Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.

Consulte o dicionário do cinismo, no rodapé do blog.

Divulgação literária e outros babados fortes

Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Relembrando o mensalão


Essa crônica foi escrita para se contrapor a uma declaração do então presidente Lula, que afirmou que não havia ninguém mais ético do que ele, nesse país! Sério, ele disse isso.


Ética espartana


- Venha aqui, você precisa escutar essa. Era a mulher, que me chamava para ouvir o nosso Presidente na tevê. Ela sabe que eu não suporto vê-lo. Nem ouvi-lo, para falar a verdade.
- Nunca, antes na história desse país, a coisa pública foi maltratada com tanta ética – dizia o nosso bouquirrouco presidente.
- Era só isso – disse eu impaciente. – Não, tem mais – disse ela. Com o nosso desdigitado presidente, sempre tem mais.
- No Brasil todos são inocentes mesmo com prova em contrário. Os únicos inocentes propriamente ditos são os meus eleitores, que, na intimidade com a galega, eu chamo de inocentes úteis.
Não, ele não disse isso. É que, depois de tanto tempo observando a política dessa terra, fiquei extremamente versado em politiquês. À medida que vou escutando, o meu cérebro já processa diretamente a tradução.
Gostaria de aduzir algumas obtemperações à fala do trono. Aliás, depois que a biblioteca presidencial pegou fogo, eu só uso esse português rebarbativo em minhas crônicas. Ele que se vire para me entender.  A biblioteca era uma das sete maravilhas do mundo moderno. Nunca, antes na história da humanidade, houve uma biblioteca menor. Mesmo assim pegou fogo. A de Alexandria pegou, com seus milhares de pergaminhos, por que os dois livros (um de colorir e uma história em quadrinhos) não pegariam?
Não existe ninguém mais ético que ninguém, meu presidente. A lei, como Vossa Excelência não sabe, é um sistema coercitivo que é imposto pela sociedade aos seus membros. A ética, ao contrário, é um sistema moral que é adotado espontaneamente. Existe sim, alguém que rouba mais que os outros. Esse é um critério objetivo: os valores são traduzíveis em moeda escorrente; as penas, que não serão cumpridas em celas especiais, podem ser comparadas.
Ia até me aprofundar nessas considerações, quando me veio uma revelação. O nosso presidente é muito mais ético do que eu. Ocorre que ele escolheu a ética espartana.
Explico. Em Esparta, para reforçar as virtudes militares, os jovens eram largados meio famintos no planalto, ou mesmo na esplanada. Tinham que sobreviver com o que conseguiam roubar. Tudo isso dentro da mais perfeita ética. Havia, porém, um detalhe: aquele que fosse pego roubando era considerado um canalha da pior espécie.
Conta a lenda, que um jovem espartano roubou uma raposa. O dono quase o surpreendeu e ele foi obrigado a escondê-la dentro da túnica. O animal começou a devorar os seus intestinos, mas  ele preferiu essa morte dolorosa à desonra.
Aqui no Brasil, os petistas famintos também foram abandonados nos cargos de primeiro e segundo escalão, para testar as suas virtudes militantes. Em algumas dessas repartições, só sobrou mesmo a raposa no galinheiro. O problema é que, quando um deles resolveu guardá-la na cueca,  o berro foi ouvido até na Praça Vermelha.
Os espartanos tinham outras virtudes. Foram eles, comandados pelo Rei Leônidas, que detiveram os persas, uma espécie de tucanos da época. Aliás, sempre que alguém denuncia os crimes petistas (porque eles são espartanamente éticos) é chamado pejorativamente de tucano. Embora, para todos os malfeitos práticos, os persas e os espartanos sejam muito parecidos, o nosso povo continua confiando no nosso presidente. Para eles, tudo isso é grego.

sábado, 15 de agosto de 2015

A invasão - segundo capítulo

A arte imita a vida, embora a vida nem sempre imite a arte. Essa assimetria o incomodava. No mundo material, por assim dizer, reina a simetria. Matéria e antimatéria, onda e partícula, bósons e férmions. No mundo das ideias, a falta de qualificação melhor, para modelos reais, pode haver uma cópia ideal, mas a recíproca, muitas vezes não ocorre.
Em Paris ele havia criado um epigrama: Paris é uma cidade chinesa, cheia de turistas, a maioria franceses. Era uma invasão disciplinada. Com guias ostentando bandeirinhas, ônibus fretados e um chinesinho de óculos, cara de nerd, que falava inglês.
Um grande autor brasileiro, grande pela quantidade de obras, criara os personagens perfeitos para a sua conspiração. Um baronete inglês, que vivia numa ilha paradisíaco, com suas seis noivas e que, volta e meia, era convocado para salvar a civilização das ameaças da Senhora do Mundo, Comandante Suprema do Exército do Suicídio Coletivo, Rainha Puríssima do Império do Nada.
Na vida real, a literatura de fricção de sua juventude, projetara uma sombra difusa num anteparo ideológico: o Grande Timoneiro.
Em novembro de 1957, em Moscou, falando para representantes dos comunistas de todo o mundo, ele pronunciou seu famoso discurso: “O imperialismo norte-americano é um tigre de papel”.
As palavras exatas de Mao foram: “Eu não tenho medo da uma guerra nuclear. Há 2,7 bilhões de pessoas no mundo, não importa se alguns morrerem. A China tem uma população de 600 milhões; mesmo que metade deles morra, ainda restará 300 milhões de pessoas. Eu não tenho medo de ninguém.”
Um drone, carregado por um norueguês corpulento, na fila da Norwegian, acionou uma outra chave. Mesmo antes dos drones e, com certeza, mesmo antes do novo mandato da velha presidente, ele já havia pensado na hipótese.
- Imagine um aeromodelo feito com C4, dirigido por controle remoto, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Bastaria apontá-lo e dirigi-lo em linha reta, passando pelo Congresso e dando uma guinada leve à esquerda, até o Palácio do Planalto.
- Teorias como essa não são boas para filas de embarque – advertiu o filho. Leve em conta que bomba, terrorista e ataque soam parecidas ao seu equivalente em inglês.
Calou-se. Nove anos de clandestinidade haviam servido para alguma coisa. Os pensamentos continuaram numa nova linhaE se?
Em Moscou, um novo epigrama: A China tem mais de um bilhão de habitantes, dos quais uns cem mil estão no exterior, fazendo turismo.
Mentira, é claro. A China é tão ou até mais desigual que o Brasil e sua elite não chegaria a um milhão. Aquele 1%, que como ele, ganharia o suficiente para excursionar pelo exterior. Uns cem mil chineses fazendo turismo. Essa seria a ordem de grandeza correta. Nem dez mil e nem um milhão. Um exército, de qualquer maneira.
E se?
Se parte da elite chinesa fosse mais cosmopolita, isso seria melhor do que uma geração moldada pela Grande Revolução Cultural Proletária.
Que não fora Grande (a não ser pelos números de pessoas envolvidas), nem mesmo uma revolução (apenas uma briga interna pelo poder) Muito menos cultural, já que fora dirigida, entre outras coisas, contra a cultura. E, com certeza, nem um pouco proletária (exército e estudantes formavam o grosso da tropa de choque que Mao havia lançado à luta).
Isso ele diria agora, enquanto ocasionalmente fazia turismo arqueológico, à procura de restos do socialismo.
40 anos atrás, ele acreditara que a terceira guerra mundial já havia começado. E que só a revolução poderia evitar a guerra.
E se?
Num mundo ideal, a Senhora do Mundo enviaria os seus agentes para explodir a Torre Eiffel, o Big Ben, o mausoléu de Lênin e a Estátua da Liberdade, para reinar nua, coberta apenas com sua máscara de jade, sobre os escombros de um mundo purificado.
Nessa jornada ela certamente contaria com a ajuda de um sobrinho-neto de Mao, que sonharia com a destruição dos malditos imperialistas americanos, dos revisionistas soviéticos e seus novos aliados, a renegada camarilha revisionista chinesa, que havia traído o marxismo-leninismo pensamento Mao Tsé-tung.
E que melhor lugar para esconder um agente chinês do que no meio de uma inofensiva comitiva de turistas chineses?
No mundo sublunar, definitivamente, reina a corrupção. Em lugar do Grande Timoneiro, temos uma casta de burocratas, que se renova periodicamente. O imperialismo não é mais um tigre de papel e a China é a maior detentora de papéis do tesouro nacional do antigo tigre, hoje parceiro.

A ser continuado.



segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A Invasão



Todos os chineses são iguais, embora alguns sejam desiguais, à sua maneira.
A sensação de já ter visto aquele chinês em particular veio em Estocolmo. Um clássico deja vu. Em São Petersburgo, numa lojinha de quinquilharias chinesas, onde entrei na esperança de achar um tabuleiro de xadrez que valesse à pena, veio a confirmação, diante de um baralho dedicado ao Grande Timoneiro: era o sobrinho-neto do Mao.
Não um sobrinho-neto legítimos, bem entendido, um sobrinho-neto presumível, que eu já havia visto em Paris, na Torre Eiffel, e que avistara de novo em Estocolmo, no Museu Vasa. Neto pela idade e sobrinho pela semelhança, que não era tão forte.
Fora em Paris que recomeçaram as teorias da conspiração. Uma foto, tirada do primeiro piso da Torre, onde havia chegado ofegante e feliz, por ter um coração que prometia uns 80 anos mais de bom funcionamento, fora a primeira chave. Ela mostrava o acesso pelo Campo de Marte, uma sucessão de três fitas retangulares, perfeitamente delimitadas, onde as pessoas, pequenos traços negros, eram dispostas em grupos que, claramente, não eram aleatórios.
Haveria ali um sistema de circulação, uma fórmula que relacionasse o número de pessoas por área com a quantidade de pequenos grupos, que formavam estruturas maiores, deixando largas áreas despovoadas? Algo como uma estrutura universal de galáxias, aglomerados galácticos e grandes aglomerados, preenchendo o vazio do espaço-tempo? Onde as leis de atração social seriam o análogo da gravitação e da matéria escura? Uma chave.
A foto foi tirada na esperança de que os pequenos traços-pessoas coincidissem com os furos num cartão perfurado achado em um livro comprado no sebo. Infelizmente, não poderia dizer mais qual fora o livro.
“Poincaré, presidente francês e matemático, ou vice e versa,  havia formulado o teorema do eterno retorno:
“Publicado em 1890, o teorema do eterno retorno afirma que um sistema mecânico finito com quantidade finita de energia deve eventualmente retornar arbitrariamente próximo a um estado inicial qualquer num número infinito de vezes. O teorema de Poincaré, segundo Brush, é uma tentativa de contestar a visão materialista e mecanicista de mundo, especialmente a teoria cinética dos gases. Partindo de leis mecânicas, o teorema conduz à conclusão da reversibilidade de processos mecânicos. Assim, inicialmente, o teorema do eterno retorno mostrou duas opções: ou abandono da segunda lei da termodinâmica, que aponta para a irreversibilidade de processos físicos, ou o abandono da descrição mecânica do mundo (o que Poincaré tinha em mente).”
Esse seria o enunciado forte do eterno retorno. Eu postulava um enunciado menos ambicioso: dado um sistema qualquer finito, seria possível achar um outro, com uma disposição tão próxima quanto se queira de alguns de seus parâmetros.
Uma foto de uma revoada de pássaros tirada no jardim Marjorelle, em Marrakesh, deveria coincidir, quase exatamente, com a de uma outra revoada, tirada em um outro local e em outra data, pela mesma pessoa.
No presente caso, uma foto tirada por mim, em Paris, se fosse devidamente retificada e ampliada na escala certa, mostraria que as pessoas estavam quase que exatamente nas mesmas posições que os furos de um cartão achado num livro (não se sabe qual, deve-se dar alguns graus de liberdade para a grande coincidência).
E mais, uma série de achados, reunidos durante mais de 20 anos, recolhidos de livros comprados aqui e ali, seriam capazes de serem juntados posteriormente numa grande estrutura, num romance que uniria e unificaria os grandes aglomerados humanos, numa estrutura passando por alguns pontos fixos arbitrários, de um espaço-tempo limitado.

A ser contnuada.



quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Nova Galândia

Nova Galândia

As casas de Nova Galândia, andar por andar, são a melhor ilustração de como funciona a mente prática de um neogalandês.
A cidade tem 90% de suas terras abaixo do nível do mar. Um povo menos prático logo teria se mudado para um burgo menos inóspito.
Não os neogalandeses.
Sob a orientação do primeiro burgomestre, ergueram diques, abriram canais e começaram a construir suas casas. Já naquela época, o espaço que caberia a cada família era muito pequeno.
Fossem eles menos práticos, teriam jogado os mais pobres nos pântanos que abundam na periferia da cidade e erguido no centro casas espaçosas e confortáveis.
Não os neogalandeses.
Que foram se espremendo em casinhas estreitas, coladas umas às outras. E produzindo sem cessar novos neogalandesinhos.
Ao tempo do segundo burgomestre, viu-se a necessidade de dotar as casas de um novo andar, para a nova geração. Um povo menos prático teria derrubado paredes e colocado escadas adequadas. Que seriam pouco inclinadas, espaçosas, e com largos degraus; antevendo que novas gerações viriam, que novos andares seriam necessários, por onde novas mobílias seriam transportadas, escadas acima.
Não os neogalandeses.
Hoje o mundo todo admira a audácia arquitetônica de suas escadas, apontando diretas para cima, com o espaço justo de um pé se firmar e com a largura necessária para um neogalandês magro subir com algum esforço.
Veio uma nova fornada de neogalandesinhos e um novo burgomestre. Aqui se faz necessário salientar duas características marcantes dos cidadãos dessa cidade: sua saúde admirável e seu respeito pela autoridade.
Graças a muita subida e descida de escadas, além das pedaladas em suas bicicletas, o povo se mantém em ótima forma. Sobre o respeito às decisões de seus burgomestres, iremos colhendo exemplos ao longo dessa narrativa.
Com a terceira geração, veio um novo desafio: como subir com a nova mobília até o novo andar, que acabara de ser construído?
Um povo menos prático teria feito rampas inclinadas de madeira, com trilhos e um sistema de contrapesos e de polias, por onde subiriam e desceriam até mesmo a mobília mais pesada.
Não os neogalandeses.
Mesmo hoje o mundo se curva diante de sua engenhosidade e de sua praticidade. Seguindo a sugestão do terceiro burgomestre, derrubaram paredes e, a partir do segundo andar, construíram novas, inclinadas para a rua, emulando a Torre de Pisa. No último andar, uma forte viga, com uma polia e uma corda reforçada, por onde subiam e desciam os móveis.
Todavia, não terminaram aqui as atribulações desse burgo notável. Uma nova geração já crescia no ventre das mamães neogalandesas. Um novo andar inclinado colocaria o centro de gravidade da casa fora de sua base e isso, como Galileu já sabia, não seria bom.
Outro povo menos prático teria esperado que a morte levasse a primeira geração, que morava no primeiro andar. Seria um incômodo provisório.
Não os neogalandeses.
Como já dissemos, a saúde invejável desse povo poderia transformar esse arranjo provisório numa longa espera. Seriam quatro gerações espremidas dentro de uma casa, espremida entre outras, num espaço onde mal caberiam três. O que fazer?
O terceiro burgomestre, que por acaso era filho do segundo, que por coincidência era filho do primeiro, instituiu uma nova tradição: a cada novo neogalandesinho da quarta geração, os neogalandeses da terceira pediriam aos avós da primeira um bercinho para o bisneto.
O costume estipulava que bisavôs e bisavós deveriam levar o bercinho (de madeira maciça, segundo a tradição) com suas próprias mãos. Depois de uma subida, com esse peso, pelas escadas neogalandesas, seria de se esperar um infarto. Mesmo o neogalandês mais rijo não dispensa o seu cachimbo e sua cota diária de colesterol, provida pelas vaquinhas neogalandesas, que fornecem leite, queijos e carnes, em abundância.
Escapando do infarto, o sobrevivente, com as pernas ainda trêmulas, teria pela frente uma descida. No escuro, como manda a tradição. O resultado mais provável seria uma fratura de bacia ou mesmo um traumatismo craniano. Hospital, ou melhor ainda, necrotério.
Para dar uma mãozinha na seleção natural, reza o costume que, antes da descida, deve-se dar um tapinha gentil nas costas dos velhinhos.
Infelizmente, com o passar das gerações, foi se deteriorando a praticidade neogalandesa, bem como o respeito pela autoridade.
Seguindo o exemplo do primeiro burgomestre, assim que pressentem que vão ser bisavós, os velhinhos tratam de se mudar. Como consequência, a segunda geração desce para o primeiro andar, a terceira para o segundo e a quarta, terá mais tarde o terceiro andar, para morar e constituir família.
Essa degeneração dos costumes afetou seriamente a tradição do bercinho dos bisnetos. Assim é que em toda casa neogalandesa que se preze, moram apenas três gerações, em três andares, com o terceiro gloriosamente inclinado, ostentando uma viga e uma polia, hoje inúteis.
Sim, porque alguém, não com certeza um neogalandês, inventou um sistema pouco prático de rampa inclinada, com trilhos e contrapesos, por onde sobem e descem as mobílias.





quarta-feira, 1 de julho de 2015

Dilma, a personagem

Dona Dilma é um personagem fascinante para um escritor. Recentemente ela declarou que não respeita delatores e que nunca demitiu um ministro com base na imprensa. Faltou com a verdade, em ambas afirmações. 
Segundo um artigo de Luis Maklouf, na Piauí, Dilma foi presa, barbaramente torturada, resistiu o quanto pôde e, finalmente, levou a polícia a um ponto com um companheiro metalúrgico. Ele narra a cena: quando avistou Dilma, perguntou se ela estava bem. Ela fez uma cara desesperada e logo em seguida, os agentes chegaram por todos os lados e o prenderam.
Não dá para esquecer uma cena assim. No entanto, Dilma insiste em afirmar que resistiu e não entregou ninguém. Ela sempre foi evasiva em relação a esse ponto. Agora foi clara, ao se defender das denúncias feitas por um delator da Lava Jato. Não delatou e despreza os delatores.
O metalúrgico, que agora é caminhoneiro, estava na primeira posse de Dilma. Ele não a condena, pelo contrário. No próprio artigo, afirma que ela preservou os quadros de direção e os que tinham maiores contatos e entregou somente ele, que conhecia muito pouco e que não poria em risco maior a organização.
O procedimento exigido dos militantes por organizações como a de Dilma era esse: resistir ao máximo e dar tempo para os companheiros, alertados por sua ausência nos pontos combinados, se colocarem em segurança. Sob essa ótica, o seu comportamento foi exemplar.
Mas... o bom senso indica que Dilma nunca deveria ter se referido à delação de Pessoa da maneira como o fez. Nesses tempos de Google, nenhuma afirmação resiste a uma pesquisa rápida, se não for verdadeira. Com certeza, ela leu o artigo da Piauí. Então, como explicar esse lapso?
Em minha opinião, Dilma conserva sequelas graves da tortura. Ela construiu, para preservar sua sanidade, uma versão, onde ela não delatou (de acordo com o comportamento previsto por sua organização). Pode até ter apagado a cena dela levando a polícia ao ponto marcado.
Nossa memória, reescreve tudo, cada vez que é acionada. Isso acontece com todo mundo, comigo inclusive. É muito comum narrativas diferentes da mesma cena, por dois personagens que estavam lá. Livros de memória registram casos assim o tempo todo. Há um limite, é claro, para essas discrepâncias. Dilma ultrapassou esse limite.
E as demissões de ministros? Isso é história recente, recentíssima. De novo, penso que ela construiu uma versão onde ela resiste a todas as pressões e não cede. Essa parece ser uma tônica no seu comportamento: não escuta ninguém, não decide nada rapidamente e está sempre isolada.
Matéria recente, afirma que seus auxiliares a enganavam o tempo todo sobre os números reais da economia, caso contrário, ela "explodiria". Acho difícil, auxiliares fazerem isso com outro presidente, mesmo sabendo de seu mau gênio. Aparentemente, o primeiro círculo à sua volta já notou essa sua maneira peculiar lidar com a realidade.
Outro traço interessante é que esse primeiro círculo nunca é estável. De Dilma I para Dima II mudou todo o chamado núcleo duro do poder, aqueles com os quais ela mais se reúne. Dilma é cronicamente desconfiada. Um personagem fascinante, para um escritor. Essa Dilma de ficção, que eu criei, tentando aproximá-la de uma Dilma real, mereceria um Gabo, que escreveria "Ninguém conhece a Presidente".

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Balanço do Carnaval em Minas

 Essa poesia foi escrita em 2007. Continua atual. Não mudou o carnaval, não mudamos nós e não mudou Bagdá.

Balanço do carnaval em Minas


Setecentas léguas de engarrafamento
Trinta vítimas fatais. Em Bagdá
Porque aqui foram mais
E mais se esperam, a qualquer momento

No meio de tanta gente
Duzentos e cinqüenta e nove cabaços
Voaram felizes para o espaço
Trinta e sete estupros, infelizmente
Também, no meio de tanta gente

Noventa e quatro novos casos de Aids
Oitenta e um fetos indesejados
No meio de tantos desejos,
No meio de tantos afetos
Evoé baco! No paraíso
Uma serpentina enlaçou Adão

Mil trezentos e trinta e seis poetas
Tristes e embriagados
Cantaram em versos de pé quebrado
As mulatas analfabetas e as mocinhas iletradas
Salve o balanço! Salve a malícia! E salve o requebrado!

Hum milhão quinhentos e dezenove mil litros bem bebidos
Sem contar quanta erva se queimou
Fora todo o pó que foi cheirado. E os comprimidos
Não falo dos êxtases alcançados
Nem dos picos
Porque são muitos e são muito fáceis os caminhos para o Paraíso

Noventa e quatro milhões de reais em dívidas novas
Não importa que na realidade
A felicidade não se venda
A fantasia tem crédito ilimitado
Não depende de comprovação de renda

Ah meu Deus
Quanta felicidade!
O que seria, ó senhor
Se não houvesse o Carnaval!





sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

BBB espacial


Antes de o meu amigo Adrilles Jorge cometer o desatino de ingressar no BBB, eu havia escrito uma ficção cientíca, Os taiconautas, um pastiche de 2001 e de uma série de filmes e seriados do gênero. Depois de Dona Vilma quebrar o mundo (qualquer semelhança não é mera coincidência), o país manda uma nave ao espaço, com a ajuda dos chineses, em direção a Júpiter. Para mandar o país interessado na missão, cria-se um BBB espacial. Só que um robô boicota o programa. Vejam o que aconteceu, nesse fragmento:
"CAFAJESTE:             - Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

GAROTO: - Ledo engano, segundo Parmênides, o Ser é uno.
GAROTA DE PROGRAMA:           - Parmênides, além do movimento,  negava   a multiplicidade.
GAROTO: - Tudo decorre do princípio da identidade: Só o que é, é. O Não-Ser, não é.
NEGRO: - Isto assegura a unicidade do SER, mas não exclui a sua multiplicidade.
GAROTO: - Distinguir implica em limitar. Suponhamos outro Ser. O que existirá entre eles, já que o Não-Ser não é? Seguindo este raciocínio, teríamos uma série infinita, o que é absurdo.
BICHA: - E a imobilidade?
GAROTO: - O movimento implica, a cada instante, em ocupar um espaço antes desocupado. Entre os dois instantes de tempo, haverá uma outra posição          a ser ocupada e assim por diante, numa série            infindável. O que é absurdo. Aquiles nunca alcança a tartaruga.
CHINESA: - O Não-Ser é. Segundo Lao-Tsé, o Tao é como um vaso inesgotável, mas vazio. Mesmo vazio contém o segredo de toda a plenitude.
CAPITÃO: - O horror ao vácuo, que Aristóteles acolheu, não cabe mais numa Filosofia da Natureza. Podemos perfeitamente prescindir do quinto elemento, do Éter e ficarmos com as flutuações quânticas do vazio. Lao-Tsé era o quântico dos quânticos.
PSICÓLOGA:           - Vocês estão querendo refutar Parmênides usando o mundo da percepção sensorial. Ele não desconhecia esta dimensão do Ser, este era um dos dois caminhos do conhecimento. Ele escolheu a razão.
POBRE: - Parmênides supunha o Ser uno, indivisível, não criado, imóvel, inalterável e, estranhamente, limitado.
SARADA: - A esfera seria a forma perfeita. Sem início, sem fim, sem direção privilegiada, perfeitamente uniforme em todos os seus pontos.

SMITH CHAN: - Oh dor, eles enlouqueceram. Esta lata de sardinha pirateada é a responsável.

            …...
                 - Que merda é esta? - Oliveira estava atônito. Isto não dá audiência nem na Tevê Cultura.
            A televisão fora estatizada e devidamente enxugada. O canal de cultura só fora mantido porque filósofos, historiadores, cientistas políticos e outros intelectuais trabalhavam por um prato de comida (literalmente). Dava menos traço de audiência.
            - Que o Garoto conheça os pré-socráticos ainda vai. O moleque é meio nerd. A Lin mandar de Lao-Tsé eu até entendo. E o Marcos deve ter lido alguma dessas revistas de vulgarização científica para impressioná-la.  O que não desce é a Pobre, a Garota de Programa e a Sarada discutindo ontologia! Aí tem truta - Chongras não estava menos perplexo.
                 - Vamos ter que pedir ao Pirata que coloque todo mundo para hibernar. Ele inventa uma desculpa qualquer – disse Oliveira.
            - Podemos alegar que eles foram afetados pela mesma radiação que afetou a Vilma. Já funcionou uma vez – Chongras havia achado a solução."