Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.

Consulte o dicionário do cinismo, no rodapé do blog.

Divulgação literária e outros babados fortes

Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - sexto capítulo

Pesquisa histórica

Meu projeto inicial compreendia a datação por eras, baseada na estratégia de Hiparco para determinar o brilho aparente dos acontecimentos e na busca de artefatos. Infelizmente, não foi possível prosseguir com essa abordagem. Não passei de uma dúzia de páginas, que imprimi e arquivei numa pasta, faz algum tempo.
Hoje, na nossa República Brasileira dos Sindicatos de Operários e Camponeses, nem mesmo a memória é um local seguro. Ainda assim, eu confio no papel, porque sei que não há melhor lugar para uma pesquisa comprometedora do que o Instituto de História da Revolução de Belogrado, cuja principal tarefa é arquivar os fatos que não devem ser divulgados. Foi muito próprio da maneira de pensar do Presidente colocar-me à frente do Instituto. Eu passei a responder pessoalmente por qualquer vazamento e tornei-me o melhor guardião de sua biografia. Ele sabe que tenho a sensibilidade necessária para distinguir os fatos que poderiam desagradá-lo, embora também saiba, com absoluta certeza, que nada será capaz de arranhar sua imagem.
O Presidente Luna adora se ver ainda jovem, imortalizado no bronze, a mirada no infinito, como que antevendo o futuro, as superfícies chapadas se interceptando em ângulos incisivos, transbordante de energia e de decisão, conflitando com o que era o rosto redondo, de traços amolecidos, sempre sorridente e solícito, do único operário do Comitê Regional do Partido Bolchevique de Minas Gerais.
Um artista inspirado conseguiu criar, a partir de uma foto antiga, esse molde. Com o aval do Grande Líder, milhares de bustos, de todos os tamanhos, passaram a povoar as praças e os parques de Belogrado. De todo o país, na verdade, mas eu estou definitivamente confinado aqui, onde os meus passos são vigiados por esse exército de bronze.
O busto é uma obra de ficção, comparável à História do Partido Bolchevique do Brasil, que transformou o desligamento do Camarada Gervásio por omissão no cumprimento das tarefas partidárias, na perda de contato com o Partido, devido à repressão que se seguiu ao Primeiro Grande Ensaio da Revolução. Os retratos oficiais do Grande Líder são evoluções dessa foto primitiva, ou melhor, desse mesmo molde. Com os recursos gráficos do computador não precisamos recorrer ao pincel de retoque, nem de aplicar a tesoura aos negativos de antigas fotos granuladas. O tempo é generoso com o nosso Líder.
Embora o papel do Grande Timoneiro seja irretocável e definitivo, sou obrigado a realizar pesquisas e a publicá-las. Todas elas absolutamente irrelevantes, uma leve pátina que colore o metal, assinalando a passagem benevolente do tempo. Elas costumam ser assinadas por uma equipe e o meu nome aparece esporadicamente, como coordenador. Entretanto, é o meu pescoço que está em jogo.
Ultimamente, tenho me detido muito nos tempos em que fazia parte do Comitê Estudantil do Partido Bolchevique de Belogrado, junto com Verônica, Ivã, Dimitri e Koba. Verônica e Ivã morreram no Araguaia. Dimitri continua no partido, num posto secundário, onde não corre riscos e Koba não viveu para ver os pequenos tomarem o poder. Ele odiava os pequenos burgueses - os pequenos, como dizia.
Muitas vezes, brincando, ele me chamava de o Bukharin do partido. O Bukharin original era “o benjamim dos bolcheviques russos”. O irmão menor foi um grande teórico marxista, muito culto, embora desprovido de malícia na prática política. Aliou-se a Stalin na luta contra Trotsky, Kamenev e Zinoviev. Foi liquidado, depois que a velha guarda foi varrida.   Com certeza, era à sua erudição que Koba se referia.
Essa minha fixação pela teoria já havia aflorado com o xadrez. Um dos meus primeiros livros de xadrez estava escrito em russo – Curso de aberturas, de Panov. Comprei o Manual de Língua Russa, da Potapova e, em pouco tempo, consegui saber que Фишер era Fischer. Com um pouco de esforço, fiquei conhecendo o nome das peças e os adjetivos que indicavam se uma jogada era boa ou ruim.

Eu não conseguia jogar uma abertura sem conhecer as suas variantes principais. Não era tanto insegurança, era mais uma exigência que fazia a mim mesmo. Meu sonho era me tornar um grande mestre e não admitia tratar o xadrez com frivolidade. Era um desrespeito ao jogo me meter em complicações cujo segredo eu não dominasse. O engraçado é que, nas partidas intermináveis que jogava com Roberto, o meu conhecimento teórico não conseguia se sobressair.  Lênin estava certo, primeiro a gente se engaja no combate, depois se vê o que fazer. 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico Quinto capítulo


Os doces






        Minha infância foi açúcar puro, sem adoçantes artificiais. O grosso desse açúcar vinha da produção caseira, com destaque para o doce de figo verde. Os figos eram colhidos por meu avô, no quintal. Depois de colhidos, ele lixava, com uma lixa fina, furava com um garfo e os colocava de molho, para depois serem cozidos e ganharem calda. Meu avô estava em casa o tempo todo, a não ser quando saia para resolver uns assuntos misteriosos.  Ou quando ia ao Mercado Central, comprar laranja serra d’água.

A serra d’água era pequena, doce e com muito caldo, bem diferente das laranjas grandes e aguadas, que agora usurpam o nome. Um cento cabia numa saca. Nos degraus da escada da cozinha, que dava para o quintal, passávamos um tempão descascando e chupando laranjas. Eu gostava de descascar de gomo, em vez de chupa-chupa, uma operação difícil, por causa da pele fina da fruta.
No Mercado Central havia a matéria prima do meu doce predileto: o doce de laranja da terra. As cascas ficavam de molho dentro de uns latões de 20 litros, cortadas parcialmente em cruz, de modo que as quatro partes permanecessem unidas. A vendedora enfiava a mão no latão, sacudia a água e embalava as cascas. Depois enxugava a mão no avental e fazia o troco. Alzira só cozinhava e fazia a calda. O azedinho-doce era inigualável.
Os ingredientes para os outros quitutes eram guardados na despensa. A lata de banha com açúcar cristal ficava debaixo da pia, junto à de arroz e à de feijão. Nos fins de semana, alternavam-se os bolos, as gelatinas, os pavês e os biscoitos cozidos. As balas puxa-puxa eram feitas no tacho de cobre, com açúcar cristal. Minha avó usava o açúcar refinado para polvilhar o pão doce com manteiga, que ela chamava de pão com pó de pirlipimpim. Ele também era colocado no tomate, cortado ao meio. Os abacates, depois de seccionados, levavam algumas gotas de limão e tinham a cavidade do caroço preenchida com açúcar refinado. Eram comidos de colherinha. Tudo era adoçado.
Além dos manufaturados e dos semimanufaturados, havia os derivados do cacau: as moedinhas douradas de chocolate, que eu costumava ganhar de aniversário, os cigarrinhos de chocolate com leite e as Nhá Bentas, que minha mãe comprava na Loja da Kopenhagen.. A Nhá Benta vinha em uma caixa de papelão, com a figura de uma vovó. Era uma pequena montanha de marshmallow, com uma base de waffer, coberta por uma camada fina de chocolate. A Kopenhagen ficava na esquina de Tamoios com Afonso Pena. Depois da aula, nós saíamos do Instituto de Educação e descíamos a Afonso Pena até a Rio de Janeiro. O ônibus para o Bairro da Graça ficava na Tupinambás. Eu fazia o primário e ela o curso normal.
Todo ano, passávamos as férias no Espírito Santo e trazíamos caixas e caixas de bombons Garoto. Eu não gostava dos redondos, exceto o Sonho de Valsa, e nem dos recheados de coco. Escolhia primeiro os quadrados, depois os recheados com uma massa meio azedinha, de tamarindo. No Espírito Santo ficavam o Centro Espírita do Caboclo Tabajara, onde o meu padrasto havia sido iniciado, e as praias: Nova Almeida, Marataízes, Guarapari, Anchieta, Iriri, Jacareípe, etc.
A dieta de carboidratos e açúcar produzia um saudável sobrepeso, sinal de saúde. O modelo era o famoso Bebê Johnson, que era escolhido num concurso entre os mais corados e rechonchudos. Eu mesmo era candidato a um prêmio de robustez infantil. As cáries eram um efeito colateral.
A complementação dessa dieta era feita com a deliciosa farinha láctea Nestlé (outro fóssil!), mandiopã, sucrilhos Kellogs e outras fontes calóricas e ou energéticas. Indo para o Instituto de Educação, levava na merendeira a vitamina de abacate manteiga, um mingau num belo tom esverdeado. O chiclete era considerado um péssimo hábito, embora tolerado. Não se admitia o seu uso nas salas de aula ou na frente dos adultos.
Ainda no terreno dos carboidratos havia os biscoitos Maisena e os champanhe, que se comiam encharcados de leite. Lembro um dos Lobatos, de Vitória, enchendo o meio de dois biscoitos Maria com manteiga, espremendo e lambendo as minhoquinhas que saiam pelos furos. Ele chamava mesmo de minhoquinhas, aqueles vermes de manteiga. Não era à toa que tinha dentição de tubarão, com um dente caindo após o outro. O leite vinha em garrafas de litro, entregues na porta ou vendidos nas vaquinhas. Não existia leite desnatado, leite A, B e C, ou qualquer outro leite adjetivado. Havia o leite da CCPL e pronto (A sigla queria dizer: Comeram o Cu do Pobre Leiteiro).
Eu enjoava em qualquer viagem um pouco mais longa, fosse de ônibus, de carro ou de trem. Quando íamos para o Espírito Santo, a expedição incluía o tradicional frango com farofa e para mim, que ficava praticamente em jejum, ameixa pretas. Foi em Vitória, no Hotel Majestic, de Dona Elvira, que experimentei o feijão preto, de gosto esquisito e que sujava o prato.
Quando mudei para o Bairro da Graça, deixei a excelente culinária da Alzira. A sua irmã, Angélica, nos acompanhou, mas a comida não tinha o mesmo paladar. Havia um prato especialmente detestável: miolo de boi, que não sei por que, me empurravam dizendo que era mandi, um peixe. Fígado era outra tortura.  É claro que a regra de ouro era: botou no prato tem que comer, dando graças a Deus porque não ser como as criancinhas pobres, que sonhavam com um prato daqueles. Eu comia, e elas continuavam com fome. Com o tempo, fui vencendo essas rejeições, mas uma ficou: detesto jiló. Que minha mãe adora, é claro. Ela acabou aderindo ao adoçante e ao óleo de soja, mas não abandonou os doces, os biscoitos e os bolos. Como é que algo que nos alimentou a infância toda pode  nos fazer mal?



segunda-feira, 13 de junho de 2016

O A Arrudas desemboca no Mar Báltico Quarto Capítulo


Na casa de meus avós, sempre havia  “O Cruzeiro”, a revista “Manchete” e as “Seleções do Reader's Digest”. Nessa última, a União Soviética era   um país frio e cinzento, onde se prendiam e torturavam freiras. A melhor propaganda comunista que havia. Quando o Sputnik, o primeiro satélite artificial da Terra, foi lançado, gravei na porta do meu guarda-roupas a efeméride, com a melhor letra que consegui fazer. O móvel não foi para a Avenida do Contorno.
A miopia se manifestou nesta época. Na escola, mesmo sentado na primeira fila, eu não conseguia ler o quadro. Segundo minha mãe,  saí do consultório do Dr. Coutinho, com os meus primeiros óculos, apontando para as árvores e dizendo:- Mãe, as árvores têm folhas!
Ela conta e reconta esta história como se fosse verdade. E a lenda permanece - eu só descobri que as árvores tinham folhas aos sete anos. Cresci ouvindo que era míope porque lia muito. Muito mais tarde, já na clandestinidade, passei a usar lentes de contato. A letra ficou maior nas cartas que enviava, diz minha mãe. Talvez haja uma relação. Talvez não.  Na época, eu trabalhava como apontador e precisava fazer uma letra  grande e legível nas folhas onde anotava os tempos.
“O pé da galinha não esmaga os pintinhos”. A frase está perdida nas brumas da pré-história e  volta sempre quando relembro minha mãe. A raiz de minha atração pela ciência e a minha ojeriza pelas metáforas, pelo exagero e pela poesia, estão fincadas nesta era. Entretanto, na maior parte do tempo, eu aproveitava o calor das asas protetoras. A reação contra o sentimentalismo é muito posterior.
O talento de minha mãe para recriar os fatos era notável e fez várias vítimas. Eu ouvia   os casos da família, contados e recontados, sem desconfiar  do "exagero", como dizia Altino.. Um tio paterno gerou uma dúzia de filhos, que foram ganhando nomes começados com a letra A. A maioria inspirada na Bíblia. Minha mãe recriou um Abimelec, cujo apelido seria Melequinha. E eu cresci repetindo esta história de um primo que nunca existiu. Mas que deveria ter existido, segundo a sua lógica.
Uma vez,  ela convenceu uma professora de que a ilha de Fernando de Noronha havia sido tomada pelos americanos, que lá fizeram uma base. E a nova geografia chegou a ser ensinada em sala de aula.
Nesta época, começa a minha própria carreira de contador de histórias. Eu lia tudo que me caía nas mãos. Chegava a tirar as revistas de fotonovelas da Alzira, guardadas debaixo do colchão, para ler às escondidas. Minha primeira descoberta no terreno da metalinguagem nasceu destas leituras. O vilão e a mocinha eram sempre fotografados em ângulos diferentes, um de frente e o outro de lado, ou, no máximo, em ângulos de 3/4. Já os dois mocinhos eram  vistos de frente um para o outro. É claro que havia um monte de outras convenções, todas elas muito mais evidentes, mas esta descoberta me encheu de orgulho.
O próximo passo foi mais ousado. Comecei a contar a história de um filme, só a partir dos cartazes que via no jornal. A ilustração mostrava uma mocinha, um castelo e um espadachim. Usando o  título, eu reconstitua a história para Alzira, com o triângulo amoroso fatal, o rapto da mocinha para se casar à força com o vilão e a tomada do castelo pelos camponeses revoltados, seguida do duelo final. O triunfo  vinha quando ela me perguntavam se eu havia visto o filme. Não - mas conheço a história toda! Cheguei  a escrever grandes narrativas, cheias de piratas, tesouros e lutas de espada. Muitos livros depois, ganhei referências  para criticar a minha produção e me tornar apenas um leitor, ao ritmo de uma página por minuto e um livro por dia.
Os nomes e lugares exóticos me atraíram desde cedo. Em consequência, a minha cultura inútil, verdadeiramente enciclopédica, foi ganhando milhares de verbetes. Lia atabalhoadamente, sem método. O meu primeiro livro (ou um dos primeiros) foi “As aventuras do sapo Toaddy”. A gravura dele voando num barco de madeira e se espatifando persistiu. Durante muito tempo, quando minha mãe queria brincar com a minha falta de jeito dizia: - lá vai o sapo Toaddy.

 Depois vieram os livros de Tarzan (a coleção completa), Júlio Verne, Sherlock e os clássicos de aventuras: Capitão Blood, Beau Geste, Scaramouche, etc. Todos lidos no primário, com certeza. São anteriores à Avenida do Contorno. Outro nome absolutamente real e talvez simbólico. Mas o que é que eu iria contornar? De qualquer maneira, não pretendo sacrificar as minhas recordações para que elas se amoldem a um nome: A Idade do Contorno. As eras geológicas têm nomes muito mais arbitrários e nem por isso determinam o trabalho dos paleontologistas. 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - terceiro capítulo


Meu pai havia morrido num desastre de carro e eu fui criado com meus avós maternos e minha mãe, que mais tarde se casaria. Na casa de meus avós havia duas empregadas e, durante algum tempo, um tio. Até a minha adolescência, eu saia e voltava para esta casa, nas férias escolares, nas festas, nos fins de semana e nos períodos em que minha mãe brigava com o marido.
Altino era baixinho, gordinho, com um bigode negro lustroso e um ar sempre grave - parecia uma autoridade em qualquer assunto que abordasse.  A corte à minha mãe foi toda feita no alpendre, na frente da casa, ambos sentados nas cadeiras de ferro, com a porta da sala encostada.
O alpendre, assim como o banheiro, era ponto de partida de outras expedições e escaladas. De lá, pelo mesmo apoio que contornava toda a casa, eu chegava até o meu quarto, cuja janela ficava do lado direito, na frente. À esquerda ficava a escada que levava do jardim para o segundo piso e que também servia de divisa para o lado esquerdo do triângulo. Este lado, mais tarde, ganharia um muro, que iria da escada até o fim do terreno, no galinheiro. Eu ainda consigo lembrar da cerca de arame farpado e do pé de amora. Numa expedição de coleta de frutos, fiquei enganchado no arame, e a cicatriz ainda se vê, na parte lateral interna da canela direita, muito sumida. O pé de amoras ficava do outro lado da divisa e não sobreviveu ao muro.
Hoje eu sei que a pele, enquanto crescemos, efetua estranhas translações e rotações, deslocando as manchas e as cicatrizes com ela. Uma mancha no peito da criança pode ir parar nas costas do adulto. Nem nas cicatrizes se pode confiar. A amoreira ainda estava lá, quando eu fiz uma criação de bichos da seda, no primário. Como nesta época minha mãe já havia se casado, concluo que era comum eu passar longos períodos na casa de meus avós. Talvez as férias todas. Mas esses períodos ofuscam os outros e a casa do meu padrasto, para onde nos mudamos depois do casamento, não é tão nítida. Era pequena, no alto de uma ladeira de terra vermelha, impraticável quando chovia e ótima para se cavar túneis nos seus barrancos. Tinha um quintal cimentado e um galinheiro. Não consigo fazer um mapa exato de seus cômodos.
Minha primeira lembrança de Altino é no alpendre da casa de minha avó, examinando o meu boletim do Jardim.
- Bom, bom, bom; só tem bombom neste boletim. É preciso melhorar. Depois do bom, ainda havia o ótimo. Mas para mim já estava bom.
Passei minha infância e adolescência escondido no meio da turma, sem me destacar. Era uma atitude consciente, até onde me lembro. No pré-primário, eu adorava tirar sete. Achava o número mais bonito do que o dez. Lembro de que quando fazia letras nos cadernos de caligrafia, entortava os Es, cuidadosamente, para conseguir a nota mágica.
Minha mãe sempre me consolava, dizendo que as notas não eram importantes e que eu poderia conseguir um dez, quando quisesse. Eu sabia que sim, mas, hoje, duvido que ela soubesse. O pré-primário foi feito em uma escola perto da nova casa, que ficava no Bairro da Graça, perto da Sagrada Família. Outra coincidência, que vou utilizar para denominar esta era de A Idade da Religião. Foi a época em que me tornei ateu e comunista.
Uma coisa foi consequência da outra, as duas estão irremediavelmente interligadas. Altino, o marido de minha mãe, era espírita. As sessões dominicais, que eu era obrigado a assistir, eram realizadas na sala, muito pequena e de chão de tacos, onde os pontos eram riscados. A porta da sala fica aberta e a assistência se acomodava no alpendre, sentada numas cadeiras brancas de tiras de metal.
De início, a religião espírita me atraiu. No pré-primário eu havia frequentado o catecismo, incentivado por minha mãe, que achava que qualquer religião seria uma influência benéfica. A professora era uma freira de olhos grandes e redondos, da cor do hábito cinza. Ela reunia os alunos debaixo de uma mangueira, no pátio, e ia lendo e explicando as perguntas.  Por que Deus criou o homem? Resposta: Para amá-lo e adorá-lo.
Eu não admitia aquela posição subalterna, mesmo reconhecendo a potência divina. Foi minha primeira briga com a autoridade. O distanciamento e a rígida hierarquia da Igreja me afastaram definitivamente do catolicismo e me aproximaram do espiritismo, uma religião sem dogmas. Até hoje eu detesto as igrejas, guardando uma antipatia muito maior pelos templos modernos, com sua decoração prosaica. Politicamente, sempre desconfiei da Teologia da Libertação. Contraditoriamente, penso que a pompa e a circunstância são essenciais à fé. Mas estes são pensamentos de outra época; eu não fazia estas teorizações com apenas seis anos.
O certo é que a imposição de assistir as sessões também me afastou do espiritismo. A minha rejeição culminou com o dia em que, de tanto inclinar a cadeira, sem nada para fazer no meio de uma daquelas reuniões, acabei descendo a escada do alpendre de costas, indo parar no meio do gramado. A queda, além do susto, não resultou em nada mais grave. O simbolismo é evidente, embora não tenha sido este o momento da ruptura. Não existe um dia em que possa dizer: eu então me tornei ateu. 
    

quinta-feira, 9 de junho de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico - segundo capítulo

Tenho a planta da casa desenhada de memória, com seus quartos imensos e sua sala cúbica (cinco por cinco por cinco), onde eu e meu avô caçávamos leões. As portas eram de canela e a da cozinha tinha uma tranca, uma tira de ferro pesada, presa em uma argola, de um lado, e apoiada em um encaixe, do outro. As chaves eram imensas, pesadas, de ferro batido.
O terreno era inclinado e triangular. A base dava para a rua e ficava num nível inferior. A casa fora construída há mais de trinta anos, com paredes de quase meio metro de espessura, no andar de baixo. Nela havia um porão, onde se guardavam a lenha e os escorpiões. Neste andar, moravam Elza, enteada de minha avó, seu marido José e a filha Beatriz. Os cômodos da casa eram imensas caixas de ressonância e, encostando o ouvido no chão de tábuas corridas, eu me divertia escutando as discussões do casal.
À noite, com a mudança de temperatura, o assoalho e o teto estalavam o tempo todo. Na cama, encolhido debaixo das cobertas, eu fingia dormir, enquanto tentava adivinhar a direção dos passos que percorriam a casa. Meu tio ficava fora a maior parte do tempo e eu tinha um quarto imenso, só para mim. Entre os dois andares havia um ressalto de uns oito centímetros, onde um pé de criança podia se apoiar. Eu fazia constantes expedições de busca ao quarto das empregadas, saindo pela janela do banheiro, que ficava na parte de trás, segurando na calha de chuva para contornar a quina da casa e andando mais uns cinco metros, colado na parede. Depois era só subir pela jardineira de alvenaria que ficava na janela do quarto.
O terreno permanece com o mesmo número, 247. Em cima dele há um edifício de apartamentos. Parece menor. São as distorções do tempo e do espaço, que tenho que descontar, quando saio em minhas excursões arqueológicas. Meus olhos são olhos de criança. Quando voltei a Belogrado, logo depois da Revolução, caminhei um dia inteiro por suas ruas, sem destino. A cidade havia encolhido.
Como foi lá que passei a minha adolescência, e lá que atingi a minha estatura atual, concluo que as memórias de criança são mais persistentes. Os sonhos que eu tenho, quando se passam em um local determinado, são todos nesta casa. O tempo dessas lembranças é lento e difuso.
O terreiro era meu território de caça, onde passava a maior parte do tempo. Às vezes entrava na cozinha para apanhar um punhado de feijões nas latas de mantimentos que ficavam embaixo da pia. Eram latas de banha, de vinte litros e a do feijão ficava sempre do lado esquerdo. Os feijões serviam de projéteis para as zarabatanas de canudo de mamona. Quando Alzira, a empregada, resolvia vigiar o arsenal, eu mudava para os cones de papel. Os melhores eram feitos com as páginas de O Cruzeiro, mas eles não tinham muita direção e nem potência.
As armas primitivas eram as zarabatanas e o bodoque de galho de espirradeira. A gominha é de outra idade. A caça era abundante no pequeno tanque, abaixo do galinheiro. Havia duas espécies de maribondos, os comuns, com o abdômen listrado de preto e amarelo e os maribondos cavalos, grandes, pretos e lustrosos. Quando amassados deles saia uma gosma branca. Eram mais perigosos do que os leões e, às vezes, eu também tinha que sair correndo. Meu avô já não me acompanhava nestas expedições.
Havia também os pardais, as pombas e as aranhas. As epeiras, de jardim, e as grandes aranhas, que ficavam nas bananeiras. Estas se enovelavam todas quando atingidas e a gosma que saía delas era amarelada. Além das saúvas, que se engalfinhavam até a morte, depois que se arrancavam as suas antenas.  Elas iam se podando, com suas mandíbulas cortantes e no final restavam só os troncos e algumas pernas.

Do lado de dentro ficavam os esconderijos: na sala, atrás do sofá. Nos quartos, debaixo das camas e dentro dos armários, no banheiro, dentro do cesto de roupas sujas. Na sala ainda não havia a televisão, apenas a eletrola de olho de boi. A pré-história foi uma era silenciosa e de grandes explorações.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico

A Idade do Ouro


Minha primeira lembrança é a espingarda de rolha.
- Olha o leão, batuta! Atrás do sofá.
            A sala era imensa e escura e, atrás do sofá, meus olhos de criança enxergavam dois pontos brilhantes.
- Morreu, vovô?
- Não, batuta. Ainda está se mexendo.
A rolha ficava presa pelo barbante e num segundo eu recarregava a espingarda. De vez em quando, para me assustar, ele fingia que o leão ia dar um bote. E ria até mais não poder, enquanto eu fugia às carreiras.
A minha coleção de maços de cigarros, colados num caderno de folhas quadriculadas, é um pouco posterior à espingarda. Eles estavam organizados por ordem alfabética: Astória, Belmonte, Continental ... A coleção me acompanhou durantes anos, mesmo depois que tive consciência de que aqueles maços apanhados na rua não tinham valor. E, até hoje, guardo a memória daquelas caçadas como se fossem gemas puras. No fundo sei que elas estão contaminadas, que também são de segunda mão, porque existe a memória recorrente de minha mãe contando e recontando esta história. Sempre tive pena de jogar fora as coisas.
Estas são as minhas melhores lembranças do meu avô, de uma época em que ele ainda era um herói. A espingarda existiu, é certo. Uma vez coloquei o indicador no cano para sentir o mecanismo do disparo e machuquei o dedo. A lembrança da dor é muito forte e serve de autenticação para o artefato.
Muitos anos luzes depois, descobri que o número de estrelas que vemos no céu não é infinito. São 5.500, no Hemisfério Norte. E 880 já haviam sido catalogadas, por ordem de brilho aparente, com uma precisão incrível. O método era tão simples quanto genial. Escolhido um ponto de partida, ia-se seguindo uma trajetória poligonal pré-fixada, de estrela em estrela, comparando os seus brilhos relativos. Até hoje o Catálogo de Hiparco serve de referência para os astrônomos calcularem a magnitude absoluta e a distância destas estrelas.
O método me inspirou e, graças a ele, minhas pesquisas arqueológicas na Idade do Ouro têm sido bem-sucedidas. As camadas são datadas por artefatos (uma espingarda de rolha, um gibi, um livro...) e eu vou determinando a magnitude aparente de cada acontecimento. As dificuldades são semelhantes - acontecimentos muito distantes têm um brilho aparente muito pequeno, embora, se considerarmos a luz que eles emitiram, tenham sido de primeira magnitude. Hoje em dia, quando não ouço mais os sinos da Revolução tocando a rebate, o tempo se tornou matéria abundante, onde eu posso garimpar à vontade. Beverly, Caporal Amarelinho, Hollywood, Lincoln, Macedônia, Pullman ...A datação é facilitada pela persistência de alguns destes objetos. Naqueles anos, antes do Primeiro Ensaio da Revolução, o maço de Continental sem filtro trazia um mapa em revelo dos dois continentes, em verde azulado escuro sobre fundo branco. Este desenho atravessou décadas. Desta época, um dos poucos fósseis que restaram foi a caixa de Maizena.

  




A partir dos cinco anos termina a pré-história. Foi o ano em que tive sarampo, em que minha mãe se casou e em que eu comecei a frequentar o jardim de infância. A casa ficava na Rua do Ouro. O nome agora ganha um brilho aparente que absolutamente não tinha. Poderia mudá-lo, mas não o farei. Eu acredito em coincidências e gosto de brincar com elas. Nada estava escrito nas estrelas e nunca estará.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

No escuro, todos pardos são gatos

No meio de uma arrumação, descobri essa poesia perdida nas gavetas eletrônicas. Há um encosto de Drummond mal dissimulado (que ele me perdoe), mas me pareceu que é um bom retrato da mediocridade atual.

O gato pardo


Nasci pardo
Nem claro, nem escuro
Antes obscuro

Não carrego o fardo do homem branco
Nem a canga do escravo
Brando é meu fado

Sem a ginga do negro
Sem o enfado do branco
Só a pinga nos concilia

Tenho duas mãos esquerdas
E  muito me preocupa o mundo
Mas estou cansado

De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto engolir sapos,
de tanto afogar as mágoas
Me dá uma preguiça...

Esquerda
Direita
Meia volta, volver
Vamos aos trancos e barrancos
Negros pardos e brancos