Não
saio
Não que eu creia que fiz um bom governo.
Sei, melhor que ninguém, do dano que causei
Não saio
Tampouco porque acredite na democracia
E veja no impeachment um golpe
Posto que sei muito bem como me elegi
Não saio
Não na esperança de que um dia me façam justiça
Se nem meu partido, nem meu criador, a fazem agora
Fico
Porque sei que vocês me odeiam.
Marco Lisboa
Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.
Consulte o dicionário do cinismo, no rodapé do blog.
Divulgação literária e outros babados fortes
Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.
quinta-feira, 28 de abril de 2016
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
Conto de Natal
Conto de Natal
O Sr. Erany
informa que tem 67 anos, é aposentado e sustenta um filho epiléptico e uma
mulher “com paralizia”. Nada disso é relevante para o processo em tela, mas
ele, com aquela educação das pessoas
humildes, acha que é necessário se apresentar e explicar minuciosamente sua
história.
Tudo isto foi escrito em uma folha de papel almaço, com letra irregular e
surpreendentemente legível, apesar dos tremidos. Aduziu que não encontra
emprego, por causa da idade. Ganha os R$ 260,00 da aposentadoria, o que mal
deve dar para os remédios. Mas isso ele não revela, com aquele resto de pudor
que ainda mantém.
Inicia nomeando o cargo da autoridade competente, precedido pelo
indefectível Sr. Dr Fulano de Tal. O assunto é a sua inscrição em dívida ativa.
A origem do débito é explicada com singeleza: para aumentar os seus proventos,
montou uma barraquinha de ambulante, tudo legalizado, segundo ele. Mas assim
não entendeu o fiscal municipal de postura, que lavrou o competente auto de
infração. Ainda segundo ele, a multa o deixou
“decepissionado”.
Não há dúvida de que o estilo é o homem. Logo à frente, pondera que a
razão do não pagamento é “porque, talvez, ele não tinha dinheiro”. A frase é
toda uma vida. Usa-se um eufemismo para não ofender tão alta autoridade com
problemas tão prosaicos. Reconhece a obrigação de pagar e não cogita em
argumentar que ela é injusta - todo o seu argumento é “ad misericordiam”.
O Sr. Erany é um daqueles homens bons, que acredita no poder de uma boa
conversa, com jeitinho, sem forçar a barra. Até se excede um pouco, afirmando
que, “com certeza”, o Doutor veio das classes humildes. Talvez isso fosse
verdade no seu tempo, em que o filho da lavadeira começava como contínuo e ia
galgando, degrau por degrau, a hierarquia do serviço público.
Os tempos agora são outros. A Carta Magna de 1988 acabou com os
privilégios e decretou a igualdade de todos perante a lei. A nomeação para os
cargos de carreira se faz através da aprovação em concurso público. Quero ver o
filho da lavadeira, que estudou em escola pública, que escreve “paralizia” e “dessepicionado” chegar até
aqui, aonde eu cheguei.
Mas o coitado persiste nesta crença e acha mesmo que a autoridade poderia
ser sensível ao seu apelo. Admitindo que o fosse, estaria cometendo crime de prevaricação
se agisse contra a legislação em vigor,
apesar do motivo humanitário. Tenho certeza que ele desconhece o que seja
prevaricação.
Porque há o motivo. O Sr. Erany não mente. Sua exposição é uma peça
inteira, consistente, uma aula de sociologia em uma única mísera lauda de papel
almaço, meio amarelado. Acabo por admitir que no seu pedido há muito mais
conteúdo do que no meu arrazoado. Esse
meu estilo cartorial e pedante, cheio de polissílabos e de jargão jurídico,
temperado com um latim macarrônico, acaba abafando as minhas convicções.
Em anexo, xerox da carteira de identidade e mais uma papelada: exames,
atestados, etc. Já se acostumou a ter que provar que é ele mesmo, e que o que
disse é verdade. Não perdi tempo olhando a sua foto.
Sou simpático a sua causa, mas não a sua figura. Ele me irrita com seus
eufemismos, sua humildade, sua resignação. Indigno-me, por ele que não se
indigna. Mas uma repartição pública é o lugar mais inadequado do mundo para
indignações. Se o papel aceita o que se lançar nele, o papel dos processos é de
um tipo especial, anti-séptico, apesar de ser freqüentado por ácaros, fungos e
bactérias de todas as cepas. O chefe pode passar por alto um estilo não
parlamentar, digamos assim, mas quer saber qual a motivação do despacho, o seu
enquadramento legal. E é ele quem decide. Eu apenas emito um parecer, penso que
acho alguma coisa, salvo melhor juízo.
É claro que indeferi de pleno o pedido, por carecer de embasamento legal.
Não, não fiz nenhuma subscrição entre os colegas. O Sr. Erany que se vire para
pagar a multa. Porque ele vai pagá-la, pobre não sabe sonegar e perde o sono se
ficar devendo. Que seja às custas do remédio da mulher, ou do filho, pouco se
me dá. A caridade não é uma das minhas virtudes. Sinto muito, não sou cristão.
Não, também não convoquei o Sr. Erany à repartição. Ele provavelmente não
me escutaria. Que adiantaria eu lhe dar uma aula sobre a injustiça das taxações
em geral, e desta em particular? Ele acabaria por me irritar ainda mais, pedindo para falar pessoalmente
com o chefe, insistindo, querendo apenas um pouquinho de esperança.
Não há um final feliz possível para esta história. Mesmo que a multa
fosse perdoada, ele continuaria, pobre, desempregado e doente. Porque sofre de
câncer no fígado, conforme os laudos que anexou. Sua vida deve ter sido toda
vivida nesta mesma toada, é tarde para mudá-la. É véspera de Natal e eu só
queria achar um lugar neste mundo onde o ser humano fosse um pouquinho menos
hipócrita e eu pudesse destilar a minha raiva sem maiores constrangimentos.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Em busca do vento perdido
Em
18 de agosto de 1871, nos Jardins das Tulherias, Pénaud fez voar na presença de
representantes da Société aéronautique de France, um modelo de aeroplano
motorizado, o Planophore, acionado por um motor à elástico (pelo desenrolar de
de uma tira de elástico previamente enrolada). Ele voou por 60 metros a vinte
metros de altura durante 13 segundos.
Atendendo ao apelo de Dona Dilma,
por uma tecnologia de estocagem de vento, eu apresento a Anemoteca, um
armazenador de vento. Penaud produziu vento com uma tira de borracha enrolada.
Eu pretendo seguir o caminho inverso, estocar vento, usando uma tira de
borracha. A idéia é simples: basta acoplar ao eixo da hélice de um moinho de
vento uma tira de borracha, O vento irá enrolar a tira, durante a noite,
quando, segundo a insistenta, pode ventar mais. Isso feito, um mecanismo irá
travar a hélice, quando a borracha estiver totalmente torcida. Durante o dia,
bastará destravar a hélice e utilizar o vento estocado. Se o aeroplano voou,
não há porque a minha Anemoteca não funcionar. Estou esperando o financiamento
para aperfeiçoar a minha invenção. Que já foi patenteada. Primeirão.
UEPA.
Faltou um
pequeno detalhe, não dá para estocar e gastar ao mesmo tempo. A Anemoteca
ocupou o moinho a noite toda, estocando vento. Então, se o dispositivo for
usado para produzir vento, durante o dia, só estaremos trocando o dia pela
noite. Em vez de termos x de vento para ser usado durante a noite, teremos esse
x para ser usado durante o dia.
Que dureza! Na cabeça de nossa presidente, como é possível arrecadar e pedalar ao mesmo tempo, o estocador de vento seria uma pedalada eólica. Que não funciona, como as pedaladas fiscais não funcionaram.
Que dureza! Na cabeça de nossa presidente, como é possível arrecadar e pedalar ao mesmo tempo, o estocador de vento seria uma pedalada eólica. Que não funciona, como as pedaladas fiscais não funcionaram.
Há um outro probleminha, a maldita Segunda Lei da
Termodinâmica. E não há decreto que passe por cima dessa lei e autorize a
estocagem de vento de maneira econômica.
Explicando de uma forma que até o Lula entenderia (a Dilma não vai entender), todo processo de transformação de energia não consegue fornecer mais energia útil na saída do que a que foi usada na entrada. Todo máquina tem um rendimento menor do que 100%. O motor de um carro tem um rendimento de 30%. Isso quer dizer que só 30% da energia química (a explosão da gasolina) resulta em energia cinètica (o movimento do carro). Logo, a melhor coisa a fazer com o vento não é estocá-lo para depois usá-lo. É usá-lo diretamente para produzir energia elétrica. No processo de estocagem haverá uma perda. No processo de liberar o vento estocado, haverá outra perda. Economicamente, a estocagem de vento é inviável. Tudo bem que a Dilma é perita em apoiar processos economicamente inviáveis, mas nesse tempo de véspera de apagão, eu não recomendaria.
Mas por que se pode estocar água e não compensa para o Brasil estocar vento? Bom, a água evapora usando a energia solar (grátis). Depois cai no reservatório graças à lei da Gravidade (grátis e irrevogável). Uma vez construída a barragem, ela vai passar a vida toda armazenando água e gastando a água armazenada, sem custo adicional.
Mas e o vento? Mesmo que o processo não seja econômico, ele não seria viável, numa região de vento escasso? Digamos que se estoque só metade do vento produzido a noite para ser usada durante o dia. Aí teríamos vento diuturna e noturnamente, como diria a insistenta. Beleza. Só tem outro pequeno problema. Como a própria presidente deveria saber, nosso sistema é todo interligado. Então, o mais econômico é usar o vento, enquanto ventar e usar a energia de outras fontes, quando não ventar. Sem graça, né? E eu que pensei que iria faturar uma grana com a Anemoteca.E o papo de usar rocha porosa para armazenar ar comprimido? Se você tiver o tipo certo de rocha porosa, na região certa, onde já há moinhos de vento produzindo energia elétrica de forma econômica, então, talvez esse processo seja viável para garantir uma geração constante de energia elétrica, onde o uso de outras fontes não compense. O fato é que esse processo só é usado em dois locais, no mundo todo e ainda está em fase experimental.
Explicando de uma forma que até o Lula entenderia (a Dilma não vai entender), todo processo de transformação de energia não consegue fornecer mais energia útil na saída do que a que foi usada na entrada. Todo máquina tem um rendimento menor do que 100%. O motor de um carro tem um rendimento de 30%. Isso quer dizer que só 30% da energia química (a explosão da gasolina) resulta em energia cinètica (o movimento do carro). Logo, a melhor coisa a fazer com o vento não é estocá-lo para depois usá-lo. É usá-lo diretamente para produzir energia elétrica. No processo de estocagem haverá uma perda. No processo de liberar o vento estocado, haverá outra perda. Economicamente, a estocagem de vento é inviável. Tudo bem que a Dilma é perita em apoiar processos economicamente inviáveis, mas nesse tempo de véspera de apagão, eu não recomendaria.
Mas por que se pode estocar água e não compensa para o Brasil estocar vento? Bom, a água evapora usando a energia solar (grátis). Depois cai no reservatório graças à lei da Gravidade (grátis e irrevogável). Uma vez construída a barragem, ela vai passar a vida toda armazenando água e gastando a água armazenada, sem custo adicional.
Mas e o vento? Mesmo que o processo não seja econômico, ele não seria viável, numa região de vento escasso? Digamos que se estoque só metade do vento produzido a noite para ser usada durante o dia. Aí teríamos vento diuturna e noturnamente, como diria a insistenta. Beleza. Só tem outro pequeno problema. Como a própria presidente deveria saber, nosso sistema é todo interligado. Então, o mais econômico é usar o vento, enquanto ventar e usar a energia de outras fontes, quando não ventar. Sem graça, né? E eu que pensei que iria faturar uma grana com a Anemoteca.E o papo de usar rocha porosa para armazenar ar comprimido? Se você tiver o tipo certo de rocha porosa, na região certa, onde já há moinhos de vento produzindo energia elétrica de forma econômica, então, talvez esse processo seja viável para garantir uma geração constante de energia elétrica, onde o uso de outras fontes não compense. O fato é que esse processo só é usado em dois locais, no mundo todo e ainda está em fase experimental.
Fora isso, estocar vento é que nem cultuar a mandioca e
comungar com o milho. São delirios de uma memória corrompida. O que se estoca
nunca é o vento. É algum tipo de material (ar comprimido, por exemplo) que pode
ser usado para produzir energia eólica,
que será transformada em energia elétrica. Ou então, no caso da Anemoteca, a
energia eólica é transformada em energia potencial elástica que poderá ser
transformada novamente em energia eólica. Com uma perda considerável na
estocagem e na liberação.
terça-feira, 8 de setembro de 2015
Acalanto para o menino afogado
Eu não
conheço o menino afogado
Nada sei
sobre o menino afogado
Eu não
matei o menino afogado
A culpa não
é minha
Culpem o
mau tempo
O pai, que
não segurou direito o menino
O
fanatismo... quem sabe, o imperialismo?
Qualquer
coisa
Parem de
postar a foto do menino afogado
Não é real
Parece um boneco
que o mar jogou na praia
Com tanta
foto boa
De criança
queimada, esburacada de bala, deformada, esmigalhada
Aquelas
fotos
De se olhar
e dizer
A guerra é
uma coisa horrível!
Até quando,
oh, Senhor?
Ainda bem que, no Brasil...
Chega dessa
porra de menino afogado
Ele não é
meu filho
È só um
menino
Parece
tranquilo
Podia estar
dormindo
Que bom que
não vai acordar
Eu acordo
Vejo sua
foto pela milésima vez
E não sei o
que dizer
Marco
Lisboa
8/9/15
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
A invasão
A invasão - Capítulo 5
Mao Tsé-tsé - O Presidente Mao nos ensina – “Quando dizemos que o imperialismo é um tigre de papel, estamos a falar em termos estratégicos. Considerando-o como um todo, devemos desprezá-lo. Mas se considerarmos cada uma das suas partes separadamente, devemos levá-lo a sério. Tem garras e mandíbulas afiadas.” Camarada Chou, em sua opinião, qual é a razão do fracasso dos sucessores de Bin Laden?
Chou Le
Zhin: Eles não aplicam a linha de massas?
M. Não, eles
fracassam porque usam as mesmas armas que o inimigo. Se meu tio-avô estivesse
vivo, ele diria que as três grandes pragas modernas são o computador, o celular
e o GPS. Lutar contra o imperialismo recrutando nas redes sociais, falando em
celulares e revelando sua localização pelo GPS é como caçar um tigre à noite,
sem batedores.
C. Como
então construiremos nossa rede?
M. Temos
que dar dois passos atrás, se quisermos ficar um passo à frente do inimigo.
Recrutarmos à moda antiga, em encontros pessoais. Nossos agentes se manterão em
movimento, de preferência no exterior, onde um bando de turistas chineses não
chamará a atenção.
C. E como
nos comunicaremos? Graças à influência ideológica dos costumes burgueses, um
turista chinês sem Iphone é como um panda no meio do deserto. O presidente Mao
nos ensina que para acabar com os fuzis, deveremos empunhar o fuzil. Não poderíamos
usá-los para mandar mensagens em código, através de frases de aparência
inocente?
M. Nós
devemos nos misturar às massas, como um peixe dentro da água. Nossos agentes
usarão tabletes, Iphones e todo esse lixo burguês. Entraremos nas redes
sociais, tiraremos selfies, mandaremos mensagens para os amigos. Se algum de
nós for identificado pelo inimigo, eles terão milhares de textos e imagens para
serem analisados. E não encontrarão
nada, pois não haverá nada para ser encontrado.
C. E como enviaremos as verdadeiras mensagens?
C. E como enviaremos as verdadeiras mensagens?
M. O
Presidente Mao nos ensina que as ideias corretas não caem do céu. “Elas só podem vir da prática social, dos três
tipos de prática: a luta pela produção, a luta de classes e os experimentos
científicos na sociedade.” Estou pesquisando os métodos de
criptografia já utilizados. Os antigos escreviam mensagens no couro cabeludo ou
em papiros que precisavam serem desenrolados de uma certa forma. Eu descartei
as mensagens cujo suporte é um meio físico, porque elas podem ser capturadas.
Os alemães
usavam o rádio. Uma máquina, o Enigma, produzia uma sequência de letras que
deveria ser lida por outra máquina. A chave era mudada a cada 24 horas. Era
engenhoso, mas Turing provou que toda mensagem cifrada, em tese, pode ser
decifrada.
C. Então, o
que nos resta?
A conversa
transcorria em um banco, no meio de um pomar de árvores frutíferas e
acompanhada pelo chilrear dos pardais.
Em 1958, o presidente
Mao lançou uma campanha de higiene contra as quatro pragas: mosquitos, moscas,
ratos e pardais. Os três primeiros eram escolhas óbvias. No horóscopo chinês, o
tigre simboliza o número três e os tigres estavam em desgraça. Os pardais foram
incluídos, para se obter um número mais propício, o quatro, que representa a
Terra e remete às coisas concretas.
Os pardais (principalmente o pardal-montês da Eurásia) comem sementes de grãos, roubando os frutos do trabalho dos
camponeses. As massas da China foram mobilizadas e tiveram que bater panelas. Impedidos de
pousar, as aves caiam exaustas dos céus. Seus ninhos eram derrubados, os ovos quebrados
e os filhotes mortos. Escolas, unidades de trabalho e órgãos do governo,
eram citados e celebrados, de acordo com o volume de pragas aniquilados.
Como resultado, as aves quase foram extintas
Em abril de 1960, percebeu-se
que os pardais, além dos grãos, comiam uma grande quantidade de insetos. A produção de arroz havia caído
significativamente. Os percevejos
tomaram então o lugar dos pardais, como a quarta praga, mas já era tarde: houve
uma grande proliferação de gafanhotos. O Grande Salto para a frente havia
trazido desmatamento, uso abusivo de venenos e pesticidas e desequilíbrio
ecológico. Tudo isso agravou a Grande Fome Chinesa, na
qual mais de 30 milhões de pessoas morreram de fome. No meio de tantos
chineses, elas passaram despercebidas.
Na Nova China Revisionista, os pardais voavam livremente.
M. Veja
esse bando de pardais. Sua revoada é uma das coisas mais voláteis e transitórias
que existe. Entretanto, em um dado momento, cada pássaro está em uma posição
determinada. Se essa posição pudesse ser associada a uma coordenada, com a
chave certa, escreveríamos a mensagem mais secreta do mundo.
C. Nesse
caso, vamos fotografar uma revoada, codificar as posições e mandar a chave
separadamente.
M. Teríamos
vários problemas. Ninguém anda tirando fotos de revoadas o tempo todo e a chave
teria que relacionar coordenadas num plano a letras. Seria o mesmo que mandar
diretamente uma mensagem cifrada.
Pense em
homens, no lugar de pássaros. Pense nos painéis humanos que os norte-coreanos
executam nos estádios.
C. Poderia ser algo assim. Mas não temos tantos agentes e a mensagem, mesmo se durasse poucos segundos, poderia ser interceptada. Nós não podemos deixar rastros e nem chamar a atenção.
C. Poderia ser algo assim. Mas não temos tantos agentes e a mensagem, mesmo se durasse poucos segundos, poderia ser interceptada. Nós não podemos deixar rastros e nem chamar a atenção.
M. Os
pássaros não carregam um cartaz. Uma mensagem hipotética só dependeria de suas
posições. Poucos agentes, formando um painel humano, onde cada posição é um
símbolo, seria o mais perto que poderíamos chegar de uma mensagem perfeita.
C.E Como
decodificaríamos essa formação? Os aliados capturaram uma máquina Enigma e, a
partir dela, conseguiram decifrar o método e chegar a uma chave geral.
M. Temos
que estar dois passos atrás dos imperialistas. Lembra dos cartões perfurados? Através
deles, os primeiros computadores recebiam seus programas e seus dados. Nós
ainda temos alguns desses fósseis guardados em nossas universidades. Ele
receberam um número de patrimônio e não podem ser destruídos. Vamos usar o
atraso e a burocracia a nosso favor.
C Então o
que temos a fazer é usar os nossos agentes para numa determinada hora ocuparem
uma certa posição. Cada um receberá uma coordenada de GPS. O destinatário só
terá que jogar essa mensagem em um cartão perfurado.
M. Restam
ainda dois problemas, embora sejam relativamente fáceis. Nós podemos usar os
nossos computadores antigos, para escrever uma mensagem e perfurar um cartão.
Os furos serão a posição que cada um deverá ocupar. Como é que nosso agente
decifrará essa mensagem? Os antigos computadores ocupavam várias salas. E, finalmente,
onde deveremos colocar nossos agentes, de forma a não chamar a atenção?
C. Sabe
aqueles antigos jogos para os primeiros computadores? Existem emuladores que são
capazes de rodá-los nos computadores atuais. Só precisamos ter um programa que
simule a leitura de um cartão perfurado. Não deve ser difícil.
M. E onde
colocarmos nossos agentes?
C. O melhor
lugar é a vista de todos. No ponto turístico mais visitado de cada cidade. Na
Praça Vermelha, no campo de Marte, em lugares assim. Nosso agente irá tirar uma
foto perfeitamente inocente, a foto será transformada para gerar um cartão
perfurado e o cartão perfurado será lido.
M. Sim, mas ficarão rastros. Os programas e a foto. Essa mensagem terá que perder rapidamente a sua utilidade. Os alemães usavam o Enigma para dar as posições dos alvos a serem destruídos. Depois do bombardeio, a mensagem não tinha mais valor.
M. Sim, mas ficarão rastros. Os programas e a foto. Essa mensagem terá que perder rapidamente a sua utilidade. Os alemães usavam o Enigma para dar as posições dos alvos a serem destruídos. Depois do bombardeio, a mensagem não tinha mais valor.
C. Então
será assim que mandaremos a mensagem do juízo final. Um agente, com um tablete,
tirará uma foto, decifrará a mensagem e acionará a carga explosiva com uma
chamada. Ninguém poderia imaginar algo assim. É essencial que a autoria seja
desconhecida.
M. Um
americano disse que tudo o que um louco pode imaginar, um outro louco poderá
descobrir. Desde que esse louco esteja no lugar certo, na hora certa, o que é
quase impossível, nesse caso. Só precisamos de uma mensagem alternativa, caso tivermos
que abortar a missão. Essa poderá ser transmitida como uma mensagem normal, via
Iphone.
C. È só
dizer que uma mulher abortou, mas passa bem. Os agentes que irão detonar as
cargas saberão imediatamente do que se trata. E no meio de tantas mensagens
irrelevantes, essa não despertará atenções.
M.
Perfeito. Agora vamos tratar de alguns detalhes...
Os microfones direcionais eram de um modelo antigo. A barreira de árvores e a algaravia dos pardais iria exigir um trabalho árduo dos agentes da Guoanbu, a Agência de Segurança da República Popular da China.
Os microfones direcionais eram de um modelo antigo. A barreira de árvores e a algaravia dos pardais iria exigir um trabalho árduo dos agentes da Guoanbu, a Agência de Segurança da República Popular da China.
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
A invasão
A invasão Capítulo 4
Quando procuramos algo, o mais
importante pode ser o que não encontramos. O museu da História Contemporânea,
no número 21 da Rua Tverskaya, antiga Gorki, era um imenso caracol.
Na entrada, uma isbá de antes da
libertação dos servos. Com seu arado de madeira e o galão de vodka caseira.
Havia isbás mais pobres, sem chaminés, chamadas de negras e as dos camponeses
ricos, com chaminés – as isbás brancas.
Mais adiante, “O que fazer?”, uma
primeira edição, e fotos de antigos revolucionários.
- Quem são esses? perguntou a
colegial à sua colega.
- Políticos, respondeu a outra, com
desprezo.
Segui pela casca externa, em
direção ao miolo. Numa parede, o martelo pneumático de Stakhanov. No dia 31 de
agosto de 1935, Stakhanov, operário de uma mina de carvão em Donets, conseguiu
extrair 102 toneladas de carvão, superando 14 vezes sua cota diária. Esta
façanha marcou a introdução de métodos tayloristas na mineração soviética. O
diploma de herói do trabalho estava ao lado.
Um dos atrativos do turismo
arqueológico é a memorabilia. Em lugar do diploma de herói do trabalho, que
certamente teria um custo exorbitante, por dez dólares, na Praça Vermelha,
comprei um quepe militar com várias medalhas soviéticas. De agora em diante,
sou um udarnik, um trabalhador comunista de vanguarda.
Internando-me no caracol e
progredindo na linha do tempo, alcancei a Grande Guerra Patriótica. A placa
nazista apontava para Moscou, esperançosamente, indicando os poucos quilômetros
que faltavam. O grupo de colegiais estava reunido em torno da professora.
_ Vaprossi iest? Perguntas?
- Damói. ‘Bora pra casa, foi a resposta imediata,
seguida da debandada.
A Praça Vermelha rendeu uma foto
com Lênin, que trabalhava em parceria com Nicolau II, o sangrento. Nicolau foi
dispensado, por motivos óbvios. No mausoléu, a fila era pequena. O Vladimir
original tinha uma cor amarelo-limão e repousava num esquife de vidro, vestindo
um terno preto, com as mãos ao lado do corpo.
A expressão era astuta, quase
brincalhona. Meticuloso, apaixonado, carismático e ... morto. Lênin viveu,
Lênin vive, Lênin viverá! é o slogan dos comunistas atuais. Saindo do mausoléu,
a muralha, com as cinzas de Gagárin e John Reed. E uma fileira de túmulos,
Frunze, Dzerjinsky, Kalinin, Jdanov,Voroshilov , Budioni, Suslov, Brejnev,
Andropov, Chernenko e Stalin. Sobre a lápide deste, um funcionário colocava
rosas vermelhas de plástico.
Com tão poucos resquícios do
socialismo real, como seria a história oficial, daqui a uns 500 anos? Quem
seria citado e quem seria nota de pé de página?
Ele mesmo era apenas um verbete no
índice onomástico de alguns livros. Conforme a fonte, podia ser um
guerrilheiro, um camponês que apoiara a guerrilha, alguém que havia morrido em
uma pensão paulista, ou que ainda estava desaparecido.
Nós sempre contamos a nossa
história, mesmo quando falamos de outros. A História é a história dos
vencedores. Seria mais verdadeira a história dos perdedores?
E se não houvesse mais raça humana?
Como um extraterrestre reconstruiria nossa história, a partir de alguns
artefatos? Seria como ajustar os pontinhos negros do Campo de Marte às
perfurações de um cartão.
A invasão Capítulo 4
Quando procuramos algo, o mais
importante pode ser o que não encontramos. O museu da História Contemporânea,
no número 21 da Rua Tverskaya, antiga Gorki, era um imenso caracol.
Na entrada, uma isbá de antes da
libertação dos servos. Com seu arado de madeira e o galão de vodka caseira.
Havia isbás mais pobres, sem chaminés, chamadas de negras e as dos camponeses
ricos, com chaminés – as isbás brancas.
Mais adiante, “O que fazer?”, uma
primeira edição, e fotos de antigos revolucionários.
- Quem são esses? perguntou a
colegial à sua colega.
- Políticos, respondeu a outra, com
desprezo.
Segui pela casca externa, em
direção ao miolo. Numa parede, o martelo pneumático de Stakhanov. No dia 31 de
agosto de 1935, Stakhanov, operário de uma mina de carvão em Donets, conseguiu
extrair 102 toneladas de carvão, superando 14 vezes sua cota diária. Esta
façanha marcou a introdução de métodos tayloristas na mineração soviética. O
diploma de herói do trabalho estava ao lado.
Um dos atrativos do turismo
arqueológico é a memorabilia. Em lugar do diploma de herói do trabalho, que
certamente teria um custo exorbitante, por dez dólares, na Praça Vermelha,
comprei um quepe militar com várias medalhas soviéticas. De agora em diante,
sou um udarnik, um trabalhador comunista de vanguarda.
Internando-me no caracol e
progredindo na linha do tempo, alcancei a Grande Guerra Patriótica. A placa
nazista apontava para Moscou, esperançosamente, indicando os poucos quilômetros
que faltavam. O grupo de colegiais estava reunido em torno da professora.
_ Vaprossi iest? Perguntas?
- Damói. ‘Bora pra casa, foi a resposta imediata,
seguida da debandada.
A Praça Vermelha rendeu uma foto
com Lênin, que trabalhava em parceria com Nicolau II, o sangrento. Nicolau foi
dispensado, por motivos óbvios. No mausoléu, a fila era pequena. O Vladimir
original tinha uma cor amarelo-limão e repousava num esquife de vidro, vestindo
um terno preto, com as mãos ao lado do corpo.
A expressão era astuta, quase
brincalhona. Meticuloso, apaixonado, carismático e ... morto. Lênin viveu,
Lênin vive, Lênin viverá! é o slogan dos comunistas atuais. Saindo do mausoléu,
a muralha, com as cinzas de Gagárin e John Reed. E uma fileira de túmulos,
Frunze, Dzerjinsky, Kalinin, Jdanov,Voroshilov , Budioni, Suslov, Brejnev,
Andropov, Chernenko e Stalin. Sobre a lápide deste, um funcionário colocava
rosas vermelhas de plástico.
Com tão poucos resquícios do
socialismo real, como seria a história oficial, daqui a uns 500 anos? Quem
seria citado e quem seria nota de pé de página?
Ele mesmo era apenas um verbete no
índice onomástico de alguns livros. Conforme a fonte, podia ser um
guerrilheiro, um camponês que apoiara a guerrilha, alguém que havia morrido em
uma pensão paulista, ou que ainda estava desaparecido.
Nós sempre contamos a nossa
história, mesmo quando falamos de outros. A História é a história dos
vencedores. Seria mais verdadeira a história dos perdedores?
E se não houvesse mais raça humana?
Como um extraterrestre reconstruiria nossa história, a partir de alguns
artefatos? Seria como ajustar os pontinhos negros do Campo de Marte às
perfurações de um cartão.sábado, 22 de agosto de 2015
A invasão
Capítulo 3
Diário de
bordo do capitão
O terceiro planeta, nos confins da Galáxia, orbitando um sol amarelo, revelou a existência de vida. Basicamente, alguns insetos de carapaça marrom, alguma fauna marinha e uma vegetação rala e rasteira. Havia ruínas por toda parte.
Num primeiro levantamento, os achados mais relevantes estavam em uma superfície branca, onde figuras e pequenos sinais indicavam uma linguagem elaborada. Chamamos essas lâminas de folhas. Geralmente elas estão agrupadas e protegidas por uma capa, no que chamamos de ensinador. Pela radiação que ainda persistia no ambiente, deduzimos que essa civilização foi exterminada em uma guerra nuclear.
Nosso tempo
era curto e resolvemos nos concentrar numa edificação quase intacta. Nela
haviam morado dois vulcanóides. Simetria axial, quatro membros, sendo os
inferiores usados para locomoção. O povo do terceiro planeta possuía noções
muito avançadas de Ciência. Levamos alguns exemplares de seus ensinadores.
Pelas ilustrações, deduzimos que eles dominavam vários teoremas de nossa Ciência
Natural e de nossa Ciência das Relações. Mais um pouco e seriam capazes de se
aventurarem pela Galáxia.
Eram
adeptos de um jogo de tabuleiros, com 64 casas e 6 peças diferentes. O jogo
deveria ser extremamente popular, porque achamos mais de quinhentos ensinadores
dedicados à eles. Observando seus diagramas, conseguimos descobrir os símbolos
que usavam para anotar suas jogadas.
Graças ao
que deveria ser um manual, resgatamos todas as regras desse jogo e até mesmo
reproduzimos partidas. Nossa tripulação agora não para de jogar. Alguns já
conseguem acompanhar as partidas e entender as estratégias envolvidas. Em breve
nossos cientistas criarão um programa capaz de igualar os jogadores vulcanóides
mais hábeis.
Havia
alguns dispositivos que sugeriam que eles faziam uso intensivo de informação
codificada eletronicamente. O tempo e pulsos eletromagnéticos muito intensos tornaram
impossível recuperar qualquer informação contidas nesses aparelhos e em
pequenos objetos, que, ou se encaixavam em aberturas laterais, ou eram
colocados dentro dos dispositivos.
Na habitação que estudamos, cada cômodo tinha uma função específica. O vedor, era montado em função de um aparelho que, com certeza, reproduzia imagens. O consultor abrigava os ensinadores. O repousador era onde dormiam e guardavam o vestuário. O limpador, onde se lavavam e excretavam. Havia ainda o comedor e vários outros aposentos que pareciam servir para múltiplos fins. Nós os chamamos de guardadores.
Na habitação que estudamos, cada cômodo tinha uma função específica. O vedor, era montado em função de um aparelho que, com certeza, reproduzia imagens. O consultor abrigava os ensinadores. O repousador era onde dormiam e guardavam o vestuário. O limpador, onde se lavavam e excretavam. Havia ainda o comedor e vários outros aposentos que pareciam servir para múltiplos fins. Nós os chamamos de guardadores.
Esse povo adorava
vários deuses. Um deles era um vulcanóide de outra espécie, ereto, com a frente
branca, o dorso negro, um bico e apêndices que não serviam para voar. Ele
ficava em cima de uma máquina de calor. Observando mais de perto essa máquina,
descobrimos que ela também servia para resfriar sua parte interna.
Provavelmente, o deus era o senhor do frio e zelava pela conservação dos
alimentos ali guardados.
Os outros
deuses eram muito mais graciosos. Corpo esguio, quatro membros locomotores,
garras e uma cauda. Não pareciam ter uma função específica. Havia reproduções
deles por toda a parte e pequenas estátuas, quase cinquenta, no que parecia ser
uma altar doméstico. Deveriam ser animais sagrados, pois encontramos pequenos
recipientes, que provavelmente eram usados para colocar oferendas e alimentos
para eles.
Nosso
suboficial de ciências levantou a hipótese de eles serem os deuses do sono,
pois apareciam dormindo em muitas reproduções e seus esqueletos foram
encontrados sobre o retângulo que os vulcanóides usavam para dormir.
Esses
deveriam ser deuses antigos, domésticos ou de um só clã. Os cultos coletivos
eram realizados em arenas, quase sempre circulares, com um retângulo onde se
viam estranhas marcas desenhadas sobre uma vegetação verde. Havia dois grupos
de sacerdotes e seus seguidores usavam suas cores. Nessa habitação havia várias
bandeiras, roupas e símbolos com as cores preta e branca. Três letras apareciam
sempre: CAM.
Nossa nave
pode carregar pouco peso, somos feitos para exploração rápidas em ambientes que
podem ser hostis. Levamos alguns exemplares de seus ensinadores. Eles ficavam
agrupados em estruturas de metal, uma ao lado do outra, ordenados por assunto. Escolhemos
alguns exemplares de cada estrutura dessas.
Nosso
achado mais importante foram ensinadores que chamamos de significadores. Seu
objetivo era o de registrar o nome de todas as coisas e explicar a sua função.
Eles seguem uma ordem alfabética. Achamos significadores escritos no que
pareciam várias línguas. Alguns, que chamamos de translatores, relacionavam
duas línguas diferentes. Só nos ensinadores daquele jogo, que chamamos de
batalha real, encontramos umas dez línguas diferentes e dois alfabetos
distintos.
Certamente
nossos sábios decifrarão a linguagem predominante nos ensinadores, com o
auxílio dos explicadores. Começarão pelos símbolos concretos e chegarão até sua
gramática, seus relacionadores e conectores. Mais tarde, se houver interesse e
recursos, faremos uma expedição para explorar essa civilização perdida.
Relatório do oficial de Ciências.
A civilização
do terceiro planeta atingiu um nível elevado de conhecimento científico.
Através das partidas de batalha real, calculamos que possuíam uma inteligência
de nível 5, em nossa escala. Eram cultos e dominavam vários idiomas. Por outro
lado, adoravam deuses domésticos, específicos de cada clã e possuíam uma religião
coletiva com rituais primitivos. Grau 8, em nossa escala de superstição.
Eram povos guerreiros, que sublimavam suas paixões através da Batalha Real.
Eram povos guerreiros, que sublimavam suas paixões através da Batalha Real.
Essa
contradição, entre suas tendências primitivas e avançadas, se resolveu com a
aniquilação total, através de uma guerra nuclear. Seria de grande interesse
para os nossos estudiosos de dinâmicas sociais, entender o que desencadeou esse
conflito. Recomendo que se retorne a esse planeta, para uma coleta maior de
dados.
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