Escrito nos raros momentos de folga de uma jornada fatigante.

Consulte o dicionário do cinismo, no rodapé do blog.

Divulgação literária e outros babados fortes

Versos cretinos, crônicas escrotas e contos requentados. O resto é pura prosa.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mulheres entre o sonho e o poder


A ficha acima pode ser falsa . Seus dados certamente estão incorretos. O fato é que Dilma participou de uma organização que defendia a luta armada como forma de derrubar o regime. Para mim, uma ficha dessas seria motivo de orgulho, quase uma condecoração.
Esse foi o sonho.
Hoje, alguns de seus apoiadores tentam maquiar esse passado, movidos por considerações eleitoreiras. As raras explicações de nossa futura presidente são as mais evasivas possíveis. Para mim, como eleitor, caberia ao candidato expor com clareza a evolução de suas idéias políticas, Não dá para fazer photoshop na biografia. Vou esperar sentado.
Esse é o jogo do poder.
Escolhi Dilma para homenagear o dia internacional das mulheres. Pelos motivos mais óbvios: todo avanço na luta das mulheres será conseguido com luta, ombro a ombro com os homens. Na Delegacia da Receita Federal em Belo Horizonte, as comemorações do 8 de março incluíram uma hora de maquiagem com produtos da linha Mary Key. A Delegada deve ter suas razões.
Nada contra a maquiagem feminina, diga-se de passagem. Entretanto, nesse blog, a data não será comemorada com buquês de rosas e poesias melosas. Escolhi uma foto, sem retoques, de uma mulher que em certo momento ofereceu sua vida por uma causa maior. Outras se destacaram em nossa história recente, outras mantiveram seus sonhos e lutam até hoje, longe do poder.  Por que então, Dilma?
Porque ela é emblemática, é polêmica, está no centro da disputa política. Espero que o impacto dessa foto provoque uma reflexão mais profunda sobre esse dia.

sábado, 6 de março de 2010

Mais uma crônica escrota

Um dos problemas de se escrever crônica no Brasil é que qualquer referência a fatos de nossa política a torna datada. A de hoje não escapou desta sina. Foi escrita quando cresciam as denúncias contra o Senador Sarney e já se especulava sobre a sua renúncia. Para nós brasileiros, isso parece ter acontecido há décadas.
Como esse blog se propõe a revolver o nosso passado remoto (mais de quarenta anos atrás), resolvi publicá-la. Fui buscar apoio no alhures. Na antiguidade clássica, antes um pouco de Rubem Braga revolucionar o gênero, a missão da crônica era justamente essa: registrar os tempos e os costumes. Por hipótese, toda crônica já nascia datada. O gancho dessa são algumas considerações que faço sobre o ano de 1968, que já terminou há muito tempo e sobre a CNDH. Aí vai:

Desculpa aí qualquer coisa...

Ontem, depois de quase quarenta anos, o Estado Brasileiro me pediu desculpas. Aconteceu no auditório da Face, no campus da UFMG, onde recebi a portaria de aplicação da Lei de Anistia, assinada pelo Ministro Tarso Genro. A solenidade fazia parte da comemoração dos 30 anos da Anistia.
Pela idade provecta de alguns, parecia mais um encontro de ex-combatentes. Aliás, era um encontro de ex-combatentes. As apresentações eram assim - fulano, esse é beltrano, que esteve preso comigo em Linhares, e por aí vai.
O pedido foi formal - o Presidente da Comissão da Anistia me entregou a Portaria, apertou as minhas mãos e disse: "o Estado Brasileiro pede desculpas por ...", não me lembro do resto.  Depois tiramos uma foto, mostrando o papel. Ele parecia impressionado, achei suas mãos frias e um pouco trêmulas. Podia ser o ar condicionado.
Em seguida me deram a palavra. Relembrei a minha estadia de 40 dias no DOPS de Belo Horizonte, onde fui passando de cela em cela, em contagem regressiva: 7, 5, 3 e 1. Numa delas estava escrita na parede uma frase do Millor: “E ficam para sempre glorificados os heróis do passado e encanados os do presente”.
Eu mesmo dei a minha contribuição e coloquei na parede da cela: “ A verdadeira liberdade é o conhecimento da necessidade.” A frase é de Engels. Cartola disse a mesma coisa, com muito mais poesia, no samba Acontece: “... e você vai sofrer, vai chorar, mas isso não acontece...”.  E foi isso que não aconteceu: lutamos, alguns deram a vida e não derrubamos a ditadura. O que será, será.
No Brasil, aplicamos a Lei de Lavoisier em sua versão tupiniquim – aqui nada se cria, nada se transforma; tudo se ajeita e tudo se acochambra. Não é que tivemos uma Lei de Anistia vigorando junto com uma Lei de Segurança Nacional? Graças a ela, a de Segurança, um metalúrgico barbudo do ABC foi preso e processado.
Em 98, depois de um longo intervalo, tivemos uma eleição direta para presidente.  Elegemos um cabra de testículos roxos, o atual Senador Collor. Parte do seu sucesso se deveu às denuncias de corrupção contra o atual Senador Sarney, de farta bigodeira, que, durante alguns tempos, escutou cobras e lagartos do nosso sapo barbudo, como diria o Brizola.
A frase do Millor continua muito pertinente. Conhecemos (muito superficialmente) o nosso passado, mas não aprendemos nada com ele. E ele, impertinente, volta sempre a nos atormentar. Acabei dando uma entrevista para os canais de televisão da UFMG e da Assembléia de Minas Gerais. Devo ter engrossado um pouquinho o traço de audiência, com os meus 15 segundos de glória.
A pergunta mais difícil foi a inevitável: o que esse pedido de desculpas representa para você? A resposta mais apropriada seria: nada. Pensei na meia dúzia que iria me assistir, tomei fôlego e despeijei:
- Todo evento como esse nos leva a fazer um balanço. Embora tenha a convicção de que fomos derrotados, porque não alcançamos os nossos objetivos maiores, tenho a consciência tranqüila, escolhi o lado certo. Naquela época, era muito fácil escolher o lado certo. Dureza é hoje, quando os meus ex-camaradas formam ao lado da tropa de choque de Collor e Renam Calheiros, para defender Sarney, em nome da governabilidade.
Em off, a repórter concordou comigo - é dureza mesmo. Do lado de fora do auditório, um estudante solitário havia montado uma barraquinha do PCR (Partido Comunista Revolucionário). Em 66, quando eles surgiram, comunista e revolucionário era extremamente redundante. Hoje até que faz sentido 
Comprei um livreto e fiquei de papo com mais um ex-combatente: Carlos Eugênio, ex-ALN e autor de dois livros (Viagem à luta armada e um outro, não me recordo qual). Falando dos velhos e bons tempos, dos idos de 68, ele me corrigiu - não havia só duas opções, parte da juventude havia aderido ao movimento hippie.
Contou um caso. Ele e mais um companheiro de ALN estavam indo para a Bahia num fusquinha cheio de armas, granadas e metralhadoras. Pararam para almoçar em Feira de Santana e dois hippies pediram carona. Carlos convenceu o seu companheiro e os dois embarcaram. Foi o papo mais surrealista que ele já teve. Os dois hippies se recusavam a ver um palmo a frente do nariz, não queriam saber de política, só miravam o próprio umbigo.
Quarenta anos depois, a versão que cada vez mais predomina é que em 68 houve a Revolução do Eu, com slogans do tipo “é proibido proibir”, “façam o amor e não façam a guerra” e assim por diante. Woodstock tem mais espaço no imaginário das pessoas do que a passeata dos 100 mil. Fazer o quê? Esse foi um momento complexo e multifacetado e cada um tem o seu 68 na cabeça. A história costuma ser escrita em cima de seus aspectos mais folclóricos, mais pitorescos. Acontece.
Aceita as desculpas, guardada a portaria, fui conversar abobrinha com um militante do PC do B, meu amigo de longa data, num boteco da Rua da Bahia. A cachaça estava horrível, mas a Boehemia estava bem geladinha e a carne de sol com mandioca desceu bem. Hoje voltei à minha vidinha pacata de funcionário publico. Não preciso mais levantar cedo para salvar a pátria. Espero que o barbudo, o bigodudo e o de saco roxo estejam tomando conta dela direitinho. Desculpa aí qualquer coisa, Estado Brasileiro.




quarta-feira, 3 de março de 2010

Capítulo 4

Capítulo 4 - As mulheres na guerrilha

A primeira militante a chegar ao Araguaia foi Criméia (Alice), em janeiro de 69. Em seu depoimento, ela fala sobre as dificuldades que enfrentou:
“... Quando veio o AI-5, a minha vida legal tornou-se impraticável e eu totalmente disponível para a luta. Falei para o Partido: “Olha”! Este tempo todo eu estou esperando para ir para o campo. [...] Não dá para esperar mais. Após esse ultimato, me liberaram para o campo. Aí, eu descubro o seguinte: a protelação encontrava respaldo no fato de eu ser mulher. Como mandar mulher para o campo? Como os companheiros iriam reagir? Aceitariam? Havia muitos militantes que eram contra. Na realidade, havia os abertamente contra e os omissos, porque a favor não havia ninguém. [...] Quem me levou foi o João Amazonas. No caminho, ele me disse — e eu fique puta da vida — que ia depender do meu desempenho a ida ou não de mulheres para o campo. Porque eu estava sendo a primeira e se não desse certo... Respondi-lhe no ato: “Você também disse isso para os militantes do sexo masculino, que já estão lá? Porque dar ou não certo, depende, única e exclusivamente, de cada indivíduo, independente de seu sexo. Agora, é necessário fazer a revolução, é necessário ir para o campo, está certo? A guerra é popular, todo mundo vai participar desta guerra ou só os homens? Por que você está colocando isso para mim? Não dá. É querer muito de mim!” Mas, no fundo, era essa a responsabilidade. Se você não desse certo, então, mulher não servia para essa atividade! (In: Lima, 1998:518).
Mais tarde, ela e André Grabois (Zé Carlos), filho de Maurício Grabois, formariam um casal. Assim que o namoro se firmou, Criméia reuniu os camaradas para contar a novidade.
Em 69, com 56 anos, Elza Monnerat era uma dirigente experimentada, que dedicara os últimos 24 anos à atividade partidária. Desde os tempos em que usara as suas habilidades de alpinista para pichar o Morro Dois Irmãos, ela sempre estivera presente nas tarefas mais difíceis.  Não seria surpresa encontrá-la no Araguaia, onde era conhecida como Dª. Maria.
““ Eu e o Zé Carlos estamos vivendo juntos”, sapecou a militante.
O silêncio inicial foi quebrado por uma inconfundível e envelhecida voz feminina.
“Perdemos uma companheira”, reagiu Dona Maria. ”[1]
Aqui se faz necessário uma digressão. O ano de 68 costuma ser associado à popularização da pílula anticoncepcional, à revolução sexual, ao amor livre; a “É proibido proibir!”, “Façam o amor e não a guerra!” e outros slogans semelhantes. Sexo, drogas e rock-and-roll; Woodstoock e o movimento hippie. No número 95, abril/maio, da Revista Princípios, publicada pelo PC do B, há um artigo de José Carlos Ruy, “1968 a Revolução do Eu”. Pode-se ler em sua chamada: “Maio de 1968 continua a suscitar debates e polêmicas sobre suas motivações, significados e alcances. Neste artigo afirma-se que seus slogans rejeitaram a política e colocaram o sonho, o desejo e a autonomia na ordem-do-dia. Todavia, este movimento esteve longe de ameaçar o capitalismo...” Grifos nossos.
Cada um tem na cabeça o seu 68 e, mesmo discordando do artigo, não iremos propor aqui uma outra visão. Gostaríamos apenas de registrar o nosso depoimento: essa não era a postura dos militantes do PC do B. Pelo contrário, o seu comportamento poderia se considerar rígido, em relação à permissividade dos anos 60.
A formação ideológica dos dirigentes mais antigos, que se procurava transmitir aos militantes mais novos, enfatizava uma moral proletária calcada na tradição soviética. Os personagens da coleção Romances do Povo[2], organizada por Jorge Amado, e parte da obra desse autor, forneciam os modelos do revolucionário ideal: pudico, sem vícios e totalmente dedicado à causa. Na já citada trilogia “Os subterrâneos da liberdade”, Jorge Amado contrapõe o amor proletário ao amor pequeno-burguês e à depravação da burguesia. O primeiro - sempre pronto a se sacrificar pelos interesses da revolução e o segundo - egoísta e fechado em si mesmo.   Quanto à burguesia, ela seria incapaz de uma ligação afetiva legítima. Portanto, não havia nada mais longe da “revolução do eu” do que o comportamento dos militantes do PC do B. A reação de Elza Monnerat é típica dessa concepção.
Seria totalmente anacrônico suscitar aqui uma discussão de gênero, a luz dos avanços das últimas décadas. A concepção que prevalecia na época, na esquerda mais ortodoxa, via a emancipação feminina totalmente subordinada à luta de classes, não possuindo dinâmica e autonomia próprias. Um outro viés dessa luta, que ocupava os maiores espaços na mídia, era a concepção das feministas americanas. Esta última tinha muito pouco a dizer aos revolucionários dos países da periferia do capitalismo.
Quando Criméia chegou ao Araguaia, Elza já estava instalada na área há mais de um ano. A dirigente era vista como um militante sem sexo, em pé de igualdade com todos os outros, sem dúvida, mas não como uma mulher militante. Esse era o padrão de comportamento que se esperava de Criméia e essa é a justificativa para a reação de Elza. Achamos que isso não ofusca o papel de destaque que Elza Monnerat ocupa na luta do povo brasileiro e até mesmo na luta pela emancipação feminina, que depende da superação do capitalismo para um avanço decisivo.
                                 
                             Elza Monnerat, numa foto mais recente

A outra objeção que se levantou sobre a ida de mulheres para o Araguaia era de ordem mais prática. Quando se anunciou que a primeira guerrilheira, Suely, se integraria ao destacamento B, Osvaldão levantou dúvidas sobre a sua adaptação à vida dura dos camponeses. Essa desconfiança foi superada com mais facilidade.
 Posteriormente à chegada das primeiras mulheres, nota-se uma tendência a se trazerem casais. É um avanço em relação ao celibato compulsório. De qualquer maneira, já que não se ignorava a dimensão sexual dos militantes, era preciso tomar as medidas contraceptivas devidas. Ainda que o custo da pílula fosse alto, ou que ela ainda não fosse comercializada naquela região, existiam o DIU e o diafragma. Sob condições de forte tensão ou mesmo de desnutrição, a menstruação se torna irregular, o que afasta o uso de métodos baseados nos dias férteis.
Essa imprevidência causou problemas graves de segurança. No caso de Lúcia Regina (Regina), mulher de Lúcio Petit (Beto), foi feita uma curetagem com êxito, apesar das condições precárias.  Teresa, mulher de Pedro, também engravidou, o que precipitou a fuga dos dois.  Criméia, grávida depois do início da guerrilha, foi retirada da área e acabou sendo presa mais tarde em São Paulo. Há notícias de mais uma guerrilheira grávida, embora as fontes não sejam confiáveis.
A orientação do partido em caso de gravidez era fazer o aborto. As razões são óbvias, já que se estava num cenário de guerra. Nesse ponto, achamos injusto colocar toda a responsabilidade nos ombros da direção – ela deve ser distribuída entre os militantes e os dirigentes.
Além do modelo soviético, o outro padrão de comportamento disponível era o da revolução chinesa. O autor recorda de um comentário feito por Ozeas, no calor da revolução cultural: “na China a moda burguesa foi abolida. As mulheres possuem apenas dois costumes militares, calça e colete, um azul e um preto. No entanto, a vaidade ainda persiste - elas ora usam uma cor; ora a outra; ora uma combinação das duas.”
Felizmente, esse modelo não chegou a ser copiado entre nós. O autor conheceu pessoalmente duas guerrilheiras, Walquíria (Walk) e Helenira. Embora totalmente devotadas às tarefas partidárias, elas nunca se enquadraram nesse estereótipo. Posso falar mais de perto de Walquíria, com quem convivi no Comitê Estudantil do PC do B em Minas Gerais. Ela dedicava às tarefas partidárias e ao convívio com os amigos a mesma generosidade. Bonita, alegre, dinâmica e de forte personalidade, ela se impunha como uma liderança natural, sem se masculinizar. Adorava a música e mantinha um largo círculo de amizades. Aonde quer que fosse, era bem recebida pelas pessoas mais simples, e conseguia se integrar em qualquer grupo. Ótima aluna, Walquíria estava muito distante do chamado estudante profissional, que só ia à escola fazer política. Lendo diversos depoimentos sobre a guerrilha, não me surpreendeu saber que essa alegria de viver contagiou militantes e moradores.
Segundo Criméia, em 69, na sua ida para a guerrilha, foi orientada a comprar alguns metros de pano para fazer absorventes, pois não existiam essas comodidades na região. Mais tarde, em 72, os militares encontraram, num ponto de apoio do destacamento C, algumas caixas de absorvente. Aparentemente, os sectarismos foram sendo superados com o tempo.
Entre os 69 guerrilheiros que o Relatório Arroyo lista, 22 no destacamento A, 21 nos destacamento B e 20 no C, além dos 6 membros da Comissão Militar, havia 15 mulheres. Considerando que Lúcia Regina e Tereza abandonaram a área antes do início da guerrilha, que Elza Monnerat fazia parte da CM e estava retornando; que Rioko foi presa ao tentar se incorporar à guerrilha, teremos um total de 18 mulheres, quase um quarto dos envolvidos.
A participação feminina, na avaliação dos próprios dirigentes, foi muito positiva. O relatório Arroyo coloca: “Os de maior prestígio [entre a massa] eram Osvaldo e Dina. Logo depois vinham Sônia, Piauí, Nelito, Zé Carlos (do A); Amauri, Mariadina (no B); Mundico (no C); Joca (CM) e Paulo.” Grifos nossos.
Helenira, morta logo no início da luta, deu o seu nome ao Destacamento A. Dina, do Destacamento C, se tornou uma lenda na região, inspirando terror nas tropas da ditadura. Ela chegou a ser vice-comandante de seu destacamento. Walk, do Destacamento B, foi a última guerrilheira - capturada depois de vagar meses sozinha pela mata.
Genoino fez parte da diretoria da UNE eleita no XXX Congresso, presidida por Jean Marc. Chegamos a nos encontrar em Belo Horizonte, quando o autor se preparava para participar da próxima diretoria. O codinome que Genoino usava era o mesmo que levaria para o Araguaia - Geraldo. Cearense de Quixeramobim, o mais velho dos 13 filhos de um camponês, ainda guardava nos gestos aquela dureza de quem pegou na enxada por muito tempo. É dele esse depoimento sobre a participação feminina:
“Foi também nesse ano [71] que chegaram as primeiras mulheres. A Sueli, nissei, filha única, professora, deixou tudo. Nunca tinha saído de casa, sem experiência no campo, 22 anos, estudante de letras. Ao chegar lá, ficamos preocupados com a sua fase de adaptação, mas foi uma surpresa para todo mundo: ela se integrou com as mulheres da região e facilitou em muito o nosso trabalho. Com elas chegaram outras companheiras: a Tuca, de São Paulo, enfermeira profissional, e do Rio veio a Lia. Chegou a Mariadina e a Valquíria [Walk]. Mariadina era estudante de Geografia na Bahia.
As mulheres participaram de todos os trabalhos. Enfrentam maiores dificuldades na adaptação, devido toda a herança de formação anterior.  Foi importante sentir o engajamento da mulher no mesmo nível do homem, e observar que a diferença seria eliminada a partir do próprio homem ao confiar na capacidade da mulher, e da própria  mulher, demonstrando a sua força política, física e militar.[3] Grifos nossos.
Fizemos questão de destacar a atitude condescendente que transparece nos comentários: havia uma diferença objetiva que deveria ser superada; aos homens cabia confiar na capacidade das mulheres e a elas cabia demonstrar que estavam à altura dessa confiança. Por mais óbvio que seja, nunca é demais ressaltar que houve grandes dificuldades de adaptação entre a maioria dos homens, que, acostumados à vida nas grandes cidades, não sabiam pegar num facão e nem se orientar na mata. Resultado da sua formação anterior, sem dúvida. Mas a formação à qual o comentário de Genoino se refere só pode ser aquela que preparava a mulher para ser o sexo frágil e que a tornaria diferente do homem. É a essa que ele chama de diferença objetiva.
            Retomando o aparte inicial de Criméia, as mulheres não precisavam provar nada no Araguaia. Ao final, fizeram o que era esperado: foram combatentes tão valorosos e dedicados quanto os homens.
Luzia Reis Ribeiro, a Baianinha do Relatório Arroyo, numa entrevista ao Diário Vermelho, do PC do B, acrescenta algumas luzes sobre o que era a visão do partido sobre os relacionamentos amorosos entre os guerrilheiros:
“A direção do comando não proibia namoros, mas tinha normas. O Comandante disse pessoalmente pra mim, o Maurício (Grabois), que era muito brincalhão, dizia, “querendo bem Lúcia (o nome usado por ela era Lúcia), pode namorar”. Tinha casais, mas já chegaram casados. Mas a Dinalva [Dina], que foi casada com o Antônio, chegou lá, se separou e se apaixonou por Gilberto. E ficou com Gilberto até eles morrerem. Mas muitos ficaram anos lá, eu não tive tempo, fiquei cinco meses. Mas foi uma universidade aquilo pra mim. Havia muito respeito, eu era virgem, eu era irmã dos companheiros para a população. Uma paquera de leve começou com Bérgson. Logo quando cheguei, tinha 15 dias, ele era que mais saía comigo, ensinava a fazer depósito no meio da mata. Nesses trabalhos, ele me deu um beijo. Nada mais sério, só isso.”
            A cultura do PC do B era algo fluida. Havia alguns membros da direção mais brincalhões e abertos, como era o caso de Grabois e outros mais sisudos e fechados, como era o caso de Elza. Mais tarde, cheguei a conhecer Elza, no Rio de Janeiro. Ela era muito querida pelos camaradas e, constantemente, era consultada sobre os problemas de relacionamento. Eu dizia, brincando, que ela era adepta do casamento endogâmico[4], pois sempre privilegiava o namoro entre militantes.
            Mesmo com algumas nuances, havia uma visão consensual: o revolucionário deve dedicar todas as suas forças à revolução e o amor deve implicar em total afinidade ideológica. A separação era considerada natural, se não houvesse essa afinidade, e os casais sempre procuravam colocar as causas do desacordo nesse terreno escorregadio.
Essa visão é persistente. Um antigo militante, por mim entrevistado, explica a separação de Dina pelo comportamento ideologicamente recuado de Antônio. Por alguns depoimentos que nos chegaram, ele era uma pessoa reservada, que tinha dúvidas sobre o êxito da guerrilha. Até hoje, é difícil considerar que relações podem nascer e se desgastar, sem precisarem de uma justificativa ideológica.
            Há fontes que afirmam que alguns guerrilheiros tinham os seus rabichos, nos forrós. Outros seriam pais de filhos gerados com moradoras da região. No livro de Pedro Correa, Xambioá, uma guerrilheira se apaixona e engravida de um agente do CIE[5] infiltrado. O livro é um romance “a la clef”, que mistura ficção e realidade. Os relatos de guerrilheiras grávidas podem ser atribuídos à ausência de menstruação, devido às péssimas condições enfrentadas.
            Genoino afirma que:
“No Araguaia tinha um prostíbulo apelidado Vietnã, mas eu não podia freqüentar, porque corria muito risco de pegar doenças venéreas e também de cruzar com a polícia. Era muito perigoso. Lá no Araguaia nós tínhamos muita disciplina, embora fôssemos muito jovens. Tínhamos em média 23, 24 anos. Aquelas camponesas davam em cima de nós e éramos obrigados a fugir. Porque não dava para criar um laço afetivo com as camponesas, isso poderia depois prejudicar a guerrilha.
Uma vez eu estava atravessando um rio e ouvi uma voz feminina me chamar. Era uma camponesa que morava ali perto, uma menina bonita – daquelas que são uma mistura de negro com índio – e ela estava completamente nua, tomando banho no rio. E eu corri! Fui embora, porque não agüentava ficar vendo aquele monumento à tentação.
Na guerrilha existiam as companheiras casadas e as companheiras solteiras, mas a gente não tinha relação com as companheiras solteiras. Primeiro porque a gente não tinha anticoncepcional, e a gravidez seria uma coisa muito complicada lá na selva. Imagine fazer um aborto naquelas condições. Então era uma mistura de dogmatismo com realidade objetiva. ”[6]
 No Araguaia, homens e mulheres, jovens em sua maioria, foram colocados num ambiente hostil, bem no meio de uma guerra. Cada um lidou à sua maneira com essa situação: houve desde o celibato, aceito voluntariamente, passando pelos casamentos endogâmicos, até relações ocasionais e paqueras. Possivelmente, nem todos foram tão disciplinados e estóicos como Genoino.


[1] Operação araguaia. P. 75.
[2] Inspirada no “realismo socialista”, esta coleção reunia obras de escritores comunistas de todo o mundo. Zhdánov, o ideólogo dessa corrente literária, chamava os escritores de “engenheiros de almas”.  Seus heróis eram mostrados apenas nos seus traços positivos, sem meio tons, e o caráter propagandístico predominava sobre as considerações estéticas.
[3] A Guerilha do Araguaia. Editora Alfa Ômega, p. 39.
[4] Casamento entre membros do mesmo clã. No caso, entre militantes do mesmo partido.
[5] Centro de Informação do Exército. A coleta de informações incluía a prática sistemática da tortura.
[6] Entre o sonho e o poder, p. 61.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Gatos

Folclore do Japão (O Gato Assombrado de Nabeshima)

" As folhas de momiji (acer), que da cor verde passaram para o amarelo e depois para o laranja, agora ganhavam uma cor vermelho vivo. Não só as árvores como o chão, forrado de folhas caídas, davam a impressão de que todo o jardim do castelo de Nabeshima havia pegado fogo. Era final de outono no Japão.

O príncipe de Hizen, um membro da família honrada de Nabeshima, tinha como sua concubina favorita uma mulher charmosa, cujo nome era Otoyo. Certa ocasião, os amantes passeavam no jardim do castelo e permaneceram apreciando as flores até o pôr-do-sol. No retorno, sem que eles percebessem, foram seguidos por um enorme gato negro.

Otoyo dirigiu-se para o seu quarto e sentiu uma inesperada indisposição. Tentou manter-se acordada, mas logo dormiu. À meia-noite, foi despertada por uma estranha sensação e viu dois olhos enormes que a fixavam brilhando na escuridão. Prestando bastante atenção, percebeu que se tratava de um enorme gato negro. Porém, antes que ela pudesse gritar pedindo ajuda, o animal saltou em sua garganta e mordeu-a profundamente, estraçalhando seu pescoço até a morte. O gato, então, foi lambendo o sangue da moça e adquirindo forma humana, ficando igual a sua vítima. Então, arrastou Otoyo para baixo do assoalho e enterrou o corpo sob a varanda.

O príncipe, que de nada sabia, não desconfiou nem um pouco da bela mulher que naquela noite o procurou para fazer amor. Assim, nos dias seguintes, como um ritual, ela o procurava no meio da noite e ia sugando seu sangue sem que a vítima percebesse. Em poucos dias, o príncipe de Hizen perdeu toda a força e seu rosto estava mais pálido que uma vela. Permanecia o dia todo deitado, pois já não tinha força para se levantar.

Os médicos do palácio prescreveram vários medicamentos, mas nenhum fez o efeito desejado. Suspeitaram então que alguém estava envenenando o príncipe.

Vários samurais montaram guarda ao redor de seu quarto. Porém, quando chegou o meio da noite, todos pegaram no sono e só acordaram na manhã seguinte. Nas noites que se seguiram, as mesmas coisas aconteceram. Nenhum soldado conseguia ficar acordado.

Os conselheiros concluíram que alguma força estranha, de poder sobrenatural, estava agindo naquela alcova. Chamaram monges budistas e sacerdotes xintoístas para fazer exorcismo no quarto, já que a saúde do príncipe ia piorando dia a dia. Foram semanas de orações e rituais diversos, mas de nada adiantou, a saúde do príncipe de Hizen ia de mal a pior.

Naquela ocasião, um samurai de nome Ito Soda, que serviu na infantaria de Nabeshima, atravessou o jardim de inverno e invadiu as proximidades do quarto do príncipe. Ele solicitou aos conselheiros que permitissem a ele permanecer escondido no quarto do enfermo, para desvendar como agia o espírito maligno que estava prejudicando seu senhor.

Seu pedido foi prontamente aceito, já que todas as tentativas tinham se mostrado infrutíferas. Ito ficou firme em seu posto, no entanto, como aconteceu com os guardas que o antecederam, a partir das dez horas, começou a sentir um sono irresistível. Para espantar seu sono, espetou sua faca profundamente em sua coxa, de modo que a dor aguda o mantivesse acordado.

De repente, as portas deslizantes do quarto do príncipe abriram-se, e uma linda mulher entrou e dirigiu-se ao leito. Ela agachou na cabeceira do príncipe e esticou o pescoço como quem vai beijar o adormecido. Porém, a mulher, pressentindo a presença de mais alguém no quarto, virou a cabeça e, com olhos brilhantes, disse:

– Tem alguém aí?

Ito permaneceu escondido e em silêncio, espiando pela fresta da porta do quarto ao lado. Percebendo que alguém a observava, ela levantou e saiu do quarto às pressas.

Na noite seguinte, a cena se repetiu. Assim, por não ter sido subjugado por duas noites seguidas enquanto dormia, a saúde do príncipe melhorou consideravelmente. Para Ito Soda, ficou claro que Otoyo era alguma entidade maligna tentando acabar com a vida do príncipe de Hizen. Diante disso, traçou um plano para acabar com ela.

Fingindo ser um mensageiro do príncipe, foi até o quarto dela, para entregar um bilhete que sua alteza lhe enviara. Ao aproximar-se da falsa Otoyo para entregar o suposto bilhete, Ito sacou da espada e desferiu um golpe na direção dela. Porém, com percepção felina, ela esquivou-se da lâmina pulando para trás. Na seqüência, assumiu a forma de um gato preto e saltou pela janela. Ganhou o telhado do castelo e, segundos depois, fugia em direção à montanha.

Esse gato que gostava de lamber sangue humano passou a incomodar os habitantes da montanha. Tempos depois, o príncipe de Hizen, completamente recuperado, organizou uma caçada ao gato maldito de Nabeshima. Um exército com milhares de samurais vasculhou a montanha. Somente no oitavo dia, finalmente, o gato maldito foi liquidado e a paz voltou à região."
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Comentário:
Os primeiros gatos foram introduzidos no Japão por Fujiwara-no-Sanesuke, um nobre da corte do imperador Ichijo (987–1011). Trazidos da China, esses animais de estimação eram vistos com reserva pelos japoneses. Além de não serem obedientes como os cachorros, eram considerados destrutivos por natureza, por rasgarem tatami de palhas (tablado que servia de assoalho) e fazerem furos no shoji (parede de papel) para apanhar insetos que vinham as casas atraídos pelas lamparinas. Na época, a iluminação das casas era à base de lamparina a óleo, e os gatos gostavam de lamber esse óleo combustível, muitas vezes causando incêndio.

Assim como a raposa, o texugo e a serpente, o gato era considerado um animal assombrado no antigo Japão.

Fonte:
http://www.nippobrasil.com.br/

Essa lenda foi enviada por uma grande amiga, Clevane Pessoa, retirada do blog Singrando Horizontes. O nosso blog, além de gostar muito de gatos, não tem nada contra o texugo e a serpente...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Terceiro Capítulo - última parte

Depois de um descanso um pouco forçado, voltamos a publicar os capítulos de nosso livro sobre a Guerrilha do Araguaia.

Os outros destacamentos
A implantação dos Destacamentos A e C seguiu o mesmo esquema do Destacamento B, com uma diferença: ambos tiveram que deslocar os seus pontos de apoio iniciais, devido a problemas de segurança. Analisando-se a formação dos três, é fácil se convencer de que a ordem alfabética reflete a prioridade a eles atribuída. O A foi estruturado: em primeiro lugar, depois o B e finalmente o C. O Destacamento A possuía um armeiro, uma oficina e as melhores armas. Era o principal apoio da Comissão Militar.
Criméia Alice Schmidt de Almeida (Alice), uma das poucas sobreviventes da guerrilha, é uma fonte valiosa. Ela chegou ao Araguaia em 69 e participou da primeira campanha. Em 72 saiu da região para contatar o Partido, tendo sido presa em São Paulo. Sua impressão é de que para os destacamentos A e C iam os quadros com características mais urbanas.
Em dezembro de 67, chegaram à Faveira: Maurício Grabois, Joca e Elza Monnerat. O local ficava às margens do Araguaia, distante uns 60 km de São João do Araguaia. Ali eles montaram uma bodega e fizeram roça. Moravam numa casa de pau-a-pique com telhas, um luxo para a região. Joca comprou um castanhal onde trabalhavam os recém chegados, apresentados como parentes.
A identidade de Joca foi um mistério para os militares durante muito tempo, pois ele usava a identidade de João Bispo Ferreira da Silva. Nascido na Itália, veio para o Brasil onde fez o curso de torneiro mecânico. Trabalhava como metalúrgico no Rio e foi obrigado a entrar para a clandestinidade com o golpe de 64. Antes de ir para o Araguaia, morou em Rondonópolis (MT), onde teve uma oficina com Daniel Callado [Doca][1].

A bodega centralizava várias atividades sociais, dentre elas a vinda periódica de um padre para realizar batizados e casamentos. Com a chegada de novos militantes, construiu-se uma moradia na Paxiba, próximo de onde mais tarde seria a Transamazônica. Depois da Paxiba, montou-se um pequeno comércio, no caminho que ia para São Domingos.
A Transamazônica começou a ser construída em fins de 70. Para não ficarem espremidos entre a estrada e o Rio Araguaia, vias muito favoráveis à locomoção de tropas do exército, o Destacamento A se deslocou para o sul. As terras da Faveira foram vendidas para Eduardo Rodrigues Brito e, todo fim de mês, Joca ia até lá acertar as contas e receber mais parentes. [2]
A razão principal desse deslocamento foi a notícia da fuga de Pedro do Destacamento C, em meados de 71. Os futuros guerrilheiros ficaram em alerta e mudaram alguns hábitos, embora continuassem morando em suas casas e exercendo suas atividades. Em 70, o destacamento já contava com grande parte de seus combatentes. Em 71, os efetivos previstos estavam praticamente completos.
Antes se iniciarem os combates, os grupos não estavam rigidamente definidos. Havia três pontos de apoio (PA) fixos, que correspondiam aos três grupos de sete guerrilheiros previstos, embora alguns militantes tenham ido de um PA para outro. Um PA ficava próximo a um lugarejo chamado Metade, outro em um local conhecido como Chega com Jeito. Por último, foi construída uma casa entre esses dois PA, para onde foram os militantes que continuavam morando na Faveira. Chega com Jeito tinha um PAzinho, um barraco no meio da roça. Era costume entre os camponeses locais erguerem esse tipo de construção nas suas plantações.
Para guardar as mochilas e outros pertences que não eram comuns na região, eram usados depósitos camuflados, no meio da mata. Podia-se utilizar, por exemplo, uma árvore oca, comida por cupim. Internamente faziam-se várias prateleiras e a entrada era protegida com lona. O tronco era tapado com barro.
Em Chega com Jeito moraram: Criméia Alice (Alice), Custódio Saraiva Neto (Lauro), Divino Ferreira de Souza (Nunes, Goiano), João Gualberto Calatroni Zebão, Lúcia Maria de Souza (Sõnia), Marcos José de Lima, Ari Armeiro, Orlando Momente (Landim) e Rodolfo de Carvalho Troiano (Manoel do A). Lauro, Zebão e Rodolfo ficavam no PAzinho e Landim foi para o novo local. Colocamos entre parênteses o nome usado no Relatório Arroyo e em itálico o que nós adotaremos.
Em Metade moraram: Antônio Ferreira Pinto (Antônio Alfaiate), Danilo Carneiro (Nilo), Demerval da Silva Pereira (João Araguaia), Helenira Resende (Preta, Fátima),Jana Moroni Barroso (Cristina), Luiz René (Duda),Nelson Lima (Nelito), Maria Célia Corrêa (Rosinha) e  Hélio Luiz Navarro (Edinho). Danilo saiu da região assim que começou a luta e Rosinha e Edinho foram para o novo PA.
O Destacamento C se localizou numa região conhecida como Caianos, devido ao nome de um igarapé. Em 68, chegaram Paulo Mendes Rodrigues (Paulo) e Amaro Lins. O primeiro comprou duas fazendas na região, uma em Boa Vista[3] e outra em Cachimbeiro. Amaro se apaixonou por uma moradora da região. Por decisão do partido, teve que optar entre casar-se ou continuar na guerrilha. Escolheu o casamento, permaneceu na área e continuou ajudando o PC do B, embora sem nele militar.
Em 70, o Dr. Juca abriu uma farmácia em uma ilha, num lugarejo próximo ao Igarapé Perdidos. Ele morava na fazenda de Paulo. Nesse mesmo ano, chegaram Bérgson (Jorge), o velho Francisco Chaves (Velho Chico), Dinalva (Dina) e seu marido Antônio (Antônio da Dina). Dina e o marido abriram um comércio perto do Rio Araguaia e passaram a ser recepcionistas dos outros combatentes.
Em fevereiro de 71, chegaram Pedro Albuquerque e sua mulher Teresa (Ana), que ficaram num PA na região do Igarapé Cigana. Áurea (Elisa) e Arildo (Ari), um casal, ficou morando com Paulo. Ela abriu uma escola em Boa Vista e Ari trabalhava como dentista. Outro ponto de apoio se localizava no lugarejo de Pau Preto.
Em meados de 71, Pedro e Teresa abandonaram a área. Pedro contatou o Partido e assegurou que iria manter sigilo sobre a operação. Ele passou a viver em casas de amigos até o início de 72, quando foi preso ao tentar tirar a segunda via da carteira de identidade. Em virtude desses problemas de segurança, já em 71, foram criados novos PA em Mutum, Abóbora e Esperancinha, cada vez mais ao norte. Como resultado dos deslocamentos dos Destacamentos A e C, eles se aproximam do Destacamento B, encurtando cada vez mais a distância inicial entre os três.
Os últimos militantes do destacamento C chegaram em 72, dois deles depois de iniciada a luta. Era o destacamento mais despreparado, com pouco conhecimento do terreno, militantes novos no partido e atuava numa área com densidade populacional maior. O exército, inicialmente, concentrou suas ações nessa área. Durante a primeira campanha, quase todas baixas foram do Destacamento C.
Os membros da Comissão Militar (CM) se deslocavam com freqüência e sabiam como contatar os destacamentos.  Esses, por sua vez, também tinham um sistema de comunicação. Em caso de emergência, o Destacamento A e o B fariam contato, assim como o Destacamento B e o C. Quando o exército atacou, o A avisou o B que foi avisar o C.
Cada destacamento possuía um estafeta, que sabia como localizar o outro destacamento. Divino era o estafeta do Destacamento A, encarregado de contatar o B. Deste, o único que sabia localizar o Destacamento A era Osvaldão. Havia um sistema de pontos (locais previamente escolhidos para um encontro), como nas cidades, em dias determinados do mês. Segundo o Prof. Romualdo Pessoa, a Comissão Militar se estabeleceu acima da aldeia dos índios Suruí, próximo ao povoado de Metade, antes de São Domingos.
Para se cobrirem grandes distâncias, era usado um sistema semelhante ao dos incas: cada mensageiro cobria um trecho, ao fim do qual entregava a mensagem a outro, e assim por diante, até o destinatário final..
O termo Ponto de Apoio reflete a dubiedade que esteve presente na preparação da guerrilha. O documento “Guerra Popular” assinala que:
“A guerrilha sobreviverá se tiver o apoio das massas e grande mobilidade para impedir o cerco. Deve saber ocultar-se, cortar contato com o inimigo e romper o cerco quando isto acontecer. Terá que contar com refúgios seguros.” Grifos nossos.
Toda a preparação dos destacamentos indica que os PA eram vistos como locais seguros. Os guerrilheiros moravam em barracos rústicos, sem divisões, que eram ao mesmo tempo sala, cozinha e quarto de dormir. Ali se preparavam as refeições e se penduravam as redes. O equipamento militar individual: remédios, mapas, bússola, lona para se proteger da chuva, etc., ficava numa mochila. Essas mochilas eram guardadas fora dos barracos, em um depósito, porque os moradores não usavam esse tipo de equipamento. Nesse depósito, mais ou menos camuflado, ficavam armas, munições, mantimentos, oficinas, medicamentos, etc. Segundo o exército, até mesmo pistas de obstáculos para treinamento foram encontradas perto dos PA. O sistema de alarme era um cipó atravessado na trilha e amarrado a um guerrilheiro, que ficava de sentinela em uma rede.
Por outro lado, essa segurança ficava seriamente comprometida pela necessidade de se assegurar do apoio da massa. Os guerrilheiros procuravam se integrar plenamente na vida dos camponeses, visitando e sendo visitados.  Quando o exército atacou, todos os PA foram rapidamente localizados e destruídos, a exceção de alguns que ficavam na área do destacamento B, sobre o qual os militares ainda não possuíam informações. As plantações foram queimadas e grande parte do material foi perdida. Interrogando a população, os agentes dos serviços de informação conseguiram levantar rapidamente a pista dos guerrilheiros.
Não houve como conciliar a necessidade de um longo e paciente trabalho de massas com a preparação para as ações militares, que tudo indicava que eram iminentes. Certamente os guerrilheiros esperavam que as ações se desenrolassem fora das áreas dos PA e contavam que teriam tempo para transportar os equipamentos para locais mais seguros. Essa suposição é reforçada pelo depoimento de Criméia: “Contra quem nós iríamos agir nesses locais [os PA]? O inimigo não estava ali.” Outra dedução que nos parece lógica é que os guerrilheiros contavam escolher o local e a época em que as ações armadas começariam.
Cada destacamento havia preparado uma área de refúgio. No caso do A, era uma área com água, bem isolada, sem acesso por estradas ou picadas. Os depósitos de mantimentos, armas e medicamentos ficavam nas proximidades. Para os três destacamentos, a saída natural da região, que não chegou a ser utilizada, seria na direção do Xingu. Era uma opção difícil, por se tratar de um território pouco mapeado, onde a bússola não funcionava. Criméia conta que, talvez devido à presença de grandes jazidas de ferro, a agulha apontava para cima e ficava presa ao vidro.
Dentre as condições apontadas para a sobrevivência da guerrilha, não houve nem mobilidade, nem os refúgios seguros. O apoio de massas, principalmente após a segunda campanha, foi grande, embora não pesasse no plano militar. As áreas de refúgio, embora servissem de esconderijo durante um certo tempo, foram insuficientes quando o inimigo passou a entrar na mata. Finalmente, a maneira mais indicada de se romper um eventual cerco e preservar as forças, nunca foi estudada a fundo.








[1] Operação Araguaia, p. 574.
[2] Operação Araguaia, p. 63.
[3] Caiano era o nome que Paulo deu ao povoado, devido ao Igarapé próximo. Os militares o rebatizaram de Boa Vista.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Carnaval

Três anos atrás, fiz uma poesia que falava de carnaval, desastres rodoviários e guerra do Iraque.

O carnaval na tevê

Uma sambista tradicional foi barrada, porque não queria desfilar pelada.
Uma famosa desconhecida também – porque só queria desfilar nua.
Os traficantes pagaram hora extra para os seus funcionários. Eles garantiram que não há risco de desabastecimento.
Em Cuba, o Comandante insiste em não botar o bloco na rua.
No Rio, morreu mais um sambista imortal, em pleno esquecimento.
O PCC comunicou que a folia está permitida e deu folga pra polícia.
A milícia também parou, já que é paramilitar.
As policias federais, estaduais e municipais só autorizaram um número de mortes menor do que o do ano anterior.
O governo garantiu que os aviões sairiam da pista com o atraso regulamentar.
Eu vi toda a Bahia na tevê, menos um baiano, que preferiu ficar anônimo.
Os nobres parlamentares foram descansar. Afinal, ninguém é de ferro.
Uma bichinha ganhou o prêmio de originalidade no desfile do Municipal. Vestia a sua tradicional fantasia.
Esse ano não foi igual àquele que passou. A nova tevê é LCD, 32 polegadas.


Balanço do carnaval em Minas

Setecentas léguas de engarrafamento
Trinta vítimas fatais. Em Bagdá
Porque aqui foram mais
E mais se esperam, a qualquer momento

No meio de tanta gente
Duzentos e cinqüenta e nove cabaços
Voaram felizes para o espaço
Trinta e sete estupros, infelizmente
Também, no meio de tanta gente

Noventa e quatro novos casos de Aids
Oitenta e um fetos indesejados
No meio de tantos desejos,
No meio de tantos afetos
Evoé baco! No paraíso
Uma serpentina enlaçou Adão

Mil trezentos e trinta e seis poetas
Tristes e embriagados
Cantaram em versos de pé quebrado
As mulatas analfabetas e as mocinhas iletradas
Salve o balanço! Salve a malícia! E salve o requebrado!

Hum milhão quinhentos e dezenove mil litros bem bebidos
Sem contar quanta erva se queimou
Fora todo o pó que foi cheirado. E os comprimidos
Não falo dos êxtases alcançados
Nem dos picos
Porque são muitos e são fáceis os caminhos para o Paraíso

Noventa e quatro milhões de reais em dívidas novas
Não importa que na realidade
A felicidade não se venda
A fantasia tem crédito ilimitado
Não depende de comprovação de renda

Ah meu Deus
Quanta felicidade!
O que seria, oh senhor
Se não houvesse o Carnaval!

21.02.2007



terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Felizes anos velhos

Caros generais, almirantes e brigadeiros

Marcelo Rubens Paiva

Eu ia dizer "caros milicos". Não sei se é um termo ofensivo. Estigmatizado é. Preciso enumerar as razões?

Parte da sociedade civil quer rever a Lei da Anistia. Sugeriram a Comissão da Verdade, no desastroso Programa Nacional de Direitos Humanos, que Lula assinou sem ler. Vocês ameaçaram abandonar o governo, caso fosse aprovado.

Na Argentina, Espanha, Portugal, Chile, a anistia a militares envolvidos em crimes contra a humanidade foi revista. Há interesse para uma democracia em purificar o passado.

Aqui, teimam em não abrir mão do perdão. E têm aliados fortes, como o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apesar de civil apareceu num patético uniforme de combate na volta do Haiti. Parecia um clown.

Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura. Devem ter navegado na contracultura, dançado Raul Seixas, tropicalistas. Usaram cabelos compridos, jeans desbotados? Namoraram ouvindo bossa nova? Assistiram aos filmes do Cinema Novo?

Sabemos que quem mais sofreu repressão depois do Golpe de 64 foram justamente os militares. Muitos foram presos e cassados. Havia até uma organização guerrilheira, a VPR, composta só por militares contra o regime.

Por que abrigar torturadores? Por que não colocá-los num banco de réus, um Tribunal de Nuremberg? Por que não limpar a fama da corporação?

Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.

Sei que nossa relação, que começou quando eu tinha 5 anos, foi contaminada por abusos e absurdos. Culpa da polarização ideológica da época.

Seus antecessores cassaram o meu pai, deputado federal de 34 anos, no Golpe de 64, logo no primeiro Ato Institucional. Pois ele era relator de uma CPI que investigava o dinheiro da CIA para a preparação do golpe, interrogou militares, mostrou cheques depositados em contas para financiar a campanha anticomunista. Sabiam que meu pai nem era comunista?

Ele tentou fugir de Brasília, quando cercaram a cidade. Entrou num teco-teco, decolou, mas ameaçaram derrubar o avião. Ele pousou, saltou do avião ainda em movimento e correu pelo cerrado, sob balas.

Pulou o muro da embaixada da Iugoslávia e lá ficou, meses, até receber o salvo-conduto e se exilar. Passei meu aniversário de 5 anos nessa embaixada. Festão. Achávamos que a ditadura não ia durar. Que ironia...

Da Europa, meu pai enviou uma emocionante carta aos filhos, explicando o que tinha acontecido. Chamava alguns de vocês de "gorilas". Ri muito quando a recebi.

Ainda era 1964, a família imaginava que fosse preciso partir para o exílio e se juntar na França, quando ele entrou clandestinamente no Brasil.

Num vôo para o Uruguai, que fazia escala no Rio, pediu para comprar cigarros e cruzou portas, até cair na rua, pegar um táxi e aparecer de surpresa em casa. Naquela época, o controle de passageiros era amador.

Mas veio a luta armada, os primeiros seqüestros, e atuavam justamente os filhos dos amigos e seus eleitores - ele foi eleito deputado em 1962 pelos estudantes.

A barra pesou com o AI-5, a repressão caiu matando, e muitos vinham pedir abrigo, grana para fugir. Ele conhecia rotas de fuga. Tinha um aviãozinho. Fernando Gasparian, o melhor amigo dele, sabia que ambos estavam sendo seguidos e fugiu para a Inglaterra. Alertou o meu pai, que continuou no País.

Em 20 de janeiro de 1971, feriado, deu praia. Alguns de vocês invadiram a nossa casa de manhã, apontaram metralhadoras. Depois, se acalmaram. Ficamos com eles 24 horas. Até jogamos baralho. Não pareciam assustadores. Não tive medo. Eram tensos, mas brasileiros normais.

Levaram o meu pai, minha mãe e minha irmã Eliana, de 14 anos. Ele foi torturado e morto na dependência de vocês. A minha mãe ficou presa por 13 dias, e minha irmã, um dia.

Sumiram com o corpo dele, inventaram uma farsa (a de que ele tinha fugido) e não se falou mais no assunto.

Quando, aos 17 anos, fui me alistar na sede do 2º Exército, vivi a humilhação de todos os moleques: nos obrigaram a ficar nus e a correr pelo campo. Era inverno.

Na ficha, eu deveria preencher se o pai era vivo ou morto. Na época, varão de família era dispensado. Não havia espaço para "desaparecido". Deixei em branco.

Levei uma dura do oficial. Não resisti: "Vocês devem saber melhor do que eu se está vivo." Silêncio na sala. Foram consultar um superior. Voltaram sem graça, carimbaram a minha ficha, "dispensado", e saí de lá com a alma lavada.

Então, só em 1996, depois de um decreto-lei do Fernando Henrique, amigo de pôquer do meu pai, o Governo Brasileiro assumiu a responsabilidade sobre os desaparecidos e nos entregou um atestado de óbito.

Até hoje não sabemos o que aconteceu, onde o enterraram e por quê? Meu pai era contra a luta armada. Sabemos que antes de começarem a sessão de tortura, o brigadeiro Burnier lhe disse: "Enfim, deputadozinho, vamos tirar nossas diferenças."

Isso tudo já faz quase 40 anos. A Lei da Anistia, aprovada ainda durante a ditadura, com um Congresso engessado pelo Pacote de Abril, senadores biônicos, não eleitos pelo povo, garante o perdão aos colegas de vocês que participaram da tortura.

Qual o sentido de ter torturadores entre seus pares? Livrem-se deles. Coragem.

Essa texto é absolutamente oportuno. A idéia que os milicos tentam passar para as gerações que não viveram o período da ditadura é que houve uma guerra suja entre "terroristas" e militares. Segundo eles, nessa luta para impedir que se instaurasse o regime comunista em nosso país, alguns "excessos" foram cometidos.
O autor cometeu um equívoco: a Lei de Anistia não se estende aos torturadores. Essa interpretação fez parte de um acordo político elitista, entre militares e a oposição consentida. Mas essa discussão jurídica é o que menos interessa no momento. A questão maior é: temos ou não direito a conhecer a nossa história? Será que ficaremos eternamente refens de interesses corporativistas caducos e de compromissos firmados por quem não tinha autoridade para representar o povo brasileiro?