Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.

Consulte o dicionário do cinismo, no rodapé do blog.

Divulgação literária e outros babados fortes

Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

O Arrudas desemboca no Mar Báltico

A Idade do Ouro


Minha primeira lembrança é a espingarda de rolha.
- Olha o leão, batuta! Atrás do sofá.
            A sala era imensa e escura e, atrás do sofá, meus olhos de criança enxergavam dois pontos brilhantes.
- Morreu, vovô?
- Não, batuta. Ainda está se mexendo.
A rolha ficava presa pelo barbante e num segundo eu recarregava a espingarda. De vez em quando, para me assustar, ele fingia que o leão ia dar um bote. E ria até mais não poder, enquanto eu fugia às carreiras.
A minha coleção de maços de cigarros, colados num caderno de folhas quadriculadas, é um pouco posterior à espingarda. Eles estavam organizados por ordem alfabética: Astória, Belmonte, Continental ... A coleção me acompanhou durantes anos, mesmo depois que tive consciência de que aqueles maços apanhados na rua não tinham valor. E, até hoje, guardo a memória daquelas caçadas como se fossem gemas puras. No fundo sei que elas estão contaminadas, que também são de segunda mão, porque existe a memória recorrente de minha mãe contando e recontando esta história. Sempre tive pena de jogar fora as coisas.
Estas são as minhas melhores lembranças do meu avô, de uma época em que ele ainda era um herói. A espingarda existiu, é certo. Uma vez coloquei o indicador no cano para sentir o mecanismo do disparo e machuquei o dedo. A lembrança da dor é muito forte e serve de autenticação para o artefato.
Muitos anos luzes depois, descobri que o número de estrelas que vemos no céu não é infinito. São 5.500, no Hemisfério Norte. E 880 já haviam sido catalogadas, por ordem de brilho aparente, com uma precisão incrível. O método era tão simples quanto genial. Escolhido um ponto de partida, ia-se seguindo uma trajetória poligonal pré-fixada, de estrela em estrela, comparando os seus brilhos relativos. Até hoje o Catálogo de Hiparco serve de referência para os astrônomos calcularem a magnitude absoluta e a distância destas estrelas.
O método me inspirou e, graças a ele, minhas pesquisas arqueológicas na Idade do Ouro têm sido bem-sucedidas. As camadas são datadas por artefatos (uma espingarda de rolha, um gibi, um livro...) e eu vou determinando a magnitude aparente de cada acontecimento. As dificuldades são semelhantes - acontecimentos muito distantes têm um brilho aparente muito pequeno, embora, se considerarmos a luz que eles emitiram, tenham sido de primeira magnitude. Hoje em dia, quando não ouço mais os sinos da Revolução tocando a rebate, o tempo se tornou matéria abundante, onde eu posso garimpar à vontade. Beverly, Caporal Amarelinho, Hollywood, Lincoln, Macedônia, Pullman ...A datação é facilitada pela persistência de alguns destes objetos. Naqueles anos, antes do Primeiro Ensaio da Revolução, o maço de Continental sem filtro trazia um mapa em revelo dos dois continentes, em verde azulado escuro sobre fundo branco. Este desenho atravessou décadas. Desta época, um dos poucos fósseis que restaram foi a caixa de Maizena.

  




A partir dos cinco anos termina a pré-história. Foi o ano em que tive sarampo, em que minha mãe se casou e em que eu comecei a frequentar o jardim de infância. A casa ficava na Rua do Ouro. O nome agora ganha um brilho aparente que absolutamente não tinha. Poderia mudá-lo, mas não o farei. Eu acredito em coincidências e gosto de brincar com elas. Nada estava escrito nas estrelas e nunca estará.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

No escuro, todos pardos são gatos

No meio de uma arrumação, descobri essa poesia perdida nas gavetas eletrônicas. Há um encosto de Drummond mal dissimulado (que ele me perdoe), mas me pareceu que é um bom retrato da mediocridade atual.

O gato pardo


Nasci pardo
Nem claro, nem escuro
Antes obscuro

Não carrego o fardo do homem branco
Nem a canga do escravo
Brando é meu fado

Sem a ginga do negro
Sem o enfado do branco
Só a pinga nos concilia

Tenho duas mãos esquerdas
E  muito me preocupa o mundo
Mas estou cansado

De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto engolir sapos,
de tanto afogar as mágoas
Me dá uma preguiça...

Esquerda
Direita
Meia volta, volver
Vamos aos trancos e barrancos
Negros pardos e brancos

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Maio


Oh, Maio!
Maio em que nasci
Glorioso Maio
Maio em que morri

Maio que enterra
A última quimera
Um sonho mau
Quem dera

Maio de tantos azares
De Tiradentes e zumbis
Calabares e Var Palmares
Heróis, guerreiros e empreiteiros.

Quem traiu?
Quem foi traído?
E o povo aplaude
Bestificado, estarrecido

Caem os mitos
E o povo aplaude
Discutem-se ritos
E o  povo aplaude

Meritocracia, Cleptocracia, Democracia
E o povo vaia
Em teu nome será exercido
Tomara que caia!

A Carta Magna
A Advocacia Geral
A Suprema Corte
O Senado Federal

Com a máxima vênia

O povo quer salário mínimo
Cesta básica
Direitos fundamentais
Emprego na fábrica

Quer um teto
Eu também quero
Quer um chão
Sem Messias, sem lero-lero

É tão simples
O que ninguém entende

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Testamento político de uma ex-presidente


Para o Moro, eu deixo um bunda lêlê. Aproveito e cago em sua foto,seu escroto.Eu sou honesta, tá sabendo? Não tenho conta na Suíça, não tenho triplex, não tenho sítio em Atibaia, não ando em jatinho de empreiteiro. Todas as contribuições para a minha campanha foram legais e devidamente declaradas. Não ri, não, seu debochado!
Para o meu povo, deixo minha eterna dívida de ingratidão. E outras continhas também, que vocês vão ter que ralar para pagar. Bando de ingratos, f.d.p. Vocês acham que aqueles idiotas do MST, aquelas mulheres do grelo duro, batendo palmas para mim, me enganam? Eu sei que vocês estão aí fora, que me odeiam, e que ficam esperando eu aparecer na televisão para bater panela. Podem bater até furar, porque não vai ter comida para por nelas. Tchau, queridos.
Para o seboso do Cardozo, eu deixo uma coleção de provas do ENEM. Vê se estuda e faz de novo esse curso de direito, seu f.d.p. Você me enrolou com suas teses furadas. Era golpe, não tinha base legal, não foi pedalada, foi vingança do Cunha, o STF não vai deixar! E a tonta aqui foi na conversa. Sabe quem entende de Direito? É o Moro, aquele que vai quebrar o seu foro.
Para o f.d.p. do Mercadante eu deixo uma escarrada. Eu devia ter feito ouvidos de mercador para o seu papo, Mercadante, Mas não, a idiota aqui achou que o Cunha era fichinha, que o Kassab ia dividir o PMDB, que o Temer não conseguia articular nada, que o Delcidio era de confiança. Vai pra Papuda, infeliz. O Moro está de esperando.
Para aquele que me criou, deixo o resultado de sua obra. Maldita hora em que eu resolvi te dar coito, seu fanfarrão. Foi a tal bala de prata no meu governo. Agora o seu papo é com o Moro. Sabe aquele AeroLula que você transformou em motel voador? Pois é, quem vai usar agora é a Marcela, muito melhor que aquela periguete que você catou. Fica triste não, a galega também vai para Curitiba com você. Vocês vão ter muito tempo para discutir a relação.


Dilma Embolada.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Cantiga de escárnio para Dilma, baseada em poema de Cardenal

Não saio

Não que eu creia que fiz um bom governo.
Sei, melhor que ninguém, do dano que causei

Não saio

Tampouco porque acredite na democracia
E veja no impeachment um golpe
Posto que sei muito bem como me elegi

Não saio

Não na esperança de que um dia me façam justiça
Se nem meu partido, nem meu criador, a fazem agora

Fico

Porque sei que vocês me odeiam.

Marco Lisboa

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Conto de Natal

Conto de Natal

O Sr. Erany informa que tem 67 anos, é aposentado e sustenta um filho epiléptico e uma mulher “com paralizia”. Nada disso é relevante para o processo em tela, mas ele, com aquela  educação das pessoas humildes, acha que é necessário se apresentar e explicar minuciosamente sua história.
Tudo isto foi escrito em uma folha de papel almaço, com letra irregular e surpreendentemente legível, apesar dos tremidos. Aduziu que não encontra emprego, por causa da idade. Ganha os R$ 260,00 da aposentadoria, o que mal deve dar para os remédios. Mas isso ele não revela, com aquele resto de pudor que ainda mantém.
Inicia nomeando o cargo da autoridade competente, precedido pelo indefectível Sr. Dr Fulano de Tal. O assunto é a sua inscrição em dívida ativa. A origem do débito é explicada com singeleza: para aumentar os seus proventos, montou uma barraquinha de ambulante, tudo legalizado, segundo ele. Mas assim não entendeu o fiscal municipal de postura, que lavrou o competente auto de infração. Ainda segundo ele, a multa o deixou  “decepissionado”.
Não há dúvida de que o estilo é o homem. Logo à frente, pondera que a razão do não pagamento é “porque, talvez, ele não tinha dinheiro”. A frase é toda uma vida. Usa-se um eufemismo para não ofender tão alta autoridade com problemas tão prosaicos. Reconhece a obrigação de pagar e não cogita em argumentar que ela é injusta - todo o seu argumento é “ad misericordiam”.
O Sr. Erany é um daqueles homens bons, que acredita no poder de uma boa conversa, com jeitinho, sem forçar a barra. Até se excede um pouco, afirmando que, “com certeza”, o Doutor veio das classes humildes. Talvez isso fosse verdade no seu tempo, em que o filho da lavadeira começava como contínuo e ia galgando, degrau por degrau, a hierarquia do serviço público.
Os tempos agora são outros. A Carta Magna de 1988 acabou com os privilégios e decretou a igualdade de todos perante a lei. A nomeação para os cargos de carreira se faz através da aprovação em concurso público. Quero ver o filho da lavadeira, que estudou em escola pública, que escreve  “paralizia” e “dessepicionado” chegar até aqui, aonde eu cheguei.
Mas o coitado persiste nesta crença e acha mesmo que a autoridade poderia ser sensível ao seu apelo. Admitindo que o fosse, estaria cometendo crime de prevaricação se  agisse contra a legislação em vigor, apesar do motivo humanitário. Tenho certeza que ele desconhece o que seja prevaricação.
Porque há o motivo. O Sr. Erany não mente. Sua exposição é uma peça inteira, consistente, uma aula de sociologia em uma única mísera lauda de papel almaço, meio amarelado. Acabo por admitir que no seu pedido há muito mais conteúdo do que no meu arrazoado.  Esse meu estilo cartorial e pedante, cheio de polissílabos e de jargão jurídico, temperado com um latim macarrônico, acaba abafando as minhas convicções.
Em anexo, xerox da carteira de identidade e mais uma papelada: exames, atestados, etc. Já se acostumou a ter que provar que é ele mesmo, e que o que disse é verdade. Não perdi tempo olhando a sua foto.
Sou simpático a sua causa, mas não a sua figura. Ele me irrita com seus eufemismos, sua humildade, sua resignação. Indigno-me, por ele que não se indigna. Mas uma repartição pública é o lugar mais inadequado do mundo para indignações. Se o papel aceita o que se lançar nele, o papel dos processos é de um tipo especial, anti-séptico, apesar de ser freqüentado por ácaros, fungos e bactérias de todas as cepas. O chefe pode passar por alto um estilo não parlamentar, digamos assim, mas quer saber qual a motivação do despacho, o seu enquadramento legal. E é ele quem decide. Eu apenas emito um parecer, penso que acho alguma coisa, salvo melhor juízo.
É claro que indeferi de pleno o pedido, por carecer de embasamento legal. Não, não fiz nenhuma subscrição entre os colegas. O Sr. Erany que se vire para pagar a multa. Porque ele vai pagá-la, pobre não sabe sonegar e perde o sono se ficar devendo. Que seja às custas do remédio da mulher, ou do filho, pouco se me dá. A caridade não é uma das minhas virtudes. Sinto muito, não sou cristão.
Não, também não convoquei o Sr. Erany à repartição. Ele provavelmente não me escutaria. Que adiantaria eu lhe dar uma aula sobre a injustiça das taxações em geral, e desta em particular? Ele acabaria por me irritar  ainda mais, pedindo para falar pessoalmente com o chefe, insistindo, querendo apenas um pouquinho de esperança.
Não há um final feliz possível para esta história. Mesmo que a multa fosse perdoada, ele continuaria, pobre, desempregado e doente. Porque sofre de câncer no fígado, conforme os laudos que anexou. Sua vida deve ter sido toda vivida nesta mesma toada, é tarde para mudá-la. É véspera de Natal e eu só queria achar um lugar neste mundo onde o ser humano fosse um pouquinho menos hipócrita e eu pudesse destilar a minha raiva sem maiores constrangimentos.


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Em busca do vento perdido


 Em 18 de agosto de 1871, nos Jardins das Tulherias, Pénaud fez voar na presença de representantes da Société aéronautique de France, um modelo de aeroplano motorizado, o Planophore, acionado por um motor à elástico (pelo desenrolar de de uma tira de elástico previamente enrolada). Ele voou por 60 metros a vinte metros de altura durante 13 segundos.

Atendendo ao apelo de Dona Dilma, por uma tecnologia de estocagem de vento, eu apresento a Anemoteca, um armazenador de vento. Penaud produziu vento com uma tira de borracha enrolada. Eu pretendo seguir o caminho inverso, estocar vento, usando uma tira de borracha. A idéia é simples: basta acoplar ao eixo da hélice de um moinho de vento uma tira de borracha, O vento irá enrolar a tira, durante a noite, quando, segundo a insistenta, pode ventar mais. Isso feito, um mecanismo irá travar a hélice, quando a borracha estiver totalmente torcida. Durante o dia, bastará destravar a hélice e utilizar o vento estocado. Se o aeroplano voou, não há porque a minha Anemoteca não funcionar. Estou esperando o financiamento para aperfeiçoar a minha invenção. Que já foi patenteada. Primeirão.
Vamos prosseguir na nossa demonstração. Supondo que a minha Anemoteca funcionasse, durante o dia, o moinho de vento poderia usar o vento estocado durante a noite para produzir energia elétrica e nossa presidente estaria coberta de razão. 
UEPA. Faltou um pequeno detalhe, não dá para estocar e gastar ao mesmo tempo. A Anemoteca ocupou o moinho a noite toda, estocando vento. Então, se o dispositivo for usado para produzir vento, durante o dia, só estaremos trocando o dia pela noite. Em vez de termos x de vento para ser usado durante a noite, teremos esse x para ser usado durante o dia. 
Que dureza! Na cabeça de nossa presidente, como é possível arrecadar e pedalar ao mesmo tempo, o estocador de vento seria uma pedalada eólica. Que não funciona, como as pedaladas fiscais não funcionaram.
Há um outro probleminha, a maldita Segunda Lei da Termodinâmica. E não há decreto que passe por cima dessa lei e autorize a estocagem de vento de maneira econômica.
Explicando de uma forma que até o Lula entenderia (a Dilma não vai entender), todo processo de transformação de energia não consegue fornecer mais energia útil na saída do que a que foi usada na entrada. Todo máquina tem um rendimento menor do que 100%. O motor de um carro tem um rendimento de 30%. Isso quer dizer que só 30% da energia química (a explosão da gasolina) resulta em energia cinètica (o movimento do carro). Logo, a melhor coisa a fazer com o vento não é estocá-lo para depois usá-lo. É usá-lo diretamente para produzir energia elétrica. No processo de estocagem haverá uma perda. No processo de liberar o vento estocado, haverá outra perda. Economicamente, a estocagem de vento é inviável. Tudo bem que a Dilma é perita em apoiar processos economicamente inviáveis, mas nesse tempo de véspera de apagão, eu não recomendaria.
Mas por que se pode estocar água e não compensa para o Brasil estocar vento? Bom, a água evapora usando a energia solar (grátis). Depois cai no reservatório graças à lei da Gravidade (grátis e irrevogável). Uma vez construída a barragem, ela vai passar a vida toda armazenando água e gastando a água armazenada, sem custo adicional. 
Mas e o vento? Mesmo que o processo não seja econômico, ele não seria viável, numa região de vento escasso? Digamos que se estoque só metade do vento produzido a noite para ser usada durante o dia. Aí teríamos vento diuturna e noturnamente, como diria a insistenta. Beleza. Só tem outro pequeno problema. Como a própria presidente deveria saber, nosso sistema é todo interligado. Então, o mais econômico é usar o vento, enquanto ventar e usar a energia de outras fontes, quando não ventar. Sem graça, né? E eu que pensei que iria faturar uma grana com a Anemoteca.
E o papo de usar rocha porosa para armazenar ar comprimido? Se você tiver o tipo certo de rocha porosa, na região certa, onde já há moinhos de vento produzindo energia elétrica de forma econômica, então, talvez esse processo seja viável para garantir uma geração constante de energia elétrica, onde o uso de outras fontes não compense. O fato é que esse processo só é usado em dois locais, no mundo todo e ainda está em fase experimental.

Fora isso, estocar vento é que nem cultuar a mandioca e comungar com o milho. São delirios de uma memória corrompida. O que se estoca nunca é o vento. É algum tipo de material (ar comprimido, por exemplo) que pode ser usado para produzir energia eólica, que será transformada em energia elétrica. Ou então, no caso da Anemoteca, a energia eólica é transformada em energia potencial elástica que poderá ser transformada novamente em energia eólica. Com uma perda considerável na estocagem e na liberação.