Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.

Consulte o dicionário do cinismo, no rodapé do blog.

Divulgação literária e outros babados fortes

Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Cultura inútil

Texto de Pedro Paulo Cava, meu colega de Instituto de Educação, faz algum tempo...
Um pouco de cultura inútil, mas interessante.


O que significa @ (arroba) no e-mail?



Durante a Idade Média os livros eram escritos pelos copistas, à mão. 



Precursores dos taquígrafos, os copistas simplificavam seu trabalho substituindo letras, palavras e nomes próprios por símbolos, sinais e abreviaturas. Não era por economia de esforço nem para o trabalho ser mais rápido (tempo era o que não faltava, naquela época!). O motivo era de ordem econômica: tinta e papel eram valiosíssimos.

Assim, surgiu o til (~), para substituir o m ou n que nasalizava a vogal anterior. Se reparar bem, você verá que o til é um enezinho sobre a letra.

O nome espanhol Francisco, também grafado Phrancisco, foi abreviado para Phco e Pco, o que explica, em Espanhol, o apelido Paco.

Ao citarem os santos, os copistas os identificavam por algum detalhe significativo de suas vidas. O nome de São José, por exemplo, aparecia seguido de Jesus Christi Pater Putativus, ou seja, o pai putativo (suposto) de Jesus Cristo. Mais tarde, os copistas passaram a adotar a abreviatura JHS PP, e depois simplesmente PP. A pronúncia dessas letras em sequência explica por que José, em Espanhol, tem o apelido de Pepe.

Já para substituir a palavra latina et (e), eles criaram um símbolo que resulta do entrelaçamento dessas duas letras: o &, popularmente conhecido como "e" comercial, em Português, e, ampersand, em Inglês, junção de and (e, em Inglês), per se (por si, em Latim) e and.

E foi com esse mesmo recurso de entrelaçamento de letras que os copistas criaram o símbolo @, para substituir a preposição latina ad, que tinha, entre outros, o sentido de 'casa de'.

Foram-se os copistas, veio à imprensa - mas os símbolos @ e & continuaram firmes nos livros de contabilidade. O @ aparecia entre o número de unidades da mercadoria e o preço. Por exemplo: o registro contábil 10@£3 significava 10 unidades ao preço de 3 libras cada uma. Nessa época, o símbolo @ significava, em Inglês, at (a ou em).

No século XIX, na Catalunha (nordeste da Espanha), o comércio e a indústria procuravam imitar as práticas comerciais e contábeis dos ingleses. E, como os espanhóis desconheciam o sentido que os ingleses davam ao símbolo @ (a ou em), acharam que o símbolo devia ser uma unidade de peso. Para isso contribuíram duas coincidências:

1 - a unidade de peso comum para os espanhóis na época era a arroba, cuja inicial lembra a forma do símbolo;

2 - os carregamentos desembarcados vinham frequentemente em fardos de uma arroba. Por isso, os espanhóis interpretavam aquele mesmo registro de 10@£3 assim: dez arrobas custando 3 libras cada uma.. Então, o símbolo @ passou a ser usado por eles para designar a arroba.

O termo arroba vem da palavra árabe ar-ruba, que significa a quarta parte: uma arroba ( 15 kg , em números redondos) correspondia a 1/4 de outra medida de origem árabe, o quintar, que originou o vocábulo português quintal, medida de peso que equivale a 58,75 kg .

As máquinas de escrever, que começaram a ser comercializadas na sua forma definitiva há dois séculos, mais precisamente em 1874, nos Estados Unidos (Mark Twain foi o primeiro autor a apresentar seus originais datilografados), trouxeram em seu teclado o símbolo @, mantido no de seu sucessor - o computador.

Então, em 1972, ao criar o programa de correio eletrônico (o e-mail), Roy Tomlinson usou o símbolo @ (at), disponível no teclado dessa máquina, entre o nome do usuário e o nome do provedor. E foi assim que Fulano@Provedor X ficou significando Fulano no provedor X.

Na maioria dos idiomas, o símbolo @ recebeu o nome de alguma coisa parecida com sua forma: em Italiano, chiocciola (caracol); em Grego, 
papaki (patinho);em Sueco, snabel (tromba de elefante); em Holandês,apestaart (rabo de macaco). Em alguns, tem o nome de certo doce de forma 
circular: shtrudel, em iídisch; strudel, em alemão; pretzel, em vários outros idiomas europeus. No nosso, manteve sua denominação original: arroba = @.

terça-feira, 13 de março de 2012

Socialismo e democracia em Cuba III

 Pátria o muerte!

No filme A chinesa, de Godard, há uma citação de Mao: “A revolução não é um banquete, não é uma obra, de arte. Ela não pode ser feita com elegância, tranqüilidade, delicadeza, amabilidade, cortesia, discrição e generosidade. A revolução é uma insurreição violenta na qual uma classe derruba a outra.”
Frases como esta costumam ser usadas para justificar os excessos cometidos em nome da revolução.  Mesmo assim, ela é verdadeira, se aplicada ao seu período inicial. É o que Marx chamava de solução plebéia. A guilhotina e o “paredón” são inevitáveis, até mesmo necessários.
Uma das peculiaridades da revolução cubana é que ela foi relativamente incruenta. Não houve uma guerra civil, não houve destruição de fábricas ou lavouras, as baixas em batalha foram poucas e praticamente toda a população apoiou os rebeldes. Quando o regime de Batista se desmantelou, o seu exército se rendia aos rebeldes mais rapidamente do que eles podiam avançar. Entretanto, houve uma repressão muito forte nas cidades, onde a resistência clandestina teve inúmeros mortos e a tortura e o assassinato eram práticas corriqueiras. Este quadro justifica o paredón, embora não explique porque o novo poder demorou quase 18 anos para dar uma nova Constituição ao país.
Fidel era a liderança incontestável da revolução, graças à visibilidade que havia adquirido com o assalto ao Quartel de Moncada e às transmissões da Rádio Rebelde. Cuba era um país relativamente próspero, com grandes desigualdades sociais e uma tradição de governantes corruptos.  No início, houve uma dualidade de poderes. Os revolucionários haviam assumido o compromisso de conservarem a Constituição de 1940 e de colocarem Urrutia, um juiz com mentalidade legalista,  à frente de um governo provisório que realizaria eleições gerais tão logo fosse possível.
O afastamento de Urrutia foi inevitável, já que o aprofundamento da revolução exigia uma série de medidas antiimperialistas e de combate às desigualdades sociais que não cabiam dentro da legalidade vigente. Inaugurou-se então o poder revolucionário.              
Os primeiros anos da revolução são anos de um voluntarismo e de um romantismo revolucionários exacerbados. Estes acabaram levando a revolução a uma radicalização desnecessária e a um estreitamento de sua base social.
Como mostramos em outro local, dentro do próprio campo das forças revolucionárias, havia uma luta pelo poder, que terminou com o predomínio dos “barbudos” e a entrega da máquina do estado ao PCC, em torno do qual se unificaram os rebeldes. Sindicatos e associações estudantis, que haviam jogado um grande peso na luta contra Batista, foram submetidos ao novo poder, que passou por cima destas instâncias.
Em 1961, logo após o episódio da Baía dos Porcos, Fidel declarou que o conteúdo da Revolução era socialista.  Segundo ele: “a revolução não tem tempo para eleições” e “não há governo mais democrático na América Latina que o governo revolucionário”.
Em relação a alguns segmentos sociais que haviam apoiado a revolução, houve um confronto desnecessário. Dos 3.000 médicos que havia em Cuba, apenas uns 1.000 permaneceram. O ensino privado e religioso foi abolido e a educação passou totalmente ao estado. No final da década de 60, as pequenas fábricas e prestadores de serviço foram nacionalizados.
O novo poder se lançou numa cruzada destinada a criação do homem novo cubano. Isto resultou numa política sectária em relação aos intelectuais, além da repressão sistemática aos homossexuais, hippies, crentes, prostitutas e toda uma série de elementos rotulados de parasitas, contra-revolucionários e anti-sociais.
A reforma agrária cubana merece um capítulo a parte. Com a existência da monocultura totalmente voltada para o mercado externo, predominava no campo o trabalho assalariado e temporário. Houve uma nacionalização das grandes propriedades, muitas das quais em mãos de americanos, com a formação de grandes cooperativas, onde os camponeses passaram a ser empregados do Estado. A pequena propriedade continuou existindo, embora toda a sua produção fosse destinada ao governo.
Logo no início dos anos sessenta, o aumento da renda e do consumo, além da ineficiência administrativa dos novos dirigentes, causaram a falta de alimentos e de vários produtos básicos, o que levou ao racionamento. Cuba optou pela adoção da libreta e a proibição do mercado livre dos gêneros racionados.
O próprio Fidel, em 1970, numa autocrítica, reconheceu que o fator subjetivo, a consciência de classe, estava muito atrasada em Cuba quando da derrubada de Batista. Isto não impediu que os revolucionários se lançassem a uma batalha completamente acima de suas forças. O novo poder tinha que ser, ao mesmo tempo, o executivo e o legislativo. A máquina de estado anterior era inútil para dirigir a nova economia. Os revolucionários precisavam administrar as fábricas nacionalizadas, mesmo sem a formação necessária.  Ao mesmo tempo, deviam enfrentar o inimigo externo, que promovia invasões e sabotagens. Internamente, num episódio pouco conhecido, teve que derrotar os rebelados da província de Escambray, que empreenderam uma guerra de guerrilhas de 60 a 66.
Franqui atribui o levante em Escambray a uma série de tropelias cometidas por Félix Torres, um membro do PCC que assumiu o governo da província. Ele prendeu e fuzilou arbitrariamente, tomou terras dos camponeses, ressuscitou o sistema de pagamento por trabalho, odiado pelos trabalhadores rurais, e, por fim, formou um harém de garotas camponesas.
Com tantos problemas, não é de se estranhar que a revolução não tivesse tempo para eleições. Isto não quer dizer que o poder não procurasse se legitimar de alguma maneira. Fidel é uma liderança carismática e, ao contrário de outros dirigentes socialistas, mantinha um contato permanente com as massas. As principais medidas do governo eram submetidas à aclamação, em grandes comícios na Praça da Revolução.
Paralelamente, havia duas instituições, as milícias e os Comitês de Defesa da Revolução, em que a população tinha voz ativa nas deliberações. Os CDR, criados em 1960 para enfrentar os inimigos internos e externos hoje abrangem 80% da população acima de 14 anos. Entretanto, a iniciativa não estava com as massas. Cabia a elas um papel passivo, de defesa das conquistas, cabendo ao governo propor os avanços a serem efetuados.
Na maioria da população, não havia uma reivindicação pela volta das eleições e de outras instituições representativas do antigo regime. A explicação está nos avanços sociais da revolução, que no primeiro momento realizou a palavra de ordem de Fidel: uma revolução dos pobres para os pobres. O poder revolucionário tinha legitimidade. Por outro lado, ainda era viva a lembrança dos vícios dos governos anteriores e de seus políticos tradicionais.
 Marta Harnecker traz este depoimento de um cubano sobre as primeiras eleições em Cuba, após a tomada do poder:

“Na época da República não era a vontade do povo que primava. Havia toda uma série de subterfúgios para fazer triunfar a vontade da minoria. Agora tudo se modificou radicalmente.
No passado, o cidadão via-se obrigado a votar por um homem que tinha convertido a função política numa profissão e que utilizava agências e aparelhos organizados por ele próprio para figurarem sempre nos boletins eleitorais.
E você sabe por que razão o voto era obrigatório? Porque sabiam que se não o faziam obrigatório ninguém votava. Não acha absurdo que quando uma pessoa tem um direito seja obrigada a exercê-lo?
E agora nas eleições do Poder Popular, sem propaganda, sem encher de pasquins os estabelecimentos, a porcentagem de votantes foi muito elevada, o que diz muito da consciência dos cidadãos.”
Antes da institucionalização do poder, com a adoção de uma Constituição e de eleições para a Assembléia Nacional, a adesão da população era mantida à base do apelo ideológico. Eram os tempos do “Patria o muerte!” A máquina estatal não estava azeitava e adotou-se uma planificação econômica arbitrária. Nas fábricas, o ganho material foi rejeitado como fator de incentivo à produção. Os dirigentes do PCC acumulavam as tarefas políticas com a administração. Os trabalhadores de vanguarda eram o modelo a ser seguido e sobre eles recaía a tarefa de conseguir as metas propostas. O descrédito com a adoção de metas irrealistas e a ineficiência dos gerentes, acabou por inibir a iniciativa dos trabalhadores e por aumentar o absenteísmo.
Marta Harnecker dá o exemplo de uma fábrica onde havia 640 trabalhadores, sendo 19 militantes e 140 trabalhadores de vanguarda. Estes recebiam como prêmio um diploma mensal (para os três mais destacados em cada oficina), além de planos de férias especiais, entradas para o teatro, além de prioridade para compraram os produtos racionados.
O apelo ideológico se traduzia em um vocabulário próprio. Quando um discurso pedindo o cumprimento de uma meta terminava com o slogan “Patria o muerte!”, isto significava que a tarefa era essencial à revolução e quem não a cumprisse seria considerado contra-revolucionário. Os contra-revolucionários eram “afetados” por todo tipo de influência nociva e o resultado da crítica e autocrítica públicas era a necessidade do criticado se “superar”.
A sovietização do cotidiano cubano foi muito além da importação dos udarniki (os trabalhadores de vanguarda). Foram criados os pioneiros, a juventude comunista, à maneira do komsomol, e a UNEAC, o equivalente cubano da União dos Escritores Soviéticos. Os CDR acabaram reproduzindo o modelo soviético de habitação coletiva, onde todos controlavam a vida de todos.   O fato de serem organizados por quarteirão facilitava este controle fino. Eu recomendo o romance Os filhos da Rua Arbat e o filme Morango e Chocolate, para ajudar a clarear o que seria este processo
Esta sovietização consolidou o caminho para um estado policial, nos moldes dos países socialistas. Uma pequena cronologia ajudará a traçar esta evolução:         
1959 – tomada do poder.
1961 – invasão da baía dos porcos e decretação do caráter socialistas da revolução. Fundação do Ministério do Interior, que abriga os órgãos de segurança do Estado.
1962 – crise dos mísseis. Fidel se ressente do papel de Krushev e Cuba se afasta ideologicamente dos soviéticos
1965 – É criado o CC do PCC.
1966 – É criada a OLAS, Organização Latino Americana de Solidariedade, que lança a palavra de ordem “criar um, dois, três Vietnãs”.
1967 – Morte do Che na Bolivia
1968 – Cuba apóia a Invasão da Tchecoeslováquia pelas tropas do pacto de Varsóvia.
1970 – Fracasso da safra de 10 milhões de toneladas de açúcar. Autocrítica de Fidel.
1971 – Prisão de Padilha e afastamento de vários intelectuais da revolução cubana.
1974 – Eleições experimentais em Matanzas
1975 – Primeiro Congresso do recriado PCC.
1976 – Aprovada a Constituição Cubana. Eleição da primeira Assembléia.
Para quem quiser conhecer em detalhes os mecanismos formais do  poder popular, recomendo este site: http://www.josemarti.com.br/man/Artigo_eleicoes_em_Cuba.pdf
O modelo cubano traz características interessantes: os candidatos não necessitam estar filiados ao PCC (não existe formalmente outro partido em Cuba). São indicados pelos próprios eleitores e podem ter o seu mandato revogado a qualquer momento. Em tese, seriam formas avançadas de democracia direta. Na prática, os candidatos não precisam nem morar na província pela qual serão eleitos e são indicados pelo PCC. As decisões de fato são tomadas por um pequeno círculo que as apresenta ao Bureau Político e depois ao CC do PCC para serem referendadas e adotadas pela Assembléia Nacional.
Resumindo: a Revolução Cubana despertou um enorme potencial revolucionário que foi malbaratado. Primeiro com a exclusão de organizações que haviam desempenhado um papel importante na revolução e com a criação artificial de um partido único, de cima para baixo. Depois com um processo voluntarista de radicalização, que tratou como inimigos importantes setores de classe e indivíduos. Mais tarde, com métodos de direção ineficientes e burocráticos, movidos a apelos ideológicos vazios. Quando finalmente se institucionalizou um poder popular, 18 anos após a queda de Batista, as massas já haviam perdido o seu ímpeto revolucionário.
As formas de democracia direta, que existem no modelo atual, não têm o menor conteúdo revolucionário. E, contraditoriamente, propostas mais avançadas de reforma do regime incluiriam a volta de antigas formas de democracia burguesa, como a liberdade partidária. Embora o regime esteja em plena marcha ré na economia, o apego de um pequeno círculo ao poder continua freando a reforma política. O que pode levar à perda definitiva da coesão social, já que a nova classe média que surge é muito permeável a influência das democracias ocidentais e as classes mais desfavorecidas correm o risco de perderem as conquistas sociais da revolução.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A última guerrilheira

Naquela noite, quando foi desamarrada da cama de campanha e levada para trás do refeitório da base, Walkíria estava tranqüila. Esperava por este momento desde o ataque do Natal de 73, quando perdera contato com os companheiros.
Era outubro de 74 e bem longe, em Minas Gerais, sua sobrinha estava nascendo. Ela e a irmã, Valéria, dividiam os mesmos gostos musicais e o mesmo acordeão, que tocavam juntas, em escalas diferentes. A música veio cedo para Walkíria. Sentada no colo de Rita, sua avó paterna, a menina de dez anos ia dedilhando as cordas que a outra selecionava com a mão esquerda (o lado direito estava paralisado por um derrame).
O acordeão chegou ao Araguaia depois, percorrendo um trajeto semelhante ao que ela e Idalísio haviam seguido. Foi um dos seus primeiros pedidos à família, em uma carta.   Quem os conheceu, não esquece as serenatas, pelas noites de Belo Horizonte, animadas pelo violão de Idalísio. Eles levaram a música até o silêncio da floresta.
A música traz boas lembranças. Ela revê o barracão da família, no Bairro Floresta, à Rua Cristal. Dia 2 de agosto, dia do seu aniversário. De surpresa, chegam uns trinta amigos. Sílvio, colega de Engenharia de Maurício[1], trouxe um órgão, que atravessou em surdina, o corredor, até o barracão nos fundos. Grande parte dos militantes do PC do B estava ali, misturados a outros amigos. Vandré era um denominador comum.
Lembra do seu jogral, Mensagem a Geraldo Vandré, montado com pedaços de seus versos. Está com a irmã, até hoje:
“Mas, se estoura uma boiada, repete com muita fibra:
Minha gente, meus senhores,
P’ra morrer, morro por mim
E por minha condição.
No estouro de uma boiada
Quem foge não tem perdão”
Não fugiu. Enquanto caminha, lembra do primeiro ano novo passado na mata. Ela e Idalísio organizaram um teatrinho que encantou o Tio Cid. Muito tempo depois, João Amazonas ainda irá lembrar aquela noite enluarada. O ano, que começou tão bem, trouxe a morte de Tidá[2].
Escuta a sua voz cantando a música de Marcos Valle:
A mão que toca um violão/Se for preciso faz a guerra,/Mata o mundo, fere a terra./A voz que canta uma canção/Se for preciso, canta um hino,/Louva à morte./Viola em noite enluarada/No sertão é como espada,/Esperança de vingança...”
Sabe que Idá morreu como herói. A repressão no Araguaia cuspia balas de metralhadora. Bem diferente daquela metáfora dos tempos de professora, no Bairro Gorduras de Cima. Seus meninos queriam tomar o picolé que era vendido no bar do outro lado da rua. A diretora proibia.
“- Vocês acham que é errado comprar picolé?
- Nããããããooooo!
- Pois é. Nós temos que fazer aquilo que não é errado, então nós vamos comprar picolé.
- Mas a diretora não deixa!
- Mas vocês estão falando que não é errado! Então eu vou vigiar vocês para a diretora não ver.
Na volta...
- Vocês sabem o que a diretora está fazendo? Sabe como é o nome disso? Isso é repressão!”[3]
            De novo, a voz de Tidá vai entoando os versos:
“Quem tem de noite a companheira/Sabe que a paz é passageira,/Prá defendê-la se levanta/E grita: Eu vou!/Mão, violão, canção e espada/E viola enluarada/Pelo campo e cidade,/Porta bandeira, capoeira/Desfilando vão cantando/Liberdade”
Um banho, um prato de comida, roupa limpa, pelo menos vou morrer como uma combatente - pensa. A despedida com a irmã passa rapidamente. Janeiro de 71. Valéria cobriu um ponto com o Idá, na esquina de Amazonas com Tupinambás. Era central e bem perto da Rodoviária. Ela chegou depois, num táxi.
“- Minha maior alegria vai ser ver você do nosso lado. Agora vai para casa que papai e mamãe estão precisando de você. E não chore na frente deles.”[4]
- Não vou chorar na frente deles.
Vera[5] leva o primeiro tiro no pescoço.
- Idiota, ah se eu tivesse uma arma como esta! Ainda dá para ouvir o refrão, que o segundo disparo vai interromper:
Liberdade, liberdade, liberdade.
O corpo de Walkíria não foi encontrado. Ele está presente simbolicamente, na UFMG, onde a escultura de quatro troncos cortados representa as vidas ceifadas pela ditadura. Correspondem a quatro ex-alunos: ela, Idalísio, José Carlos da Matta Machado e Gildo Macedo Lacerda. O Diretório Acadêmico da Faculdade de Artes e Educação da UFMG tem o seu nome. Ele também foi dado pelo projeto Rua Viva à antiga Rua G, no Bairro Braúnas,em Belo Horizonte. Com o dinheiro recebido do Ministério da Justiça, como indenização, a família comprou dois lotes nesta rua.
Sua irmã sente até hoje sua presença:
“Como nunca antes,
Você hoje veio aqui.
Igual à lua redonda
Que se achava escondida
E se desponta na noite
Você hoje veio aqui.

Você veio.
Marcou presença
Levantou lembranças.
Você sempre forte foi.

Amou, sonhou, sofreu.
E se desfez e se foi.
E hoje você volta inteira
Para os louros colher.
(...)
Vem cá, fica com a gente.
Encoste aqui.
Tenho tanto para lhe contar...
Mostre-me suas feridas!
Que eu lhe mostrarei as minhas.
Tínhamos sempre tanto para conversar, lembra-se?
Confidências, risos, choros...
Tudo ombro a ombro.
Nossa! Quanto tempo!
Você sumiu!
Ah! Que saudade!

Abrace-me!
Abrace meus filhos!
Viu só como estão grandes?
Papai e mamãe não puderam esperar você aqui.
Já se foram...
Vocês se encontraram lá fora, não é?

Mas veja! Quantos amigos!
BH, RJ, SP, o país inteiro.
Todos sentem a sua falta
E admiram a sua coragem.

Que bom que você veio aqui.
Fica com a gente.
Assim, no silêncio.
Não diga nada.
Apenas escute o sax tocando Viola Enluarada.
Descanse sua cabeça no ombro meu.
Assim, quietinha, quietinha...
A viagem foi longa.
Durma... durma...
Ah! Abra os olhos só um pouquinho:
- Obrigada pela visita, viu?
Eu amo você”.[6]



[1] Na primeira reunião que fiz, como militante do Partido, Walk escolheu o meu codinome. Passou a usá-lo sempre, mesmo fora das reuniões.
[2] Idá e Tidá eram os apelidos carinhosos de Idalísio, no círculo mais íntimo de amigos e familiares.
[3] Guerrilheiras do Araguaia, p. 18
[4] Guerrilheiras do Araguaia, p. 190
[5] Codinome que Walquíria usava, no Comitê Estudantil do PC do B em Minas. Eu havia sugerido Verônica, que ela abreviou para Vera.
[6] Guerrilheiras do Araguaia, p. 268 e 269. Poesia escrita por Valéria, no dia 02 de abril de 2004.

Socialismo e democracia em Cuba

Este é o primeiro de uma série de artigos que estou escrevendo para um grupo temático que estuda a Revolução Cubana.


Unidade!

Para deixar bem clara a minha posição, devo dizer que não concordo com a tese de que a democracia é um valor universal. Isso porque não se pode colocar em segundo plano o conteúdo material do governo. Além disso, as formas que pelas quais a democracia é exercida estão conformadas por uma série de circunstâncias. Eu diria, entretanto, que só pode haver socialismo com democracia.
Uma revolução só se faz com a quebra da legalidade anterior e a instauração de um governo provisório, que tratará de se institucionalizar. Em Cuba, o conteúdo da revolução era anti-imperialista e democrático-burguês. Havia o compromisso de todas as forças que se uniram contra Batista de adotar a Constituição de 1940 e colocar como presidente Urrutia, um juiz que se notabilizara por sua oposição ao ditador.
Ora, as eleições gerais e o voto universal, embora aparentemente democráticos, trazem embutidos uma série de distorções. Primeiramente o acesso à informação. A imprensa e os meios de comunicação eram controlados diretamente por Batista. O jornal Revolución, órgão oficial dos rebeldes, publicou a lista dos jornalistas que recebiam do ditador. Sem falar que os revolucionários só podiam atuar na clandestinidade, principalmente os combatentes das cidades. A grande notoriedade de Fidel se devia ao seu julgamento pelo assalto ao Quartel de Moncada e à sua atuação anterior, na juventude do Partido Ortodoxo. Neste sentido, os políticos tradicionais levavam uma grande vantagem.
Outro aspecto que deve ser levado em conta é a necessidade de se reestruturar toda a máquina do Estado. Esta máquina não é neutra, ela está montada para atender a determinados interesses de classe.  O novo poder necessitava de uma estrutura deliberativa ágil, que fosse ao mesmo tempo executivo e legislativo, para poder remontar a máquina estatal. Sem falar na criação de uma justiça revolucionária de exceção, para julgar os crimes políticos do regime de Batista.
O primeiro compromisso da Revolução era  com seu programa e o novo poder deveria acomodar dentro de si todas as forças que o apoiassem.
Não possuo elementos para dizer quais seriam as formas adequadas para contemplar estas exigências. A minha crítica se restringirá aos resultados alcançados com o poder revolucionário que se estendeu de 59 até meados da década de 70.
Primeiramente, houve o alijamento de uma série de forças que haviam participado do processo. Em relação a uma parte da burguesia cubana, este afastamento era inevitável.  Podemos caracterizar a relação entre os Estados Unidos e Cuba como neocolonialista. Com a ruptura destes laços, os interesses desta camada seriam prejudicados. A própria dinâmica de uma revolução, que traz em si um tensionamento constante, deveria deixar para trás alguns setores que não almejavam mais do que uma democracia formal, uma revolução política, mas não social.
Houve, desde o início, uma disputa entre os guerrilheiros da Sierra Maestra e os revolucionários clandestinos das cidades. Os barbudos acabaram por monopolizar o poder com o auxílio de uma terceira força, que só se havia definido pela Revolução ao final do processo, o PCC (Partido Comunista de Cuba). Fidel usou a estrutura verticalizada dos comunistas para ocupar a máquina estatal.
O discurso político da revolução cubana diz muito sobre a sua evolução. Nesta primeira etapa, em que há uma disputa de poder dentro das forças revolucionárias, a palavra de ordem que predomina é: Unidade!
Essa disputa não se deu apenas dentro do poder revolucionário. Estendeu-se também às organizações de massa, sindicatos e entidades estudantis. Nas primeiras eleições livres para a CTC (Confederação dos trabalhadores Cubanos), em 1959, os comunistas obtiveram menos de 10% dos votos. Fidel tentou a todo custo eleger uma direção em que eles tivessem uma participação maior, apelando em vão para a Unidade. Os trabalhadores, embora reconhecessem nele a liderança incontestável da revolução, elegeram uma direção que era puro Movimento 26 de Julho.
Este apelo se tornou se tornou uma constante. Cada vez que as forças revolucionárias se opunham à participação crescente dos comunistas, Fidel exigia que estas críticas cessassem, em nome da unidade.  O verdadeiro sentido desta Unidade era a aceitação incondicional da liderança carismática de Fidel e da participação cada vez maior dos comunistas.
As entidades sindicais e estudantis acabaram por serem esvaziadas. A grande liderança estudantil, Pedro Luís Boitel, exigia uma reforma universitária com autonomia e eleições livres. Em 60 foi preso e em 74 morreu na prisão, em conseqüência de uma greve de fome. Fidel colocou um comunista no Ministério do Trabalho e só muito mais tarde os sindicatos voltaram a ter uma participação importante, mas já totalmente subordinados ao governo.
Houve várias tentativas infrutíferas de fusão das forças revolucionárias, que acabaram com a criação do partido único, o PCC, cujo Comitê Central foi constituído em 65 e cujo primeiro congresso aconteceu em 75!
Quando finalmente o país ganhou uma constituição em 1976, esta, em seu preâmbulo, oficializou o mito de que a Revolução Cubana pode ser sintetizada através da luta dos guerrilheiros de Sierra Maestra, conduzidos por Fidel, sacramentando assim o resultado da disputa pelo poder. É uma das raras constituições socialistas do mundo que destaca a figura de um dirigente. Nem Lênin, nem Mao se arrogaram este privilégio. Já Kim Il-Song, da Coréia do Norte, se julgou  à altura desta honraria.
Ela também consagra o PCC como “a força dirigente superior da sociedade e do estado”. Até hoje a retórica de Fidel guarda resquícios de um humanismo, que, no seu início, tinha um viés anti-comunista. Para acomodar esta heterodoxia, declarou-se que o PCC é Martiniano e Marxista-leninista. 
continua.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A face feia da Revolução Cubana


É próprio do ser humano criar imagens e mitos sobre processos que conhecemos pouco. A revolução cubana atraiu minha atenção desde o início. Em 59, minha simpatia estava toda com os barbudos. Minha e de toda uma geração. Lembro da revista A Turma do Pererê, do Ziraldo, que dedicou um número à luta entre o Saci e a turma rival, que havia tomado a Mata do Fundão. O uniforme dos rebeldes era uma barba postiça, numa alusão claríssima aos cubanos.
Mais tarde, quando começou minha militância política, tomei uma posição mais crítica. O voluntarismo das organizações revolucionárias, que queriam criar vários Vietnãs na América Latina, copiando o que achavam ser o modelo cubano, não me atraia.
Na década de 70, Cuba se tornou um aliado incondicional da União Soviética e com a derrota da luta armada em praticamente toda a América Latina, perdeu seu poder de atração.
Em 90, com a queda do bloco soviético, a ilha ficou por conta própria. Foi o chamado período especial. Em 97 visitei Cuba. Encontrei um país vivendo quase todo de cesta básica, uma falta de absurda de itens básicos e um povo extremamente caloroso e hospitaleiro. Havia um corte claro de gerações. Os mais novos, que não conheceram o regime de Batista e os avanços espetaculares dos primeiros anos, só tinham como referência o retrocesso e a queda do padrão de vida. Eram freqüentes às reclamações sobre a falta de liberdade.
Recentemente, com a doença de Fidel e o anúncio das reformas, comecei a me interessar mais de perto por Cuba. Vejo nela sinais preocupantes, que podem levar à uma implosão no estilo soviético. Durante anos, havia reunido uma pequena biblioteca sobre a Revolução Cubana e comecei a estudá-la, além de pesquisar na Internet.
Gosto muito deste trabalho de confrontar várias fontes e informações conflitantes. Vários conceitos prévios tiveram que ser modificados e aos poucos vai surgindo uma imagem mais coerente.
Quando li as memórias de Gregório Bezerra, deparei com uma imagem muito poderosa, que era uma constante na defesa que ele fazia dos desvios e deformações da Revolução Russa: um sexto do mundo estava construindo o socialismo e aos capitalistas interessava desmoralizar esta experiência, para continuarem dominando a classe operária. Por isso, ele defendia incondicionalmente os dirigentes soviéticos.
Em relação à Cuba, criou-se a imagem das 90 milhas, ou dos 120 Km de distância, que a separam dos Estados Unidos. O embargo, além da ameaça constante de uma intervenção, somados a presença americana em Guantánamo, são um atenuante à qualquer crítica mais contundente.
Entretanto, há uma face oculta da Revolução que não admite nem remotamente a desculpa das 90 milhas: a repressão aos homossexuais e o seu confinamento em campos de concentração.
Logo nos primeiros anos da revolução, no seu período romântico, os dirigentes adotaram a idéia de que era preciso construir um novo homem. Neste modelo, o puritanismo, o tradicional machismo cubano e o realismo socialista soviético se fundiram para decretar que os homossexuais eram covardes por natureza, sujeitos à chantagem, potencialmente inimigos da revolução e perigosos por sua influência sobre a juventude.
Foram criados os campos de concentração intitulados de UMAP. Unidades Militares de Ajuda a Produção. Para eles foram enviados os homossexuais, os afeminados, os jovens que usavam calças justas e cabelos compridos, os hippies, os crentes e uma série de indesejáveis. Pablo Milanés foi um destes.
Além dos maus tratos que sofreram nos campos, que incluíam maus tratos físicos e péssima alimentação, os homossexuais foram, em muitos casos, proibidos de exercerem suas profissões. O surrealismo chegou ao ponto de um cidadão ser proibido de trabalhar e ser perseguido por ser um parasita, já que não trabalhava.
Fidel Castro, pessoalmente, assumiu esta campanha. Faz pouco tempo, ele admitiu que errou. A sua sobrinha, Mariela, atualmente a frente do CENESEX, Centro Nacional de Educação Sexual, por ironia da história, é lésbica. Hoje em Cuba, já se realizam operações de mudanças de sexo. Há uma piada que diz que em Cuba é mais fácil mudar de sexo do que mudar de partido.
Ela declarou sobre as UMAP e às perseguições sofridas pelos indesejáveis:

 "Pedir perdón sería una gran hipocresía. (…) Me alegro que aquí no se pida perdón, sino que se traten de establecer reglas y leyes para que nunca más ocurra". 
Governar é nunca ter que pedir perdão.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A autocrítica de Fidel

Em 1970, Fidel lançou a campanha das 10 milhões de toneladas de açúcar. A meta não foi cumprida. Apesar de todo o país ter se engajado nela, o total produzido ficou em torno de 8,5 milhões. Para analisar o fracasso, Fidel fez um discurso, registrado em um livro intitulado “Autocrítica.”
Inicialmente, ele aponta as dificuldades demográficas: de 1959 a 1970, a população cubana subiu de 6.500.000 a 8.300.000 (aproximadamente). Entretanto, devido à estrutura da pirâmide populacional, só 32% estavam ocupados em atividades econômicas. Somente para o  qüinqüênio 1975-1980 estava prevista uma melhora desta composição etária. Como comparação, os países industrializados da Europa, no mesmo período, contavam uma média de 45% da população ocupada em atividades econômicas.
Paralelamente, houve um aumento muito considerável do gasto público em saúde, educação, seguridade social, etc. Com o aumento da renda, cresceu o meio circulante em poder da população. Este desequilíbrio não foi repassado ao preço dos produtos essenciais, o que agravou os problemas do racionamento.
Cerca de 300.000 homens foram empregados nas tarefas de defesa interna e externa, o que representa mais de 10% da população economicamente ativa. Mesmo levando em conta  que os soldados e milicianos se envolviam nas tarefas de produção, assim como os estudantes, este é um fator de peso, num país com escassez de mão-de-obra.
Além destas dificuldades, Fidel considera o fator subjetivo:
“... de inicio éramos apenas um povo rebelde, emocionalmente revolucionário, mas que quanto aos problemas políticos e sociais estávamos realmente confusos e doutrinados pelos jornais, as revistas, os filmes, os livros e todos os meios de divulgação imperialistas.
... há que dizer que a maioria do nosso povo nos começos de 1959 nem sequer era antiimperialista, não tinha consciência de classe. Instinto de classe – o que não é o mesmo.
É preciso lembrar que os primeiros anos foram anos de grandes batalhas políticas, de grandes batalhas ideológicas entre o caminho capitalista ou socialista, entre o caminho burguês ou proletário, e que o trabalho da pequena vanguarda revolucionária foi conquistar antes de tudo a consciência das massas.”
É preciso lembrar que estas batalhas político-ideológicas resultaram na negação da autonomia universitária, no cerceamento dos sindicatos e federações, que em suas primeiras eleições livres impuseram uma derrota esmagadora ao PCC, e no afastamento de uma série de lideranças históricas do movimento guerrilheiro e do 26 de Julho.
Há que dizer que a auto intitulada vanguarda se apoiou na importação mecânica do modelo soviético, com a colocação de todas as organizações revolucionárias na camisa de força do PCC. E que o poder revolucionário acumulou as funções executivas e legislativas nas mãos desta vanguarda, usando todo o crédito que a liderança carismática de Fidel lhe conferia.
Houve, enfim, a passagem de uma revolução democrático burguesa, pelo seu conteúdo, para uma estatização total da economia e uma apropriação do poder por um pequeno núcleo dirigente.
Embora, não houvesse consciência de classe (se aceitarmos a colocação de Fidel) as transformações iniciais atenderam à expectativa popular. A maioria da população experimentou uma melhoria notável no seu nível de vida.  
As opções feitas tornaram o comércio exterior cubano muito dependente do campo socialista.
“Não esqueçamos que, apesar de tudo, durante estes anos tivemos grandes desequilíbrios no nosso comércio externo, especialmente com a União Soviética. Não esqueçamos que temos de importar cinco milhões ou mais de toneladas de combustível...”
Não esqueçamos que o açúcar, em Cuba, esteve intimamente ligado à exploração colonialista e neo-colonialista. Com a imposição de preços e cotas, e a exportação de todo o tipo de produtos, o imperialismo americano manteve Cuba debaixo de sua influência desde que ela se libertou do domínio espanhol. Não esqueçamos que uma das razões para o regime investir tão pesadamente nesta monocultura foi justamente o déficit no comércio exterior. Martí, um dos grandes inspiradores de Fidel, havia dito: “o país que quer morrer vende a um único país.”
E, mesmo deslocando toda a força de trabalho que podia para a colheita da cana, a meta não foi alcançada. Uma das causas que Fidel aponta, sem meios termos, é a ineficiência. Ele enumera algumas razões desta ineficiência: falta de infra-estrutura, carência de mão-de-obra e absenteísmo.
Este último fator é preocupante. É um sinal de que as massas estão começando a se afastar da revolução e que a batalha político-ideológica não foi ganha. Embora Fidel não chegue a esta conclusão, uma das causas deste afastamento é o racionamento.
Falta quase tudo: sabão, tecidos, pasta de dente, cerveja, carne, vegetais e frutas. A indústria leve copiou em tudo o modelo soviético. São incapazes de fazer um sapato que não se desmanche em pouco tempo.
As dificuldades de infra-estrutura vão desde a carência absoluta de meios de transportes, de armazenamento e de estocagem, passando pela dificuldade de carga e descarga nos portos, até os cortes constantes de energia elétrica.
E qual a razão última destas dificuldades?
“Hoje, a indústria, as matérias-primas, os recursos naturais, as fábricas, as máquinas, o equipamento de toda a ordem, pertencem à coletividade. Se com essas máquinas, se com esse equipamento, se com esses recursos não fazemos o ótimo, não é porque sejamos impedidos por um capitalista, não é porque sejamos impedidos por um imperialista, não é porque sejamos impedidos por um proprietário...
Se não fazemos o uso ótimo não é porque alguém nos impeça: é porque não sabemos, é porque não queremos, é porque não podemos. E por isso temos de saber e querer empregar esses recursos da maneira ótima. E temos de poder empregá-las de maneira ótima recorrendo simplesmente às reservas de vontade, de moral, de inteligência, de decisão do povo, que já demonstrou como as possui, sim já o demonstrou!”
Excelente diagnóstico, pena que não foi implementado.
Há dois pontos a serem analisados: o primeiro é a questão da planificação socialista; o segundo, a questão da democracia socialista.
Em relação ao planejamento, Fidel propõe medidas burocráticas: criar um Gabinete de Produção Social no Comitê Central; criar mais organismos de coordenação, além do Conselho de Ministros; separar as tarefas de administrador e de dirigente partidário nas fábricas, entre outras. Ou seja, mais centralização e mais poder para o Partido.
Num governo extremamente centralizado e personalista, o primeiro culpado pelo fracasso da economia seria naturalmente o seu dirigente máximo.
“... Seria melhor dizer ao povo: procurem outro. Ou mesmo: procurem outros (Gritos de: “Não!”). Seria melhor. Mas na realidade seria uma atitude hipócrita de minha parte.
Creio que nós, os dirigentes desta Revolução, saímos demasiadamente caros com o nosso processo de aprendizagem. E desgraçadamente o nosso problema – não no que respeita à substituição dos dirigentes, pois este povo pode-os substituir quando quiser, no momento que quiser, agora mesmo se quiser! (Gritos de: “Não!”) E: “Fidel!” “Fidel!” “Fidel”) -, um dos nossos mais difíceis problemas – e estamos agora a pagá-lo – é antes que tudo, a herança da nossa própria ignorância.”
Você é um fanfarrão, Fidel.
É obvio que os gritos de “Fidel” deviam ser sinceros. Que alternativa haveria? Coloquemos a questão numa perspectiva menos personalista - a luta política-ideológica a que Fidel se refere foi travada principalmente no seio da revolução, para assegurar que o núcleo dirigente não sofresse contestações. A estrutura de poder não permitia modificações de dentro. E a participação popular não ia muito além de aclamar em praça pública o seu líder carismático.
É verdade que uma revolução deve destruir a máquina do estado tal como a encontra. Como e o que colocar no seu lugar é a grande questão. Fidel narra que fábricas tinham que interromper a produção porque não havia espaço para estocá-la e nem transporte para retirá-la. A pergunta que não quer calar é: será que não havia um operário antigo, mais esperto, que poderia ter previsto o problema? A resposta é: se ele fosse mesmo esperto, ficaria calado e deixaria que o administrador se virasse sozinho. Para que ser acusado de contra-revolucionário?
Depois do fracasso, 12 anos depois de assumir o poder, o regime começa a se preocupar em elaborar uma constituição e criar uma estrutura de governo que chama de poder popular. Se já houvesse um poder popular dentro das fábricas, erros grotescos, como os que Fidel apontou, não teriam sido cometidos.  
O planejamento de cima para baixo adota a mesma dinâmica da luta política: baixa palavras de ordem, no caso cifras de controle, e coloca a militância para implementá-las com apelos ideológicos. Qualquer crítica a este planejamento é tratada como manifestação contra-revolucionária. Os técnicos não são ouvidos. Os dirigentes se tornam, do dia para noite, especialistas em áreas que nunca dominaram. Che foi nomeado diretor do Banco Nacional de Cuba, espécie de Banco Central Cubano.
Quando Deng Xiao-ping lançou o slogan: “não importa se o gato é vermelho, o importante é que ele saiba caçar gatos”, ele estava fazendo uma crítica direta a este estilo de planejamento. Mao havia lançado a campanha de construção dos auto-fornos domésticos para aumentar a produção de aço. Escolas e comunas começaram a derreter talheres e utensílios de aço para cumprirem as metas estabelecidas. O aço que produziam era de baixíssima qualidade e não podia ser usado. O “grande salto para frente” gerou uma grande fome. Em minha opinião, a essência da crítica de Deng estava correta. Politicamente, ele não era o que poderíamos chamar de vermelho.
Outra característica deste tipo de planejamento é que ele simplesmente passa por cima das leis da economia, como se elas pudessem ser derrogadas através da simples vontade política. Um exemplo clássico é a ilusão de que o estado pode fixar arbitrariamente preços para facilitar a transferência de recursos para os setores onde ele acha que são mais necessários. Na União Soviética, esta política resultou em super-exploraçao dos camponeses, mercado negro, ineficiência da indústria ligeira, inflação, déficit de moradias e uma série de outros desequilíbrios.
O tabelamento e o racionamento dos produtos essenciais em Cuba resultaram no mercado negro e na queda continuada da produção agrícola. Quando finalmente o Estado autorizou a venda direta dos produtos agrícolas, houve o aumento das desigualdades. Como a libreta não cobria todas as necessidades, os mais pobres passaram a gastar proporcionalmente uma parcela muito maior de seus salários com a compra destes produtos do que os mais favorecidos.  O igualitarismo imposto por decreto se transformou no seu contrário.
Em resumo, foi louvável a tentativa de se fazer uma autocrítica, embora a correção de rumos proposta não tenha resultado em mais democracia e nem em um melhor planejamento.