Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.

Consulte o dicionário do cinismo, no rodapé do blog.

Divulgação literária e outros babados fortes

Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Terceiro Capítulo

Um estranho no ninho

O cuco é conhecido por colocar seus ovos no ninho de outros passarinhos. O filhote de cuco, assim que nasce, tenta jogar os outros para fora, para receber sozinho a alimentação dos pais adotivos.
Desta vez, os pais adotivos pegaram o filhotinho de cuco em flagrante.
“Segundo o máximo dirigente da Revolução cubana, desta maneira não se estava organizando um partido, mas antes uma “clique”. “Estávamos a organizar ou a criar um colete de forças, um jugo, companheiros. Não estávamos criando uma organização livre de revolucionários, mas sim um exército de revolucionários domesticados e amestrados.” Harnecker, Marta.
Na hora de retificar o erro, some a direção da revolução e aparece o máximo dirigente. Mais tarde, o Comandante veria que era justamente do exército de revolucionários domesticados e amestrados que ele iria precisar.
O movimento de depuração das ORI começa com a criação de uma Escola Superior de Formação Política, de onde serão escolhidos os melhores alunos para serem os militantes. Em 62 o projeto das ORI é abandonado e surge o Partido Unido da Revolução Socialista, “que responde ao caráter socialista que toma abertamente o processo cubano depois da invasão de Playa Girón.” (Harnecker, Marta)
O socialismo em Cuba foi, literalmente, decretado. E o fator que definiu o caráter socialista da revolução, ao invés de vir da correlação de forças, da dinâmica interna dos interesses de classes em choque, veio de fora, de uma tentativa desastrada de invasão. Foi este fator, a ameaça americana, que acabou precipitando o alinhamento de Cuba à esfera de influência soviética.
“Certo dia acordamos e, maravilha das maravilhas, não havia nada para comer – nem café, nem arroz, nem açúcar, nem carne, nem feijão, nem leite, nem frutas – yes, nós não tínhamos bananas.... Tínhamos abundância de nada, mas tínhamos longas filas, racionamento, aumento de preços, mercado negro e uma crise que afetou tanto a economia quanto os meios de produção.
...
Che disse com todas as letras: não podíamos culpar o imperialismo por um declínio da produção nacional. Fidel concedera poder aos velhos comunistas, que, disse ele, eram os únicos que entendiam de socialismo – Escalante e os outros. Estes foram os resultados; eles sovietizaram tudo de cima a baixo. Tentavam consertar máquinas com leituras sobre o marxismo, e se um operário dissesse que a Internacional era inútil para a manutenção de máquinas, acusavam-no de contra-revolucionário.
O que acontecera na realidade? Primeiro, houve um aumento extraordinário do poder de compra de cada cidadão, de no mínimo 100%. Segundo, todas as reservas de comida se esgotaram, assim como suprimentos de artigos de luxo. Terceiro, houve uma queda brusca na produção agrícola, porque os grandes proprietários rurais e criadores de gado simplesmente abandonaram a terra que lhes restou após a expropriação. Estas chegavam perto de setenta hectares, que eles não achavam viável cultivar. A maioria das pastagens e fazendas de Cuba havia sido estatizada, mas o problema era que os administradores do Partido enviados para dirigi-las procediam todos da cidade, e metiam os pés pelas mãos em tudo. O quarto fator foi que havíamos comido todo o nosso gado. Isto significava que não tínhamos nem leite e nem carne. O sistema de transportes foi também abandonado à ruína, de forma que o que era produzido não chegava aos mercados.” Franqui, Carlos – grifos nossos.

Segundo capítulo

Fidel: marxista, humanista ou oportunista?

Para decidir sobre esta questão é melhor escutar o próprio Fidel em um discurso feito em Nova York, no Central Park, em 1959, depois da tomada do poder.
"Nossa revolução pratica este princípio democrático e é favorável a uma democracia humanista. Humanismo quer dizer que, para satisfazer as necessidades materiais de muitos, não é necessário sacrificar os mais caros desejos do homem, que são suas liberdades, e que as liberdades mais essenciais do homem nada significam se suas necessidades materiais também não são satisfeitas.... Não ao pão sem liberdade, não à liberdade sem pão; não à ditadura de um homem só, não à ditadura de classes, grupos ou castas. Governo do povo sem ditadura ou oligarquia; liberdade com pão, pão sem terror: é o que significa o humanismo." Franqui, Carlos, Retrato de Família com Fidel.
Fidel diz com todas as letras: não à ditadura de classes. Ora, o traço essencial do leninismo é a sua teoria do estado e da ditadura do proletariado. Marx vê a história com uma contínua luta de classes, justamente o oposto do humanismo abstrato que Fidel defende.
Não se trata aqui de oportunismo ou de esperteza. Um marxista saberia muito bem como defender o conteúdo democrático da revolução, de maneira ampla, sem cometer tantas heresias teóricas. Fidel não era marxista. Seu irmão Raúl, Che, Haydée Santamaria, Camilo Cienfuegos e outros dirigentes, em graus variados, eram influenciados pelo marxismo. Marxista ou não, o fato é que todos reconheciam em Fidel o líder da revolução.
É interessante notar como os comunistas abrem mão de seu direito teórico de guiarem o processo revolucionário:
“ E foi um dia que jamais esqueceremos quando, com Blas Roca à frente, nos apresentamos todos perante Fidel Castro como simples soldados de fila de uma causa comum na qual ele era para nós, como para todo o povo revolucionário, o Comandante em Chefe” (discurso de Carlos Rafael Rodrigues, dirigente comunista). Harnecker, Marta.
Soldados que não pegaram em armas reconhecem em um líder que não era marxista o direito de conduzir o processo revolucionário! Pode-se dizer que nem mesmo os comunistas cubanos eram marxistas.
Tomado o poder, era preciso criar uma estrutura de governo. Dois anos depois, as três bolinhas - o Movimento 26 de Julho, o Diretório Revolucionário e os comunistas - vão para o mesmo saco: as Organizações Revolucionárias Integradas (ORI).
“Ernesto Che Guevara conta como a direção da Revolução pensara num organismo de “quadros estritamente selecionados” e ligados às massas, de uma “organização centralizada e elástica ao mesmo tempo”, e confiou “cegamente na autoridade ganha em muitos anos de luta pelo Partido Socialista Popular” deixando nas suas mãos a organização deste projeto.” Harnecker, Marta.
A bolinha foi para a geladeira!
Falar na “autoridade ganha em muitos anos de luta pelos comunistas” é piada de mau gosto. Vale notar que na hora de cometer um erro, o Comandante Fidel desaparece e surge uma direção da Revolução, anônima. A qualidade que certamente distinguiu os comunistas não foi sua “autoridade” como lutadores. Foi sua estrutura disciplinada e verticalizada, que permitia que seus militantes condenassem o assalto à Moncada como aventura num dia e se apresentassem ao aventureiro, como simples soldados de fila, no outro.
“Isto deu lugar – por tendências sectárias do PSP e porque muitos companheiros honestos acreditaram que Anibal [Escalante] seguia uma linha coletiva que incluía orientações do próprio Fidel – ao por em marcha todo um dogmatismo e sectarismo em que ... até desertores do PSP foram preferidos a combatentes da Serra, apenas por terem sido militantes do mesmo.” Harnecker, Marta.

Uma resenha de Cuba: democracia ou ditadura? de Marta Harnecker.

A bolinha sorteada

Kafunga, um grande filósofo contemporâneo, contava que, em certa época, a Federação Mineira de Futebol havia encontrado a maneira perfeita de responder à acusação de que só escalava árbitros tendenciosos: três juízes eram pré-selecionados; um era escolhido por sorteio para apitar e os dois restantes iam para a bandeira. Toda imprensa podia ver um garoto enfiando a mão na sacolinha de pano e retirando a bolinha de madeira com o número do árbitro principal. O que ninguém via era o dirigente colocando a bolinha que seu filho iria sortear na geladeira.
O livro de Marta Harnecker pergunta: democracia ou ditadura? Eu acrescentaria ainda: socialismo ou capitalismo de estado?
Para responder estas perguntas é necessário conhecer a gênese da revolução cubana, ou melhor, como é que a bolinha do Partido Comunista Cubano foi parar na geladeira.
O mito da Revolução Cubana é muito conhecido: em 26 de julho de 53, Fidel e um punhado de companheiros tentou tomar de assalto o quartel de Moncada. Preso, foi para o exílio no México. Lá reuniu 80 homens que embarcaram no iate Granma. Foram emboscados e apenas 12 sobreviventes alcançaram a Sierra Maestra. Dois anos depois os guerrilheiros entravam em Havana.
O mito não persiste apenas no imaginário popular, ele inspirou uma geração de revolucionários por toda a América Latina. Regis Debray, um intelectual francês, deu forma teórica ao mito em seu livro “Revolução na revolução”. O próprio Che encontrou a morte na Bolívia tentando repetir a receita cubana.
Cuba era um país relativamente próspero sob Batista, apesar da grande desigualdade social e da existência de um governo corrupto e sanguinário. O grande partido de massas, de oposição, era o Partido Ortodoxo, de onde saíram os quadros que atacaram o quartel de Moncada. Seu símbolo era uma vassoura.
Os barbudos, como eram identificados os homens de Fidel, eram uns 300, ao final da luta. Do outro lado, havia o exército de Batista com 50.000 homens. Para entender como isto foi possível é preciso conhecer todas as forças envolvidas no processo.
Os estudantes tomaram parte ativa nesta luta, com suas federações. Os empregados no comércio e na indústria promoveram várias greves, inclusive a greve geral que impediu que o general indicado pelos americanos assumisse o lugar de Batista. Havia ainda o Diretório Revolucionário, que ajudou ativamente ao Che, na batalha decisiva de Las Villas e o Movimento 26 de Julho, muito amplo e abrigando várias tendências. Os camponeses tinham uma tradição de luta que vinha desde a guerra da independência. Fidel e seus homens foram acolhidos, logo depois do desembarque fracassado, por camponeses que já estavam organizados na luta contra Batista.
Pelo seu conteúdo, a revolução era essencialmente democrática burguesa. O Partido Comunista Cubano participava do governo Batista e condenou o levante armado. Apenas no final da luta, quando a balança já havia se inclinado para o lado dos rebeldes, é que eles apareceram na Sierra Maestra.
Segundo Marta Harnecker:
“Em 1959 existiam fundamentalmente três grupos revolucionários: o Movimento 26 de Julho, o Diretório Revolucionário e o Partido Socialista Popular (Partido Comunista) que agrupavam alguns milhares de militantes.”
O Partido Comunista era um grupo revolucionário que, não só não participava da revolução, como era contra ela!
“Esta longa luta começa sem que exista um partido revolucionário forte, mas contando com um líder indiscutível, Fidel Castro, que já antes do assalto ao quartel Moncada, juntamente com outros dirigentes do Movimento 26 de Julho, tinha feito sua a concepção marxista-leninista da história”. Harnecker, Marta.
Continua.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Mea Cuba

Imagino a cena. O foca perguntando a Hemingway: por que você resolveu se estabelecer na Espanha?
Um suspiro e a resposta seca – pelos touros.
- E em Cuba?
- Pelo rum.
O argentino Guevara, um belo dia, meteu na cabeça conhecer o nosso continente e saiu em excursão. Foi uma experiência decisiva. Como na propaganda, ele continuou andando: México, Cuba, Congo, Bolívia.
Os pais de Lula, inconformados com a miséria, fizeram suas trouxas e rumaram para o Eldorado paulista. Uma gotinha no regato da migração interna, afluente de uma grande corrente universal.
O ser humano normal viaja por prazer, por necessidade, por ideal, pelo que lhe der na telha. Pára onde lhe agrada e vai embora quando quer. Somos homens e a Terra é a nossa casa. O nosso local de nascimento é um acidente. É apenas uma posição particular no continuo espaço-tempo. Dentro de si carregamos aquilo que não é contingente, nossa essência. Estivessem onde estivessem, Hemingway era um grande escritor e Che um grande revolucionário.
Dito isto, para mim fica claro que ir e vir é um negócio particular. Cumpridas as formalidades legais, tenho o direito de me deslocar para onde eu quiser. O direito de ser recebido é outra história. Aí entra em consideração a soberania. Cada um administra sua casa como quiser e só recebe quem julgue que deva receber.
As leis, em tese, devem ser impessoais. Na sua aplicação, toma-se o caso particular e verifica-se se ele preenche os requisitos gerais. Satisfeitos estes, está assegurado o direito ou aplicada a sanção.
Os mais espertos já chegaram à conclusão que eu queria: o governo cubano deveria ter autorizado a saída de Yoanis. Alguns mais exaltados dirão: mas ela só virá ao Brasil fazer provocações!
Fazer uma declaração que desagrade ao governo cubano não é crime, pois não? É apenas uma opinião. É o que faço o dia inteiro no Facebook: dar a minha opinião. Crítico as posições de nossa presidente e as suas declarações. Até mesmo o seu corte de cabelo estilo cotonete eu já me meti a criticar. E aplaudo suas decisões corretas. É a tal da política. Eu, como cidadão, não devo me omitir dos assuntos da minha cidade, país ou até mesmo do mundo.
No fundo, o que indigna muita gente é que Yoanis está colocando em xeque mitos muito fortes. A esquerda anda tremendamente carente. O muro caiu, o leste europeu se esfacelou, a China se aburguesou, sobrou apenas uma pequena ilha. E eis que a mocinha proclama para o mundo todo que a vida em Cuba é uma droga e que o seu governo não respeita os direitos humanos. É insuportável. É ofensivo.
Eu já li o seu blog. Mostra uma Cuba não muito diferente da que eu conheci. Depois de 50 anos de revolução, ela não confia mais no socialismo como alternativa. "O modelo cubano não funciona mais nem mesmo para nós". Quem disse isto não foi ela. Foi Fidel em uma entrevista ao jornalista Jeffrey Goldberg.
Cuba está no meio de reformas decisivas. Seria talvez o momento de apelar para que os seus cidadãos participassem mais ativamente dos negócios políticos. Na Grécia antiga, um arauto lia o tema em pauta e perguntava: quem pede a palavra? Hoje, com a Internet, o cidadão pode fazê-lo sem sair de casa. É o que Yoanis está fazendo. Se certa ou errada, é outra questão.
Também é possível bancar o avestruz e achar que as assembléias do Partido único são democráticas, que as pessoas vão se manifestar nelas livremente, que ninguém vai ter medo de criticar as autoridades, porque sabe que não será punido, e assim por diante. A União Soviética fez isso por um longo tempo.
No fim, os oportunistas de sempre saíram do barco antes que ele afundasse. Usaram os fundos partidários para negociatas e compraram e venderam o país na bacia da alma. Eram todos comunistas de carteirinha. Foram leais ao regime até a véspera da queda. No dia seguinte, juraram que eram democratas desde criancinhas e foram ajudar a lacrar as sedes do Partido. Hoje são chamados de oligarcas.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Desabamento causa vítimas fatais. Descaso das autoridades.

Justo hoy estaba yo dándole vueltas en la cabeza a un texto después de ver cierto documental sobre ruinas recientes. Bajo el título de “Unfinished spaces”, aparecían recogidos varios testimonios de arquitectos y alumnos que participaron en la edificación del Instituto Superior de Arte (ISA). Todos narraban la belleza original del proyecto, lo novedoso de su estructura y los deseos de hacer coincidir en él tanto la forma como la creación. Pero también hablaron del abandono de la construcción de algunas de sus facultades, que nunca llegaron a terminarse. De manera que estaba yo pensando en columnas, ladrillos y techos cubiertos de maleza cuando me llamaron para contarme de un derrumbe en Centro Habana. En las calles Infanta y Salud, un edificio de tres plantas no soportó más y se vino abajo en la noche del martes 17 de enero.

Enseguida recordé la cantidad de veces que había transitado por esa cuadra apurando el paso ante el mal estado de los balcones y de las paredes. Evoqué todos aquellos momentos en que me pregunté cómo era posible que siguiera habitado aquel lugar tan al borde del colapso. Para los habitantes de ese edificio, llegó demasiado tarde la rebaja de materiales de construcción decretada sólo hace unas pocas semanas. Los daños estructurales que sufría el inmueble ya no tenían remedio, porque eran el resultado de la indolencia estatal y las décadas de falta de pintura, cemento y otros recursos materiales para reparar. El quejido que se sintió antes de ceder el piso y desplomarse los muros forma parte también del estertor arquitectónico de una barriada con casas hermosas. pero en estado terminal.

Hasta ahora, los medios oficiales han reportado tres fallecidos y seis heridos en el derrumbe de la calle Infanta. Personas que vivieron los últimos años de su vida mirando hacia arriba y calculando el tiempo que le quedaba a las vigas del techo, temiendo lo que finalmente sucedió. ¿Cuántos otros hay en esta capital que pueden correr mañana la misma suerte? ¿Qué solución urgente se aplicará para que esas tragedias no sigan siendo parte del escenario cotidiano? No vamos a aceptar una respuesta al estilo de que “se está estudiando el tema para aplicar soluciones de manera paulatina”. Tampoco nos vengan ahora con que la culpa la tienen los propios moradores que se quedaron en un lugar inhabitable. ¿A dónde hubieran podido ir? En lugar de eso exigimos que se construya, se repare, se nos proteja.

Do blog de yoanis, a blogueira cubana.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Balanço antecipado do Carnaval

Todo ano, desde 2007, eu republico esta poesia. Parece que o Carnaval não muda. E nem o Iraque.

Balanço do carnaval em Minas


Setentas léguas de engarrafamento
Trinta vítimas fatais. Em Bagdá
Porque aqui, bem prá lá de Bagdá
Foram treze, de uma tacada só
E se esperam mais, a qualquer momento

No meio de tanta gente
Duzentos e cinqüenta e nove cabaços
Voaram felizes para o espaço
Trinta e sete estupros, infelizmente
Também, no meio de tanta gente

Noventa e quatro novos casos de Aids
Oitenta e um fetos indesejados
No meio de tantos desejos,
No meio de tantos afetos
Eva laçou Adão com uma serpentina

Mil trezentos e trinta e seis poetas
Tristes e embriagados
Cantaram em versos de pé quebrado
As mulatas analfabetas e as mocinhas iletradas
Salve o balanço! A malícia! E o requebrado!

Um milhão, quinhentos e dezenove mil litros foram bebidos
Sem contar toda a erva que foi fumada
Fora o que foi cheirado. Os comprimidos?
Não falo dos êxtases alcançados
Nem dos picos
Porque são muitos e são fáceis os caminhos para o Paraíso

Noventa e quatro milhões de reais em dívidas novas
Não importa que na realidade
A felicidade não se venda
A fantasia tem crédito ilimitado
Não depende de comprovação de renda

Ah meu Deus
Quanta felicidade!
O que seria, oh senhor
Se não houvesse o Carnaval!

sábado, 14 de janeiro de 2012

O que deu errado?

Um aspecto comum a todos países que adotaram o chamado socialismo real é a sua concepção sobre o papel do partido. Seguiu-se o modelo soviético: a classe operária só pode ter um partido e cabe a ele dirigir a revolução. Em Cuba, a criação do partido foi muito posterior à tomada do poder. No Leste Europeu, vários partidos coexistiram durante certo tempo. No final, todos convergiram para o modelo soviético.
Ao analisar a restauração do capitalismo na antiga União Soviética, trotsquistas e stalinistas convergem num ponto: houve uma degeneração do partido. Como isto foi possível? Eu iniciei minha militância escutando: o peixe apodrece pela cabeça, ou seja, a partir da direção.
E por que esta degeneração é possível? A resposta clássica é que, enquanto há luta de classes, a ideologia burguesa ou pequeno-burguesa penetra constantemente no partido. Como só a ideologia operária é capaz de conduzir o processo de construção do socialismo vitoriosamente, há um retrocesso inevitável.
As relações entre os partidos comunistas nunca aconteceram em pé de igualdade. Sempre houve um centro dirigente, um partido guia. Primeiro a União Soviética e depois, para alguns, o farol chinês e, em seguida, o farol albanês. A imagem é muito poderosa: o farol ilumina o caminho e ajuda a evitar os escolhos. Quem não o segue, corre o risco de naufragar. A luz do farol, é claro, é o pensamento do grande líder. Inicialmente, o grande timoneiro, Mao Tse-tung. Depois, Enver Hodja.
Para a AP e outros partidos da linha chinesa mais ortodoxa, o pensamento Mao-Tsetung era uma nova etapa do marxismo. Os poucos partidos que seguiram a Albânia colocavam Enver Hodja em uma posição mais modesta: houvera o marxismo e em seguida o leninismo, que era a teoria da revolução na época do imperialismo. Enver era “apenas” o maior marxista-leninista vivo. Mao nunca havia sido marxista. Era um revisionista.
Aqui começam a surgir algumas questões incômodas: como é que um país que não seguiu o farol corretamente pôde chegar ao porto seguro do socialismo? Como é que a China, guiada por revisionistas, pode ser considerada como um modelo, nos dias de hoje? Afinal, a degeneração, ou o apodrecimento do peixe, é por definição um processo irreversível.
Para se acomodar o socialismo de mercado adotou-se o ecletismo. Já não há mais farol. Existem diferentes caminhos para se chegar ao socialismo, levando em conta as características históricas e culturais de cada país.
Durante muito tempo, a China adotou a concepção de que havia sempre duas linhas em conflito dentro do Partido. Basicamente: a linha do proletariado e a linha da burguesia. Em 69, o sucessor nomeado de Mao, aclamado pelo IX Congresso, era Lin Piao. Em 71, ele era um renegado que havia conspirado com os revisionistas soviéticos.
Pode-se fazer a ginástica mental que se queira - não há como achar um fio condutor entre as trocas na liderança do partido chinês, com as sucessivas ascensões e quedas de Deng Chiao-Ping, que garanta a continuidade de uma linha proletária.
Sintomaticamente, nos países onde a continuidade política foi maior, adotou-se uma sucessão dinástica e familiar. É o caso emblemático da Coréia do Norte, que está no terceiro Kim da dinastia. Lá o filho mais velho, o delfim, teve que ser descartado.
Outros delfins, escolhidos por afinidade pessoal ou ideológica, tiveram destino pior do que o exílio. O avião de Lin Piao, com sua família, caiu ou foi abatido sobre a Mongólia. Na Albânia Mehmut Sehu, o sucessor de Enver suicidou-se (há boatos de que teria sido executado e até de que teria sido morto num duelo). A família foi devidamente encarcerada. Ismail Kadaré, o romancista albanês, abordou o tema em “A sucessão”.
Einstein foi o último grande físico clássico. A teoria da relatividade especial é uma tentativa de “salvar” o eletromagnetismo, integrando-o num só corpo teórico, com a mecânica clássica. Para fazer isto teve que abandonar o conceito de tempo absoluto. Talvez esteja na hora de salvar o socialismo, abandonando a concepção soviética de partido.
Neste ponto, a crítica à prática é fundamental. Em teoria, sempre se elogiou a direção colegiada, o papel da crítica e da auto-crítica e se negou a subordinação na relação entre os partidos.
Se não se praticou a democracia interna, muito pior foi a relação do partido com a sociedade. Criaram-se regimes monolíticos. O conceito de inimigo do povo foi introduzido para caracterizar qualquer atitude contrária à direção. Em uma matéria, só havia dois caminhos possíveis: o que levava à vitória da revolução e o dos inimigos do povo.
Há uma anedota que diz que na União Soviética a poesia era muito valorizada: lá se fuzilava por causa de um poema. A partir de um certa época, uma vez adotada uma posição pelo partido, era proibido continuar a defender a idéia contrária, mesmo seguindo a disciplina partidária. Era preciso abjurar o que se havia defendido. O simples fato de haver defendido uma posição condenada no passado era uma mancha que não podia ser apagada.
O que valia para o partido valia para toda a sociedade. A polícia política trabalhava com cotas de contra-revolucionários. Se a cota não era cumprida, era por falta de zelo revolucionário. Nos locais de trabalho e de moradia, todos se vigiavam. A delação foi institucionalizada e os piores elementos se apossaram dos postos de direção, já que apenas carreiristas sem princípios podiam se acomodar a esta situação. Não havia um sistema legal que fosse respeitado.
Este modelo levou o governo a substituir os sovietes, o partido a substituir o governo, o Comitê Central a substituir o partido, o Bureau Político a substituir o Comitê Central e, finalmente, o Secretário Geral a substituir a todos.
Ainda hoje, perduram uma série de ditaduras semelhantes, encobertas pelo rótulo do anti-imperialismo, ou mesmo do socialismo. Não dá para se defender uma alternativa socialista sendo solidário com estes regimes.
Respondendo à questão inicial, a causa da degeneração deve ser procurada nas próprias escolhas que foram feitas. O partido bolchevique escolheu governar sozinho -ao fazê-lo, acabou substituindo a iniciativa das massas e os organismos de democracia direta. Para abafar as críticas, sufocou a democracia interna - ao fazê-lo favoreceu os burocratas e os carreiristas. Os burocratas se tornaram indispensáveis para dirigir o país, criando um sistema que se auto-reproduzia. Este foi se tornando cada vez mais fechado e monolítico, exigindo um grau de repressão tal que eliminou todo resquício de legalidade. Num sistema em que não há a livre discussão e em que a iniciativa é desencorajada, se adota o voluntarismo. O tão falado planejamento era uma série de cifras adotadas arbitrariamente e que eram cumpridas apenas no papel.
Enquanto o país pôde crescer extensivamente, graças à utilização de enormes recursos naturais e da super-exploração da mão de obra, com investimentos maciços na indústria pesada e às custas de uma espoliação dos camponeses, o regime se manteve. O próprio inimigo externo serviu como cimento. O patriotismo foi adotado como fator de união nacional.
Quando o modelo se esgotou, houve a implosão. Muito antes, uma série de alternativas à direita foram testadas. O eurocomunismo acabou levando a social-democracia que hoje é apenas uma continuação do neo-liberalismo. O pragmatismo levou ao socialismo de mercado, que é o capitalismo sob a direção de um partido dito socialista. Nos partidos de esquerda que não estão no poder, adotou-se a tática eleitoral como centro. Isto tem levado ao surgimento de governos populistas, notadamente na América Latina.
Países que dependiam da antiga União Soviética para se sustentar economicamente, como Cuba, estão em passo acelerado para o capitalismo. De modo geral, embora o capitalismo esteja em crise profunda, não dá para apontar uma alternativa socialista viável. A solução é começar quase do zero. Há uma análise marxista da economia capitalista e de sua forma de exploração que pode servir de base para uma plataforma socialista. O resto está por fazer.