Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.
Consulte o dicionário do cinismo, no rodapé do blog.
Divulgação literária e outros babados fortes
Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.
sábado, 10 de março de 2012
quarta-feira, 7 de março de 2012
A última guerrilheira
Naquela noite, quando foi desamarrada da cama de campanha e levada para trás do refeitório da base, Walkíria estava tranqüila. Esperava por este momento desde o ataque do Natal de 73, quando perdera contato com os companheiros.
Era outubro de 74 e bem longe, em Minas Gerais, sua sobrinha estava nascendo. Ela e a irmã, Valéria, dividiam os mesmos gostos musicais e o mesmo acordeão, que tocavam juntas, em escalas diferentes. A música veio cedo para Walkíria. Sentada no colo de Rita, sua avó paterna, a menina de dez anos ia dedilhando as cordas que a outra selecionava com a mão esquerda (o lado direito estava paralisado por um derrame).
O acordeão chegou ao Araguaia depois, percorrendo um trajeto semelhante ao que ela e Idalísio haviam seguido. Foi um dos seus primeiros pedidos à família, em uma carta. Quem os conheceu, não esquece as serenatas, pelas noites de Belo Horizonte, animadas pelo violão de Idalísio. Eles levaram a música até o silêncio da floresta.
A música traz boas lembranças. Ela revê o barracão da família, no Bairro Floresta, à Rua Cristal. Dia 2 de agosto, dia do seu aniversário. De surpresa, chegam uns trinta amigos. Sílvio, colega de Engenharia de Maurício[1], trouxe um órgão, que atravessou em surdina, o corredor, até o barracão nos fundos. Grande parte dos militantes do PC do B estava ali, misturados a outros amigos. Vandré era um denominador comum.
Lembra do seu jogral, Mensagem a Geraldo Vandré, montado com pedaços de seus versos. Está com a irmã, até hoje:
“Mas, se estoura uma boiada, repete com muita fibra:
Minha gente, meus senhores,
P’ra morrer, morro por mim
E por minha condição.
No estouro de uma boiada
Quem foge não tem perdão”
Não fugiu. Enquanto caminha, lembra do primeiro ano novo passado na mata. Ela e Idalísio organizaram um teatrinho que encantou o Tio Cid. Muito tempo depois, João Amazonas ainda irá lembrar aquela noite enluarada. O ano, que começou tão bem, trouxe a morte de Tidá[2].
Escuta a sua voz cantando a música de Marcos Valle:
A mão que toca um violão/Se for preciso faz a guerra,/Mata o mundo, fere a terra./A voz que canta uma canção/Se for preciso, canta um hino,/Louva à morte./Viola em noite enluarada/No sertão é como espada,/Esperança de vingança...”
Sabe que Idá morreu como herói. A repressão no Araguaia cuspia balas de metralhadora. Bem diferente daquela metáfora dos tempos de professora, no Bairro Gorduras de Cima. Seus meninos queriam tomar o picolé que era vendido no bar do outro lado da rua. A diretora proibia.
“- Vocês acham que é errado comprar picolé?
- Nããããããooooo!
- Pois é. Nós temos que fazer aquilo que não é errado, então nós vamos comprar picolé.
- Mas a diretora não deixa!
- Mas vocês estão falando que não é errado! Então eu vou vigiar vocês para a diretora não ver.
Na volta...
- Vocês sabem o que a diretora está fazendo? Sabe como é o nome disso? Isso é repressão!”[3]
De novo, a voz de Tidá vai entoando os versos:
“Quem tem de noite a companheira/Sabe que a paz é passageira,/Prá defendê-la se levanta/E grita: Eu vou!/Mão, violão, canção e espada/E viola enluarada/Pelo campo e cidade,/Porta bandeira, capoeira/Desfilando vão cantando/Liberdade”
Um banho, um prato de comida, roupa limpa, pelo menos vou morrer como uma combatente - pensa. A despedida com a irmã passa rapidamente. Janeiro de 71. Valéria cobriu um ponto com o Idá, na esquina de Amazonas com Tupinambás. Era central e bem perto da Rodoviária. Ela chegou depois, num táxi.
“- Minha maior alegria vai ser ver você do nosso lado. Agora vai para casa que papai e mamãe estão precisando de você. E não chore na frente deles.”[4]
- Não vou chorar na frente deles.
Vera[5] leva o primeiro tiro no pescoço.
- Idiota, ah se eu tivesse uma arma como esta! Ainda dá para ouvir o refrão, que o segundo disparo vai interromper:
Liberdade, liberdade, liberdade.
O corpo de Walkíria não foi encontrado. Ele está presente simbolicamente, na UFMG, onde a escultura de quatro troncos cortados representa as vidas ceifadas pela ditadura. Correspondem a quatro ex-alunos: ela, Idalísio, José Carlos da Matta Machado e Gildo Macedo Lacerda. O Diretório Acadêmico da Faculdade de Artes e Educação da UFMG tem o seu nome. Ele também foi dado pelo projeto Rua Viva à antiga Rua G, no Bairro Braúnas,em Belo Horizonte. Com o dinheiro recebido do Ministério da Justiça, como indenização, a família comprou dois lotes nesta rua.
Sua irmã sente até hoje sua presença:
“Como nunca antes,
Você hoje veio aqui.
Igual à lua redonda
Que se achava escondida
E se desponta na noite
Você hoje veio aqui.
Você veio.
Marcou presença
Levantou lembranças.
Você sempre forte foi.
Amou, sonhou, sofreu.
E se desfez e se foi.
E hoje você volta inteira
Para os louros colher.
(...)
Vem cá, fica com a gente.
Encoste aqui.
Tenho tanto para lhe contar...
Mostre-me suas feridas!
Que eu lhe mostrarei as minhas.
Tínhamos sempre tanto para conversar, lembra-se?
Confidências, risos, choros...
Tudo ombro a ombro.
Nossa! Quanto tempo!
Você sumiu!
Ah! Que saudade!
Abrace-me!
Abrace meus filhos!
Viu só como estão grandes?
Papai e mamãe não puderam esperar você aqui.
Já se foram...
Vocês se encontraram lá fora, não é?
Mas veja! Quantos amigos!
BH, RJ, SP, o país inteiro.
Todos sentem a sua falta
E admiram a sua coragem.
Que bom que você veio aqui.
Fica com a gente.
Assim, no silêncio.
Não diga nada.
Apenas escute o sax tocando Viola Enluarada.
Descanse sua cabeça no ombro meu.
Assim, quietinha, quietinha...
A viagem foi longa.
Durma... durma...
Ah! Abra os olhos só um pouquinho:
- Obrigada pela visita, viu?
Eu amo você”.[6]
[1] Na primeira reunião que fiz, como militante do Partido, Walk escolheu o meu codinome. Passou a usá-lo sempre, mesmo fora das reuniões.
[2] Idá e Tidá eram os apelidos carinhosos de Idalísio, no círculo mais íntimo de amigos e familiares.
[3] Guerrilheiras do Araguaia, p. 18
[4] Guerrilheiras do Araguaia, p. 190
[5] Codinome que Walquíria usava, no Comitê Estudantil do PC do B em Minas. Eu havia sugerido Verônica, que ela abreviou para Vera.
[6] Guerrilheiras do Araguaia, p. 268 e 269. Poesia escrita por Valéria, no dia 02 de abril de 2004.
Socialismo e democracia em Cuba
Este é o primeiro de uma série de artigos que estou escrevendo para um grupo temático que estuda a Revolução Cubana.
Unidade!
Para deixar bem clara a minha posição, devo dizer que não concordo com a tese de que a democracia é um valor universal. Isso porque não se pode colocar em segundo plano o conteúdo material do governo. Além disso, as formas que pelas quais a democracia é exercida estão conformadas por uma série de circunstâncias. Eu diria, entretanto, que só pode haver socialismo com democracia.
Uma revolução só se faz com a quebra da legalidade anterior e a instauração de um governo provisório, que tratará de se institucionalizar. Em Cuba, o conteúdo da revolução era anti-imperialista e democrático-burguês. Havia o compromisso de todas as forças que se uniram contra Batista de adotar a Constituição de 1940 e colocar como presidente Urrutia, um juiz que se notabilizara por sua oposição ao ditador.
Ora, as eleições gerais e o voto universal, embora aparentemente democráticos, trazem embutidos uma série de distorções. Primeiramente o acesso à informação. A imprensa e os meios de comunicação eram controlados diretamente por Batista. O jornal Revolución, órgão oficial dos rebeldes, publicou a lista dos jornalistas que recebiam do ditador. Sem falar que os revolucionários só podiam atuar na clandestinidade, principalmente os combatentes das cidades. A grande notoriedade de Fidel se devia ao seu julgamento pelo assalto ao Quartel de Moncada e à sua atuação anterior, na juventude do Partido Ortodoxo. Neste sentido, os políticos tradicionais levavam uma grande vantagem.
Outro aspecto que deve ser levado em conta é a necessidade de se reestruturar toda a máquina do Estado. Esta máquina não é neutra, ela está montada para atender a determinados interesses de classe. O novo poder necessitava de uma estrutura deliberativa ágil, que fosse ao mesmo tempo executivo e legislativo, para poder remontar a máquina estatal. Sem falar na criação de uma justiça revolucionária de exceção, para julgar os crimes políticos do regime de Batista.
O primeiro compromisso da Revolução era com seu programa e o novo poder deveria acomodar dentro de si todas as forças que o apoiassem.
Não possuo elementos para dizer quais seriam as formas adequadas para contemplar estas exigências. A minha crítica se restringirá aos resultados alcançados com o poder revolucionário que se estendeu de 59 até meados da década de 70.
Primeiramente, houve o alijamento de uma série de forças que haviam participado do processo. Em relação a uma parte da burguesia cubana, este afastamento era inevitável. Podemos caracterizar a relação entre os Estados Unidos e Cuba como neocolonialista. Com a ruptura destes laços, os interesses desta camada seriam prejudicados. A própria dinâmica de uma revolução, que traz em si um tensionamento constante, deveria deixar para trás alguns setores que não almejavam mais do que uma democracia formal, uma revolução política, mas não social.
Houve, desde o início, uma disputa entre os guerrilheiros da Sierra Maestra e os revolucionários clandestinos das cidades. Os barbudos acabaram por monopolizar o poder com o auxílio de uma terceira força, que só se havia definido pela Revolução ao final do processo, o PCC (Partido Comunista de Cuba). Fidel usou a estrutura verticalizada dos comunistas para ocupar a máquina estatal.
O discurso político da revolução cubana diz muito sobre a sua evolução. Nesta primeira etapa, em que há uma disputa de poder dentro das forças revolucionárias, a palavra de ordem que predomina é: Unidade!
Essa disputa não se deu apenas dentro do poder revolucionário. Estendeu-se também às organizações de massa, sindicatos e entidades estudantis. Nas primeiras eleições livres para a CTC (Confederação dos trabalhadores Cubanos), em 1959, os comunistas obtiveram menos de 10% dos votos. Fidel tentou a todo custo eleger uma direção em que eles tivessem uma participação maior, apelando em vão para a Unidade. Os trabalhadores, embora reconhecessem nele a liderança incontestável da revolução, elegeram uma direção que era puro Movimento 26 de Julho.
Este apelo se tornou se tornou uma constante. Cada vez que as forças revolucionárias se opunham à participação crescente dos comunistas, Fidel exigia que estas críticas cessassem, em nome da unidade. O verdadeiro sentido desta Unidade era a aceitação incondicional da liderança carismática de Fidel e da participação cada vez maior dos comunistas.
As entidades sindicais e estudantis acabaram por serem esvaziadas. A grande liderança estudantil, Pedro Luís Boitel, exigia uma reforma universitária com autonomia e eleições livres. Em 60 foi preso e em 74 morreu na prisão, em conseqüência de uma greve de fome. Fidel colocou um comunista no Ministério do Trabalho e só muito mais tarde os sindicatos voltaram a ter uma participação importante, mas já totalmente subordinados ao governo.
Houve várias tentativas infrutíferas de fusão das forças revolucionárias, que acabaram com a criação do partido único, o PCC, cujo Comitê Central foi constituído em 65 e cujo primeiro congresso aconteceu em 75!
Quando finalmente o país ganhou uma constituição em 1976, esta, em seu preâmbulo, oficializou o mito de que a Revolução Cubana pode ser sintetizada através da luta dos guerrilheiros de Sierra Maestra, conduzidos por Fidel, sacramentando assim o resultado da disputa pelo poder. É uma das raras constituições socialistas do mundo que destaca a figura de um dirigente. Nem Lênin, nem Mao se arrogaram este privilégio. Já Kim Il-Song, da Coréia do Norte, se julgou à altura desta honraria.
Ela também consagra o PCC como “a força dirigente superior da sociedade e do estado”. Até hoje a retórica de Fidel guarda resquícios de um humanismo, que, no seu início, tinha um viés anti-comunista. Para acomodar esta heterodoxia, declarou-se que o PCC é Martiniano e Marxista-leninista.
continua.
continua.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
A face feia da Revolução Cubana
É próprio do ser humano criar imagens e mitos sobre processos que conhecemos pouco. A revolução cubana atraiu minha atenção desde o início. Em 59, minha simpatia estava toda com os barbudos. Minha e de toda uma geração. Lembro da revista A Turma do Pererê, do Ziraldo, que dedicou um número à luta entre o Saci e a turma rival, que havia tomado a Mata do Fundão. O uniforme dos rebeldes era uma barba postiça, numa alusão claríssima aos cubanos.
Mais tarde, quando começou minha militância política, tomei uma posição mais crítica. O voluntarismo das organizações revolucionárias, que queriam criar vários Vietnãs na América Latina, copiando o que achavam ser o modelo cubano, não me atraia.
Na década de 70, Cuba se tornou um aliado incondicional da União Soviética e com a derrota da luta armada em praticamente toda a América Latina, perdeu seu poder de atração.
Em 90, com a queda do bloco soviético, a ilha ficou por conta própria. Foi o chamado período especial. Em 97 visitei Cuba. Encontrei um país vivendo quase todo de cesta básica, uma falta de absurda de itens básicos e um povo extremamente caloroso e hospitaleiro. Havia um corte claro de gerações. Os mais novos, que não conheceram o regime de Batista e os avanços espetaculares dos primeiros anos, só tinham como referência o retrocesso e a queda do padrão de vida. Eram freqüentes às reclamações sobre a falta de liberdade.
Recentemente, com a doença de Fidel e o anúncio das reformas, comecei a me interessar mais de perto por Cuba. Vejo nela sinais preocupantes, que podem levar à uma implosão no estilo soviético. Durante anos, havia reunido uma pequena biblioteca sobre a Revolução Cubana e comecei a estudá-la, além de pesquisar na Internet.
Gosto muito deste trabalho de confrontar várias fontes e informações conflitantes. Vários conceitos prévios tiveram que ser modificados e aos poucos vai surgindo uma imagem mais coerente.
Quando li as memórias de Gregório Bezerra, deparei com uma imagem muito poderosa, que era uma constante na defesa que ele fazia dos desvios e deformações da Revolução Russa: um sexto do mundo estava construindo o socialismo e aos capitalistas interessava desmoralizar esta experiência, para continuarem dominando a classe operária. Por isso, ele defendia incondicionalmente os dirigentes soviéticos.
Em relação à Cuba, criou-se a imagem das 90 milhas, ou dos 120 Km de distância, que a separam dos Estados Unidos. O embargo, além da ameaça constante de uma intervenção, somados a presença americana em Guantánamo, são um atenuante à qualquer crítica mais contundente.
Entretanto, há uma face oculta da Revolução que não admite nem remotamente a desculpa das 90 milhas: a repressão aos homossexuais e o seu confinamento em campos de concentração.
Logo nos primeiros anos da revolução, no seu período romântico, os dirigentes adotaram a idéia de que era preciso construir um novo homem. Neste modelo, o puritanismo, o tradicional machismo cubano e o realismo socialista soviético se fundiram para decretar que os homossexuais eram covardes por natureza, sujeitos à chantagem, potencialmente inimigos da revolução e perigosos por sua influência sobre a juventude.
Foram criados os campos de concentração intitulados de UMAP. Unidades Militares de Ajuda a Produção. Para eles foram enviados os homossexuais, os afeminados, os jovens que usavam calças justas e cabelos compridos, os hippies, os crentes e uma série de indesejáveis. Pablo Milanés foi um destes.
Além dos maus tratos que sofreram nos campos, que incluíam maus tratos físicos e péssima alimentação, os homossexuais foram, em muitos casos, proibidos de exercerem suas profissões. O surrealismo chegou ao ponto de um cidadão ser proibido de trabalhar e ser perseguido por ser um parasita, já que não trabalhava.
Fidel Castro, pessoalmente, assumiu esta campanha. Faz pouco tempo, ele admitiu que errou. A sua sobrinha, Mariela, atualmente a frente do CENESEX, Centro Nacional de Educação Sexual, por ironia da história, é lésbica. Hoje em Cuba, já se realizam operações de mudanças de sexo. Há uma piada que diz que em Cuba é mais fácil mudar de sexo do que mudar de partido.
Ela declarou sobre as UMAP e às perseguições sofridas pelos indesejáveis:
"Pedir perdón sería una gran hipocresía. (…) Me alegro que aquí no se pida perdón, sino que se traten de establecer reglas y leyes para que nunca más ocurra".
Governar é nunca ter que pedir perdão.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
A autocrítica de Fidel
Em 1970, Fidel lançou a campanha das 10 milhões de toneladas de açúcar. A meta não foi cumprida. Apesar de todo o país ter se engajado nela, o total produzido ficou em torno de 8,5 milhões. Para analisar o fracasso, Fidel fez um discurso, registrado em um livro intitulado “Autocrítica.”
Inicialmente, ele aponta as dificuldades demográficas: de 1959 a 1970, a população cubana subiu de 6.500.000 a 8.300.000 (aproximadamente). Entretanto, devido à estrutura da pirâmide populacional, só 32% estavam ocupados em atividades econômicas. Somente para o qüinqüênio 1975-1980 estava prevista uma melhora desta composição etária. Como comparação, os países industrializados da Europa, no mesmo período, contavam uma média de 45% da população ocupada em atividades econômicas.
Paralelamente, houve um aumento muito considerável do gasto público em saúde, educação, seguridade social, etc. Com o aumento da renda, cresceu o meio circulante em poder da população. Este desequilíbrio não foi repassado ao preço dos produtos essenciais, o que agravou os problemas do racionamento.
Cerca de 300.000 homens foram empregados nas tarefas de defesa interna e externa, o que representa mais de 10% da população economicamente ativa. Mesmo levando em conta que os soldados e milicianos se envolviam nas tarefas de produção, assim como os estudantes, este é um fator de peso, num país com escassez de mão-de-obra.
Além destas dificuldades, Fidel considera o fator subjetivo:
“... de inicio éramos apenas um povo rebelde, emocionalmente revolucionário, mas que quanto aos problemas políticos e sociais estávamos realmente confusos e doutrinados pelos jornais, as revistas, os filmes, os livros e todos os meios de divulgação imperialistas.
... há que dizer que a maioria do nosso povo nos começos de 1959 nem sequer era antiimperialista, não tinha consciência de classe. Instinto de classe – o que não é o mesmo.
É preciso lembrar que os primeiros anos foram anos de grandes batalhas políticas, de grandes batalhas ideológicas entre o caminho capitalista ou socialista, entre o caminho burguês ou proletário, e que o trabalho da pequena vanguarda revolucionária foi conquistar antes de tudo a consciência das massas.”
É preciso lembrar que estas batalhas político-ideológicas resultaram na negação da autonomia universitária, no cerceamento dos sindicatos e federações, que em suas primeiras eleições livres impuseram uma derrota esmagadora ao PCC, e no afastamento de uma série de lideranças históricas do movimento guerrilheiro e do 26 de Julho.
Há que dizer que a auto intitulada vanguarda se apoiou na importação mecânica do modelo soviético, com a colocação de todas as organizações revolucionárias na camisa de força do PCC. E que o poder revolucionário acumulou as funções executivas e legislativas nas mãos desta vanguarda, usando todo o crédito que a liderança carismática de Fidel lhe conferia.
Houve, enfim, a passagem de uma revolução democrático burguesa, pelo seu conteúdo, para uma estatização total da economia e uma apropriação do poder por um pequeno núcleo dirigente.
Embora, não houvesse consciência de classe (se aceitarmos a colocação de Fidel) as transformações iniciais atenderam à expectativa popular. A maioria da população experimentou uma melhoria notável no seu nível de vida.
As opções feitas tornaram o comércio exterior cubano muito dependente do campo socialista.
“Não esqueçamos que, apesar de tudo, durante estes anos tivemos grandes desequilíbrios no nosso comércio externo, especialmente com a União Soviética. Não esqueçamos que temos de importar cinco milhões ou mais de toneladas de combustível...”
Não esqueçamos que o açúcar, em Cuba, esteve intimamente ligado à exploração colonialista e neo-colonialista. Com a imposição de preços e cotas, e a exportação de todo o tipo de produtos, o imperialismo americano manteve Cuba debaixo de sua influência desde que ela se libertou do domínio espanhol. Não esqueçamos que uma das razões para o regime investir tão pesadamente nesta monocultura foi justamente o déficit no comércio exterior. Martí, um dos grandes inspiradores de Fidel, havia dito: “o país que quer morrer vende a um único país.”
E, mesmo deslocando toda a força de trabalho que podia para a colheita da cana, a meta não foi alcançada. Uma das causas que Fidel aponta, sem meios termos, é a ineficiência. Ele enumera algumas razões desta ineficiência: falta de infra-estrutura, carência de mão-de-obra e absenteísmo.
Este último fator é preocupante. É um sinal de que as massas estão começando a se afastar da revolução e que a batalha político-ideológica não foi ganha. Embora Fidel não chegue a esta conclusão, uma das causas deste afastamento é o racionamento.
Falta quase tudo: sabão, tecidos, pasta de dente, cerveja, carne, vegetais e frutas. A indústria leve copiou em tudo o modelo soviético. São incapazes de fazer um sapato que não se desmanche em pouco tempo.
As dificuldades de infra-estrutura vão desde a carência absoluta de meios de transportes, de armazenamento e de estocagem, passando pela dificuldade de carga e descarga nos portos, até os cortes constantes de energia elétrica.
E qual a razão última destas dificuldades?
“Hoje, a indústria, as matérias-primas, os recursos naturais, as fábricas, as máquinas, o equipamento de toda a ordem, pertencem à coletividade. Se com essas máquinas, se com esse equipamento, se com esses recursos não fazemos o ótimo, não é porque sejamos impedidos por um capitalista, não é porque sejamos impedidos por um imperialista, não é porque sejamos impedidos por um proprietário...
Se não fazemos o uso ótimo não é porque alguém nos impeça: é porque não sabemos, é porque não queremos, é porque não podemos. E por isso temos de saber e querer empregar esses recursos da maneira ótima. E temos de poder empregá-las de maneira ótima recorrendo simplesmente às reservas de vontade, de moral, de inteligência, de decisão do povo, que já demonstrou como as possui, sim já o demonstrou!”
Excelente diagnóstico, pena que não foi implementado.
Há dois pontos a serem analisados: o primeiro é a questão da planificação socialista; o segundo, a questão da democracia socialista.
Em relação ao planejamento, Fidel propõe medidas burocráticas: criar um Gabinete de Produção Social no Comitê Central; criar mais organismos de coordenação, além do Conselho de Ministros; separar as tarefas de administrador e de dirigente partidário nas fábricas, entre outras. Ou seja, mais centralização e mais poder para o Partido.
Num governo extremamente centralizado e personalista, o primeiro culpado pelo fracasso da economia seria naturalmente o seu dirigente máximo.
“... Seria melhor dizer ao povo: procurem outro. Ou mesmo: procurem outros (Gritos de: “Não!”). Seria melhor. Mas na realidade seria uma atitude hipócrita de minha parte.
Creio que nós, os dirigentes desta Revolução, saímos demasiadamente caros com o nosso processo de aprendizagem. E desgraçadamente o nosso problema – não no que respeita à substituição dos dirigentes, pois este povo pode-os substituir quando quiser, no momento que quiser, agora mesmo se quiser! (Gritos de: “Não!”) E: “Fidel!” “Fidel!” “Fidel”) -, um dos nossos mais difíceis problemas – e estamos agora a pagá-lo – é antes que tudo, a herança da nossa própria ignorância.”
Você é um fanfarrão, Fidel.
É obvio que os gritos de “Fidel” deviam ser sinceros. Que alternativa haveria? Coloquemos a questão numa perspectiva menos personalista - a luta política-ideológica a que Fidel se refere foi travada principalmente no seio da revolução, para assegurar que o núcleo dirigente não sofresse contestações. A estrutura de poder não permitia modificações de dentro. E a participação popular não ia muito além de aclamar em praça pública o seu líder carismático.
É verdade que uma revolução deve destruir a máquina do estado tal como a encontra. Como e o que colocar no seu lugar é a grande questão. Fidel narra que fábricas tinham que interromper a produção porque não havia espaço para estocá-la e nem transporte para retirá-la. A pergunta que não quer calar é: será que não havia um operário antigo, mais esperto, que poderia ter previsto o problema? A resposta é: se ele fosse mesmo esperto, ficaria calado e deixaria que o administrador se virasse sozinho. Para que ser acusado de contra-revolucionário?
Depois do fracasso, 12 anos depois de assumir o poder, o regime começa a se preocupar em elaborar uma constituição e criar uma estrutura de governo que chama de poder popular. Se já houvesse um poder popular dentro das fábricas, erros grotescos, como os que Fidel apontou, não teriam sido cometidos.
O planejamento de cima para baixo adota a mesma dinâmica da luta política: baixa palavras de ordem, no caso cifras de controle, e coloca a militância para implementá-las com apelos ideológicos. Qualquer crítica a este planejamento é tratada como manifestação contra-revolucionária. Os técnicos não são ouvidos. Os dirigentes se tornam, do dia para noite, especialistas em áreas que nunca dominaram. Che foi nomeado diretor do Banco Nacional de Cuba, espécie de Banco Central Cubano.
Quando Deng Xiao-ping lançou o slogan: “não importa se o gato é vermelho, o importante é que ele saiba caçar gatos”, ele estava fazendo uma crítica direta a este estilo de planejamento. Mao havia lançado a campanha de construção dos auto-fornos domésticos para aumentar a produção de aço. Escolas e comunas começaram a derreter talheres e utensílios de aço para cumprirem as metas estabelecidas. O aço que produziam era de baixíssima qualidade e não podia ser usado. O “grande salto para frente” gerou uma grande fome. Em minha opinião, a essência da crítica de Deng estava correta. Politicamente, ele não era o que poderíamos chamar de vermelho.
Outra característica deste tipo de planejamento é que ele simplesmente passa por cima das leis da economia, como se elas pudessem ser derrogadas através da simples vontade política. Um exemplo clássico é a ilusão de que o estado pode fixar arbitrariamente preços para facilitar a transferência de recursos para os setores onde ele acha que são mais necessários. Na União Soviética, esta política resultou em super-exploraçao dos camponeses, mercado negro, ineficiência da indústria ligeira, inflação, déficit de moradias e uma série de outros desequilíbrios.
O tabelamento e o racionamento dos produtos essenciais em Cuba resultaram no mercado negro e na queda continuada da produção agrícola. Quando finalmente o Estado autorizou a venda direta dos produtos agrícolas, houve o aumento das desigualdades. Como a libreta não cobria todas as necessidades, os mais pobres passaram a gastar proporcionalmente uma parcela muito maior de seus salários com a compra destes produtos do que os mais favorecidos. O igualitarismo imposto por decreto se transformou no seu contrário.
Em resumo, foi louvável a tentativa de se fazer uma autocrítica, embora a correção de rumos proposta não tenha resultado em mais democracia e nem em um melhor planejamento.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
A esquerda é geneticamente mais inteligente do que a direita?
Este estudo está bombando no Facebook, como prova de que a esquerda seria mais inteligente do que a direita.
O artigo original
Como eu sou um chato de galocha, dei-me ao trabalho de ler todo o artigo. Preliminarmente, ele foi publicado num site de vulgarização de estudos sobre psicologia, que produz material muito parecido com aquelas seções que se lêem nas revistas de moda mais sofisticadas.
Em segundo lugar, o estudo não opõe esquerda x direita, ele opõe liberais x conservadores. E mesmo esta oposição deve ser entendida num sentido bem específico: liberais seriam aquelas pessoas mais preocupadas com o bem estar geral e dispostas a pagar mais impostos para beneficiar os menos favorecidos.
Segundo o estudo, mulheres são mais liberais que os homens e negros são mais liberais que os brancos. A hipótese que explicaria a correlação entre inteligência e liberalismo seria a de que o liberalismo é uma novidade genética evolutiva. Os grupos humanos primitivos seriam pequenos e não faria sentido se preocupar com o bem estar dos membros de outros grupos. Conservadores seriam mais preocupados com o bem estar familiar e liberais mais altruístas.
O artigo afirma que a queixa dos conservadores de que a mídia, o show business e outras áreas acadêmicas são dominadas pelos liberais é verdadeira. Em compensação, os conservadores teriam mais sucesso na selva dos negócios. Como a vida social moderna lida com grandes grupos e não grupos familiares, liberais teriam uma vantagem evolutiva.
No meu tempo, um pouco depois do paleolítico, alguém de esquerda ser chamada de liberal era um insulto. E a idéia de que deveríamos pagar mais impostos para investir em programas sociais, era considerada o tipo de assistencialismo que ajuda a embelezar o capitalismo selvagem. A esquerda estava mais interessada no tipo de proposta que incluía a derrubada do governo, a abolição dos impostos e a colocação dos menos favorecidos no poder.
Infelizmente, eu não me vi contemplado no estudo e penso que o pensamento de esquerda não deve ter nenhuma vantagem genética evolutiva. Pelo menos, grande parte da esquerda que eu conheci foi eliminada pela ditadura e não viveu para perpetuar os seus gens (se é que posições de esquerda tem um componente genético). Ao contrário, a direita teve vida boa para si e seus pimpolhos. Ser de direita, durante o regime militar deveria ser uma vantagem no processo de seleção natural (se é que ele ainda atua na espécie humana).
O artigo original
Como eu sou um chato de galocha, dei-me ao trabalho de ler todo o artigo. Preliminarmente, ele foi publicado num site de vulgarização de estudos sobre psicologia, que produz material muito parecido com aquelas seções que se lêem nas revistas de moda mais sofisticadas.
Em segundo lugar, o estudo não opõe esquerda x direita, ele opõe liberais x conservadores. E mesmo esta oposição deve ser entendida num sentido bem específico: liberais seriam aquelas pessoas mais preocupadas com o bem estar geral e dispostas a pagar mais impostos para beneficiar os menos favorecidos.
Segundo o estudo, mulheres são mais liberais que os homens e negros são mais liberais que os brancos. A hipótese que explicaria a correlação entre inteligência e liberalismo seria a de que o liberalismo é uma novidade genética evolutiva. Os grupos humanos primitivos seriam pequenos e não faria sentido se preocupar com o bem estar dos membros de outros grupos. Conservadores seriam mais preocupados com o bem estar familiar e liberais mais altruístas.
O artigo afirma que a queixa dos conservadores de que a mídia, o show business e outras áreas acadêmicas são dominadas pelos liberais é verdadeira. Em compensação, os conservadores teriam mais sucesso na selva dos negócios. Como a vida social moderna lida com grandes grupos e não grupos familiares, liberais teriam uma vantagem evolutiva.
No meu tempo, um pouco depois do paleolítico, alguém de esquerda ser chamada de liberal era um insulto. E a idéia de que deveríamos pagar mais impostos para investir em programas sociais, era considerada o tipo de assistencialismo que ajuda a embelezar o capitalismo selvagem. A esquerda estava mais interessada no tipo de proposta que incluía a derrubada do governo, a abolição dos impostos e a colocação dos menos favorecidos no poder.
Infelizmente, eu não me vi contemplado no estudo e penso que o pensamento de esquerda não deve ter nenhuma vantagem genética evolutiva. Pelo menos, grande parte da esquerda que eu conheci foi eliminada pela ditadura e não viveu para perpetuar os seus gens (se é que posições de esquerda tem um componente genético). Ao contrário, a direita teve vida boa para si e seus pimpolhos. Ser de direita, durante o regime militar deveria ser uma vantagem no processo de seleção natural (se é que ele ainda atua na espécie humana).
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Último capítulo
O poder popular
Finalmente chega a hora de responder a pergunta que dá título ao livro: democracia ou ditadura?
Segundo Harnecker:
O estado cubano, como todo Estado – burguês ou socialista – representa uma ditadura de umas classes sobre outras. ... Mas tal como o Estado cubano foi uma ditadura para a contra-revolução, foi para o povo – ainda sem a presença de instituições representativas – um estado essencialmente democrático. Durante todos estes anos tem representado os interesses dos trabalhadores, da grande maioria do povo cubano e, ao mesmo tempo, não tomou nenhuma medida revolucionária importante sem consultar as massas através de diferentes mecanismos.
Aqui se sente algo estranho: um estado democrático sem instituições representativas, uma democracia no ar, onde as massas são consultadas sobre as questões mais importantes. E o que garante o caráter democrático deste estado? Segundo ela, o fato de ele defender os interesses dos trabalhadores. É quase uma tautologia – o estado é democrático porque ele afirma que é democrático.
“Raúl Castro expõe da seguinte maneira o caráter democrático do Estado cubano, na sua intervenção na clausura do seminário para os delegados do Poder Popular, em 22 de agosto de 1974:
“Quando um Estado como o nosso, representa os interesses dos trabalhadores, sejam quais forem a sua forma e estrutura, resulta um tipo de Estado mais democrático do que nenhum outro tipo que jamais tenha existido na história, porque o Estado dos trabalhadores, o Estado que constrói o socialismo é, sob qualquer forma, um Estado das maiorias enquanto que todos os Estados anteriores foram os Estados das minorias exploradas.” Harnecker, Marta.
Aqui há uma grande confusão. Cada país pode e deve encontrar as suas formas revolucionárias. A comuna de Paris teve uma, a revolução soviética teve outra, mas não existe governo dos trabalhadores sem instituições representativas. As massas não precisam ser consultadas, elas devem decidir.
A própria autora sente que não está em terreno firme e tenta aprofundar a questão.
“O termo “Poder Popular” que se tem usado em Cuba para designar este processo de participação institucionalizada das massas na gestão do Estado pode prestar-se a confusão. Alguns poderiam pensar que só no momento em que os nossos elegem os seus delegados e estes começam a usar as faculdades que lhes outorgou o Poder Popular, se pode falar da existência de um poder do povo em Cuba.” Harnecker, Marta.
Ao reproduzir a opinião de um cubano, ela lança algumas luzes sobre o que seriam os diferentes mecanismos de consulta das massas.
“... A luta de classe foi extraordinariamente foi extremamente violenta, tivemos uma invasão mercenária, uma luta interna de classes nos primeiros momentos da Revolução. Mas o povo com o poder na suas mãos decidiu o seu destino ... A Primeira Declaração de Havana, a Segunda Declaração, foram submetidas ao povo reunido na Praça da Revolução. O povo é que tem governado sempre... O Poder Popular é uma forma de institucionalizar o Estado, porque já estamos na altura de o fazer. E além disso é um aperfeiçoamento da nossa democracia. E a democracia tem existido sempre desde o triunfo da Revolução.” Harnecker, Marta.”
Ou seja, a aclamação em praça pública bastava como mecanismo para garantir a democracia!
Mais adiante a autora explica a razão deste pequeno atraso (12 anos) na institucionalização da democracia:
“Os primeiros anos da Revolução caracterizaram-se por alterações revolucionárias profundas, radicais e aceleradas. Era necessário um aparelho estatal ágil, operativo que exercesse a ditadura em representação do povo trabalhador contra as agressões da contra-revolução interna e do imperialismo. Concentrando nas suas mãos as funções legislativas, executivas e administrativas podia tomar rápidas decisões que as circunstâncias requeriam.” Grifos nossos.
Segundo se conclui, a Revolução deve o seu êxito ao fato de não ter a sua agilidade atrapalhada pela necessidade de dividir as funções legislativas, executivas e administrativas com o povo! Que foi muito bem representado pelos seus dirigentes.
“De fins de 1970 em diante preparam-se aceleradamente as condições para a participação direta do povo na gestão estatal.
O processo de institucionalização da Revolução iniciado nessa época, começa a avançar a um ritmo muito rápido a partir de 1972 quando já se atingiu um importante grau de recuperação econômica e se deram passos decisivos no fortalecimento das organizações de massa.
...
Durante 1973 reestrutura-se o sistema judicial e tem lugar o importante XIII Congresso da Central de Trabalhadores de Cuba, fortalecendo-se enormemente o movimento sindical que passa a jogar, desde então, um papel fundamental na direção da economia.” Harnecker, Marta – grifos nossos.
Em 1959, os trabalhadores haviam realizado um congresso e eleito em sufrágio direto os seus delegados. Mas seria preciso esperar o momento oportuno e a aceleração do processo para poderem exercer o seu papel fundamental.
A autora conclui assim sua exposição:
“Essa participação direta do povo na gestão estatal, este Estado proletário dirigido por um Partido marxista-leninista, intimamente ligado às massas das quais surge e nas quais se apóia para sua fiscalização e controle, é ditadura ou democracia?”
Deixo aos leitores a conclusão. A minha, desde já, é a seguinte: Se isto é um estado proletário, se o PCC é marxista-leninista, se ele está intimamente ligado as massas e nelas se apóia, minha avó é o prédio do Ministério da Fazenda. É fria. A bola está gelada!
Finalmente chega a hora de responder a pergunta que dá título ao livro: democracia ou ditadura?
Segundo Harnecker:
O estado cubano, como todo Estado – burguês ou socialista – representa uma ditadura de umas classes sobre outras. ... Mas tal como o Estado cubano foi uma ditadura para a contra-revolução, foi para o povo – ainda sem a presença de instituições representativas – um estado essencialmente democrático. Durante todos estes anos tem representado os interesses dos trabalhadores, da grande maioria do povo cubano e, ao mesmo tempo, não tomou nenhuma medida revolucionária importante sem consultar as massas através de diferentes mecanismos.
Aqui se sente algo estranho: um estado democrático sem instituições representativas, uma democracia no ar, onde as massas são consultadas sobre as questões mais importantes. E o que garante o caráter democrático deste estado? Segundo ela, o fato de ele defender os interesses dos trabalhadores. É quase uma tautologia – o estado é democrático porque ele afirma que é democrático.
“Raúl Castro expõe da seguinte maneira o caráter democrático do Estado cubano, na sua intervenção na clausura do seminário para os delegados do Poder Popular, em 22 de agosto de 1974:
“Quando um Estado como o nosso, representa os interesses dos trabalhadores, sejam quais forem a sua forma e estrutura, resulta um tipo de Estado mais democrático do que nenhum outro tipo que jamais tenha existido na história, porque o Estado dos trabalhadores, o Estado que constrói o socialismo é, sob qualquer forma, um Estado das maiorias enquanto que todos os Estados anteriores foram os Estados das minorias exploradas.” Harnecker, Marta.
Aqui há uma grande confusão. Cada país pode e deve encontrar as suas formas revolucionárias. A comuna de Paris teve uma, a revolução soviética teve outra, mas não existe governo dos trabalhadores sem instituições representativas. As massas não precisam ser consultadas, elas devem decidir.
A própria autora sente que não está em terreno firme e tenta aprofundar a questão.
“O termo “Poder Popular” que se tem usado em Cuba para designar este processo de participação institucionalizada das massas na gestão do Estado pode prestar-se a confusão. Alguns poderiam pensar que só no momento em que os nossos elegem os seus delegados e estes começam a usar as faculdades que lhes outorgou o Poder Popular, se pode falar da existência de um poder do povo em Cuba.” Harnecker, Marta.
Ao reproduzir a opinião de um cubano, ela lança algumas luzes sobre o que seriam os diferentes mecanismos de consulta das massas.
“... A luta de classe foi extraordinariamente foi extremamente violenta, tivemos uma invasão mercenária, uma luta interna de classes nos primeiros momentos da Revolução. Mas o povo com o poder na suas mãos decidiu o seu destino ... A Primeira Declaração de Havana, a Segunda Declaração, foram submetidas ao povo reunido na Praça da Revolução. O povo é que tem governado sempre... O Poder Popular é uma forma de institucionalizar o Estado, porque já estamos na altura de o fazer. E além disso é um aperfeiçoamento da nossa democracia. E a democracia tem existido sempre desde o triunfo da Revolução.” Harnecker, Marta.”
Ou seja, a aclamação em praça pública bastava como mecanismo para garantir a democracia!
Mais adiante a autora explica a razão deste pequeno atraso (12 anos) na institucionalização da democracia:
“Os primeiros anos da Revolução caracterizaram-se por alterações revolucionárias profundas, radicais e aceleradas. Era necessário um aparelho estatal ágil, operativo que exercesse a ditadura em representação do povo trabalhador contra as agressões da contra-revolução interna e do imperialismo. Concentrando nas suas mãos as funções legislativas, executivas e administrativas podia tomar rápidas decisões que as circunstâncias requeriam.” Grifos nossos.
Segundo se conclui, a Revolução deve o seu êxito ao fato de não ter a sua agilidade atrapalhada pela necessidade de dividir as funções legislativas, executivas e administrativas com o povo! Que foi muito bem representado pelos seus dirigentes.
“De fins de 1970 em diante preparam-se aceleradamente as condições para a participação direta do povo na gestão estatal.
O processo de institucionalização da Revolução iniciado nessa época, começa a avançar a um ritmo muito rápido a partir de 1972 quando já se atingiu um importante grau de recuperação econômica e se deram passos decisivos no fortalecimento das organizações de massa.
...
Durante 1973 reestrutura-se o sistema judicial e tem lugar o importante XIII Congresso da Central de Trabalhadores de Cuba, fortalecendo-se enormemente o movimento sindical que passa a jogar, desde então, um papel fundamental na direção da economia.” Harnecker, Marta – grifos nossos.
Em 1959, os trabalhadores haviam realizado um congresso e eleito em sufrágio direto os seus delegados. Mas seria preciso esperar o momento oportuno e a aceleração do processo para poderem exercer o seu papel fundamental.
A autora conclui assim sua exposição:
“Essa participação direta do povo na gestão estatal, este Estado proletário dirigido por um Partido marxista-leninista, intimamente ligado às massas das quais surge e nas quais se apóia para sua fiscalização e controle, é ditadura ou democracia?”
Deixo aos leitores a conclusão. A minha, desde já, é a seguinte: Se isto é um estado proletário, se o PCC é marxista-leninista, se ele está intimamente ligado as massas e nelas se apóia, minha avó é o prédio do Ministério da Fazenda. É fria. A bola está gelada!
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