Quem sou eu? De onde venho e onde, acaso, me leva
O destino fatal que os meus passos conduz?
Ora sigo, a tatear, mergulhado na treva,
Ou tateio, indeciso, ofuscado de luz.
Grão, no campo da vida onde a morte se ceva?
Semente que apodrece e não se reproduz?
De onde vim? Da monera? Ou vim do beijo de Eva?
E aonde vou, gemendo, a sangrar os pés nus?
Nessa esfinge da vida a verdade se esconde;
O espírito concentro e consulto a razão
E uma voz interior, sincera , me responde:
- Quem és tu? - Operário honesto da nação.
- De onde' é que vens? - De casa.
- Onde ' que estás? - No bonde.
- Para onde vais? - Não vês? -
Para a repartição.
Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.
Consulte o dicionário do cinismo, no rodapé do blog.
Divulgação literária e outros babados fortes
Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
quarta-feira, 4 de julho de 2012
2012 - o início do fim IV
Onde se fala da força de coesão social fraca e de suas aplicações. O leitor aprenderá o que é um taiconauta e apreciará o processo decisório altamente elaborado de nosso presidente.
Rumo a Titã
Um mês depois de empossado no
Ministério da Projeção Social, Oliveira pediu uma audiência com o Presidente
Lua. O Bananal estava dando sinais preocupantes. Embora os países (o real e o
fictício) estivessem respondendo bem a crise, sinais de fadiga já começavam a
se mostrar.
- O País agora está mobilizado,
todos estão empenhados na reconstrução, em 10 ou 20 anos poderemos atingir o
nível que tínhamos antes. Mas ...
- Se nunca na história desse
país conseguimos essa disposição, o que há de errado, - perguntou Lua.
- Esse é o problema, senhor
Presidente. Nós somos um povo imediatista, acostumado a levar tudo na gozação,
que gosta de improvisar. Nada disso está acontecendo. A nossa capacidade de
esculhambação está se embotando. Todo mundo está levando a crise muito a sério.
Pega mal fazer piadas pesadas sobre ela.
- E isso é ruim?
- Por incrível que pareça, é.
Nós precisamos aumentar o atrito. Vou dar um exemplo: nós só conseguimos andar
porque a sola do sapato agarra no solo.
Se tentarmos andar num chão muito liso, o resultado vai ser uma queda.
Nas nossas simulações eu chamei esse parâmetro de força de coesão social fraca.
Eu identifiquei esse fator, quando estava no Banco Central (Oliveira evitava a
todo custo o verto trabalhar). Se não houvesse um sacana como eu, a repartição
não funcionava. Todo mundo sabia que o trabalho que eles faziam era idiota, sem sentido. Como eu passava parte do meu
tempo a gozar a incompetência dos chefes, a política do banco, a política
econômica e o país em geral, acabei me tornando uma vacina, um antídoto. Quando
alguém criticava algum normativo absolutamente sem sentido, outro contrapunha:
- cara, você está igual ao Oliveira. Então eles resmungavam um pouco, mas
seguiam as novas normas.
- Mas se a turma começar a
pegar pesado, corremos o risco dessa merda se foder de vez.
- Nós testamos isso. Fizemos
uma simulação num pequeno grupo, em que era apresentado um programa cômico
descendo o cacete no Novo Brasil (nunca antes na história do Brasil, houve um
Brasil como este). No início, pegou muito mal. Depois de alguns encontros o
grupo se desagregou. Passou a ser cada um por si.
- E quais são as alternativas,
- o Presidente não gostava de planejar, gostava de escolher.
- Por incrível que pareça, como
a situação está totalmente alterada, termos que trazer uma variável externa
para equilibrar o sistema a longo prazo.
- O que é que isso quer dizer?
- Se nos unirmos com um povo
que preza a tradição, acostumado a obedecer sem questionar, que trabalhe duro,
que não dê muito valor à vida, pouco individualista e sem senso de humor, nós
seremos os sacanas e eles farão o trabalho pesado. Pode funcionar.
- E quem seriam esses babacas?
- Os chineses. A única coisa
que sobrou na China foram os chineses. E suas instalações nucleares, sua
tecnologia, essas coisinhas. Eles poderiam mandar uns 200 milhões para cá, que
morreriam de fome, de qualquer maneira. Para eles vai ser um negócio da China.
- E 200 milhões de chineses
resolveriam o problema?
- Durante certo tempo, sim.
Logo eles vão aderir à nossa esculhambação e se tornarão cada vez mais
brasileiros Acredito que isso pode funcionar por uma geração. Depois seria
necessário trazer mais uns 200.
- Aí seriam 400 milhões de
chineses para 200 milhões de brasileiros.
- Essa é a parte boa. Nós
seremos a elite. Eles as classes trabalhadoras. Vão ser os nossos paraíbas -
Oliveira nunca foi acusado de excesso de tato.
- O Presidente franziu as
grossas sobrancelhas, que se uniram mais ainda, mas deixou passar. Na
intimidade, ele detestava lembrar o tempo em que também era um paraíba e tinha
que conjugar aquele verbo que Oliveira tanto evitava.
- Vou mandar o nosso embaixador
fazer contato. O que é que esses chineses vão fazer? Como é que eles vão ser
transportados? Onde é que eles vão ficar?
- Serviço é que não falta. Eles
vêm de navio. A China está cheia de petroleiros parados, que foram abandonados
nos portos, porque ninguém compra mais petróleo. O governo enfia os idiotas nos
porões e manda para cá. Aqui a gente joga os chinas no Nordeste e na Amazônia.
- Resolvido.
- Só mais um detalhe. Nós somos
um povo com um complexo de inferioridade crônico. Toda a vez que o Brasil
entrou num ciclo, nos deixamos passar a oportunidade. Foi assim com o ouro, com
a cana, com o café, etc. Precisamos de um símbolo, algo que nos coloque no
primeiro mundo. Pensei numa missão espacial sino-brasileira. Nós entramos com a
Barreira do Inferno e os astronautas, eles entram com os foguetinhos.
- Mas essa porra só vai ser
notícia por um mês, depois o povo só vai querer ver novela e Big Bródi.
- Pois é. Eu penso que esta na
hora desse país ter um objetivo a longo prazo. Vamos criar um reality show que
acompanhará de dentro a missão, uma viagem de sete anos até Titã, um satélite
de .....
- E qual vai ser a desculpa?
- A gente inventa que recebeu
um sinal misterioso de lá, uma radiação que afetou a Vilma e causou toda a
crise.
- E qual vai ser o idiota que
vai acreditar nisso?
- O povo brasileiro.
- Resolvido. Vamos criar um
Ministério da Ciência e formar um grupo de trabalho para cuidar disso. Nós até
já temos um astronauta, não é?
- É. Ele pode ser o chefe da
missão e treinar os outros taiconautas.
- Que merda é essa?
- Os astronautas chineses são
taiconautas. Já que eles vão dar uma mãozinha, não custa chamar os astronautas
assim. Vai ser uma missão espacial conjunta. A gente deixa alguns chinêses
irem. Afinal eles ocupam pouco espaço.
- Resolvido. O Presidente não
gostava de resolver um assunto complexo nesta rapidez. Também não gostava da
presença de Oliveira e do espaço que ele estava ocupando. Infelizmente, sem o
Ministério da Projeção social, o Grande Bananal não funcionava (Oliveira, em
vez de chamar a sua matriz de mini-Brasil, resolvera chamar o país de Grande
Bananal).
quinta-feira, 21 de junho de 2012
A Moringa Oleífera
Fidel, em suas recentes reflexões,
recorda o conselho que Deng Xiao Ping
deu aos americanos em 79: “porque vocês não castigam Cuba, como nós fizemos com
os vietnamitas?”. Sua memória passada é melhor que a da maioria da esquerda,
que não ouviu, ou não quer ouvir falar, da expedição punitiva que os chineses lançaram
contra o Vietnã.
Recorda Honecker, outra lembrança
traumática. O dirigente alemão, que caiu junto com o Muro e foi varrido da
história, quando a população da antiga RDA votou pela unificação com a outra
Alemanha. Refugiado na antiga União Soviética, foi entregue por Yeltsin, submetido
a julgamento e, como medida de clemência, foi-lhe permitido passar seus últimos
dias no Chile, onde morreu em 1994.
A lamentar que, nos últimos dias,
a mente do Comandante ande lhe pregando peças. Em reflexão sobre a Moringa
Oleífera e a amoreira, ele recomenda a plantação destas duas espécies vegetais,
fontes massivas de carne, leite e ovos (sic).
Ao contrário de Fidel, o governo
cubano trata de obliterar o passado distante, trocando memórias incômodas por
ações pontuais no presente. Em seu périplo pelos Estados Unidos, Mariela
Castro, filha de Raúl, além de manifestar seu apoio à candidatura Obama,
reafirmou, em um encontro sobre o tema, os avanços de seu país no campo dos
direitos dos homossexuais.
A exemplo de outros países, Cuba
tem um passivo muito grande nesta questão. Logo após a Revolução triunfar, os
três Pês - prostitutas, pederastas e proxenetas - foram presos em massa,
enfiados em uniformes com um grande P nas costas e enviados para as UMAP
(Unidades Militares de Apoio à Produção), semelhantes a campos de concentração.
“Em 1971, ocorre o Congreso
Nacional de Educación y Cultura em Havana, onde se propõem medidas reeducativas
para os que apresentam “síntomas aparentes” de desvio moral e
contra-revolucionário. Sendo assim, o trabalho nas UMAP ... serviria como
método terapêutico. A partir deste evento, toda a população é conclamada a se converter
em vigilante da revolução. Havia três classificações para os subversivos:
hippies, homossexuais e “conducta impropia” (classificação indefinida onde tudo
cabia).”
“Heberto Padilla fala sobre a
viagem à Bulgária de Raúl Castro, um dos que mais se incomodavam com a questão
dos gays na ilha. Segundo ele, o irmão de Fidel retorna ao país com a idéia de
criar campos de concentração para varrer os homossexuais das ruas. Além disso,
um cientista tcheco trouxe para Cuba técnicas pavlovianas de “educación
erótica” dos gays e lésbicas, entretanto o que acontecia era que “los pájaros”
dissimulavam com facilidade o abandono do desejo homossexual e continuavam suas
aventuras eróticas com os guardas. Padilla destaca, com isso, a capacidade dos homossexuais
cubanos de “salir del dolor”. Guillermo Cabrera Infante diz ter se revoltado
com a prisão de Virgilio Piñera na praia de Guanabo, pois “se lo detuvo
simplemente por la manera como se manifestaba públicamente, es decir, por lucir
o aparecer afeminado”. Piñera havia sido denunciado pelo chefe do comité de defensa do seu bairro, pois este
homem queria ficar com sua casa.”
E aqui
voltamos a 2012, ano do centenário de Piñera. Segundo o Cuba Debate de 19 de
junho: “La figura del
dramaturgo mayor de Cuba,Virgilio Piñera,
será protagonista del Coloquio Internacional Piñera tal cual , inaugurado hoy en
La Habana, a propósito del centenario del natalicio del literato y poeta.”
A Ecured é a versão computadorizada da antiga Grande
Enciclopédia Soviética, que trazia o quem é quem oficial. Nelas se lê: “A partir de 1971, como
parte de errores en la política cultural de la Revolución que se apartaron de
los principios definidos por Fidel en sus "Palabras a los
intelectuales", Piñera dejó de ser publicado en Cuba, esta política fue
gradualmente rectificada luego de creado el Ministerio de Cultura en 1976. Hoy
es ampliamente reconocido y su obra difundida y estudiada.”
“Cabrera Infante enfatiza o machismo espanhol arraigado em
Fidel: “Fidel Castro no hace nada que no sea para mostrar cuán macho, cuán
superhombre, supermacho es él”. Armando
Valladares conta a história de Robertico, um menino de apenas 12 anos que foi
preso pelo governo. Depois de ser estuprado na cadeia, Robertico começa a ser
barbaramente agredido por chorar e chamar constantemente por sua mãe. Para
Cabrera Infante, os homossexuais cubanos eram dissidentes em relação à norma
burguesa de vida em casal, dentro de um matrimônio heterossexual, adotada sem
qualquer tipo de questionamento pelos líderes da Revolução Cubana. Fidel diz
que chegou a ter mais de 15.000 presos “contrarrevolucionarios”, que para ele
eram julgados “dignamente”. Ana María Simo diz que, mesmo presa, seguia sendo revolucionária,
porque pensava que ela sim lutava, de fato, por uma revolução radical, ao
contrário “de los ignorantes pequeños burgueses como Castro”. Simo, que chegou
a ser internada em um hospital psiquiátrico por desvio moral, denuncia o modo
como as mulheres eram tratadas na prisão: em uma cela estreita, sem vaso
sanitário, eram colocadas 40 detentas. Ela conta ainda que ficou assustada ao
perceber que um poeta do porte de Nicolás Guillén era considerado como “un
delicuente cualquiera por los jefes de la cárcel”. René Ariza – um artista de rua exilado nos EUA – diz que ser “estranho” é motivo para ser
cruelmente reprimido em Cuba: “no es una actitud sólo de Castro. Hay muchos Castros.
Y hay que vigilar el Castro que tenemos adentro”.
É justamente para este Castro que temos dentro de nós que escrevo.
Transformar toda uma política de estado de repressão aos homossexuais em “erros
de uma política cultural que se afastaram das orientações de Fidel” é o mesmo
que justificar novamente esse passado. Não se pode se pode reescrever a
história de uma Revolução usando a memória seletiva, ou, pior ainda, plantando
memórias.
As citações são do artigo “Piquetes e charutos: sobre críticas
de Perlongher e Sarduy à repressão homossexual” de Antonio Andrade e podem ser
encontradas em:
As reflexões de Fidel se acham no site Cuba Debate:
domingo, 10 de junho de 2012
2012 - O início do fim III
Onde se explica a singularidade brasileira, sob a ótica dos marqueteiros, nossos melhores cientistas sociais.
Estudos feitos pela
marqueteiros, que estão entre os nossos cientistas sociais mais respeitados,
estabeleceram que a escolha de nossos governantes oscila entre dois modelos: o pai autoritário, que impõe uma
disciplina severa e regras rígidas e o paizão,
que está sempre contemporizando e administrando os conflitos. O primeiro atende
às nossas expectativas imediatistas, que querem sempre uma solução simples e
rápida para um problema complexo; o outro satisfaz a nossa índole conciliadora.
Seja qual for o governante de
plantão, estamos sempre otimistas. Deus é brasileiro. O Brasil é uma entidade
mítica, muito maior do que a soma de todos os brasileiros. É comum, em época de
crise, uma pesquisa apontar que, para a maioria da população, a sua situação
individual vai piorar. Simultaneamente, a maioria acha que o “Brasil” vai
melhorar. De certa maneira, essas qualidades, que, isoladamente, favorecem o
equilíbrio do sistema: tendência conciliadora, facilidade de adaptação e de
improvisação, confiança na autoridade, credulidade, quando misturadas e
combinadas geram uma sinergia tal que maximizam a nossa estabilidade.
Tudo isso é temperado com
contrapressões e desvios: somos cordiais em determinados ambientes sociais e
extremamente agressivos em outros: estados de futebol e bailes funk, por
exemplo. Possuímos uma tendência a aceitar a autoridade, ao lado de uma
desconfiança crônica de qualquer instituição. A toda hora surge uma piada nova
sobre o chefe, o técnico do time, o presidente. A capacidade de improvisar é
contraposta a um horror ao estudo sério e aprofundado. Essa diversidade cria
uma dinâmica muito interessante.
Os melhores estudos de nosso
comportamento social vêm dos roteiristas de novela e dos marqueteiros. Que,
aliás, são atividades muito próximas. Os últimos desenvolveram a técnica da
analise dinâmica de pequenos grupos. Algumas pessoas, de várias faixas etárias
e sociais, são colocadas juntas e um animador expõe o produto que se quer
vender – um candidato ou um novo sabão em pó. As pessoas defendem os seus
pontos de vista iniciais, discutem, evoluem de posição e relacionam os pontos fracos
e fortes do produto.
Aí começa a semelhança com as
novelas, outro grande laboratório social: os personagens mudam de acordo com as
expectativas geradas. Não só no visual, mas na própria personalidade. Um
pequeno índice de rejeição é suficiente para alavancar um candidato. Na
verdade, é o principal indicador da viabilidade de sua candidatura.
Marqueteiros mais experientes chegam a dizer que um político desconhecido é
mais fácil de ser trabalhado do que aquele que já fixou uma imagem.
Marqueteiros e roteiristas
trabalham com a percepção da realidade. Esta é tratada como um roteiro
provisório. A campanha ou a novela são dinâmicas, envolvem um realimentação
contínua. É feito um roteiro inicial, gravam-se alguns capítulos e, daí em
diante, a interatividade é total.
Quando o país desmoronou e o
caos tomou conta, as elites demoraram um dia para encontrar a saída: chamar de
volta o ex-presidente. O resto da semana foi dedicado a planejar os primeiros
capítulos de sua volta. Optou-se por um líder mais maduro e severo. O primeiro
pronunciamento de Lua seria um puxão de orelhas coletivo. Pediria austeridade e
sacrifício. Ao mesmo tempo, diria que confiava no nosso povo e que as
dificuldades eram passageiras.
A solução achada para se
preservar a estrutura social foi bastante complexa. O dinheiro não existia
mais. Algumas partes do estado estavam intactas e não haviam deixado de
funcionar, devido à sua grande inércia. O judiciário era uma delas, algumas
repartições públicas também. Era necessário achar alguns pontos de apoio e
definir alguns serviços essenciais. A televisão continuaria, jornais e revistas
não. Lixeiros eram essenciais. A internet também. Ela abrigaria toda a mídia
descartável: CD, DVD, jornais, livros, etc. A meta era preservar o máximo de
informação possível. A estagnação da ciência e da pesquisa era prevista.
Alimentação, vestuário, moradia, energia
elétrica, água, seriam garantidos. Os empregados seriam pagos com um vale
geral, os bancos reabriram para trabalhar com uma nova moeda, o Possível. Não é
o Real nem o ideal, é o Possível! – dizia o slogan. A campanha foi um
sucesso.
As atividades típicas de estado
agora eram: manter a ordem e administrar os programas de distribuição de vales.
O Vale-Tudo, como ficou conhecido, era um cartão magnético. Com ele se
compravam comida, roupa, ingresso para o futebol e se pagavam as conta de luz,
de água, de telefone, etc. Impostos foram abolidos. As escolas foram fechadas
temporariamente. Todos foram aprovados.
As fronteiras, na medida do
possível, foram fechadas. As viagens canceladas. Não havia mais governos
centrais em parte alguma do mundo. Apenas no Brasil, na China e numa meia dúzia
de paises exóticos. A Suazilândia, por exemplo, manteve intacta sua monarquia.
O resto do mundo regrediu a um
feudalismo com internet, com barões locais e bandos de saqueadores vagando
pelas cidades. O dinheiro parou de ser aceito e o comércio voltou ao escambo,
feito em algumas feiras. Quando um barão provava que era capaz de defender o
seu território, começava a cunhar moeda. Sua proteção era paga com o trabalho
no campo ou no exército. Algumas vezes, os empregados das hidroelétricas continuavam a trabalhar, recebendo em
gêneros alimentícios e outros. A internet não chegou a parar.
No Brasil, havia um governo
central, apoiado pelo consenso, sem parlamento e com sátrapas locais
nomeados. Na China, a estrutura
governamental ficou intacta. O país virou um campo de concentração, dirigido
para a produção de produtos básicos. Chamaram de comunismo de guerra. O
dinheiro foi abolido, só circulavam os cartões de racionamento.
Oliveira havia conseguido
modelar um país virtual, o Bananal. Era uma matriz de 1000 células, cada uma
delas um habitante fictício. A cada rodada mensal, as condições iniciais eram
atualizadas. O modelo começou a ser testado antes da última onda. Era
alimentado com os fatos econômicos, sociais, artísticos, esportivos, culturais
mais importantes e a resposta comparada com a realidade. Lá pela décima versão,
o algoritmo havia sido tão refinado que o Bananal se tornou um mini-Brasil.
A terceira onda foi a prova de
fogo. Uma semana depois do discurso de Dona Vilma, Oliveira procurou o novo
presidente para mostrar que o modelo havia previsto o improvável. O Bananal era
estável e o novo ponto de equilíbrio alcançado era muito próximo ao do Brasil
real. Foi nomeado Ministro da Projeção
Social (antigo Ministério do Planejamento) e passou a comandar uma equipe de
roteiristas e marqueteiros que já estavam trabalhando informalmente para o
governo.
domingo, 3 de junho de 2012
2012 - O início do fim II
Onde se explica a singularidade brasileira através de um modelo físico. Graças à ela, qualquer tsunami vira uma marola.
A melhor explicação para o fim da crise veio de um físico. O futuro ministro Oliveira, enquanto matava o tempo ocioso na repartição, havia elaborado um modelo para explicar a singularidade brasileira. Sua teoria, em pouquíssimas palavras, podia ser exposta assim: O Brasil é um sistema perfeitamente inelástico.
A melhor explicação para o fim da crise veio de um físico. O futuro ministro Oliveira, enquanto matava o tempo ocioso na repartição, havia elaborado um modelo para explicar a singularidade brasileira. Sua teoria, em pouquíssimas palavras, podia ser exposta assim: O Brasil é um sistema perfeitamente inelástico.
Um sistema elástico, quando
perturbado, utiliza a energia recebida para oscilar em torno de uma posição de
equilíbrio. Como vivemos no mundo sublunar, onde reina a corrupção, o atrito
impede que esse movimento se eternize. Um pêndulo, quando solto, oscila durante
certo tempo e finalmente para. Um sistema inelástico absorve toda a energia
recebida e volta rapidamente à posição de equilíbrio. Um exemplo clássico é o
amortecedor de um carro. Sua mola tem uma massa e uma constante elástica tais
que o carro passa em cima dos buracos sem trepidar.
A economia brasileira já havia
experimentado choques mais violentos do que os causados pelas crateras de
nossas estradas e sempre voltava rapidamente a uma posição de equilíbrio. Há um
exemplo clássico: um dos apoiadores da nova presidente, quando ocupara o cargo,
havia feito um gigantesco confisco.
Pais de família, que haviam
economizado a vida toda para comprar uma casa, doentes que estavam poupando o
dinheiro da operação, pequenos empresários que aplicavam o dinheiro do
pagamento de seus funcionários, todos ficaram a ver navios. O bom senso
indicava que o país não duraria uma semana. Previam-se rebeliões, saques,
fábricas fechadas, o comércio parado e assim por diante. Nada disso aconteceu.
O Presidente ainda governou um bom tempo, com apoio popular, até que um escândalo
de família provocou o seu impeachment.
Na verdade, o enunciado forte
da singularidade brasileira não se refere apenas à economia - ele abrange todos
os aspectos da nossa vida social. A corrupção é um bom exemplo. Freqüentemente
são mostrados flagrantes de envelopes passando para as mãos de funcionários,
notas na cueca, montanhas e montanhas de dinheiro sem origem, gravações de
conversas, vídeos. Todos os tipos de prova, produzidos pela moderna tecnologia,
são servido nas revistas semanais, nos jornais, na televisão, em horário nobre.
Vinhetas especiais são criadas para identificar o novo escândalo, que depois de
certo tempo some sem deixar traços.
O que o povo brasileiro possui
de tão singular? Em seu linguajar chulo, Oliveira, o novo ministro afirmava: “o
povo brasileiro é que nem vaca – está cagando e andando. E pastando por cima. E
tomando em pé, – acrescentava”.
Algumas características são
óbvias: a nossa índole pacífica e cordial, por exemplo - a vocação bovina de
que Oliveira falava. Dificilmente algo no Brasil chega às últimas
conseqüências, às vias de fato. Somos o país do eufemismo, da hipocrisia. Nós
tendemos espontaneamente para a posição de equilíbrio, a natureza da alma
brasileira abomina os extremos.
Outra característica nossa é a
falta de memória: vivemos sempre no presente e adoramos novidades, não importa
se requentadas. Essa inconseqüência natural é muito útil para a estabilidade
política. Um escândalo atual sempre abafa o anterior e ninguém se espanta
quando inimigos figadais, de repente, passam a serem amigos íntimos.
Uma das qualidades que mais nos
distingue é a nossa capacidade de improvisação, de dar um jeitinho, de fazer
uma gambiarra. Como não cultuamos nenhum valor ou modelo passado, sempre
encaramos cada problema como um novo desafio, sem fórmulas prontas. Nós não
inventamos a roda, mas somos mestres em fazer o carro pegar no tranco, em fazer
uma chupeta. Essa estratégia de contornar, de comer pelas beiradas, de empurrar
com a barriga, quando necessário, sem adotar uma solução definitiva, acaba se
revelando útil em situações novas e complicadas, que não podem ser resolvidas
com as antigas soluções. Um dos nossos anti-heróis, D. João VI, pontificava:
‘se você não sabe o que fazer, não faça nada.”
A Europa é uma prostituta cansada
e experiente. A Ásia uma tia velha e reumática. Os Estados Unidos uma
adolescente com os hormônios a flor da pele, querendo conquistar o mundo. E nós
uma criança de 5 anos.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
2012 - O início do fim
Onde se conta como o mundo acabou. As profecias maias estavam erradas e a culpa não foi de Nabiru - todos os méritos foram de nossa presidente, Dona Vilma.
O fim do mundo
O mundo acabou em 2012. Ou pelo
menos a civilização ocidental e cristã, tal como a conhecemos. Foi como um
tsunami: três ondas consecutivas, sendo a terceira a mais destrutiva. Primeiro
a quebradeira, depois a recessão e, no fim, a hiper-mega-inflação.
A primeira não foi surpresa. Banqueiros e grandes
investidores há muito sabiam que a economia estava rodando em falso. A moeda
fiduciária é sustentada pela fé. Ou na falta desta, pela convicção de que as
coisas só devem mudar se houver algo melhor para colocar em seu lugar. Enquanto
ninguém conseguia conceber um mundo em que o General Grant fosse apenas um
herói da guerra civil, o dólar mantinha o seu livre curso.
A primeira onda passou e deixou um rombo de centenas
de bilhões nas carteiras dos bancos. Alguns afundaram. A economia mundial,
embora atingida na linha d’água, continuou flutuando. Como o Patna: sem rumo e
com os motores apagados. A escassez de dinheiro, além de deixar o fundo à
mostra, antecipou a segunda onda, a recessão.
Quando a segunda onda começou a refluir, as pessoas
estavam saturadas de previsões sobre a economia. No noticiário, a crise havia
submergido, afogada pelo economês. Nas páginas de variedades, embalados pelas
profecias maias, pelas centúrias de Nostradamus, ou por algum profeta mais
recente, os filhos da Era de Aquarius apontavam para os céus. A besta se
aproximava e o seu nome era Nabiru, o planeta das profecias babilônicas.
2012 chegou. O campo magnético da Terra se manteve
invariável. Os planetas continuaram em suas órbitas e, se alguém pudesse ouvir
as estrelas, escutaria a harmonia perfeitas das esferas. O perigo estava aqui.
A terceira onda se propagou com a velocidade da
Internet. Era uma segunda feira cinzenta em Nova Iorque quando o mundo ficou
sabendo que a Presidente do Brasil havia feito um importante discurso na ONU.
Ms. Vilma anunciou que o Brasil estava pagando toda a sua dívida externa em
dólar. Daí em diante, o Banco Central manteria as reservas restantes em yuans e
a moeda americana não seria mais utilizada em transações comerciais.
Com a queda instantânea do dólar em todos os
mercados, houve uma corrida. Quem podia liquidou suas dívidas, a cada hora com
um dólar mais barato, que os governos compravam emitindo papéis. No fim do dia,
os Estados Unidos estavam inundados de dólares escriturais e o resto do mundo
por títulos da dívida pública e cédulas sem valor, com a tinta ainda fresca. O
estrago foi o de várias manadas de elefantes estourando no meio de uma loja de
louças chinesas. Não houve tempo para os economistas esboçarem uma teoria para
o apocalipse.
Os
historiadores que sobreviveram tampouco conseguiram justificar a decisão da
Presidente. Era um consenso, à direita e à esquerda, que o seu mandato era uma
continuação do anterior. Dona Vilma deveria se limitar a pequenas correções de
rota. Ao entregar a faixa, o seu antecessor usara uma de suas típicas
metáforas: a economia brasileira está surfando na marola da crise. No entanto, ela acabara de virar o barco com
golpe brusco no leme.
Explicar
o fim do mundo através de uma crise psicótica estava abaixo da dignidade de
qualquer historiador. Mesmo considerando que a História não existia mais e que
os últimos profissionais disputavam o lixo acumulado nas ruas com os poetas,
músicos, jornalistas, atores de teatro e antigos catadores. Se mal havia
dinheiro para pagar os lixeiros, com muito mais razão não haveria para
ocupações menos produtivas e socialmente desnecessárias.
A China
foi arrastada na correnteza e afundou ao peso de seus bilhões de títulos do
governo americano. Quando chegou à margem, a única riqueza que se salvara fora
a sua força de trabalho. 700 milhões de braços acostumados a trabalhar duro por
muito pouco. O Brasil perdeu seus bancos nas primeiras horas. Um pouco antes, o
governo fora obrigado a honrar seus títulos colocados no mercado. Em
compensação, o dinheiro escritural dos bancos ficou retido como depósito
compulsório. A guerra virtual terminou sem vencedores, sem exércitos e sem
munição.
De real mesmo, só os poucos
depósitos que puderam ser sacados. Não havia mais preços, porque os lojistas
sabiam que não haveria mais estoques para repor as mercadorias. Não havia mais
emprego, porque não haveria como pagar os salários. Depois de uma inflação de
aproximadamente 500% ao dia, acabaram as estatísticas. O escambo começou
imediatamente. A única moeda de curso universal eram os cigarros. Os
pouquíssimos fumantes que haviam estocado pacotes de cigarro ficaram
milionários da noite para o dia.
Um ônibus de sacoleiros que
voltava do Paraguai carregado de cigarros foi saqueado pela Polícia Rodoviária,
que foi emboscada em seguida pelos traficantes. A droga que eles vendiam agora
estava sendo usada para pagar novos recrutas. Os chefes rivais passaram a
disputar o saque dos supermercados. A polícia se tornou um novo bando. Ela
criou uma milícia que, ao lado do exército, tentava impor a lei marcial e o
toque de recolher. O caos durou uma semana.
A continuar. Não percam! Neste mesmo blog, qualquer dia, ou mesmo antes.
A continuar. Não percam! Neste mesmo blog, qualquer dia, ou mesmo antes.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Contaproprismo
O contaproprismo ideológico
Em Cuba, depois de constatar o fracasso da economia, o
governo abriu as portas para a expansão do contaproprismo. Isso significa que,
em determinados ramos, o cubano já pode criar uma empresa privada, contratar
funcionários, receber financiamento do Estado e até desfilar como
contaproprista no Primeiro de maio.
No meu tempo, pensava-se que a pequena empresa gerava
espontaneamente o capitalismo e sua existência só era admitida como uma etapa
transitória a ser rapidamente superada. Agora, depois de 50 anos de processo
revolucionário, elas passaram a ser parte da solução.
No campo ideológico, depois de constatar o fracasso do
socialismo real, resolvi abrir minha própria empresa, com direito a aliciar
seguidores (sem financiamento de qualquer estado), de desfilar no Primeiro de
Maio e ter carteirinha da Mancha Vermelha.
Cansado de ser rotulado, estabeleci-me por conta própria. Em
um grupo sou apedrejado porque não apoio o governo Dilma e chamado de tucano,
porque não sou petista. Noutro, sou lapidado por conta de Stalin, e chamado de
reformista, porque defendo socialismo com democracia. Aí, quando fico contra as
reformas chinesa e cubanas, sou chamado de trotskista. Daí a burguês (grande e
pequeno), passando pelos elogios de praxe a minha progenitora, é um pulo.
Agora sou Marquista Lisboeta. Estou por conta própria. Compro e vendo de quem
eu quiser e para quem eu quiser. Para os
totalitários ofereço um Estado que respeite a esfera moral, ética, filosófica e
sexual de cada um; para os liberais, democracia direta e participativa, sem o
direito a propriedade privada dos bens de produção.
Para quem quiser me constranger em nome de alguma possível
ortodoxia, aponto 40 anos de briga de foice e martelo no escuro, começando com
o relatório Khrushev e acabando com o grande sincretismo, que hoje unifica a
Mancha Vermelha.
Minha mercadoria tem um diferencial: procedência garantida,
com citação das fontes. Os dados que porventura não sejam corretos, terão
direito a retificação e o freguês terá reconhecida a sua razão, se a reclamação
for procedente. Ofereço ainda um serviço gratuito: onbudsman de Face Book. Sou
um googlador rápido e eficiente e tenho um faro apurado para citações falsas,
notícias inverídicas e empulhações em geral. Modéstia não vem incluída no
pacote.
Assinar:
Postagens (Atom)