além disso, este apoio era cheio de restrições. Resultado: Getúlio cometeu o suicídio, as massas trabalhistas saíram às ruas e os militantes comunistas não tiveram alternativa senão a de juntar-se, nos mesmos protestos, aos trabalhistas. Esta questão, que deixou o PCB perplexo, influiu na posição com relação a JK. ” Trecho de uma entrevista de Jacob Gorender. (A antiga denominação do Partido Bolchevique do Brasil era Partido Comunista do Brasil, daí a sigla PCB).
 2 de setembro: Greve geral anticarestia, liderada pelo Pacto de Unidade Intersindical, para 1 milhão em São Paulo.
19 de setembro: Golpe militar leva o General Stroessner ao poder no Paraguai.
21 de setembro: 2ª conferência nacional de trabalhadores do campo (São Paulo) decide criar a Ultab (União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil). Nessa década tem início a primeira onda de lutas pela reforma agrária no país.
Primeiro de novembro: A FLN começa a luta armada contra o domínio francês na Argélia, com 70 ações guerrilheiras.
***

            Aos quatro anos, tiros só mesmo de espingarda de rolha. Aos cinco, eu ganhei um revólver de espoleta, que representou um ganho considerável de poder de fogo. A munição era uma tira de papel vermelho, com pontinhos pretos contendo pólvora. Ela era colocada no tambor e, cada vez que eu apertava o gatilho, o impacto detonava a espoleta. Um mecanismo de notável precisão tracionava a tira e a colocava em posição para novo disparo. Mulher bonita era só a minha mãe e Getúlio era a estampa da nota de dez cruzeiros, que eu raramente via, porque o salário mínimo era de Cr$ 2.300,00, em 1955, e uma nota dessas não andava nas mãos de menino. O Vietnã não existia, ficava para lá da Cochinchina.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - fim da primeira parte

Pesquisa histórica (continuação)

        E aqui estou, encostado no Instituto de História da Revolução de Belogrado, esperando a qualquer momento ser preso. Outro dia, o Presidente garantiu-me que não há motivo para receios, que não há nada de concreto contra mim, além de fofocas e de ninharias.

“O Presidente Luna fede à traição. ” Acredito que esse meu comentário, repetido em algumas ocasiões, num círculo muito restrito, chegou até ele. Eu não faço nada mais sério do que resmungar comentários desse tipo, de que mais poderia ser acusado? Algo assim nunca seria perdoado, mesmo partindo de um companheiro dos velhos tempos. Penso até que o fato de partir de um antigo camarada é um agravante. 
Fofocas e ninharias.... Seria ótimo se tivéssemos o direito de fofocar e de falar ninharias, mas a Revolução não se permite esse luxo pequeno burguês. Ela está sob constante ameaça e o inimigo utiliza todo tipo de armas para combatê-la. Tão perigosa quanto a sabotagem é a maledicência contra os dirigentes do Partido. Eu seria declarado culpado na mesma hora, se alegasse que as acusações contra mim eram baseadas em fofocas e ninharias.
Se oficialmente não existem acusações, só fato de não saber do que poderia ser acusado é uma prova de meu comportamento esquivo e malicioso. Voltando às fofocas, qualquer militante de base sabe que esse é o disfarce que os renegados usam para encobrir os seus ataques contra a Revolução. Um revolucionário não pode fofocar ou dizer trivialidades. Pouco importa que eu não seja mais militante do Partido: se não me comporto como um revolucionário, sou um contrarrevolucionário. Mesmo fora do Partido Bolchevique, estou atado às suas concepções.
Não entendo a demora em iniciar o meu processo. Talvez porque, depois de mim, não haverá mais ninguém dos antigos para condenar; ou porque, dessa vez, resolveram caprichar na peça acusatória. Antes disso, Luna pretende saborear o meu desespero, implorando perdão por um crime que eu não cometi, e pelo qual sequer fui acusado.
Bukharin fez sua jovem esposa decorar uma carta aos camaradas de um futuro Comitê Central  que terão a missão histórica de dissipar a monstruosa nuvem de crimes que se torna cada vez mais imensa nestes tempos assustadores, incendiando-se como uma chama e sufocando o partido.(...) Agora, nestes dias que serão provavelmente os últimos de minha vida, tenho confiança de que mais cedo ou mais tarde o filtro da história inevitavelmente retirará a vileza que pesa sobre minha cabeça. (...) Peço que uma geração jovem e honesta de líderes do partido leia minha carta ante um pleno do partido, a fim de me absolver. (...) Saibam, camaradas, que nesse estandarte que vocês conduzirão na marcha vitoriosa para o comunismo, há também uma gota do meu sangue”. Esses russos sempre foram melodramáticos.
Não farei nada parecido. Nunca fui Bukharin. Quando muito, sobrevivo nos interstícios da História, nas notas de pé de página, até o dia em que serei um verbete de duas linhas, na Grande Enciclópedia Eletrônica da RBSOC.  Num futuro tribunal da História, quem seriam os meus juízes? Direita e esquerda, proletários e burgueses, tudo isso já se misturou, se fundiu e se confundiu. Talvez eu devesse me dirigir às massas. Mas a cada dia eu compreendo com mais clareza que nunca compreendi as massas e que elas nunca me compreenderão. Não importa, farei um último balanço, uma tentativa de achar síntese, um sentido, se é que tal coisa existe. Na pior das hipóteses, se não descobrir o porquê, pelo menos reconstituirei o como.
Uma coisa é certa: nada de diletantismo. Brinquedos, embalagens, artefatos - esse filão já se esgotou. Pesquisa histórica de verdade. O trabalho no Instituto permite que eu vasculhe todo o material dos anos da minha infância e juventude: jornais, almanaques, revistas, arquivos municipais, tudo o que possa estar vagamente relacionado com a história do Partido Bolchevique.
Estou tecendo uma teia que se apoia sobre vários fios radiais: os filmes, os programas de televisão, as músicas, os jogos de futebol, os crimes e outros acontecimentos marcantes. Esses fios por sua vez estão amarrados por uma série de fios paralelos, que formam uma sucessão de polígonos concêntricos: a cronologia política. Essa teia, parecida com aquelas que as epeiras teciam nos jardins da Rua do Ouro, vai permitir a captura de um ou outro inseto mais suculento - um ponto de inflexão, um momento de crise, um conflito chave, sabe-se lá o que.


O Arrudas desemboca no Mar Báltico - sexto capítulo

Pesquisa histórica

Meu projeto inicial compreendia a datação por eras, baseada na estratégia de Hiparco para determinar o brilho aparente dos acontecimentos e na busca de artefatos. Infelizmente, não foi possível prosseguir com essa abordagem. Não passei de uma dúzia de páginas, que imprimi e arquivei numa pasta, faz algum tempo.
Hoje, na nossa República Brasileira dos Sindicatos de Operários e Camponeses, nem mesmo a memória é um local seguro. Ainda assim, eu confio no papel, porque sei que não há melhor lugar para uma pesquisa comprometedora do que o Instituto de História da Revolução de Belogrado, cuja principal tarefa é arquivar os fatos que não devem ser divulgados. Foi muito próprio da maneira de pensar do Presidente colocar-me à frente do Instituto. Eu passei a responder pessoalmente por qualquer vazamento e tornei-me o melhor guardião de sua biografia. Ele sabe que tenho a sensibilidade necessária para distinguir os fatos que poderiam desagradá-lo, embora também saiba, com absoluta certeza, que nada será capaz de arranhar sua imagem.
O Presidente Luna adora se ver ainda jovem, imortalizado no bronze, a mirada no infinito, como que antevendo o futuro, as superfícies chapadas se interceptando em ângulos incisivos, transbordante de energia e de decisão, conflitando com o que era o rosto redondo, de traços amolecidos, sempre sorridente e solícito, do único operário do Comitê Regional do Partido Bolchevique de Minas Gerais.
Um artista inspirado conseguiu criar, a partir de uma foto antiga, esse molde. Com o aval do Grande Líder, milhares de bustos, de todos os tamanhos, passaram a povoar as praças e os parques de Belogrado. De todo o país, na verdade, mas eu estou definitivamente confinado aqui, onde os meus passos são vigiados por esse exército de bronze.
O busto é uma obra de ficção, comparável à História do Partido Bolchevique do Brasil, que transformou o desligamento do Camarada Gervásio por omissão no cumprimento das tarefas partidárias, na perda de contato com o Partido, devido à repressão que se seguiu ao Primeiro Grande Ensaio da Revolução. Os retratos oficiais do Grande Líder são evoluções dessa foto primitiva, ou melhor, desse mesmo molde. Com os recursos gráficos do computador não precisamos recorrer ao pincel de retoque, nem de aplicar a tesoura aos negativos de antigas fotos granuladas. O tempo é generoso com o nosso Líder.
Embora o papel do Grande Timoneiro seja irretocável e definitivo, sou obrigado a realizar pesquisas e a publicá-las. Todas elas absolutamente irrelevantes, uma leve pátina que colore o metal, assinalando a passagem benevolente do tempo. Elas costumam ser assinadas por uma equipe e o meu nome aparece esporadicamente, como coordenador. Entretanto, é o meu pescoço que está em jogo.
Ultimamente, tenho me detido muito nos tempos em que fazia parte do Comitê Estudantil do Partido Bolchevique de Belogrado, junto com Verônica, Ivã, Dimitri e Koba. Verônica e Ivã morreram no Araguaia. Dimitri continua no partido, num posto secundário, onde não corre riscos e Koba não viveu para ver os pequenos tomarem o poder. Ele odiava os pequenos burgueses - os pequenos, como dizia.
Muitas vezes, brincando, ele me chamava de o Bukharin do partido. O Bukharin original era “o benjamim dos bolcheviques russos”. O irmão menor foi um grande teórico marxista, muito culto, embora desprovido de malícia na prática política. Aliou-se a Stalin na luta contra Trotsky, Kamenev e Zinoviev. Foi liquidado, depois que a velha guarda foi varrida.   Com certeza, era à sua erudição que Koba se referia.
Essa minha fixação pela teoria já havia aflorado com o xadrez. Um dos meus primeiros livros de xadrez estava escrito em russo – Curso de aberturas, de Panov. Comprei o Manual de Língua Russa, da Potapova e, em pouco tempo, consegui saber que Фишер era Fischer. Com um pouco de esforço, fiquei conhecendo o nome das peças e os adjetivos que indicavam se uma jogada era boa ou ruim.

Eu não conseguia jogar uma abertura sem conhecer as suas variantes principais. Não era tanto insegurança, era mais uma exigência que fazia a mim mesmo. Meu sonho era me tornar um grande mestre e não admitia tratar o xadrez com frivolidade. Era um desrespeito ao jogo me meter em complicações cujo segredo eu não dominasse. O engraçado é que, nas partidas intermináveis que jogava com Roberto, o meu conhecimento teórico não conseguia se sobressair.  Lênin estava certo, primeiro a gente se engaja no combate, depois se vê o que fazer. 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico Quinto capítulo


Os doces






        Minha infância foi açúcar puro, sem adoçantes artificiais. O grosso desse açúcar vinha da produção caseira, com destaque para o doce de figo verde. Os figos eram colhidos por meu avô, no quintal. Depois de colhidos, ele lixava, com uma lixa fina, furava com um garfo e os colocava de molho, para depois serem cozidos e ganharem calda. Meu avô estava em casa o tempo todo, a não ser quando saia para resolver uns assuntos misteriosos.  Ou quando ia ao Mercado Central, comprar laranja serra d’água.

A serra d’água era pequena, doce e com muito caldo, bem diferente das laranjas grandes e aguadas, que agora usurpam o nome. Um cento cabia numa saca. Nos degraus da escada da cozinha, que dava para o quintal, passávamos um tempão descascando e chupando laranjas. Eu gostava de descascar de gomo, em vez de chupa-chupa, uma operação difícil, por causa da pele fina da fruta.
No Mercado Central havia a matéria prima do meu doce predileto: o doce de laranja da terra. As cascas ficavam de molho dentro de uns latões de 20 litros, cortadas parcialmente em cruz, de modo que as quatro partes permanecessem unidas. A vendedora enfiava a mão no latão, sacudia a água e embalava as cascas. Depois enxugava a mão no avental e fazia o troco. Alzira só cozinhava e fazia a calda. O azedinho-doce era inigualável.
Os ingredientes para os outros quitutes eram guardados na despensa. A lata de banha com açúcar cristal ficava debaixo da pia, junto à de arroz e à de feijão. Nos fins de semana, alternavam-se os bolos, as gelatinas, os pavês e os biscoitos cozidos. As balas puxa-puxa eram feitas no tacho de cobre, com açúcar cristal. Minha avó usava o açúcar refinado para polvilhar o pão doce com manteiga, que ela chamava de pão com pó de pirlipimpim. Ele também era colocado no tomate, cortado ao meio. Os abacates, depois de seccionados, levavam algumas gotas de limão e tinham a cavidade do caroço preenchida com açúcar refinado. Eram comidos de colherinha. Tudo era adoçado.
Além dos manufaturados e dos semimanufaturados, havia os derivados do cacau: as moedinhas douradas de chocolate, que eu costumava ganhar de aniversário, os cigarrinhos de chocolate com leite e as Nhá Bentas, que minha mãe comprava na Loja da Kopenhagen.. A Nhá Benta vinha em uma caixa de papelão, com a figura de uma vovó. Era uma pequena montanha de marshmallow, com uma base de waffer, coberta por uma camada fina de chocolate. A Kopenhagen ficava na esquina de Tamoios com Afonso Pena. Depois da aula, nós saíamos do Instituto de Educação e descíamos a Afonso Pena até a Rio de Janeiro. O ônibus para o Bairro da Graça ficava na Tupinambás. Eu fazia o primário e ela o curso normal.
Todo ano, passávamos as férias no Espírito Santo e trazíamos caixas e caixas de bombons Garoto. Eu não gostava dos redondos, exceto o Sonho de Valsa, e nem dos recheados de coco. Escolhia primeiro os quadrados, depois os recheados com uma massa meio azedinha, de tamarindo. No Espírito Santo ficavam o Centro Espírita do Caboclo Tabajara, onde o meu padrasto havia sido iniciado, e as praias: Nova Almeida, Marataízes, Guarapari, Anchieta, Iriri, Jacareípe, etc.
A dieta de carboidratos e açúcar produzia um saudável sobrepeso, sinal de saúde. O modelo era o famoso Bebê Johnson, que era escolhido num concurso entre os mais corados e rechonchudos. Eu mesmo era candidato a um prêmio de robustez infantil. As cáries eram um efeito colateral.
A complementação dessa dieta era feita com a deliciosa farinha láctea Nestlé (outro fóssil!), mandiopã, sucrilhos Kellogs e outras fontes calóricas e ou energéticas. Indo para o Instituto de Educação, levava na merendeira a vitamina de abacate manteiga, um mingau num belo tom esverdeado. O chiclete era considerado um péssimo hábito, embora tolerado. Não se admitia o seu uso nas salas de aula ou na frente dos adultos.
Ainda no terreno dos carboidratos havia os biscoitos Maisena e os champanhe, que se comiam encharcados de leite. Lembro um dos Lobatos, de Vitória, enchendo o meio de dois biscoitos Maria com manteiga, espremendo e lambendo as minhoquinhas que saiam pelos furos. Ele chamava mesmo de minhoquinhas, aqueles vermes de manteiga. Não era à toa que tinha dentição de tubarão, com um dente caindo após o outro. O leite vinha em garrafas de litro, entregues na porta ou vendidos nas vaquinhas. Não existia leite desnatado, leite A, B e C, ou qualquer outro leite adjetivado. Havia o leite da CCPL e pronto (A sigla queria dizer: Comeram o Cu do Pobre Leiteiro).
Eu enjoava em qualquer viagem um pouco mais longa, fosse de ônibus, de carro ou de trem. Quando íamos para o Espírito Santo, a expedição incluía o tradicional frango com farofa e para mim, que ficava praticamente em jejum, ameixa pretas. Foi em Vitória, no Hotel Majestic, de Dona Elvira, que experimentei o feijão preto, de gosto esquisito e que sujava o prato.
Quando mudei para o Bairro da Graça, deixei a excelente culinária da Alzira. A sua irmã, Angélica, nos acompanhou, mas a comida não tinha o mesmo paladar. Havia um prato especialmente detestável: miolo de boi, que não sei por que, me empurravam dizendo que era mandi, um peixe. Fígado era outra tortura.  É claro que a regra de ouro era: botou no prato tem que comer, dando graças a Deus porque não ser como as criancinhas pobres, que sonhavam com um prato daqueles. Eu comia, e elas continuavam com fome. Com o tempo, fui vencendo essas rejeições, mas uma ficou: detesto jiló. Que minha mãe adora, é claro. Ela acabou aderindo ao adoçante e ao óleo de soja, mas não abandonou os doces, os biscoitos e os bolos. Como é que algo que nos alimentou a infância toda pode  nos fazer mal?



sexta-feira, 10 de junho de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - terceiro capítulo


Meu pai havia morrido num desastre de carro e eu fui criado com meus avós maternos e minha mãe, que mais tarde se casaria. Na casa de meus avós havia duas empregadas e, durante algum tempo, um tio. Até a minha adolescência, eu saia e voltava para esta casa, nas férias escolares, nas festas, nos fins de semana e nos períodos em que minha mãe brigava com o marido.
Altino era baixinho, gordinho, com um bigode negro lustroso e um ar sempre grave - parecia uma autoridade em qualquer assunto que abordasse.  A corte à minha mãe foi toda feita no alpendre, na frente da casa, ambos sentados nas cadeiras de ferro, com a porta da sala encostada.
O alpendre, assim como o banheiro, era ponto de partida de outras expedições e escaladas. De lá, pelo mesmo apoio que contornava toda a casa, eu chegava até o meu quarto, cuja janela ficava do lado direito, na frente. À esquerda ficava a escada que levava do jardim para o segundo piso e que também servia de divisa para o lado esquerdo do triângulo. Este lado, mais tarde, ganharia um muro, que iria da escada até o fim do terreno, no galinheiro. Eu ainda consigo lembrar da cerca de arame farpado e do pé de amora. Numa expedição de coleta de frutos, fiquei enganchado no arame, e a cicatriz ainda se vê, na parte lateral interna da canela direita, muito sumida. O pé de amoras ficava do outro lado da divisa e não sobreviveu ao muro.
Hoje eu sei que a pele, enquanto crescemos, efetua estranhas translações e rotações, deslocando as manchas e as cicatrizes com ela. Uma mancha no peito da criança pode ir parar nas costas do adulto. Nem nas cicatrizes se pode confiar. A amoreira ainda estava lá, quando eu fiz uma criação de bichos da seda, no primário. Como nesta época minha mãe já havia se casado, concluo que era comum eu passar longos períodos na casa de meus avós. Talvez as férias todas. Mas esses períodos ofuscam os outros e a casa do meu padrasto, para onde nos mudamos depois do casamento, não é tão nítida. Era pequena, no alto de uma ladeira de terra vermelha, impraticável quando chovia e ótima para se cavar túneis nos seus barrancos. Tinha um quintal cimentado e um galinheiro. Não consigo fazer um mapa exato de seus cômodos.
Minha primeira lembrança de Altino é no alpendre da casa de minha avó, examinando o meu boletim do Jardim.
- Bom, bom, bom; só tem bombom neste boletim. É preciso melhorar. Depois do bom, ainda havia o ótimo. Mas para mim já estava bom.
Passei minha infância e adolescência escondido no meio da turma, sem me destacar. Era uma atitude consciente, até onde me lembro. No pré-primário, eu adorava tirar sete. Achava o número mais bonito do que o dez. Lembro de que quando fazia letras nos cadernos de caligrafia, entortava os Es, cuidadosamente, para conseguir a nota mágica.
Minha mãe sempre me consolava, dizendo que as notas não eram importantes e que eu poderia conseguir um dez, quando quisesse. Eu sabia que sim, mas, hoje, duvido que ela soubesse. O pré-primário foi feito em uma escola perto da nova casa, que ficava no Bairro da Graça, perto da Sagrada Família. Outra coincidência, que vou utilizar para denominar esta era de A Idade da Religião. Foi a época em que me tornei ateu e comunista.
Uma coisa foi consequência da outra, as duas estão irremediavelmente interligadas. Altino, o marido de minha mãe, era espírita. As sessões dominicais, que eu era obrigado a assistir, eram realizadas na sala, muito pequena e de chão de tacos, onde os pontos eram riscados. A porta da sala fica aberta e a assistência se acomodava no alpendre, sentada numas cadeiras brancas de tiras de metal.
De início, a religião espírita me atraiu. No pré-primário eu havia frequentado o catecismo, incentivado por minha mãe, que achava que qualquer religião seria uma influência benéfica. A professora era uma freira de olhos grandes e redondos, da cor do hábito cinza. Ela reunia os alunos debaixo de uma mangueira, no pátio, e ia lendo e explicando as perguntas.  Por que Deus criou o homem? Resposta: Para amá-lo e adorá-lo.
Eu não admitia aquela posição subalterna, mesmo reconhecendo a potência divina. Foi minha primeira briga com a autoridade. O distanciamento e a rígida hierarquia da Igreja me afastaram definitivamente do catolicismo e me aproximaram do espiritismo, uma religião sem dogmas. Até hoje eu detesto as igrejas, guardando uma antipatia muito maior pelos templos modernos, com sua decoração prosaica. Politicamente, sempre desconfiei da Teologia da Libertação. Contraditoriamente, penso que a pompa e a circunstância são essenciais à fé. Mas estes são pensamentos de outra época; eu não fazia estas teorizações com apenas seis anos.
O certo é que a imposição de assistir as sessões também me afastou do espiritismo. A minha rejeição culminou com o dia em que, de tanto inclinar a cadeira, sem nada para fazer no meio de uma daquelas reuniões, acabei descendo a escada do alpendre de costas, indo parar no meio do gramado. A queda, além do susto, não resultou em nada mais grave. O simbolismo é evidente, embora não tenha sido este o momento da ruptura. Não existe um dia em que possa dizer: eu então me tornei ateu.