Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.

Consulte o dicionário do cinismo, no rodapé do blog.

Divulgação literária e outros babados fortes

Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Manhã no Bairro Paraíso


Hora de pôr o lixo para fora
Os ônibus escolares passam recolhendo o gado
Hora em que levo os gatos pra passear
Pra comer a grama da calçada

Os garotos pastam a primeira refeição: Geometria
Expelem uma bola de pelos: Física
Defecam Geografia
Vomitam História

Comem ração de filhotes
Ás vezes, ração molhada
Um pouco de leite, coalhada
São o futuro da nação

Os gatos cheiram o portão
Leem as primeiras notícias
Quem passou por aqui?
Aquele cachorro safado, aquele gato intrometido?

Os garotos abrem o zap zap
Quem deu para quem?
As minas sacam os gatos
Os manos babam nas tetas

Os gatos se enroscam na cama
Deitam no sofá
Ronronam
Começa um dia perfeito

Os garotos saem da escola
Um bando em revoada
Uma pegação, uma zoação
Oba! Vai ter porrada
São o futuro da nação

Tonto, meu gato preto, puxa conversa
Ele detesta os ônibus, os garotos sempre correndo
Tem medo desse bando barulhento
Que um dia vai ter que correr, pra ganhar sua ração

São o futuro da nação

Marco Lisboa



sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O trabalho de inglês


“The way was very beatifull” Tadinha, meio burrinha, mas gostosa. Dá para ver que ela se esforçou, usou o dicionário, gastou todo o inglês que tinha..
-  Me dá aí , disse Oliveira.
- Humm, letra de moça, com certeza. Redonda, caprichada. Olhe os tês iniciais - elaborados. Tem um esse maiúsculo que parece uma clave de sol. E olha que isso era um rascunho, está todo rasurado. Como é que ela entregou o trabalho assim?
- Não entregou, fui eu quem tomou a folha.
- Dá para ver duas dobras, ele deveria estar dentro de um livro. Por que você tomou o trabalho dela? perguntou Oliveira.
- Ela estava lendo essa folha, sem prestar atenção na aula. Quando viu que eu a observava, dobrou o papel e o enfiou dentro da agenda. Fiquei curioso e pedi o que eu pensei que fosse um bilhete.
- Não é bilhete, professor, estava conferindo o rascunho da composição.
E me entregou essa folha.
Era hora do recreio, a sala dos professores estava cheia e os dois não tinham muito o que fazer.
- Vamos traçar um perfil da moçoila. Margens estreitas em todos os sentidos, sem necessidade. Isso é raro. Segundos os especialistas, sinais de uma personalidade conflitante. As linhas estão quase horizontais, mas nota-se que são côncavas, vão descendo até o meio e depois sobem para manter o alinhamento. Meticulosa e determinada. Oliveira se gabava de ser perito em grafologia.
- Quanto a inclinação da letra, ela é praticamente vertical, com os  tês  em ângulo de 90 graus - autocontrole. Letra muito legível - sociável. Eu diria que a letra é grande -autoconfiança. Letra larga e espaçada -  orgulhosa. Olhe esses emes, enes e os. Eles formam arcadas na parte superior - calculista. As letras estão todas ligadas - autodisciplina.
Letra redonda, definitivamente - afetiva. A letra é pressionada com força e a pressão é constante. A caneta é uma esferográfica vagabunda, forma pontos de tinta onde se detém para mudar de direção. Eu não diria que é uma escrita lenta. Ela tem algumas letras mais rebuscadas, mas ganha tempo com os tês, os efes e os pês - emotiva. Engraçado, emoção e razão estão brigando. A área superior está bem balanceada em relação a área central. Uma boa proporção entre os tês e os emes, eu diria - equilibrada. Essa área central diz que ela gosta de chamar a atenção.
- Humm, essa parte inferior invade a linha de baixo – ela é do tipo esportiva?. E esses laços rebuscados dos efes? Aí tem. Essa menina esconde algumas taras. As maiúsculas são bem ornamentadas, com ênfase no lado esquerdo - vaidosa e egoísta. Esses ornamentos nos is e nos tês iniciais denotam certa imprudência. E o traço extra no a maiúsculo confirma a meticulosidade.
- Agora vamos aos as e aos os minúsculos. Bem fechados - cautelosa. E os dês e gês? Esse laço no gê a entrega - impulsiva. O seu i maiúsculo é original. Não dá para dizer muita coisa. Esses pingos nos is minúsculos, à direita da letra, mostram entusiasmo e rapidez. Esse traço ornamentado no tê maiúsculo é sinal de mau gosto. E o corte nos tês minúsculos mostra ambição, agressividade.
- Resumindo: a moça é impulsiva, mas sabe se controlar. Sociável, afetiva, mas ambiciosa e agressiva. Ela tem autoestima elevada, sabe o que quer e é do tipo esportivo, pensa rápido. Quer um palpite: ela tem fantasias em relação a você. Você era o destinatário do bilhetinho, que deveria ser anônimo. Ela agiu rápido e entregou esse rascunho, que deveria estar na agenda. Chame para sair e vê o que acontece. E depois me conta.
Ah,esse Oliveira...



quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - segunda parte

Os Quinze

O espaço-tempo é relativo. De 12 anos até os 15 e dos 15 até os 17, decorrem décadas.  Equivalem à distância entre os 30 e os 40 ou entre os 40 e os 50. Por uma questão de proporção, é preciso escolher alguns anos mais emblemáticos, mesmo com o risco de deixar de fora eventos muito significativos. Como eu vou e volto nesse contínuum, ora visitando o passado com minha consciência presente; ora recuperando meus olhos de criança ou de adolescente; o que ficou para trás será retomado em algum momento, se valer a pena.
Os 15 são definitivamente um divisor de águas. Nesse ano, nasceu uma barba cerrada, que me permitia assistir os filmes de 18 anos. Deixei para trás aqueles vergonhosos 1,60 m. Emagreci. Entrei para o primeiro científico. Turma mista.
Deixei de ser um bicho do mato que sofria com as brincadeiras dos colegas mais velhos. A turma saia junta para beber, para as festas e excursões. Em vez de colecionar maços de cigarros, tornei-me um consumidor. As preferidas eram as cigarrilhas Vedete. Baratas e fáceis de serem escondidas. A primeira namorada só veio aos 17, mas as primeiras experiências sexuais, com a vizinha da minha avó, começaram nessa época. 
O que eu pensava das coisas em geral, da existência, do meu lugar no Universo? Lembro uma conversa embaraçosa com o Xexéu. O apelido era devido ao cabelo meio alourado e desgrenhado, parecido com a plumagem do passarinho. A turma era um zoológico. O Cobra era Cobra por força do sobrenome. O Bezerro, por ser a cria preferida da Vaca Holandesa, nossa professora de matemática. Que devia o apelido aos seus grandes olhos azuis e desesperados. E a uma certa pachorra bovina, com que reagia às brincadeiras pesadas da turma. O Bezerro tinha o cabelo curto e empastado – consequência das lambidas da Vaca. O Barrão era mais velho e ostentava uma pança digna de um porco novo inteiro. Acho que o zoológico terminava com esses espécimes. Havia o Buick, não sei por que cargas d’água. O Maranhão, por conta de seu estado natal. E eu, Garrafa, por conta dos óculos fundo de garrafa, graças a uma miopia que só me permitia contar os dedos da mão do oculista até um metro de distância.
Certo dia, eu havia passado na Biblioteca e descido a Bahia para o centro, com o Xexéu, que ia pegar o ônibus para Santa Tereza. Bem na Afonso Pena, onde íamos nos separar, ele me pergunta, sem maiores introduções: o que você acha do homem?
O Xexéu, Ferrugem ou Beatnik, tinha a cara dos anos sessenta: barbicha rala e óculos de intelectual. Era enturmado com a esquerda católica. Que, a essas alturas, estava deixando Maritain para trás e mergulhando em um humanismo mais engajado. Eu lia de tudo e não sintetizava nada daquela mistureba de Dostoievsky com Bertrand Russel. Em política, era contra os militares e os americanos e apoiava o socialismo, o que não queria dizer muita coisa. A maioria no Estadual pensava assim.
Eu queria ser livre, antes de mais nada. E mergulhar de cabeça nas novas experiências. Queria ser campeão mundial de xadrez. Queria dar uma carga de baioneta e morrer como um herói. Queria beber como um herói. Queria me envolver com uma daquelas heroínas de Dostoievsky, bem trágica.

- O que eu acho do homem? Eu gosto é de mulher. O resto da cena, piedosamente, se perdeu. Não sei como terminou aquela conversa constrangedora.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Meu 11 de setembro

Setembro de 1973, eu estava em São Paulo, clandestino. Enquanto isso, minha diretoria da UNE se dissolvia. Eu havia saído de Porto Alegre, depois de uma série de prisões. Fui primeiro para Caxias, onde fiquei na casa do Ernesto, velho militante do PCB.

Um dos temas, inevitável, de nossas conversas, era a situação do Chile. Minhas previsões eram pessimistas: o golpe era iminente. Seria uma reedição do golpe de 64. Mais um na série de golpes militares que assolaram o continente nos anos 70. Ernesto discordava. Segundo ele, eu não confiava na força da classe operária chilena. Não chegamos a um acordo.
Em São Paulo, ironicamente, eu fiquei numa pensão da Lapa, perto do aparelho do PC do B que seria estourado em 1976. Quando vi as fotos da sala, com o sofá e a mesa de centro, reconheci o local onde havia me reunido com parte do Comitê Central várias vezes, desde 1970.

(Foto da chacina da Lapa, com os corpos de Ângelo Arroyo e Pedro Pomar)

Da pensão de Dona Pierina guardo algumas lembranças. A dona, uma italiana que adorava Fernet, muito branca, com a pele macilenta. Um hóspede, negro, que curtia a novela O Bem Amado, que assistíamos na televisão da sala comum.
Estávamos em pleno governo Médici, na véspera da ofensiva final contra a Guerrilha do Araguaia. O PC do B estava sendo exterminado nas cidades. Em dezembro de 72, caiu o sítio em Jacarepaguá.  Onde eu havia me reunido algumas vezes com Lincoln Oest, Carlos Danielli e Guilhardini, do Comitê Central. Todos assassinados.
Lembro vagamente de um militante do Espírito Santo, que participou de uma dessas reuniões. Era o Foedes, que entregaria o sítio e o partido no seu estado. Miriam Leitão foi presa, em consequência dessa delação.
O Bem Amado, de Dias Gomes, era uma parábola sobre o poder. Falava do coronelismo, mas podia ser lida como uma crítica aos generais. Não me lembro do nome do meu companheiro de pensão, o negro que curtia a novela. Por um ou outro comentário, eu percebia que ele ia além de uma leitura imediata da trama.
Um dia de setembro, pela manhã, veio o golpe. Que assisti em preto e branco, narrado segundo a versão de Pinochet. Á noite a Junta Militar já havia assumido o poder. 300 mil pessoas foram presas, 35 mil torturadas, pelo menos 3 mil assassinadas nos primeiros dias do golpe e mais de 30 mil durante o regime Pinochet. Lembro de o negro ter comentado que Allende era um homem bom.
O Bem Amado virou uma série, em 1980. O Chile elegeu e reelegeu Bachelet, que foi para a clandestinidade, depois do golpe, sendo presa e exilada. O Brasil saiu do regime militar em 1985. Alguns dos militantes que participaram dessa luta estão de volta à cadeia. Dessa vez por corrupção. Houve um outro 11 de setembro, que ofuscou a queda de Allende.
Se a História se repete, é certo, com novos atores e novos enredos, temos que procurar o similar do impeachment de Dilma no impeachment de Collor. Dilma não é Getúlio, muito menos Jango, menos ainda Allende. O PT não é de esquerda e os militares estão nos quartéis (menos na Venezuela).
Eu também mudei, só não perdi aquela mania de me apegar à realidade, por mais que ela contrarie os meus desejos.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - segunda parte, capítulo 6

A biblioteca
A Biblioteca Pública ficava na rota de saída do colégio. Eu descia a pé a Rua da Bahia, parava para devolver um livro e retirava outro. Lia num ritmo de uma página por minuto, praticamente um livro por dia. Todo Sherlock Holmes, todo Dostoievski, Allan Poe, Chesterton,  Aldous Huxley, Walter Scott e um monte de autores menores, ingleses e americanos. Voltaire e Bertrand Russell. Anatole France, Prosper Merimée e um monte de autores menores franceses.
Lia sem método, pulando estilos, países, sem recomendação de ninguém. Dostoievski me impressionou particularmente. Seus personagens torturados, perdidos. Adorava seus enredos melodramáticos, quase novelísticos, suas mulheres orgulhosas, que se humilhavam para provar sua superioridade moral. Eu as via pálidas, de grandes olhos, gargantilhas e camafeus, cabelos presos, saias negras até o chão.
Admirava suas discussões teológicas, seu eslavismo, sua exacerbação. Os nomes que eu pronunciava à brasileira (Karamazóv e não Karamázov), os estranhos costumes, os prédios com vários apartamentos, pequenos quartos alugados e um pátio. Era um escritor que contabilizava cada copeque. Dostoieviski  fazia questão de discriminar o valor em rublos de cada propriedade, o salário de cada pequeno funcionário, o valor de cada garrafa de vodka barata.
Estranhamente, nunca pensei em escrever. Acho que era muito crítico, tinha padrões muito altos. Detestava as aulas de português, a poesia e as redações obrigatórias. Gostava de fazer resenhas de livros. Na maior parte das redações, os meus colegas buscavam os efeitos fáceis, as descrições de paisagem com o sol sempre se pondo, ou nascendo. Eu fazia uma redação padrão, dissertativa, sem grandes voos.
Lembro-me de uma redação que fez sucesso na escola. O soldado, perdido do batalhão, no meio da neblina, escutando cada ruído. Era jovem, arrimo de família, não entendia o porquê da guerra, queria viver, aqueles clichês todos. Alto, quem vem lá! Era amigo. E tome discurso. Até o fim triunfal. Um estalo. Quem vem lá! Era o inimigo.
A maior parte de minha cultura inútil foi adquirida na adolescência. Adquiri a arte de pesquisar rapidamente um assunto, de estabelecer correlações e me tornei definitivvamente um autodidata. Meu vocabulário era enorme, possuía um conhecimento enciclopédico de países, cidades, costumes, moedas, etc. Karl May foi lido de cabo a rabo. Sabia os nomes dos animais amigos do Tarzan, as palavras da linguagem dos gorilas, um monte de expressões em árabe, as peças de uma armadura medieval e por aí vai.
Era o mais novo da turma, um dos mais baixos. Óculos fundo de garrafa, tártaro nos dentes, desajeitado. Não sabia dançar nem andar de patins e caia da bicicleta.. Tímido, poucos amigos, sofri nos primeiros anos com as piadas e as alusões sexuais que não entendia. O espelho era meu inimigo. Gordinho, feio, a testa curta, o nariz chato, o queixo redondo. Até chegar aos 15.



Trama

Trama


Novelo enrolado
No centro da trama, um gato
Desembaraçado

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A trilha Ho Chi Minh - segunda parte

A minha guerra era travada no alpendre da casa da minha avó. As bisnagas de colírio eram as B 52; as formigas cortadeiras eram as outras formiguinhas humanas, os vietnamitas. Como eu já revelei, um metro abaixo do parapeito, havia um ressalto que contornava toda a casa. Ele era usado como trilha para abastecer o formigueiro. O bombardeio de água não era letal. No máximo eu conseguia acertar em cheio uma formiga, com uma gota de água, arremessando-a uns dois metros abaixo, no chão do jardim. As bisnagas podiam dar rajadas (jatos contínuos) ou tiros (gotas). Eu preferia os tiros, a água durava mais e não eram tão impessoais. Às vezes eu perseguia uma formiguinha mais rápida, com tiros que iam deixando sua marca na trilha caiada. Ela se sacrificava para permitir que suas irmãs atravessassem com sua carga preciosa. Outras vezes, era mais científico: fazia uma barreira de fogo que detinha a coluna. O bombardeio durava horas. Ás vezes, um curioso parava no passeio, para ver aquele adolescente, de óculos fundo de garrafa, brincando como uma criança.
É engraçado como cultivamos alguns medos e aversões. Toda minha adolescência foi povoada de fantasias de duelos e de brigas, no melhor estilo dos filmes B. Uma coisa eu detestava nesses filmes: aquelas cenas de batalha em que a infantaria avançava com o passo cadenciado pelos tambores, passando por cima dos soldados que iam caindo, derrubados pela artilharia do inimigo. Se alguém tem um fuzil na mão, por que não atirar? O que tem na cabeça de um sujeito que vai para a batalha tocar tambor ou carregar o estandarte do regimento?
Nas poucas passeatas em que participei, ficava sempre na retaguarda, pronto a sair correndo. Não era só uma questão de medo. Uma vez participei de uma panfletagem no Mineirão. O Mineirão foi inaugurado quando eu estava no segundo científico, com um gol de Bugleaux. A panfletagem deve ter sido no segundo ou no terceiro científico. Lembro que o Xexéu (também conhecido como Ferrugem) participou de alguma maneira. Os panfletos eram guardados dentro da meia; uma folha de meio papel ofício, mimeografada. Não lembro qual era o jogo. Ações assim, individuais, em que eu “controlava” os acontecimentos eram excitantes. Mais tarde eu faria com prazer pichações e panfletagens noturnas.
Era difícil definir como eu encarava aqueles estudantes que iam à frente das passeatas; com as faixas, muitas vezes de braços dados, formando uma corrente. Na maioria das vezes eram os primeiros a apanhar de cassetete e não tinham muito para onde correr. Primeiras manifestações de individualismo? Eu me dispunha a levar o meu fardo na trilha, junto a outras tantas formiguinhas, mas nada de ir na frente.
O que eu fazia com 17 anos na casa da minha avó? Acompanhava minha mãe, que mais uma vez havia brigado com o meu padrasto. Nas horas vagas, comia a garota retardada do vizinho e estudava para o vestibular de engenharia. Consegui sucesso nas duas empresas: passei e engravidei a garota. Perdi a guerra contra as formigas. Os americanos também perderam a sua.